A relação entre a Maçonaria e a Igreja Católica – um resumo histórico

A Igreja Católica não aceita que os seus fieis sejam membros da Maçonaria e historicamente opôs-se radicalmente à Ordem, devido aos seus supostos princípios maçónicos anticristãos, em especial os deístas, libertários e humanistas ou iluministas.

Cardeal André Hercule de Fleury

A sua longa história de condenação pública iniciou-se com o Cardeal André Hercule de Fleury, primeiro-ministro de Luís XV, a 14 de Setembro de 1737, que proibia todas as reuniões secretas e em especial, a formação de associações, quaisquer que fossem os pretextos e as suas denominações.

Seguiu-se-lhe o Papa Clemente XII, que em 28 de Abril de 1738, proibiu os católicos de se tornarem membros de lojas maçónicas, através da bula In eminenti apostolatus specula.

Assim, estas citadas Sociedades ou Convenções têm causado na mente dos fiéis a maior suspeita, e todos os homens prudentes e íntegros têm apresentado o mesmo juízo sobre eles como sendo pervertidos e depravados. Pois se eles não estão a fazer mal, então não deveriam ter um ódio tão grande à luz.

A Igreja Católica assinalava assim a incompatibilidade entre o juramento e o segredo das obediências maçónicas e a condição de cristão integrado na Igreja Católica Romana. Após esta primeira condenação, surgiram muitas outras.

Entre elas, fazem referências desfavoráveis à maçonaria além da referida, as seguintes:

  • Providas Romanorum (1751), de Bento XIV (Papa entre Agosto de 1740 e Maio de 1758);
  • Ecclesiam a Jesu Christo (1821), de Pio VII (Papa entre Março de 1800 e Agosto de 1823);
  • Quo Gravioria Mala (1825), de Leão XII (Papa entre Outubro de 1823 e Fevereiro de 1829);
  • Traditi Humilitati (1829), Litteris Altero (1830), de Pio VIII (Papa entre Abril de 1829 e Novembro de 1830);
  • Mirari Vos (1832), de Gregório XVI (Papa entre Fevereiro de 1831 e Junho de 1846);
  • Qui Pluribus (1846), Quibus Quantisque Malis (1849), Quanta Cura (1864), Multiplices Inter (1865), Apostolicae Sedis Moderatoni (1869), Etsi Multa (1873), de Pio IX (Papa entre Junho de 1846 e Fevereiro de 1878);
  • Etsi Nos (1882),Humanum Genus (1884), Officio Sanctissimo (1887), Dall’Alto Dell’Apostolico Seggio (1890), Inimica Vis (1892), Custodi di quella fede (1892), Praeclara (1894), Annum ingressi (1902), de Leão XIII (Papa entre Fevereiro de 1878 e Julho de 1903).
Papa Leão XIII

Muitas, conforme é possível perceber, foram escritas pelo Papa Leão XIII que foi um dos mais acérrimos opositores da Ordem Maçónica, e que na sua última encíclica, Annum Ingressi, endereçada a todos os bispos do mundo, destacava a necessidade urgente de combater a Maçonaria, opondo-se radicalmente a ela..

O último documento oficial de referência é a Declaração sobre a maçonaria, assinado pelo então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger, depois Papa Bento XVI, em 26 de Novembro de 1983. O texto afirma que “permanece imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçónicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão”.

Em 2007, o Vaticano através do regente do Tribunal da Penitenciária Apostólica, o Bispo Gianfranco Girotti, numa declaração após uma conferência intitulada «A Maçonaria e a Igreja Católica», que teve lugar na Pontifícia Faculdade Teológica de São Boaventura de Roma, lembrou que “a Igreja sempre criticou as concepções e a filosofia da maçonaria, considerando-as incompatíveis com a fé católica“. Fez referência às declarações de alguns sacerdotes que publicamente se declaram membros da Maçonaria, nomeadamente um padre de 85 anos de idade, Francesco Esposito Rosário, e pediu a intervenção dos seus directos superiores, sem excluir que a Santa Sé pudesse vir a tomar medidas de carácter canónico.

Apesar disso, há acusações sobre o Papa Paulo VI e alguns cardeais da Igreja por eventualmente se relacionarem com determinadas lojas maçónicas. Estas acusações carecem todas elas de provas. A condenação da Igreja é forte que não muda ainda que membros do clero se tenham de alguma forma relacionado com a Maçonaria.

Até 1983, a pena para Católicos que se associassem à Maçonaria, era de excomunhão. Desde então, a pena é um interdito, afastando o fiel da recepção dos Sacramentos (principalmente Confissão e Eucaristia).

Em 13 de Janeiro de 2012, o Patriarcado de Lisboa publicou na sua página na Internet, o seguinte artigo:

“Um católico, consciente da sua fé e que celebra a Eucaristia não pode ser maçon. E se o for convictamente, não pode celebrar a Eucaristia”

Excerto da Nota Pastoral “A Páscoa da Eucaristia”, do Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, publicada em Janeiro de 2005.

A maçonaria e a definição do sentido da História

D. José Policarpo

É uma longa e atribulada história a das relações da Maçonaria com a Igreja durante os últimos três séculos, expressa em ataques, anticlericalismo, rejeição da dimensão misteriosa da fé e da verdade revelada, a que a Igreja respondeu com várias condenações, com penas de excomunhão para os católicos que aderissem à Maçonaria. É um processo que tem de ser situado nas grandes transformações culturais e sociopolíticas desse período, em que elementos como a compreensão da natureza e legitimidade do poder político, a promoção e defesa da liberdade individual, os processos revolucionários em cadeia e a “questão romana” que pôs fim ao poder temporal dos Papas, foram pontos quentes a alimentar um conflito. Conceitos, então polémicos, como o da liberdade de consciência e de tolerância, são hoje aceites pela própria Igreja, no quadro de sociedades democráticas e pluralistas. A verdadeira reacção à visão do mundo veiculada pela Maçonaria, têm os católicos de encontrá-la na profundidade da sua fé, sobretudo quando a celebram na Eucaristia, como inspiradora da vida e da história, fonte de sentido e fundamento de uma ordem moral. Sem essa coerência de profundidade, cairão em rejeições e anátemas, pelo menos desenquadrados da actual maneira de conceber a missão da Igreja no mundo.

A questão crucial, sobre a qual os católicos têm o direito de esperar uma resposta do seu Bispo, é esta: a fé católica e a visão do mundo que ela inspira, são compatíveis com a Maçonaria e a sua visão de Deus, com o fundamento de verdade e de moralidade e o sentido da história que veicula? E a resposta é negativa. Um católico, consciente da sua fé e que celebra a Eucaristia não pode ser maçon. E se o for convictamente, não pode celebrar a Eucaristia. E a incompatibilidade reside nas visões inconciliáveis do sentido do homem e da história.

A Maçonaria sempre afirmou, e continua a afirmar, a prioridade absoluta da razão natural como fundamento da verdade, da moralidade e da própria crença em Deus. A Maçonaria não é um ateísmo, pois admite um “deus da razão”. Exclui qualquer revelação sobrenatural, fonte de verdades superiores ao homem, porque têm a sua fonte em Deus, não aceitando a objectividade da verdade que a revelação nos comunica, caindo na relatividade da verdade a que cada razão individual pode chegar, fundamentando aí o seu conceito de tolerância. A Igreja também aceita a tolerância, mas em relação às pessoas e não em relação à objectividade da verdade.

Esta atitude perante Deus e perante a verdade gera uma “sabedoria” global, ou seja, uma visão coerente da realidade, que é incompatível com a visão do homem e da sociedade que brotam da fé cristã, que supõe a interacção de Deus e do homem, no diálogo fecundo e apaixonante da natureza e da graça. A Igreja tem o dever de orientar os católicos e é a eles que digo que a nossa fé e o sentido da vida que ela inspira é incompatível com o quadro gnóstico de sentido veiculado pela Maçonaria.

Haverá, ainda hoje, uma luta entre a Maçonaria e a Igreja? Não nos termos em que se pôs no passado, embora não devamos ser ingénuos: a Maçonaria, sobretudo em algumas das suas “obediências”, lutará sempre contra valores inspiradores da sociedade que tenham a sua origem na dimensão sobrenatural da nossa fé. Sempre que isso acontecer, demos testemunho da esperança que está em nós (1Pet. 3,15). A expressão de uma visão laicista da sociedade assenta também sobre a falta de coerência dos cristãos com as implicações sociais da fé que professam e da Eucaristia que celebram”

E qual é a posição da Maçonaria perante estes factos históricos? A Maçonaria regular reconhece o valor, a importância e o trabalho que a Igreja Católica desenvolve para a criação de um homem e de uma sociedade melhores, até porque esses objectivos e valores são também os seus. A divergência fundamenta-se em que a Maçonaria reconhece também estes valores nas outras religiões pelo que as respeita de igual forma.

A Maçonaria regular exige aos seus membros que tenham uma componente espiritual e que como tal, acreditem num princípio criador. Porque trata as religiões de forma igual, os seus membros tratam o “Deus” que professam (em termos maçónicos) por “Grande Arquitecto do Universo“, sendo que em qualquer sessão são abertos tantos livros sagrados, quantas as religiões que estejam presentes.

Fontes:

  • Artigo publicado na Wikipedia, sobre a relação entre Maçonaria e a Igreja Católica
  • Artigo disponibilizado na Página do Patriarcado de Lisboa

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