Do Conhecimento… à Sabedoria

A “Teoria do Conhecimento” visa explicar o processo segundo o qual a pessoa que “conhece” se relaciona com o objecto “a conhecer” ou “conhecido” e, por consequência, com a natureza desse Conhecimento e do Estatuto que lhe deve ser concedido. Entre tudo o que cada pessoa “conhece“, conta-se a “consciência de si própria“, que constitui talvez a coisa mais difícil de “conhecer“.

A palavra “conhecer” provém do latim “co-gnoscere”, palavra composta de “cum”, preposição usada como prefixo na formação de palavras, às quais se quis conferir um sentido reforçativo. Com efeito, a forma simples do verbo latino que significava “saber” com sentido de “conhecer, estar informado” existia em latim e era “noscere”. O emprego da palavra composta surgiu da necessidade de dar ênfase ao conceito, conferindo à fórmula “cognoscere” o sentido reforçado do conceito de “noscere“.

Assim, “conhecer” significa: “aprender a conhecer, procurar saber, estudar“. E assim também, o conceito representado graficamente por “conhecimento” pode ser mais rico ou menos rico de sentido, conforme o contexto em que está inserido.

Por outro lado, o conceito de “Sabedoria“, apesar de estar relacionado com “saber“, pode também ter um conteúdo de sentido diferente: não traduzindo uma ideia de acumulação de conhecimentos, mas definindo um Ideal superior de vida, proposto por uma doutrina moral ou filosófica. É Sábio, isto é, dotado de Sabedoria, aquele que conseguiu o domínio absoluto da sua consciência e pretende realizar um modelo de vida, dentro desses parâmetros, aquele que é capaz de fazer um julgamento justo, recto, seguro.

Para nós, Maçons, tudo começa com a Iniciação. Cito Daniel Béresniak:

a Maçonaria é uma Escola do Despertar“… “as Lojas maçónicas instalam, na nossa vida, locais de restauro das nossas forças. Que quer isto dizer? Que nesses locais, o diálogo deixa de ser um combate entre vencedores e vencidos, como acontece entre profanos, e passa a ser uma troca de que resulta sentido e bem-estar para cada um de nós“… “E quando cada um de nós, depois de uma sessão maçónica, se sente feliz, renovado, enriquecido, guarda a recordação de um momento privilegiado. Mas nunca é certo poder reviver esse momento, mesmo que todas as condições formais necessárias para o bom desenrolar de uma Sessão estivessem reunidas. Essas condições são necessárias, mas nunca suficientes“. … “Há sempre qualquer outra coisa e essa qualquer oura coisa, a “pedra escondida”, está em cada um de nós, em cada de nós com todos os outros“.

Tudo começa, pois, com o desbaste da Pedra Bruta. Anunciam-nos um estado de espírito receptivo aos ensinamentos, à orientação que nos vai ser dada, uma pedagogia específica que nos vai preparar para a descoberta do mundo e, sobretudo, de nós próprios.

Poderíamos ficar à espera de que nos ensinassem, como na Escola, tudo aquilo que, antes de nós, outros aprenderam: um encaminhamento para receber e guardar tudo aquilo que, antes de nós, outros receberam e guardaram.

Mas afinal, não é nada disso, não é disso que se trata. Desbastar a Pedra Bruta é descobrir um inconsciente desconhecido mas existente. Desbastar a Pedra Bruta é iniciar um caminho de conquista e de conhecimento de si próprio, o qual consiste em aprender a distinguir o Bem do Mal, o Belo do Feio, a Verdade da Mentira.

Para isso, precisamos de alimentar o nosso inconsciente com sucessivas descobertas que poderiam mesmo existir já dentro de nós, dentro desse nosso inconsciente. Tudo isso, por tratar, desarrumado, desconhecido, fugindo por vezes à nossa percepção, à nossa compreensão, deixando-se, por vezes, desvendar, ficando ou não na nossa memória, consoante a força com que o nosso inconsciente o recebeu.

Assim, aprender é, pois, um acumular de pequenos conhecimentos que vão constituindo o nosso Conhecimento, esse Conhecimento que nos ensina a olhar para as coisas e a vê-las, como dizia André Gide: «Que a importância esteja no teu olhar e não, naquilo que tu olhas”.

À capacidade de olhar o mundo desta forma, pode chamar-se Sabedoria …

Sabedoria é saber captar o que não se manifesta, tudo aquilo que pode mesmo estar oculto, mas que se desvenda para aqueles que souberem captá-lo.

O Iniciado é convidado, desde a iniciação, a aprender a mudar o olhar com que vê o mundo. A sua pesquisa, o desenvolvimento da sua capacidade de percepção, vão progredindo durante o seu percurso maçónico – vai desbastando a sua Pedra Bruta e compreendendo por que razão ouve frequentemente dizer que um Maçon será Aprendiz toda a vida.

E o que precisa o Aprendiz, de fazer, para ir acrescentando os seus conhecimentos? Simplesmente, viver … Simplesmente, observar tudo à sua volta … Simplesmente captar a importância de tudo o que acontece ao seu redor, porque tudo é importante, uma vez que faz parte da vida …

A filosofia maçónica dá-nos um poder de renovação, o que, por sua vez, nos impede de ignorar a enorme experiência multi-secular que põe à nossa disposição tudo o que os nossos antepassados viveram, na sua diversidade, na sua força e na sua fraqueza, nos seus êxitos e nos seus fracassos, pelo que, para um Maçon, o facto de pôr permanentemente em causa, pessoal e colectiva, todo este acumular de Conhecimento, é a fonte do nosso progresso moral.

Esse progresso, “notre quête“, tem de começar por nós próprios. “Conhece-te a ti próprio, e tu conhecerás o Universo e os Deuses“. Esta exortação socrática é, na verdade, a mais difícil de realizar, mas também a mais necessária. Enquanto ela não começar a desenvolver-se, nada do resto se desenvolverá. Enquanto não formos capazes de analisar aquilo que temos de bom e de mau, não poderemos analisar aquilo que há de bom e de mau nos outros.

Mas, por outro lado, isto também só se verificará quando, pelo menos um mínimo de Sabedoria se tenha instalado em nós. Para nós, a introspecção não é uma brincadeira; o trabalho, que um Maçon considera como um dever e um direito, é condição sine qua non para o seu crescimento mental, é o centro da sua ética.

A diferença entre o Conhecimento (le Savoir) e a Sabedoria (La Sagesse) é indistinta, subtil, só se deixa dominar quando o entendimento se estende à percepção racional. Assim, deverá ser necessário algum discernimento para poder penetrar o sentido profundo de tudo quanto nos rodeia.

Desbastar a Pedra Bruta é despojar o nosso inconsciente das dúvidas que nos acompanham, do desconhecimento da natureza humana e das suas reacções, da capacidade de reagirmos face ao desconhecido …

Qualquer Maçon, à medida que vai desbastando a sua Pedra Bruta, sabem que essa tarefa não faz mais do que recomeçar. É por isso que seremos sempre Aprendizes. Ela, ele, poderão ir tendo uma ideia da dimensão do seu Conhecimento, isto é, “não sabem nada comparado com o que lhes falta saber” e só terão consciência disso, quando a sua Sabedoria tiver começado a despertar.

O Conhecimento é um caminho que vamos percorrendo, adquirindo a pouco e pouco aquilo que ainda não sabemos.

A Sabedoria é aquilo que faz potencialmente parte de nós, do nosso inconsciente. É a parte do nosso EU, que desvenda o que nos é desconhecido e que acrescenta e aperfeiçoa aquilo que vamos adquirindo.

O Conhecimento vai-se estruturando à medida que é acrescentado, vai-se enriquecendo, crescendo, ocupando a nossa memória e o nosso consciente.

A Sabedoria é uma capacidade que vai criando e desenvolvendo em nós uma força mental, sensível, que nos permite avaliar e fazer crescer o Conhecimento, seleccionando-o, permitindo as nossas escolhas pessoais, mas sabendo conhecer e avaliar as escolhas diferentes das nossas.

Podemos ler na Bíblia, no “Livro dos Provérbios”: “Bem-aventurado o homem que acha Sabedoria e o homem que adquire Conhecimento“.

Haverá certamente um momento em que cada Aprendiz poderá dizer:

Quanto mais trabalho a Perpendicular, mais me sinto à vontade Fora do Templo.

Adaptado de Autor desconhecido

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