Reflexões sobre a Liberdade

Introdução liberdade

Provocado pelo brilhantismo dos trabalhos aqui apresentados pelos IIr:. sobre o tema LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE, passei a reflectir sobre cada um destes conceitos, levantando as seguintes questões, ainda nebulosas na sua essência para mim:

  • Quanto à Liberdade – somos mesmo livres integralmente, nos nossos actos, vontades e opiniões?
  • Quanto à Igualdade – somos tão iguais uns aos outros, ao ponto de nos confundimos, por ideias, actos, e manifestações?. Peço aos IIr∴ presentes, que perdoem por esta ousadia, mas, convido-os a olhar para os IIr∴ que se sentam ao vosso lado, e reflectir de forma bem sincera consigo mesmo, “sente-se igual a eles?”.
  • Quanto à Fraternidade – somos realmente fraternos? Ou adoptamos apenas este rótulo conforme o nosso interesse, quando veiculados pelos média, pois sabemos que isso massageia os nossos egos e vaidades?

Em síntese, não consegui passar de conjecturas. Assim, para evitar ser penoso resolvi abordar o tema “Liberdade” no presente trabalho, deixando aqui, duas lacunas “Igualdade e Fraternidade”, para uma futura oportunidade, ou até, para aqueles que por elas se possam interessar.

Esclareço também que não pretendo de forma alguma ser conclusivo; o objectivo aqui é apenas provocar a reflexão.

Liberdade por definição académica

Segundo a classificação geral, Liberdade significa o direito de ir e vir, de acordo com a própria vontade, é a sensação de estar livre e não depender de ninguém, possui um elemento de identificação com a natureza do “ser”. Logo, ser livre significa agir de acordo com a sua natureza.

Por ética, liberdade é relacionada com responsabilidade, uma vez que um indivíduo tem todo o direito de ter liberdade, desde que as suas atitudes não desrespeitem ninguém, e não passe por cima de princípios éticos e legais. Segundo a filosofia, liberdade é o conjunto de direitos de cada indivíduo, seja ele considerado isoladamente ou em grupo, perante o governo do país em que reside; é o poder que todo cidadão tem de exercer a sua vontade dentro dos limites da lei. Neste conceito, edifica-se os Estados – Nações, cuja ideologia, é o pilar das suas Constituições, como a nossa, conforme o art.º 5º, e seguintes (CFB).

Encontramos diversas obras publicadas por filósofos que se dedicaram ao tema, entre outros:

Karl Marx, diz que a liberdade humana é uma prática dos indivíduos e está directamente ligada aos bens materiais. Os indivíduos manifestam a sua liberdade em grupo, e criam o seu próprio mundo, com os seus próprios interesses.

Para Sartre, a liberdade é a condição de vida do ser humano; o princípio do homem é ser livre. O homem é livre por si mesmo, independente dos factores do mundo, ou das coisas que ocorrem, ele é livre para fazer o que tiver vontade.

Para Descartes, a liberdade é motivada pela decisão do próprio indivíduo, mas muitas vezes essa vontade depende de outros factores, como o económico ou bens materiais.

Kant diz que, a liberdade está relacionada com autonomia; é o direito do indivíduo de dar as suas próprias regras, que devem ser seguidas racionalmente. Essa liberdade só ocorre realmente, através do conhecimento das leis morais e não apenas pela própria vontade da pessoa. É o livre arbítrio.

Seguindo ainda a linha filosófica, tem-se como liberdade a independência do ser humano, é o poder de ter autonomia e espontaneidade. Para outros filósofos, a liberdade está acima e para além da cultura, do pensamento, da religião, da política, da emoção e até do advento da sexualidade da nossa era.

Mediante tudo isto, é questionável se realmente os indivíduos têm a liberdade que dizem ou pensam ter, ou será ela apenas um slogan por imposição da média. Logo, é forçoso reconhecer, que a liberdade se trata de um conceito apenas utópico.

Honestamente, penso que os filósofos, escritores, psicólogos, psiquiatras, sociólogos, etc., nunca conseguiram traduzir em texto a essência de liberdade, pois sempre analisaram o conceito, sobre a visão do momento, ou meio social no qual viviam, alem do que, uns mais e outros menos sofriam a influência dos factores socioeconómicos e políticos, regressivos ou anarquistas.

Que me perdoem também os educadores, mas penso que o homem já tem a sua liberdade tolhida no momento em que toma conhecimento do “não”, este, ainda sobre o julgo dos seus pais. Da mesma forma, e sem entrar no plano da religiosidade, os próprios Livros Sagrados de cada religião, limitam a Liberdade do Homem com o “não faça”. Adão recebeu o seu primeiro “não”, ainda na plenitude da sua liberdade no paraíso.

Drasticamente, entendo que mesmo a aqueles indivíduos que a nada se submetem, tanto no campo material ou espiritual, encontram limites no meio em que vivem, ou até, são condicionados pela ligação às sociedades por eles renegadas.

Nos meus singelos entendimentos, creio que o ser humano não é mesmo um ser livre; dada a enorme quantidade de obrigações complexas que contraí, com outrem, e com os objectos compulsivos, que condicionam o ser humano; limitando o seu cérebro, enquanto órgão de produção de pensamento rápido e sintético, e que processa as ideias, sem conseguir expressá-las por palavras. Por isso a realidade de liberdade é uma utopia há atingir.

No entanto, vale à pena reflectirmos, se mudando a forma como encarar a questão do significado de Liberdade, que se coloca aos homens de todos os tempos, pela perspectiva contraditória e ilógica de saber o que é, poderíamos perguntar:

“O que não é a Liberdade”?

Poderíamos dizer que não é Liberdade: estar recolhido numa prisão; cumprir horários todos os dias; ter responsabilidades com a família; com as crenças; com a política; com a expressão de opiniões; limitações de tomada de decisões; limitações de se locomover; dar satisfações dos seus actos a terceiros; ser obrigado a defender-se por actos e palavras; ter que encontrar ideias e palavras para se expressar intelectualmente?

Definitivamente, entendo que não vivemos a Liberdade na sua plenitude, até porque somos condicionados e dependentes de todos estes conjuntos de regras do meio no vivemos; e lamentavelmente percebo que sem elas, acabaríamos desorientados e perdidos nas nossas condutas. Então, o que entendemos por liberdade, nada mais é, que uma Liberdade Aparente.

Sobre Liberdade Aparente, faço uso das palavras de uma autora desconhecida, num trecho de um texto, que encontrei vagando pela internet, cujo autor não identifiquei, mas que dado o momento, é oportuno reproduzir [1]:

A liberdade é uma ilusão. São imperdoáveis as histórias harmoniosas de omissões de verdade, falsas de acréscimos que esta vida de catálogos falantes nos oferece. Não é segredo nenhum o que estou a representar por grafismos, mas é mais agradável fingir desconhecimento. É fácil recusar o utopismo que o conceito de liberdade despende. É deplorável a falsa ideia de que vivemos libertos… A nossa servil vida nada mais é que um conjunto de protocolos impostos, e não digo isto com demasiado espanto. Empobrece-me ter este conhecimento, e ainda me entristece mais, saber que não sou a única a ter esta percepção. A nossa vida são factos estéticos, que pretendem agradar o outro e a nós. Não me encolho e dobro, perante esta realidade bruta com que me deparei, há já algum tempo, luto a cada fluir do dia, a cada fluir da noite, pela doçura que esta falsidade me pode proporcionar, e percorro-a ignorando o engano. Afinal também eu posso fingir, e entre altos e baixos, verdades e mentiras, existe um caminho que posso percorrer… o da liberdade aparente… (autor desconhecido)

Entretanto, rendo-me à seguinte reflexão:

“A liberdade pode ser aparente, mas fomos nós que a tornámos nesta sensação de falsidade. Mesmo nos pequenos gestos que nos libertam de preconceitos e ilusões, podemos encontrar um sentimento libertador. Ainda que nos sintamos muitas vezes condicionados, se o nosso pensamento é livre, então somos livres”

Finalizando, cabe ainda a seguinte frase:

Será que sois mesmo livres nos vossos pensamentos, ou estes encontram-se algemados aos vossos preconceitos e vaidades?”.

Sobre Liberdade, o escritor e pacifista Leon Tostoi proferiu o seguinte frase:

“Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência”. – Leon Tolstoi [2]

Edson Roberto Ceccato M∴M∴

Notas

[1] By Vandanita

[2] J. Léon Tolstoi – Pacifista e Escritor, escreveu os clássicos Guerra e Paz e Ana Karenina, entre outros

Bibliografia

  • Hobbes, Thomas, Of Liberty and Necessity.
  • Rousseau, Jean-Jacques. “O Contracto Social”. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  • Kersting, Wolfgang. “Liberdade bem ordenada: filosofia do direito e do Estado em Immanuel Kant”; tradução e revisão Luís Afonso Heck. – 3. Ed., ampl. e trabalhada – Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris Ed., 2012.

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