Maçonaria e linguagem

O problema da linguagem

Há duas formas de conhecer o universo e buscar uma comunicação com ele. Podemos chamá-las de objectiva e intuitiva, material e espiritual, científica ou religiosa, etc. Mas seja qual o for o nome dado a essas formas de abordagens da realidade manifesta ou não manifesta do universo, o que fica é o facto de que não podemos negar a existência de fenómenos que as nossas pobres ferramentas mentais, mesmo acrescidas e poderosamente estendidas por modernos aparelhos científicos, não conseguem detectar. E quando são intuídos, por força da largueza que alguns espíritos bem dotados possuem, esses fenómenos não podem ser organizados de forma epistémica por falta de uma linguagem adequada.

E que a mente humana só consegue entender o que ela pode representar como imagem. Aquilo que a nossa mente não consegue dar forma, não pode ser objecto de conhecimento.

Todavia, a mente humana precisa ser devidamente informada para ter material com o que trabalhar. E toda informação que temos das realidades humanas ou divinas são extraídas do próprio ambiente em que o homem vive. Essa é razão de os povos antigos representarem Deus nas mais diversas formas da natureza. Eles tinham a intuição de que havia um Princípio que gerava e comandava todas as forças e poderes aos quais estavam submetidos, mas nem a imaginação mais fértil entre eles era capaz de dar uma figuração e uma identidade à esse Poder. Por isso eram tantos os deuses e as suas representações as mais variadas, desde figuras de animais até elementos naturais e as próprias criaturas humanas, representativas de vícios e virtudes, acabaram tornando-se entidades do mundo subtil, como são os deuses e demónios da antiguidade. Até os hebreus, que sintetizaram a noção do divino numa entidade única, na hora de dar uma representação mental visual para Ela, o fizeram através da figura do arquétipo situado no mais alto nível da sua hierarquia social, que era o patriarca.

Assim temos a imagem austera e conservadora de Deus, que Israel legou ao mundo. Ela é a representação dos seus próprios líderes, velhos patriarcas de uma sociedade pastoril que neles encarnava o pátrio poder. Essa é a razão de o cronista bíblico, ao descrever a criação do homem, dizer que Deus o formou “à sua imagem e semelhança”, denotando claramente que a imagem que os antigos hebreus tinham de Deus era a projecção do próprio patriarca da sua tribo, ou do pai de família, que na sua cultura detinha o pátrio poder. Essa noção também viria a ser utilizada por Jesus, que via Deus como um Pai, fundamentado no próprio significado que esse arquétipo assumia na estrutura da sociedade judaica [1].

Isto porque Deus é uma realidade que a grande maioria das pessoas, em todo o mundo, seja qual for a religião que professem, não ousa negar. Mesmo aqueles que se confessam ateus, na verdade, não o estão a negar, pois para se negar a existência de alguma coisa, primeiro é necessário pressupor a possibilidade da sua existência.

E que o fenómeno da afirmação e da negação é simplesmente um problema de linguagem. Como a nossa mente funciona com comando binário, ela não pode projectar uma acção negativa sem antes ter noção do seu contrário, que é a acção positiva. Dessa forma, podemos afirmar que a negação da existência de Deus é impossível sem primeiro admitir a possibilidade da sua existência. Por isso é que a chamada psicologia da assertividade ensina que toda vez que damos uma ordem negativa ao nosso organismo, a nossa mente tem de representar primeiro o contrário daquilo que lhe está sendo ordenado. Ou seja, se não podemos fazer uma coisa que não sabemos como é, também não podemos deixar de fazê-la, pelo mesmo motivo.

Isto é uma consequência da forma como a nossa mente é estruturada. Por isso, os psicólogos dessa escola dizem que devemos evitar dar comandos às crianças utilizando a palavra não. “Não coloque a mão na tomada” por exemplo, para ser entendida pela mente de uma criança, precisará primeiro formar a imagem do que é colocar a mão na tomada, ou seja, para ela saber o que é não fazer isso, precisa primeiro saber o que é fazer isso. A mente da criança pode escolher a primeira opção, isto é, a sua curiosidade natural levá-la-á a escolher a primeira opção, isso é, saber como é, para depois decidir se gosta ou não. Mas aí o estrago já estará feito [2].

A questão do método

Os cientistas, para exprimir as ideias que eles têm do universo, utilizam uma linguagem organizada, feita de números, figuras, equações, postulados, silogismos e pressupostos, que são frutos de uma actividade consciente do cérebro. Essas representações mentais que eles fazem do universo constitui o método chamado científico.

De forma diferente actua o método iniciático. Enquanto a ciência se socorre da linguagem derivada, consciente, arranjada, desenvolvida pela mente para reconstruir para a nossa sabedoria a fenomenologia universal, a iniciação está vinculada à linguagem primitiva e inconsciente do universo, que só pode ser reconstruída através de um simbolismo que muitas vezes não tem paralelo dentro do arsenal de fórmulas que a nossa mente consciente desenvolveu para explicar o mundo em que vivemos.

No mundo existem realidades que não podemos ver, ouvir ou sentir. Quem consegue ver a electricidade? Ou ouvi-la? Quem consegue ver ou ouvir a actividade de um eléctron, girando em volta do seu núcleo? Quem pode sentir a acção dos átomos impressionando o écran de um tubo de TV para formar uma imagem? Mas, no entanto, podemos ver, ouvir e sentir a actuação dessas forças através das suas manifestações no mundo das realidades sensíveis. A electricidade ilumina as nossas cidades e move as nossas máquinas. A actividade dos átomos transforma-os em elementos químicos e confere-lhes as suas propriedades. A luz decompõe-se em espectros e dá-nos imagens de eventos que estão acontecendo naquele justo momento nos lugares mais distantes do mundo.

Se existe um mundo material é porque existe concomitante uma energia que o gera e lhe dá forma. E não existem leis, mesmo naturais, que não tenham sido promulgadas de alguma forma por Alguém.

O nosso conhecimento do mundo é imperfeito, incompleto e falho porque ele se limita ao território da nossa linguagem. Não está no mundo da nossa mente consciente aquilo que a nossa capacidade de linguagem não consegue representar com os seus parcos recursos. Por isso Wittgeinsten ensina que o “os limites do nosso mundo são os limites da nossa linguagem” [3].

Isto explica por que temos tantas e tão diferentes ideias da realidade espiritual e do mundo das coisas divinas. Algumas tão bizarras que custa a acreditar que um dia tenham sido pensadas e mesmo sustentadas, ao preço de muitas vidas, como verdades incontestes.

Algumas das concepções que fazem parte do acervo do pensamento mágico que habita o inconsciente humano e se manifestam através de símbolos e arquétipos, no mais das vezes, são incompreensíveis ao pensamento racional. E só podem ser transmitidos através do método iniciático, ou seja, aquele que se dirige mais à mente inconsciente do aprendiz do que à sua consciência. Esse é o método utilizado pelas sociedades iniciáticas, através das cerimónias de iniciação e também pelas religiões através dos actos litúrgicos e dos seus rituais.

Assim, podemos dizer que antes da pedagogia existiu o comportamento; antes da religião nasceu o culto e antes da ciência o homem desenvolveu a técnica. Isto significa que o homem primeiro pratica um comportamento, depois preocupa-se em entender por que o faz. Por isso, toda prática cultural tem, na sua origem, um arquétipo, uma noção não criada pela mente humana, a inspirá-la. A maçonaria, como tradição, é, por definição, uma estrutura arquetípica cujos fundamentos estão no Inconsciente Colectivo da Humanidade. Os seus membros nela são recebidos por iniciação e os seus ensinamentos são transmitidos pelo método iniciático. Por isso, maçonaria só se aprende por intuição e sensibilidade e nunca por aprendizado epistémico, pois não há, no acervo cultural dessa tradição, um saber organizado, lógico, estruturado em sistemas, como se pode encontrar nas chamadas universidades do saber social. Daí o facto, muitas vezes curioso, de encontrarmos um aprendiz com mais conhecimento de maçonaria do que um mestre de muitos graus já colados.

João Anatalino Rodrigues

Notas

[1] Veja-se Northrop Frye, O Código dos Códigos Ed. Boi Tempo, 2001.

[2] ALBERTI, R. E.; EMMONS, M. I. Your perfect right: a guide to assertive living. San Luis Obispo: Impact Publishers, 1986

[3] Ludwig Wittgeisnten (1899-1951)-Tratado Lógico Filosófico, 1922.

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