O Crepúsculo da Maçonaria Patriarcal

Women and Freemasonry

As correntes maçónicas da actualidade são organizações que se formaram a partir da modernidade, mas nos primórdios do século XXI, torna-se insustentável, do ponto de vista democrático e social, continuar a manter certas tradições próprias de outros tempos. Conheço muitos maçons que não querem saber nada das características fundamentais da cultura contemporânea, e caprichosamente continuam a compartilhar os seus hábitos com uma visão do mundo em fase de declínio.

A noção de modernidade e suas ideias consonantes como o iluminismo e a secularização foram amplamente divulgadas por filósofos, historiadores e sociólogos, mas há um aspecto no qual maioria dos estudos passa despercebido. Relendo os intelectuais da época e tendo em conta que estamos prestes a comemorar o Dia Internacional da Mulher, encontrei a oportunidade certa para pensar a Maçonaria desde essa altura.

Poder-se-ia datar – do ponto de vista político – o início da modernidade com a assinatura de tratados de paz de Westfália, documentos que deram início a uma nova ordem na Europa Central, com base no conceito de soberania nacional. O Iluminismo tinha em comum um programa ambicioso de secularização, humanismo, tolerância e cosmopolitismo, valores que a maçonaria assumiu como próprios, com a criação de duas potências – na actualidade com nomes diferentes – que lideram as duas mais importantes correntes maçónicas: A Grande Loja Unida da Inglaterra e o Grande Oriente de França. Ambas são caracterizadas, acima de tudo por um fervor pela liberdade e pela participação política.

Os «iluminados» – entre eles muitos maçons – proclamaram a sua visão de mundo como universal, mas por “universal” entendia-se que o mundo e o homem eram governados por um conjunto único de leis naturais. O conceito de uno, universal, de único, não admitia a alteridade, a diferença. Então, Liberdade, Igualdade e Fraternidade foram válidas apenas para os homens, em detrimento e exclusão das mulheres.

A modernidade não poderia conceber a igualdade na diferença, mas não se deve condenar os seus ideólogos face aos valores do presente século; uma torrente de água passou debaixo da ponte da história e o rio já não é mais o mesmo. Fundamentou-se e susteve-se na igualdade entre iguais e na dominação dos diferentes. Entre as dominações, o caso das mulheres é talvez o mais paradigmático, tal como escreveu a escritora francesa Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo. A diferença entre géneros foi atribuída pelos homens da época como um caso da natureza e não de cultura. Não se preocuparam em desmontar a herança imemorial dessa desigualdade entre sexos, já que a conceberam como factos biológicos, imutáveis, e não como construções sociais, políticas e culturais, tal como actualmente admitidas.

A Igualdade entre diferentes tornou-se viável, apenas em meados do século passado. Segundo o sociólogo Manuel Castells em «O Poder da Identidade», dois factores facilitaram este processo: a globalização e a crise do patriarcado. A revolução gerada pelas novas tecnologias da informação, a reestruturação do capitalismo, o enfraquecimento do Estado-nação, a força política dos movimentos sociais e a emergência de novas identidades culturais, forjaram uma nova forma de vida em sociedade: A sociedade em rede, com Internet como seu principal expoente. Portanto, a globalização que se caracteriza entre outras coisas, por fluxos contínuos de pessoas, capitais, bens, serviços, logrou reactualizar os fundamentos da sociedade moderna.

Este processo sacudiu, e ainda continua, profundamente  uma das instituições sociais mais enraizadas na vida das pessoas: o patriarcado, definido pela historiadora Pilar Perez em «O Lado Obscuro da secularização – uma nota para o livro «Laicismo Vivo» publicado pela Grande Loja Equinocial do Equador  – como a autoridade masculina sobre a mulher e filhos. Uma autoridade imposta a partir do estado, da igreja e da família.

Assim, a identidade dos varões modernos construiu-se a partir de uma superioridade concebida a partir da diferença. Enquanto isso, a identidade da mulher foi construída sobre representações de submissão, fraqueza e inferioridade. No entanto, no primeiro terço do século passado, vários factores começaram a quebrar as fundações do patriarcado.  Entre os mais proeminentes encontram-se a institucionalização da educação secular universal para as mulheres e a sua incorporação maciça no mercado de trabalho. A esta situação adiciona-se  a partir dos últimos anos, o uso generalizado da contracepção e a luta dos movimentos em busca da liberdade e da igualdade de direitos.

Portanto, o colapso da família patriarcal e as novas identidades das mulheres são factores decisivos para o surgimento de movimentos religiosos fundamentalistas que pretendem retornar as mulheres à velha ordem, pelo que o processo no sentido da igualdade de género continuará  acirrado enquanto não desaparecerem as estruturas do patriarcado.

Mediante estas transformações sociais e políticas que não se podem negar ou adoçar, estará a Maçonaria masculina a debater a necessidade de actualizar as suas tradições e renovar os estatutos, e modo a permitir  a adesão do sexo feminino? Situar-se-ão ao mesmo nível dos principais fundadores das correntes maçónicas do século XVIII?

Esses maçons foram capazes de avaliar o legado e a história que impregnava a antiga maçonaria e imprimiram-na conjuntamente a uma visão acertada do futuro, que a incluía, desenvolvendo novos usos e costumes bem como a elaboração duma Constituição que deu origem à Maçonaria moderna, colocando o legado recebido na vanguarda do pensamento e da acção social e política.

Os fundadores da corrente maçónica do Direito Humano foram capazes de entender essa responsabilidade e estabeleceram a primeira obediência mista internacional no final do século XIX.  A meio caminho encontra-se o Grande Oriente da França, onde a maioria das oficinas recebe as irmãs visitantes, embora na sua última Convenção a possibilidade de adesão feminina permaneceu em status quo. No crepúsculo da modernidade permanece a Grande Loja Unida da Inglaterra, mas espero que encontrem o encorajamento que impulsionou os seus fundadores, caso contrário, talvez lhes esteja reservada uma vida que olha para o passado com nostalgia.

Autor: Christian Gadea Saguier
(Traduzido do Blog Los Arquitectos/ publicação 03/06/2009)

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