O Gótico

O gótico designa uma fase da história da arte ocidental, identificável por características muito próprias de contexto social, político e religioso em conjugação com valores estéticos e filosóficos e surge como resposta à austeridade do estilo românico. Este movimento cultural e artístico desenvolve-se durante a Idade Média, no contexto do Renascimento do Século XII e prolonga-se até ao advento do Renascimento Italiano em Florença, quando a inspiração clássica quebra a linguagem artística até então difundida.

Os primeiros passos são dados em meados do século XII em França no campo da arquitectura (mais especificamente na construção de catedrais) e, acabando por abranger outras disciplinas estéticas, estendendo-se pela Europa até ao início do século XVI, já não apresentando então uma uniformidade geográfica.

Origem do nome “Gótico”

A palavra “gótico” vem de “Godo”, com sentido pejorativo. Assim o baptizaram os renascentistas, que somente consideravam arte a antiguidade clássica.

Quando a nova estética se expande além das fronteiras francesas, a sua origem vai ser a base para a sua designação, art français, francigenum opus (trabalho francês) ou opus modernum (trabalho moderno). Mas vai ser só quando o Renascimento toma o lugar da linguagem anterior que os novos valores vão entrar em conflito com os ideais góticos e o termo actual nasce. Na Itália do século XVI, e sob a fascinação pela glória e cânones da antiguidade clássica, o termo gótico vai ser referido pela primeira vez por Giorgio Vasari, considerado o fundador da história da arte. Aos olhos deste autor e dos seus contemporâneos, a arte da Idade Média, especialmente no campo da arquitectura, é o oposto da perfeição, é o obscuro e o negativo, relacionando-a neste ponto com os Godos, povo que semeou a destruição na Roma antiga em 410. Vasari cria assim o termo gótico com fortes conotações pejorativas, designando um estilo somente digno de bárbaros e vândalos, mas que nada tem a ver com os antigos povos germânicos (visigodos e ostrogodos).

Somente alguns séculos mais tarde, durante o romantismo nas primeiras décadas do século XIX, vai ser valorizada a filosofia estética do gótico. A arte volta-se novamente para o passado, mas agora para o período misterioso e desconhecido da Idade Média. Goethe, também fascinado pela imponência das grandes catedrais góticas na Alemanha, vai acabar por ajudar ao impulso desta redescoberta da originalidade do período gótico, exprimindo as emoções que lhe são despertas ao admirar os gigantes edifícios de pedra.

Neste momento nasce o neogótico que define e expande o gosto pela utilização de elementos decorativos góticos e que reconhece pela primeira vez as diferenças artísticas que separam o estilo românico do gótico.

Os Primórdios

Os séculos XI e XII são séculos de mudanças sociais, políticas e económicas que em muito vão fazer despoletar as necessidades de uma expressão artística mais adequada às novas premissas sociais.

gotico03O comércio está em expansão e a Flandres, como centro das grandes transacções comerciais, leva ao desenvolvimento das comunicações e rotas entre os diversos povos e reduz as distâncias entre si, facilitando não só o comércio de bens físicos, como também a troca de ideais estéticos entre os países. A economia prospera e nasce um novo mundo cosmopolita que se alimenta do turbilhão das cidades em crescimento e participa de um movimento intelectual em ascensão.

Paralelamente assiste-se ao crescimento do poder político representado pelo monarca e à solidificação do Estado unificado, poderosa entidade que vai aspirar a algo que lhe devolva a dignidade e a glória de outros tempos e que ajude a nação a apoiar a imagem do soberano.

A igreja, por seu lado, vai compreender que os fiéis se concentram nas cidades e vai deixar de estar tão ligada à comunidade monástica, virando-se agora para o projecto do que será o local por excelência do culto religioso, a catedral. Ao contrário da construção humilde e empírica do românico, a construção religiosa gótica abre portas a um espaço público de ensinamento da história bíblica, de grandiosidade, símbolo da glória de Deus e da igreja, símbolo do poder económico da burguesia, do estado e de todos os que financiaram a elevação do emblema citadino.

O nascimento do estilo, mais que o seu desaparecimento, pode ser definido cronologicamente com clareza, nomeadamente no momento da reconstrução da abadia real de Saint-Denis sob orientação do abade Suger entre 1137 e 1144. Esta abadia beneditina situada nas proximidades de Paris, em França, vai ser o veículo utilizado à comunicação dos novos valores simbólicos: por um lado a dignificação da monarquia, por outro a glorificação da religião. Este empreendimento tem por objectivo apresentar o maior centro patriótico e espiritual de toda a França, ofuscando todas as outras igrejas de peregrinação, trazendo para si mais crentes e restabelecer a confiança entre a igreja e o seu rebanho.

Para materializar esta ideia várias fontes e influências terrenas vão ter de ser, no entanto, bem contabilizadas e fundidas. A cabeceira (zona este da igreja) vai ser emprestada das já existentes igrejas de peregrinação, com abside, deambulatório e capelas radiantes, assim como a utilização do arco quebrado de influência normanda. A técnica construtiva dá também neste momento um avanço significativo contribuindo com a abóbada de nervuras (sobre cruzaria de ogivas) e que vai permitir uma maior dinâmica e flexibilidade de construção. O impulso destas abóbadas vai ser recebido por contrafortes no exterior do edifício, libertando o espaço interior e dotando-o de uma leveza extraordinária.

Mas mais que uma junção de elementos, o estilo gótico é afirmação de uma nova filosofia. A estrutura apresenta algo novo, uma harmonia e proporções inovadoras resultado de relações matemáticas, de ordens claras impregnadas de simbolismo. Suger, que é fortemente influenciado pela teologia de Pseudo-Dionísio, o Areopagita, aspira uma representação material da Jerusalém Celeste. A luz é a comunicação do divino, o sobrenatural, é o veículo real para a comunhão com o sagrado, através dela o homem comum pode admirar a glória de Deus e melhor aperceber-se da sua mortalidade e inferioridade. Fisicamente a luz vai ter um papel de importância crucial no interior da catedral, vai-se difundir através dos grandes vitrais numa áurea de misticismo e a sua carga simbólica vai ser reforçada pela acentuação do verticalismo. As paredes, agora libertas da sua função de apoio, expandem em altura e permitem a metamorfose do interior num espaço gracioso e etéreo.

O espaço é acessível ao homem comum, atrai-o de uma maneira palpável, que ele é capaz de assimilar e compreender, o templo torna-se o ponto de contacto com o divino, um livro de pedra iconográfico que ilustra e ensina os valores religiosos e que vai, a partir deste momento, continuar o aperfeiçoamento da mesma.

A Evolução

notre-dameO núcleo central do estilo resume-se inicialmente à zona da Ille-de-France, que abarca a zona de Paris e arredores, mas estende-se eventualmente a todo o território francês e transborda mesmo para lá das fronteiras ramificando-se pela Europa ocidental, principalmente a norte dos Alpes. A expansão do movimento alastra com o tempo para Inglaterra, Alemanha, Itália, Polónia e até à Península Ibérica, embora aqui com menos impacto.

Seguindo as rotas comerciais o estilo é exportado e vai permanecer por algum tempo como uma estética de carácter estrangeiro e adaptado. Já no decorrer do século XIII impõem-se as influências regionais e o estilo assume, dentro de um mesmo eixo condutor, diversas facetas demarcadas pelas diferentes culturas e tradições europeias. Mas a corrente artística não vai permanecer imutável e, do mesmo modo que se ramifica, vai acabar por se influenciar mutuamente e formar um conjunto uniforme e homogéneo por volta de 1400, denominado Gótico internacional. A meados do século XV a área de domínio gótica começa a reduzir e está praticamente extinta um século depois quando o Proto-Renascimento lança as primeiras ideias.

Em geral verifica-se que, em termos de permanência temporal, o movimento artístico difere profundamente de local para local, podendo-se, no entanto, definir aproximadamente as diferentes fases que o compõem.

  • Gótico primitivo, ou Proto-gótico
    • Assumem-se as ideias base e dão-se os primeiros passos com a reconstrução da Abadia de Saint-Denis.
  • Gótico pleno, ou Gótico clássico
    • Aperfeiçoam-se as inovadoras técnicas de construção e entra-se na fase do domínio construtivo arquitectónico com o tempo das grandes catedrais.
  • Gótico tardio
    • A expressão artística torna-se menos ambiciosa, fruto da crise económica e da Peste negra do século XIV a par com uma religião mais terrena e mundana praticada pelas ordens mendicantes.
  • Variantes decorativas
    • Gótico lanceolado: De 1200 a 1300.
    • Gótico radiante, irradiante ou rayonnant (século XIV de 1300 a 1400, uso de linhas radiais na traçaria)
    • Gótico perpendicular (Inglaterra, século XIV, uso de linhas perpendiculares)
    • Gótico flamejante ou flamboyant (França, século XV de 1400 a 1500). Momento definido pela exuberância da decoração escultórica nos edifícios arquitectónicos. A própria designação do momento (flamejante, que deriva de chama) traduz a essência do novo gosto por uma ornamentação fluida e ondulante que cobre toda a superfície arquitectónica como uma teia. Neste momento não existem, no entanto, evoluções estruturais.

Expressões

Arquitectura

O gótico é um estilo arquitectónico que se desenvolveu entre os séculos XII e XV, na Idade Média, e colocava especial ênfase na leveza estrutural na iluminação das naves do interior do edifício, e que surgiu em contraposição à massividade e à deficiente iluminação interior das igrejas românicas. Desenvolveu-se fundamentalmente na arquitectura eclesiástica: catedrais, mostérios e igrejas.

notre-dame-picture-4A arquitectura gótica teve sua origem em França e se difundiu através de suas catedrais, principalmente ao Sacro Império Romano Germânico e à Coroa de Castela. Na Inglaterra também penetrou o estilo francês, porém logo adquiriu um forte carácter nacional. Na Itália não teve muita aceitação, e seu impacto foi muito desigual nas distintas regiões; chegou tarde e muito rapidamente foi substituído pelo Renascimento.

Existem indícios de que o verdadeiro nome dessa expressão artística era, em latim, Opus Francigenum, “Obra Francesa”. Inseriu-se no movimento cultural abrangente a várias expressões artísticas, que, por sua vez, surgiram no contexto mais amplo do chamado Renascimento do Século XII. Este estilo arquitectónico estendeu-se por um longo período de tempo da Idade Média e varia de local para local, sendo no entanto possível delimitá-lo desde meados do século XII a inícios do século XVI, quando do advento de um novo Renascimento que marcou o fim do período medieval. O primeiro gesto impulsionador da nova filosofia construtiva é dado em França, acabando por se estender a toda a Europa, no que ficou conhecido como o tempo das grandes catedrais.

Características gerais:

  • Verticalismo dos edifícios substitui o horizontalismo do Românico;
  • Paredes mais leves e finas;
  • Contrafortes em menor número;
  • Janelas predominantes;
  • Torres ornadas por rosáceas;
  • Utilização do arco de volta quebrada;
  • Consolidação dos arcos feita por abóbadas de arcos cruzados ou de ogivas;
  • Nas torres (principalmente nas torres sineiras) os telhados são em forma de pirâmide.

A catedral

A arquitectura gótica não é um momento de ruptura drástica com os ideais anteriores, mas antes uma assimilação de alguns elementos independentes de diferentes fontes, metamorfoseada com o novo conceito de interpretação da arte religiosa. Os primeiros indícios surgem na Normandia do século XI com a era de construção monástica incentivada pela Ordem de Cluny. Mas já neste momento se aglomeram diversas influências posteriores que vão ser cruciais à tipologia da catedral gótica: as arquivoltas e a abóbada de arestas de origem lombarda e franca; a planta basilical modificada composta por três naves, transepto e três absides de influência carolíngia. Facto decisivo para a originalidade construtiva é o avanço técnico nas mãos das corporações de construtores, grupos formados pelos antigos mestres anónimos ao serviço das construções monásticas, que se movem livremente de obra para obra e impulsionam a técnica do arcobotante, elemento que vai suportar a impulsão da abóbada no exterior da catedral e vai libertar as paredes do esforço, tornando-as mais esbeltas e transmitindo uma ilusão de leveza no interior pela acentuação de verticalidade. Várias componentes adicionais, como as duas torres ocidentais, o sistema interior de divisão vertical em três áreas (arcada, trifório e clerestório – zona dos grandes vitrais), as colunas esguias, os arcos quebrados, a profusão de pináculos e diversos elementos decorativos vão formar uma tipologia maleável de grandes dimensões, que não obedece a um padrão pré-definido de número de partes e que varia de caso a caso (ver a título de exemplo a Catedral de Notre-Dame em Paris). A decoração interna e externa dos edifícios é bastante complexa e também um dos factores mais importantes. A geometrização vai dominar e consequentemente encontra-se uma multiplicidade de elementos compostos por círculos e arcos nos lavores de pedra (traceria) em remates de vitrais, arcos e gabletes. Estes ornamentos estão principalmente ligados à estilização de flora, identificando-se também referências ao universo humano e animal.

Elementos arquitectónicos

  • Interior:
    • arcada, abóbada de nervuras, arco quebrado, clerestório, coluna, rosácea, trifório, vitral
  • Exterior:
    • arcobotante, arquivolta, cogulho, contraforte, gablete, gárgula, florão, jamba, pináculo, portal, tímpano, torre, traceria
  • Áreas da catedral
    • abside, capelas radiantes ou absides secundárias, coro, cruzeiro, deambulatório ou charola, nave, narthex, transepto

Arquitectura secular

O estilo gótico é, para a sociedade da época, extremamente contagiante e persuasivo, ultrapassando por isso as barreiras da arquitectura religiosa e transpondo-se para outras tipologias. Ao invés do românico estas características construtivas encontram-se, embora em menores dimensões e exuberância, em moradias da burguesia, câmaras municipais, hospitais e outras construções citadinas (reduzidas, no entanto, a elementos de índole decorativa).

Escultura

saint_dennis_2Já na Abadia de Saint-Denis se observa uma maior importância dada à escultura que no românico, sendo que se vai afirmar pela primeira vez como elemento independente à arquitectura e com objectivos próprios na Catedral de Chartres. De qualquer modo a escultura estará ainda estritamente ligada à catedral mas, em oposição ao “amontoado” do românico, demonstra agora consciência do seu próprio espaço e ocupa-o de modo ordenado e claro.

Especialmente no portal de entrada para o templo se encontram as maiores produções escultóricas que proliferam nas ombreiras (jamba), arquivoltas e tímpanos. As estátuas nas ombreiras libertam-se progressivamente das colunas e da sua forma irreal e alongada ganhando volume e vida. A humanização das posturas e gestos é reforçada pela utilização de um eixo próprio para a figura, eixo este que se vai ondulando com o tempo e emprega à figura uma acentuada formação em S. Toda uma nova naturalidade vai determinar a composição e envolvência física: os pés passam a estar numa plataforma horizontal e não mais num plano inclinado; as roupagens e todo o volume corporal cedem à gravidade; aumenta a atenção ao pormenor transportado do quotidiano; e acima de tudo domina uma atitude elegante, uma expressão realista, serena e profundamente terna que estabelece comunicação pelo olhar, pelo sorriso e pelo gesto. A meados do século XIII esta estética elegante difunde-se, mas no início do século XIV a busca de efeitos de luz/sombra através do contraste entre volumes cunha as figuras de uma maior abstracção.

Pintura

giotto_goticoA pintura gótica, uma das expressões da arte gótica, apareceu apenas em 1200 ou quase 50 anos depois do início da arquitectura e escultura góticas. A transição do românico para gótico é bastante imprecisa e não uma quebra definida, mas pode-se perceber o início de um estilo mais sombrio e emotivo que o do período anterior. Esta transição ocorre primeiro em Inglaterra e França cerca de 1200, na Alemanha cerca de 1220 e na Itália cerca de 1300.

A característica mais evidente da arte gótica é um naturalismo cada vez maior. Essa qualidade, que surge pela primeira vez na obra dos artistas italianos de fins do século XIII, marcou o estilo dominante na pintura europeia até o término do século XV. O período gótico estendeu-se por mais de duzentos anos, surgindo na Itália e disseminando-se para o resto da Europa. Os italianos foram os primeiros a utilizar o termo gótico, indicando pejorativamente a arte que se produziu na Renascença tardia, mas que ainda seguia um estilo medieval. Era uma referência ao passado bárbaro, em especial aos godos. A palavra perdeu o tem depreciativo e passou a designar o período artístico entre o românico e o Renascimento. A arte gótica pertence sobretudo aos últimos três séculos da Idade Média.

A pintura (a representação de imagens numa superfície) durante o período gótico era praticada em quatro principais ofícios: afrescos, painéis, iluminura de manuscritos e vitrais. Os afrescos continuaram a ser utilizados como o principal ofício pictográfico narrativo nas paredes de igrejas no sul da Europa como continuação de antigas tradições cristãs e românicas. No norte, os vitrais foram os mais difundidos até ao século XV. A pintura de painéis começou na Itália no século XIII e espalhou-se pela Europa, tornando-se a forma dominante no século XV, ultrapassando mesmo os vitrais. A iluminura de manuscritos representa o mais completo registo da pintura gótica, fornecendo um registo de estilos em locais onde não sobreviveu nenhum outro trabalho. A pintura a óleo em lona não se tornou popular até aos séculos XV e XVI e foi um dos ofícios característicos da arte renascentista.

No começo do período gótico, a arte era produzida principalmente com fins religiosos. Muitas pinturas eram recursos didácticos que faziam o cristianismo visível para uma população analfabeta; outras eram expostas como ícones, para intensificar a contemplação e a prece. Os primeiros mestres do gótico preservaram a memória da tradição bizantina, mas também criaram figuras persuasivas, com perspectiva e com um maravilhoso apuro no traço.

Fases da pintura gótica

Primórdios do gótico

A pintura gótica teve início na Itália. Só em fins do século XII o estilo gótico apareceu em pinturas e painéis de Florença e Siena. Ele demonstrava mais realismo do que o encontrado na arte românica e na arte bizantina, caracterizando uma fuga da chamada maniera greca, que dominava a Itália, para um estilo mais real. Havia fascínio pela perspectiva e pela ilusão de criar espaços que pareciam reais, com figuras menos rígidas e estilizadas. Há também um interesse pela narrativa pictórica e uma espiritualidade intensificada.

Escola Sienesa

duccioO pintor sienense Duccio também se afastou da bidimensionalidade bizantina, ainda que tenha sido fortemente influenciado por ela. Nos séculos XIII e XIV, a cidade de Siena competia com Florença no esplendor de suas artes. A maior obra de Duccio foi a Maestà (ainda que nem toda a obra tenha sido executada pelo artista), encontrada na catedral de Siena em 1308 e ali instalada em 1311.

Posteriormente, a obra foi desmantelada e vendida, em parte porque não a apreciavam mais. Como consequência, há painéis da Maestà em diversas partes do mundo, como Washington, DC, Nova York e Londres. A Maestà foi pintada dos dois lados; a face anterior tinha três partes. Embora a face anterior da Maestà revele fortes laços com a tradição bizantina, a influência da Europa Setentrional pode ser vista nas formas graciosas e ondulantes das figuras. Duccio recebeu essa influência de segunda mão, por intermédio das esculturas de Nicola Pisano e Giovanni Pisano.

O artista mais puramente gótico de Siena era Simone Martini. Ele, um dos pintores sienenses, é o único que pode ter rivalizado com Duccio. Sua arte ainda mantinha laços com a tradição bizantina da espiritualidade remota, mas reconhecia o apurado estilo gótico norte-europeu (representado pela França) que naquela época era bem popular em Siena. Em 1266, um dos ramos da Casa Anjou estabeleceu uma corte em Nápoles e Simone foi chamado para pintar uma obra encomendada pelo Rei Roberto, o Sábio. Simone foi o artista definitivo do estilo gótico-italiano e um dos primeiros expoentes do gótico internacional.

Escola Florentina

O mais proeminente artista de Florença no final do século XII era Cimabue, que acredita-se ter sido o professor de Giotto. Ele era um artista do estilo bizantino, mas libertou-se da bidimensionalidade, avançando para o realismo. Sua obra mais conhecida é a Maestà, que estava no altar da igreja de Santa Trinità, em Florença. Cimabue foi um dos grandes mestres do Docento.

Enquanto Duccio reinterpretava a arte bizantina em Siena, seu contemporâneo fiorentino, Giotto, a transformou. O revolucionário tratamento que dava à forma e o modo como representava realisticamente o espaço, introduzindo a tridimensionalidade, assinalaram um grande passo na história da pintura. A pintura gótica chegou a seu ápice na Itália com Giotto. Ele foi para Roma em 1330 e pintou um afresco no palácio de Latrão. O artista compreendeu as inovações de Pietro Cavallini, o artista local cujos vigorosos e belos afrescos e mosaicos mostram um domínio do naturalismo, seguindo a tradição da arte romana e da arte paleocristã. A Cappella degli Scrovegni, em Pádua, está adornada com a maior das obras de Giotto que chegaram até nós: um ciclo de afrescos pintados por volta de 1305-1306 para mostrar cenas da vida da Virgem e da Paixão. Outra obra importante foi a ciclo com a vida de São Francisco de Assis. Giotto tinha um grande poder de organizar a agitação de uma cena em torno de uma imagem central, como vemos em sua mais famosa obra, O Beijo de Judas.

Se Simone Martini é discípulo de Duccio, então os irmãos Lorenzetti, (Pietro Lorenzetti e Ambrogio Lorenzetti) trazem a marca de Giotto. Ambos os irmãos morreram subitamente em 1348, tendo sido vítimas prováveis da Peste Negra. Entre as paisagens executadas nesses período, a obra-prima que constitui o direito de Ambrogio à fama é o afresco que representa os Efeitos do bom governo na cidade e no campo, encomendado para o interior do Palazzo Pubblico de Siena. Era a primeira tentativa de mostrar um cenário real com habitantes reais.

A Peste Negra afectou profundamente Florença e Siena. Sua versão mais impressionante é um afresco executado em 1350 no Camposanto, o cemitério junto à catedral de Pisa. Essa obra, atribuída a Francesco Traini, reproduz fragmentos dramáticos. Um incêndio, em 1944, danificou o afresco, que teve de ser retirado. Com a remoção, pôde-se ver a técnica usada para a elaboração da obra, o sinopie.

Pode-se dizer, em termos gerais, que aos Primórdios do Gótico corresponde a época do Trecento na arte italiana.

Gótico Internacional

Em fins do século XIV, a fusão da arte italiana e norte-européia já resultara no desenvolvimento do estilo gótico internacional. Destacados artistas viajaram da Itália para a França e vice-versa e por toda a Europa. Idéias foram disseminadas e combinadas, até que obras nesse estilo surgiram na França, Itália, Inglaterra, Alemanha, Áustria e Boémia. O centro dessa grande fusão cultural foi a Corte de Avignon.

dip_wiltonUm exemplo clássico do estilo verdadeiramente internacional é o Díptico Wilton, que hoje está na National Gallery, de Londres. A obra pode ter sido pintada em qualquer época durante o reinado de Ricardo II de Inglaterra. Não há consenso sobre a nacionalidade do artista, o que marca profundamente o Gótico Internacional.

No início do século XV, a antiga arte da iluminura ainda era a forma de pintura que prevalecia na França. Ela chegou a novas culminâncias na obra dos Irmãos Limbourg: Pol, Herman e Jean. Eles vinham da Guéldria, uma província dos Países Baixos, mas trabalhavam na França. Sua obra-prima conjunta dos Limbourg, o Livro das Horas, ou As Três Riquíssimas Horas, foi encomendada por um abastado coleccionador de manuscritos, o Duque de Berry. Ela pertence a um género de livro de orações ilustrado, os chamados livros de horas. As horas eram preces a serem ditas em uma das sete horas canónicas do dia. O livro incluía também um calendário. A obra estava incompleta quando os artistas morreram, provavelmente devido à Peste Negra. Cada um dos meses é ilustrado, que, em geral, reproduz cenas da estação.

O gótico internacional também é exemplificado por Gentile da Fabriano. A maioria de suas obras não chegou até nós. Das que perduraram, a mais extraordinária é A Adoração dos Magos, encomendada por Palla Strozzi, o homem mais rico de Florença, para a igreja da Santa Trinità. A mesma luminosidade de Gentile pode também ser vista em outro artista e medalhista italiano Antonio Pisanello. Vários de seus afrescos foram recentemente descobertos em Mântua.

Algumas obras da arte gótica mostram o impacto da Peste Negra. Esta epidemia, que hoje se acredita ter sido a peste bubónica, devastou a Europa, entre 1347 e 1351. À época, muitos a consideravam um castigo de Deus. Artistas como o Mestre das Horas de Rohan espalhavam em suas obras o interesse pela morte e pela sentença divina. No mesmo período, outros exemplos do gótico internacional não parecem afectados pela Peste Negra, como nas obras do mestre sienense Sassetta. Durante toda a vida de Sassetta, os sienenses tiveram uma existência tranquila sob um governo republicano e Siena pôde rivalizar com Florença nas artes.

Outro importante artista do gótico internacional foi Melchior Broederlam, um flamengo que trabalhou para a corte do duque de Borgonha, em Dijon. Seus painéis apresentam as características do gótico internacional: a qualidade pictórica suave e seu realismo de pormenor.

Gótico no Norte da Europa

Gerard David, Hieronymus Bosch e Matthias Grünewald eram todos pintores quinhentistas e contemporâneos de artistas setentrionais como Albrecht Dürer, Lucas Cranach e Hans Holbein. As obras dos primeiros preservam vínculos com a tradição gótica, ao passo que os últimos sofreram forte influência da Renascença italiana. Assim, duas vertentes, a arte gótica e a arte renascentista, coexistiram no norte da Europa na primeira metade do século XVI.

Gerard David foi o sucessor de Memling em Bruges e foi um artista bem-sucedido. O estilo característico dos Países Baixos chega ao auge em sua obra. O pintor Hieronymus Bosch fica à parte. Tinha um estilo inigualável e seu simbolismo permanece vívido ainda hoje. Bosch expressa as ansiedades de uma época de convulsão social e política. Bosch é célebre por suas obras fantásticas e misteriosas. O rei espanhol Felipe II era admirador de sua obra e formou uma colecção de pinturas do artista.

A última florescência do gótico se deu com Matthias Grünewald. Talvez tenha sido contemporâneo de Albrecht Dürer. Nenhum outro pintor expôs de forma tão terrível o sofrimento e a certeza da salvação. Sua obra maior, O Retábulo de Isenheim, que se encontra em Colmar, na Alsácia, foi encomendado pelo mosteiro de Issenheim e deveria servir de consolo aos pacientes do hospital. Em Grünewald, a arte gótica alcançou uma grandeza electrizante.

Outras manifestações da pintura gótica

Vitrais

heraldry3A arquitectura gótica fez surgir o interesse pelos vitrais. O Abade Suger de Saint-Denis sublinhava sempre o efeito miraculoso produzido pelos janelões nas igrejas góticas, como em Saint-Denis e na Catedral de Chartres. Com o tempo, o vitral passou a ocupar o lugar da iluminura, como forma pictural dominante. O majestoso Habacuc, na Catedral de Bruges, em uma das janelas da série com profetas no Velho Testamento, está directamente ligado ao estilo de Nicholas de Verdun. A construção dos vitrais requeria um planeamento metódico dos projectos, para o qual não havia precedentes na pintura românica. Os procedimentos de construção de vitrais podem ser estudados em parte na obra de Villard de Honnecourt, arquitecto que trabalhou em 1240. O período de 1200 a 1250 pode ser considerado a idade de ouro dos vitrais. Com o tempo, a iluminura recuperou seu espaço. Entretanto, a sua elaboração foi profundamente influenciada pelo vitral e pela escultura em pedra.

Iluminuras

Nas novas iluminuras, como no Saltério de São Luís, verifica-se a preocupação com o enquadramento, muito parecido com o dos vitrais. Até o século XIII, a produção das iluminuras estava confinada aos mosteiros. Então, pouco a pouco, a produção é transferida para as oficinas urbanas, criando-se uma arte profana. Alguns membros dessa nova linhagem de iluminadores é conhecida, como o Mestre Honoré, que, em 1295, pintou as miniaturas do Livro das Horas, de Filipe, o Belo.

As iluminuras ao norte dos Alpes forma muito influenciadas pelos grandes mestres italianos, como Duccio. As drôleries são um traço característico da iluminura gótica setentrional. Seu repertório abrange uma vasta gama de motivos: a fantasia, a fábula, o humor grotesco, etc.

Gótico português

Arquitectura

Em Portugal, o estilo gótico aparece no último quartel do século XII, com as obras do Mosteiro de Alcobaça (começado em 1178 e habitado a partir de 1222). O Mosteiro, fundado pelo primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, para a Ordem Cisterciense, é a primeira obra totalmente gótica de Portugal. Entretanto, a dissolução do estilo românico pelo gótico ocorreu lentamente, havendo muitas igrejas portuguesas de estilo de transição românico-gótico datando do século XIII e até do século XIV.

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A expansão da arquitectura gótica em Portugal deveu muito às ordens religiosas mendicantes (franciscanos, dominicanos, carmelitas, agostinhos), que construíram vários mosteiros em cidades portuguesas nos séculos XIII e XIV. Importantes exemplos são as igrejas franciscanas e dominicanas de Santarém e Guimarães, o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha em Coimbra (hoje em ruínas), Mosteiro de São Francisco do Porto, Igreja do Convento do Carmo em Lisboa (hoje em ruínas e usado como museu arqueológico) e muitas outras. Também as ordens medievais militares contribuíram para a expansão do gótico, por exemplo com Igreja de São João de Alporão de Santarém e o Mosteiro de Leça do Balio (pertencente aos Cavaleiros Hospitaleiros), e com a Igreja de Santa Maria dos Olivais de Tomar (fundada pelos Cavaleiros Templários). Algumas catedrais portuguesas também foram construídas em estilo gótico, como a Sé de Évora (séc. XIII-XIV), a Sé de Silves (séc. XIV-XV) e a Sé da Guarda (finais séc XIV-XVI).

m_batalha_cap_fundadorUm marco na arquitectura gótica portuguesa é o Mosteiro da Batalha, construído a mando do rei D. João I para comemorar a vitória na Batalha de Aljubarrota contra os castelhanos. A obra do mosteiro, começada em 1388 e que seguiu até o século XVI, introduziu o gótico internacional flamejante em Portugal, distanciando-se da estética mendicante. Esse mosteiro influenciaria muitas obras de Portugal do século XV, como a Igreja da Graça de Santarém, a capela do Castelo de Leiria, a Sé da Guarda, o Convento da Nossa Senhora da Conceição de Beja, entre outros. O mosteiro da Batalha está estritamente ligado ao patrono da nossa loja, Mestre Affonso Domingues.

A dissolução do gótico pelo estilo renascentista ocorreu lentamente, sendo o estilo intermediário chamado manuelino devido a que coincidiu com o reinado do rei D. Manuel I (1495-1521). O manuelino mistura formas arquitectónicas do gótico final com a decoração gótica e renascentista, criando um estilo tipicamente português. A partir do Mosteiro de Jesus de Setúbal, considerado a primeira obra manuelina, o estilo se espalha por Portugal e atinge o ápice com a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerónimos, ambos em Belém (Lisboa), a Igreja do Convento de Cristo de Tomar, as Capelas Imperfeitas e Claustro Real do Mosteiro da Batalha, além de muitos outros monumentos.

Além da arquitectura religiosa, muitos castelos foram construídos e/ou reformados em estilo gótico em Portugal, como os Castelos de Leiria, Estremoz, Beja, Bragança e Santa Maria da Feira.

Outras artes

Na escultura destacam-se os túmulos de D. Pedro I e de Inês de Castro, no Mosteiro de Alcobaça (séc. XIV), os túmulos reais do Mosteiro da Batalha (séc. XV), os túmulos da Sé de Lisboa, e das Sés de Braga e Évora (sécs. XIV-XV) e muitos outros. Na pintura destaca-se Nuno Gonçalves e os Painéis de São Vicente (cerca de 1470), atribuídos a ele e hoje no Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa.

O gótico e os descobrimentos

igreja-v-campoDurante o século XV e início do século XVI, os estilos gótico e manuelino foram levados pelos portugueses a seus domínios d’além mar, particularmente as ilhas atlânticas dos Açores e Madeira. Por exemplo, a Igreja Matriz de Vila Franca do Campo (Ilha de S. Miguel, Açores) e a Sé do Funchal (capital da Ilha da Madeira), que foi construída entre 1493 e 1514, é uma típica igreja gótica-manuelina. No Brasil, por outro lado, não há construções góticas ou manuelinas, devido a que a colonização do território começou a partir de 1530, quando o estilo renascentista já era o estilo usado em Portugal.

Neogótico

Dentro do espírito revivalista do Romantismo surge o gosto pela recriação de elementos da arte medieval, especialmente do gótico. Particularmente em Inglaterra esta nova corrente tem grande adesão, iniciando já em finais do século XVII com a aplicação de ornamentação ao estilo gótico em algumas construções novas. A partir de meados do século seguinte, e já não se assumindo somente como uma alternativa ao Rococó, este gosto é encarado com mais seriedade ficando também conhecido como victorian gothic (gótico victoriano).

Mas também a França assume uma posição representativa no Neogótico, liderada pela figura de Viollet-le-Duc e pelo seu trabalho na área do restauro em diversas catedrais francesas góticas. Não só assumiu um papel pedagógico no ensinamento das técnicas de aplicação deste gosto em construções modernas, como também compilou na Encyclopédie médiévale as diversas variantes formais do estilo, desde a arquitectura à indumentária da época.

Com mais ou menos intensidade o fascínio por esta época passada manteve-se até aos nossos dias um pouco por todo o mundo ocidental entrando pelo século XX adentro nas diversas vertentes artísticas ecléticas.

Fontes: adaptado de Wikipedia e Enciclopedia Luso-Brasileira

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