Os arquivos secretos do Vaticano

O Homem sempre teve interesse e muita curiosidade por tudo que não vaticano está ao seu alcance (das mãos, da visão e do seu conhecimento). Faz parte da nossa natureza “desvendar” os mistérios que rondam as instituições estabelecidas, o universo, a mente humana, a fé religiosa e todas as coisas que através dos séculos vêem trazendo indagações que ainda não foram respondidas.

O acervo histórico do Vaticano é um dos mais belos e completos do mundo. Inclui obras que retratam os deuses Apolo, Perseu, Hermes, Eros, Dionísio, além de afrescos com desenhos de passagens do Antigo e Novo Testamento. As salas especiais comportam um grande material do Egipto, como sarcófagos, tumbas, estelas (obra ou monumento feito de um só bloco de pedra) e estátuas de vários deuses, entre os quais, Osíris, Isis etc. Também não faltam salas dedicadas ao estudo de talismãs e mapas. Bigas, mosaicos dos primeiros séculos, tesouros, jóias e vasos antigos do tempo dos etruscos (relativo à Etrúria ou Tirrénia – Itália antiga) também fazem parte deste acervo valiosíssimo. Vale também destacar as extraordinárias pinturas de Rafael, Leonardo da Vinci, Caravaggio, Fra Angélico e a obra ímpar de Michelangelo, dentre outros.

No subsolo do Cortile della Pigna, o pátio do Museu do Vaticano que leva à Capela Sistina, a alguns metros de profundidade, encontra-se o Arquivo Secreto do Vaticano. O “bunker”, como é chamado pelas pouquíssimas pessoas autorizadas a entrar, é um cubo de concreto armado que protege tesouros de valor inestimável: pastas, livros de nobres famílias romanas, registros papais, correspondências diplomáticas e documentos do Tribunal Eclesiástico, dentre eles o julgamento dos Cavaleiros Templários (quanto aos Cavaleiros Templários existe um documento que é único em qualquer lugar do mundo: relatórios do julgamento da Ordem dos Templários, realizado pelo Estado Papal entre 1308 e 1310. Oito pergaminhos foram costurados uns aos outros para ficar com 56 metros de comprimento), milhões de informações e datas, nomes e registros repletos de histórias sobre papas, batalhas, descobertas geográficas que mudaram o mundo e as transformações de católicos fervorosos e hereges perigosos.

O Arquivo é um compêndio dos últimos séculos da história do mundo. O Arquivo abriga oitenta e cinco (85) quilómetros de prateleiras, num total de cerca de dois (02) milhões de registros que a Igreja Católica acumulou através dos tempos.

Entre os documentos de época, está o manuscrito em que Galileu Galilei abjurou das suas teorias, aceitando a condenação da Igreja (1633); o Privilegium Ottonianum, com que o Imperador Otto I da Saxónia se comprometeu a defender o pontífice de eventuais ataques e agressões (962); a excomunhão de Martinho Lutero (1520); a carta em que o papa Celestino V fez a “grande recusa”, renunciando ao papado (1294); o dogma da Imaculada Conceição, assinado por Pio IX (1854). Entre outros muitos, encontrando figuras históricas tão diversas como Wolfgang Amadeus Mozart (de quem está arquivada a decoração pontifícia), Abraham Lincoln (com o discurso que encerrou a escravidão nos Estados Unidos em 1865) e Napoleão Bonaparte (o Tratado de Tolentino, acordo diplomático entre a França e os Estados Pontifícios em 1797, que obrigou o papa Pio VII a entregar manuscritos valiosos e importantes obras de arte). Documentos relativos às administrações do Estado do Vaticano e processos da Inquisição, cartas de Michelangelo, a anulação do casamento de Henrique VIII (que levou à separação da Igreja da Inglaterra e de Roma) e a sua excomunhão (1533) estão presentes neste arquivo secreto.

A história oficial do Arquivo Secreto do Vaticano começa em 1612, ano em que foi fundado pelo papa Paulo V (1605-1621). A sua história não oficial remonta a um passado ainda mais distante. A Igreja sempre sentiu uma forte necessidade de preservar a sua história, desde que a sua existência era ameaçada por perseguições. Após a legalização do cristianismo pelo édito de Constantino, em 313 d.C., códices litúrgicos e documentos legais começaram a ser armazenados.

Explorar o bunker e as salas climatizadas onde estão guardados os mais valiosos pergaminhos, é viajar pela história e buscar relatos de testemunhas oculares dos acontecimentos e personagens que nem sempre são apresentados nos livros de história. O Vaticano trabalha por pontificados: os papéis estão liberados para consulta até o pontificado de Pio XI, ou seja, até Fevereiro de 1939. O polémico pontificado de Pio XII, os anos da Segunda Guerra Mundial, o início da Guerra Fria e os governos ditatoriais de toda América Latina, ainda são confidenciais. Contudo, alguns papéis, por exemplo, aqueles que poderiam ser úteis para encontrar pessoas desaparecidas, ou pessoas que tinham encontrado abrigo na Igreja durante a guerra, já não são confidenciais.

O termo “secreto” encontra-se, actualmente, apenas na expressão que denomina o conjunto destes textos, pois grande parte deles está hoje disponível para estudiosos e pesquisadores. Este acesso é mediado por um rigoroso aparato burocrático. Apenas académicos especialistas se podem registar. Depois de apresentar uma extensa documentação pessoal e profissional, se aprovados, recebem uma carteira de admissão. Nos espaços reservados, câmara fotográfica, celular, caneta ou qualquer outra forma de registo são proibidos. Os únicos arquivos que o pesquisador não poderá aceder são aqueles que ainda não têm 75 anos de idade (o Vaticano explica que necessita proteger as informações diplomáticas e governamentais: Será?). Para ver se um documento está disponível o Vaticano disponibiliza índices com todos os nomes dos documentos.

Uma aura de mistério envolve os Arquivos Secretos do Vaticano. O local é um imenso repositório de informações. Apenas parcialmente aberto para consulta, não é um simples depósito de dados, mas uma espécie de “área proibida”, que guarda detalhes que mudariam a história não apenas do cristianismo, mas da humanidade como a conhecemos. Lá seria possível encontrar informações “perigosas”, como os Evangelhos Apócrifos, o código da Bíblia, o verdadeiro terceiro segredo de Fátima, documentos confidenciais e outros, inclusive os relacionados à renúncia do papa emérito Bento XVI.

De acordo com o jornal italiano “La Repúbblica”, o papa Bento XVI recebeu um relatório secreto elaborado por três cardeais. O documento, com mais de 300 págs., traria informações sobre uma rede de poder paralelo dentro da Igreja, uma história recheada de casos de homossexualidade, extorsões e corrupção. Há ainda relatos de desvios de dinheiro com a ajuda do uso do Banco do Vaticano. A Igreja nem confirmou, nem desmentiu a notícia. O que se sabe, porém, é que o documento será repassado para o próximo papa e, certamente, irá para os arquivos secretos do Vaticano para ser consultado dentro de muitas décadas.

Se há algo que fascina as pessoas é poder ter acesso a dados considerados “proibidos”, que desafiam a realidade como a conhecemos e provoca o nosso imaginário a conjecturar qual seria, na verdade, a realidade.

António César D. Ribeiro

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *