Religião e Espiritualidade

Actualmente há uma grande procura por valores não materiais, por uma redefinição do ser humano, na medida em que os homens buscam sentido na sua existência e valores que inspirem a vida, pois estão descontentes com o desenrolar da realidade dos dias de hoje. Estão, igualmente, indignados com o destino actual e anseiam por mudanças; querem beber em novas fontes para encontrar a luz que ilumine os seus caminhos. O imenso e profundo vazio na alma do ser humano tem suscitado nos jovens, intelectuais, cientistas, empresários, executivos e no povo em geral a ideia da necessidade de mudanças. Anseiam por novos paradigmas.

Certa vez, perguntaram ao Dalai Lama: “O que é espiritualidade?” ao que ele respondeu: “Espiritualidade é aquilo que produz no ser humano uma mudança interior”. E esta pessoa perguntou novamente: “Mas, se eu praticar a religião e respeitar as tradições, não é tudo isto espiritualidade?” E o Dalai Lama retorquiu: “… pode ser espiritualidade, mas se isto não produz em si nenhuma transformação, então não é espiritualidade”. A pessoa atalhou: “A espiritualidade muda?” E o Dalai Lama disse: “O que ontem foi espiritualidade… hoje pode já não precisar mais ser”.

O que comumente se designa como espiritualidade não é outra coisa do que a lembrança de antigos caminhos e métodos religiosos. “Corte o manto para que se ajuste aos homens; não corte os homens para que se ajustem ao manto”. A religião não produz necessariamente uma mudança dentro de nós. Então o que em primeiro lugar temos de distinguir, contudo as separar, é religião e espiritualidade.

Distinção entre religião e espiritualidade

Todas as religiões fazem promessas ao ser humano: prometem a salvação, prometem a vida eterna e mostram o caminho para chegar a essa eternidade, que é o caminho da recta doutrina que contempla uma visão sobre Deus, sobre o céu, sobre quem é o ser humano e o que ele deve fazer neste mundo durante a sua vida. A religião não só anuncia as verdades, mas acentua as práticas comportamentais do homem, pois são fontes de Ética. No caso do Cristianismo, o comportamento do homem em vida é tão importante que praticamente é o que define a salvação ou não da alma. No Budismo, da mesma forma que no Cristianismo, só se salvam e entram no Nirvana as almas das pessoas que conseguiram que toda a sua vida ocorresse com comportamento recto e justo, numa prática profundamente coerente, numa amorosidade com as pessoas, numa compaixão com todos os que sofrem, num sentido de responsabilidade pela vida dos outros e numa vida de total despojamento para poder estar aberto e acolher tudo o que vier da realidade. Se conseguirmos cumprir essas práticas, estaremos a garantir o caminho para o Céu, que é o Nirvana e que é a suprema realização do ser humano. Contudo, as religiões podem desligar-se da verdadeira fonte, pois os poderes religiosos podem se articular com outros poderes e daí ganhar força, preponderância e supremacia, como, por exemplo, durante os três séculos em que a Inquisição actuou no Ocidente, período que talvez tenha sido o de maior violência: milhares e milhares de homens e mulheres imputados como hereges e/ou acusados da prática de bruxaria, queimados vivos pelo Santo Ofício, além de tantas outras pessoas silenciadas e supliciadas sob as mais diversas e estapafúrdias acusações.

Se olharmos para os fundadores religiosos como um Buda, como um Isaías, um Jesus Cristo, um São Paulo e, modernamente, um Martin Luther King ou um Mahatma Gandhi, perceberemos que foram pessoas profundamente carismáticas, que mergulharam a fundo no misterioso mundo íntimo do ser humano e que tiveram encontro com a realidade última, pessoas que se encontraram com Deus. E esse encontro com Deus modificou as suas vidas e trouxe-lhes profunda mudança interior.

Ao traduzirem essas experiências, surgem as religiões, surgem os credos, a ética, surge o Sermão da Montanha, que nada mais é do que o resumo daquilo que o cristão se propõe a viver em termos de comportamentos. Surgem, ainda, as celebrações, as missas, os cultos, o cultivo da memória dos mártires, as cerimónias que ocorrem durante as nossas vidas, tais como o baptismo, o casamento, etc. Se a religião produzir continuamente estas experiências, transforma-se­ em espiritualidade; se não transformar a nossa interioridade, continuará a ser religião que pode ser usada e manipulada, ir para os “média” e com a qual pode fazer negócios.

A religião pode armar exércitos, convencer pessoas para certas causas, mas se não reconduzir o ser humano continuamente à dimensão espiritual, pode tornar-se um ópio do povo, pode até transformar-se num fetichismo e, consequentemente, pecar continuamente contra Deus.

Por isso, sábio foi Moisés, profeta e condutor de povos, que disse: “Não usar o santo nome de Deus em vão!” Talvez seja este o mandamento contra o qual as religiões mais pecam, porque usam o nome de Deus para todas as coisas, especialmente hoje pelas religiões imediatistas, cujo cristianismo televisivo e mercadológico é uma grande fonte de mobilização e de fazer dinheiro. Usa-se, então, o nome de Deus para atender aos interesses pessoais e não para os interesses de Deus ou da natureza do Sagrado.

Espiritualidade tem a ver com experiência na dimensão espiritual e não com a doutrina, com os dogmas, com os ritos ou com as celebrações. Estes caminhos institucionais podem-nos ajudar na espiritualidade e é grandioso quando a religião consegue a canalizar a energia espiritual e dar a beber continuamente da sua fonte. Então é uma religião que não manipula os seres humanos, nem os aterroriza na sua consciência, nem os prende na trama dos seus dogmas: entende tudo isto como um aceno sobre o mistério, como indicações sobre o inefável.

Cada um de nós tem uma dimensão espiritual, isto é, cada ser humano tem uma dimensão do amor, da sensibilidade, da responsabilidade, do cuidado; tem a percepção dos valores pelos quais vale a pena sacrificar a vida e até usar a sua vida para defender o filho ou para defender um ente amado. E se a pessoa não fizer isto, ainda que ninguém o esteja vigiando ou cobrando, estará sempre a fugir da sua consciência.

Todas as pessoas escutam uma voz, uma mensagem que vem do Universo, de toda a Realidade, e perguntam-se o que se esconde atrás das estrelas. Nos nossos escritórios, nos nossos gabinetes de trabalho, podemos ser cínicos, podemos acreditar em qualquer coisa, ao mesmo tempo que podemos não acreditar em muitas outras coisas. Mas não podemos desprezar a aurora que acontece todas as manhãs, não podemos odiar o olhar inocente de uma criança. Não podemos, indiferentes, olhar para a profundidade do céu estrelado sem cair no silêncio e com respeitosa reverência perguntar: “O que é que se esconde atrás das estrelas?” “Qual é o caminho da minha vida?” “O que é que posso esperar depois da minha vida terrena?

Quando colocamos estas questões, revelamo-nos como seres espirituais; quando nos abrimos para acolher estas mensagens, procuramos orientar as nossas vidas, para que tudo isto produza leveza e irradiação humanitária numa verdadeira dimensão espiritual.

Um grande conhecedor da psique humana, Carlos Gustavo Jung, deu muita importância à religião no processo de individualização, porque a religião trabalha a mística e a espiritualidade trabalha grandes sonhos, projecta grandes esperanças. Dizia Jung: “Em todos os meus clientes com mais de 35 anos, o problema mais profundo era constituído pela questão de sua atitude religiosa”. Todos, em última instância, estavam doentes por terem perdido aquilo que uma religião viva sempre deu, em todos os tempos, aos seus seguidores. E ninguém se curou, realmente, sem recuperar a atitude religiosa que lhe fosse própria. Isto está claro, não depende absolutamente de uma adesão a um clero em particular, nem de se tornar membro de uma Igreja, mas deve-se integrar na sua dimensão espiritual. Estamos acostumados a analisar os nossos problemas financeiramente, psicologicamente e juridicamente, e esquecemos que também devemos analisá-los espiritualmente.

Muito das nossas angústias e das nossas doenças vêem por uma dimensão espiritual não desenvolvida, ou anémica, ou distorcida ou totalmente ocultada. Há dentro de nós uma chama sagrada coberta de cinzas pela nossa cultura de consumo, da busca de bens materiais, de um viver distraído das coisas essenciais da vida. Precisamos energizar esta chama sagrada dentro de nós e se reservamos para a nossa vida um pouco de espaço para esta espiritualidade, ela vai transformar-se de uma chama numa brasa e da brasa num grande fogo interior, que irradia e produz calor e nos dá mil razões para vivermos como seres humanos, porém na direcção da fonte de toda espiritualidade, que é a fonte original, fonte do amor, da fé e da esperança.

Conclusão

Se nos acostumarmos com este encontro com o Divino, este enamorar com Deus, Ele, DEUS, passa a ser uma experiência de pele, uma experiência tão global que entra nos olhos, entra no coração, entra na fantasia, entra nas progressões. Deus é substância na nossa própria substância.

Gilmar António dos Santos, M∴M∴
20 de Março de 2009

Bibliografia:

  • “Espiritualidade, um caminho de transformação” – Leonardo Boff – Editora Sextante – 2001
  • “Uma ética para o novo milénio” – Dalai Lama – Editora Sextante – 2000
  • Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

2 Comentários em “Religião e Espiritualidade

  • Caro Ir.’. Antonio Jorge…boa noite ..como está???? Somente agora é que fiquei sabendo que o Ir.’. é o responsável por este site sensacional!!!! Parabéns Meu ir.’.!!!! E também pela magnifica matéria exposta acima!!!!, bem como dentre outras, o que nos dá a oportunidade a cada dia a oportunidade de aprender mais e mais!!! Sou-lhe muito grato , bem como diversos IIr.’. que acompanham este maravilhoso site. Gosto muito da forma em que o Ir.’. aborda estas matérias!!! Felicidades e muito sucesso!!! TFA

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    • Bom dia, I:.. É um prazer receber estas palavras de apoio que naturalmente agradeço. Caso o I:. ou algum dos seus irmãos tenham trabalhos que desejem publicar, fico à vossa disposição. Receba um TAF de António Jorge.

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