Rito e a arte da conversação em Loja

O fundador do pensamento chinês, Kung Fu Zu (Confúcio) e o enciclopedista amigo de Voltaire, o Abade Morellet, cada um no seu estilo e à sua própria maneira mostram pela primeira vez a importância do rito para a segunda arte da conversação como pré-requisitos para as relações humanas e o seu bom funcionamento. Isto irá deliciar os maçons…

Inquestionavelmente, estão bem a importância do ritual e a arte da conversação no coração da prática maçónica e da sua formação, que o Maçon trabalha na sua loja simbólica. Ao diabo, então, as oficinas de Altos Graus, pois mesmo nos graus simbólicos o Maçon não perde o seu tempo e ganha em humanidade sempre que é assíduo …

Porquê tal abordagem?

Os tempos reclamam de incivilidade que atrapalha ou perturba o nosso quotidiano. A pessoa média sente-se agredida por um mundo que não mais respeita os princípios básicos de cidadania. O que preconiza o Mestre Kung que parece ter experimentado o mesmo clima social no seu país? Que explicação ele dá, mestre de vida mais que filósofo?

Ele explica este impossível viver juntos pela decadência e dissolução dos rituais. Estes últimos ocupam um lugar central na sociedade chinesa (e mais geralmente asiática) e a sua não-observância (primeiro nos altos escalões do poder) provoca a miséria e a ruína das cidades.

Os rituais regulam a relação entre os homens e distribuem as funções. Alguns podem inquietar-se, talvez, destacando que eles fixam os lugares entre os indivíduos. Obviamente, existem germes de esclerose nessa visão de mundo, mas ela oferece a possibilidade de um relacionamento real. Um hábil compromisso entre distância e proximidade.

O poder ambíguo do rito

O rito cria aproximação, mas ele também cria uma certa distância. Ele tende a proteger a relação de um perigo: de que a fusão onde um dos actores pode exceder a medida, desviar-se, manipular e tirar proveito do seu ascendente. Comportar-se humanamente é comportar-se ritualmente, diz o texto numa frase brilhante “vencer o seu ego a si mesmo no sentido dos ritos” ou tomar o problema de outro lado, procurar o seu estrito interesse é infringir os ritos. Em maçonaria, o iniciado aprende a se disciplinar e compreender o mundo através do ritual. É interiorizando o ritual no início, e em seguida, aprofundando por meio de um trabalho reflexivo que o Maçon se constrói e transforma ao mesmo tempo a sua vida no mundo profano e as relações com o seu ambiente. Terá entendido, definitivamente, que o ritual à moda maçónica ou “à asiática” acalma as relações entre indivíduos e enriquece-os porque cria um conjunto de atitudes conducentes a essas relações, instalando um fundo comum.

O rito ou o ritual não é de maneira nenhuma um formalismo vazio e restritivo, mas uma estrutura mínima que torna possível o intercâmbio. Ele também deixa espaço para a expressão de uma certa subversão ou termos como fantasia, provocação. Mas sempre sob a condição de harmonia, noção cardeal na Ásia: o ritual bane a dissonância, as notas falsas, os contratempos, as estridências.

Aprender a língua e a comunicação

Quanto ao Abade Morellet que num ensaio sobre a conversação retoma talvez com menos verve os argumentos de Jonathan. Swift, ao lidar com o mesmo assunto, a sua existência mundana adicionada à sua leitura de Swift permite-lhe listar um conjunto de “vícios” a serem banidos dos nossos intercâmbios. Erros, que na sua maioria, ele atribui ao inglês. Ele menciona, entre outros, a desatenção, o pedantismo, a falta de continuidade das ideias, o espírito de brincadeira, o despotismo ou espírito de dominação, a ânsia grande demais de mostrar o espírito. O que visa Morellet neste ensaio? Se ele sacrifica a uma moda da época, este gosto por colecções de erros a evitar e códigos a respeitar (falaremos dos manuais de etiqueta de hoje), o abade defende os benefícios e as virtudes da conversação. O Abade Morellet lembra, por exemplo, que uma grande parte dos homens deriva o seu conhecimento da conversação ignorante ou negligencia a leitura. Mas, principalmente, ele pretende ser um professor de linguagem ou de comunicação. Nostálgico diante do que ele pressente ser o seu declínio, ele que frequentou assiduamente os salões, defende um ideal de equilíbrio e mostra como a arte da conversação implica para o locutor assumir uma posição onde a dosagem, equilíbrio e contenção são essenciais. Por outras palavras e para explicar o nosso autor, trata-se de agradar sem cair na autobiografia ou no monólogo, instruir sem ser douto e sentencioso, ser espiritual sem passar por brincalhão, de raciocínio rápido sem apressar o interlocutor.

Encontrar uma justa medida entre o bom humor, a euforia e a intoxicação, a polémica ou a raiva, a o espírito contencioso. É indesejável aquele que carrega tudo, bem como aquele que cai no defeito inverso, aquele que se refugia no silêncio: o mudo. A conversa exige ou convoca diversos talentos. Talento perdido ao longo dos séculos substituídos por outros comportamentos ou por práticas formais técnicas sem afectação e sem desafio.

A arte de viver sozinho e em sociedade

A sessão maçónica, que Morellet certamente teria apreciado e de que teria elogiado a atmosfera, tenta contra todas as probabilidades da modernidade, preservar um lugar e um tempo para o verdadeiro intercâmbio. Melhor ainda, ela ambiciona iniciar, formar os seus seguidores na verdadeira comunicação.

É indiscutível que durante a sessão, o Maçon aprende a controlar os seus sentimentos e emoções, a ouvir os outros, a compreendê-los, a criticá-los, por que não?, mas sem os desqualificar ou anular. A loja aumenta gradualmente um meio justo e estabelece um padrão de conversação para os seus membros, uma espécie de boa altura, um tom de referência (para ficar na metáfora musical). O Maçon encontrará consequentemente em loja e muito concretamente as manias apontadas por Morellet e os seus conselhos sobre o uso da linguagem, as suas lições de psicólogo sobre como se portar em sociedade.

Uma sociabilidade ideal

A educação maçónica e a sua arte da conversação que ela quer promover (a diferentes títulos) combate desde o início da grosseria, visa dar ao aprendiz os meios de se autodisciplinar e sentir por si mesmo – em vez de coagido – as regras do decoro.

A conversação, actividade central da loja é, sem dúvida, a grande escola do espírito. Ela o estimula, o desperta, o torna vigoroso; ela desenvolve faculdades tais como memória e atenção e dá mais penetração ao julgamento. O Maçon descobrirá ali, entre outros aportes, uma sociabilidade ideal e bem vivida, pois compartilhada, enriquecedora ao invés de restrita, modelo que procurará reproduzir fora do templo.

Este desvio pelo século XVIII e pela Ásia não tinha outro propósito além de mostrar uma maçonaria de nível no seu século e que dotada de ferramentas robustas (a conversação e o ritual como principais) permanece operativa, terrivelmente eficaz ou seja, poderosa, sem ofensa aos seus detractores.

Jean-Pierre Dupuis
Adaptado de tradução feita por José Filardo

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