A história da Maçonaria moderna

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Contexto histórico da Maçonaria na Europa e na Inglaterra

Muito já se falou e se escreveu sobre a História da Maçonaria. Existem diversos livros e até mesmo inúmeros textos publicados na internet versando sobre este tema. Como neste libelo, a nossa proposta é tentar entender as possíveis causas que levaram as quatro Lojas de Londres a fundarem a Primeira Grande Loja de Londres e Westminster, então ficaremos circunscritos aos factos relevantes ocorridos mais especificamente na Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda, que actualmente formam a Grã-Bretanha.

Até o ano de 1707 aqueles quatro países gozavam quase que plenamente das suas autonomias administrativas. Entretanto em primeiro de Maio de 1707 foi criado o Reino Unido, homologando o Tratado de União de 1706 que visava unificar a Inglaterra, o País de Gales e a Escócia tendo como primeira regente a Rainha Ana i da Inglaterra que passou a receber o título de Rainha da Grã-Bretanha. A irlanda só foi unificada ao Reino Unido a partir de Janeiro de 1801, sob George III (Jorge III).

Entretanto acreditamos não ser possível compreendermos a totalidade da complexidade deste tema se não conhecermos um pouco melhor sobre a Arte da construção, a sua evolução e organização nos diversos períodos da história em toda a Europa e como esta organização chegou à Inglaterra.

Os registos mais antigos que a arqueologia nos proporciona sobre a utilização de material de alvenaria nas construções humanas datam de 6.000 antes de Cristo. Pequenas habitações ou aglomerados destas são encontradas na região da antiga Mesopotâmia. Entretanto o que é mais relevante é a construção dos chamados zigurates, que é um termo acadiano que significa “construção em área elevada”, que irão aparecer por volta do ano 4.000 a.C. nesta mesma região, no chamado Período Ubaid. No Egipto as pirâmides só surgiriam a partir de 2.600 a.C..

Os zigurates eram grandes estruturas piramidais formada por uma sequência de degraus de tijolos até chegar a um terraço no seu topo. Eles foram construídos pelos sumérios, babilónios, acadianos e assírios. Estas grandes construções eram feitas como habitação dos deuses e cada cidade tinha o seu próprio deus-patrono. o zigurate de Ur (2.100 a.C.) media 46 metros de largura, 64 metros de comprimento e cerca de 30 metros de altura.

O mais importante, para nós, neste tipo de edificação é o facto de que para a sua execução torna-se evidente o facto da necessidade de um mínimo de organização. Aí temos, por dedução, o registo do primeiro agrupamento criado especificamente para a edificação de um grande monumento. Supõe-se que para tal empreendimento não se consumia menos que dez anos.

Contudo não existem registos do tipo de organização de trabalho que foi empregue para a construção dos zigurates. De facto os primeiros registos para tal tipo de organização só iremos encontrar na construção da Grande Pirâmide, no Egipto. Segundo o egiptólogo doutor Zahi Hawass, há evidências que de um número próximo de 15.000 a 30.000 trabalhadores empregados na construção da Grande Pirâmide, cerca de 5.000 eram assalariados e permanentes. Hawass acredita que uma boa parcela destes trabalhadores eram voluntários, trabalhavam em troca de comida e bebida. Registos provam que vários recebiam um “salário de subsistência” de 10 pães e uma jarra de cerveja por dia.

Estima-se que apenas 4.000 destes trabalhadores estavam directamente ligados ao trabalho com as pedras, escolhendo-as, extraindo-as, dando-lhes forma e definindo o local exacto em que deveriam ser colocadas.

Registos dão conta de que havia diversos trabalhadores empregados como escribas, ferramenteiros e para serviços de apoio. Aqui vem o mais importante: as tumbas dão conta da forma e organização do trabalho. Existiam dois grandes grupos de 2.000 trabalhadores cada, chamado de “tripulação” (em alusão a um grande barco). Cada um destes grupos era dividido em mais dois grupos de 1.000 pessoas cada. Estes grupos de mil eram subdivididos em grupos de 200 trabalhadores denominados de zaa (traduzido para o grego como phyles = fraternidades) e estes 200 formavam, finalmente, 10 agrupamentos com 20 especialistas cada. Estes últimos agrupamentos eram divididos por especialidades de acordo com as suas habilidades e tendo o seu próprio líder e tarefas.

A organização destes grupos é bastante similar a estrutura sacerdotal egípcia. Cada subgrupo de 20 especialistas tinha o seu “supervisor” e assim sucessivamente. Esta casta de homens pagos e líderes tinha em mente o valor sagrado do seu trabalho.

O próximo registo de organização do trabalho visando a construção com pedras e tijolos encontramos na Bíblia. Por volta do século XI a.C. Salomão organiza o povo do seu reino para a construção do Templo que demorou cerca de sete anos. O livro de Reis (1 Reis 5:13 ss) dá conta que foram empregues 30.000 homens liderados por Adonhiram em três turnos de 10.000 homens para extraírem madeira do Líbano. Havia também 70.000 homens designados para as tarefas de transporte e 80.000 para o entalhe das pedras. O versículo 16 dá conta que “Afora os chefes dos oficiais de Salomão, que estavam sobre aquela obra, três mil e trezentos, os quais davam as ordens ao povo que fazia aquela obrei”.

Mais adiante lemos que “Estes eram os chefes dos oficiais que estavam sobre a obra de Salomão, quinhentos e cinquenta, que davam ordens ao povo que trabalhava na obra. (1 Reis 9:23)”.

Aqui vemos pela primeira vez a divisão hierárquica em três níveis: os 550 chefes, os 3.300 oficiais e os 180.000 trabalhadores em si. Aparentemente tudo isto coordenado por Adonhiram. Esta divisão tornar-se-á relevante no futuro para a Maçonaria.

Na Grécia antiga as grandes construções iniciaram-se a partir do ano 900 a.C. e pouco se sabe sobre qual teria sido a forma de organização dos seus trabalhadores. É, entretanto, unanimidade entre os pesquisadores, que os gregos utilizaram-se basicamente de força de trabalho escrava.

Platão dá-nos conta de que a classe dos artesãos gregos não era muito valorizada, pois trabalhavam segundo um sistema de trocas, mas que isto tinha mudado a partir do século V a.C. onde ele afirma ter uma “civilização de artesãos”. Para Aristóteles o trabalho manual entorpece e deteriora a mente, não deixando tempo nem energia para se praticar a filosofia e a política.

Desta forma vemos que existiram grandes arquitectos na Grécia, mas o trabalho destes para tornar realidade as suas concepções arquitectónicas empregava força escrava e uma coordenação militar no comando das actividades.

Da Grécia temos o legado das três Ordens de Arquitectura: a Dórica, a Coríntia e a Jónica, que serão também posteriormente utilizados na Maçonaria.

Porém tanto na Mesopotâmia, quanto no Egipto e em Israel não existe registo de continuidade dos agrupamentos formados para as construções. Eles desaparecem concomitantemente com o fim da obra em que foram empregados.

Os primeiros registos de uma organização reconhecida ‘ipso facto’ pelo Estado iremos encontrar já no período anterior da República Romana (500 a.C.), com os Collegia Opificum, formadas pelo rei Numa Pompílio, segundo rei de Roma (reinou de 715 a 673 a.C.).

O termo Collegium é traduzido literalmente como “juntos pela lei” e funcionavam como grupos sociais ou empresariais organizados. O Collegium não poderia ser formado por menos que três pessoas. Na Grécia antiga temos algo semelhante, a Hetaireia, mas a sua finalidade era puramente militar sendo composto por profissionais que eram contratados como guardas pessoais dos reis e nobres.

Destas Corporações romanas interessa-nos mais especificamente o Collegia Fabrorum, ou Colégio de Arquitectos.

O estado exercia o monopólio das actividades económicas através de licenças específicas de trabalho para estas organizações.

Um censo realizado durante o governo de Marco Aurélio (que reinou de 161 a 180 d.C.) dá conta de mais de duzentas e cinquenta organizações (collegiuns) em cerca de 75 cidades. Somente em Roma registou-se oitenta tipos de profissões reunidas em torno destas corporações com estatutos e regulamentos registados e reconhecidos pelo Estado.

Com cultura predominantemente politeísta com ênfase ao culto aos antepassados vemos nestas instituições como um misto entre o trabalho e a religiosidade pois a maioria era composto na sua maioria por pessoas de uma mesma família. Assim cada grupo desenvolvia as suas próprias preces e rituais que eram praticados em templos familiares, lembrando que os membros destes grupos eram enterrados nas terras que a eles pertencia. Assim quem não fazia parte de uma destas confrarias quando morto era enterrado em vala comum e os seus parentes tinham dificuldades em lhe prestar culto.

Aqui percebemos mais um elemento que irá influenciar a ritualística maçónica principalmente relacionada com a Lenda do 3° Grau, o Mestre Maçom.

Quanto mais importante era as actividades de um determinado collegia mais nobres romanos disputavam o direito de ser o seu “patrono”, pois isto lhe conferia poder político. No geral a estrutura organizacional era simples: um curador (praesidis), que o presidia, um secretário (questor) e um tesoureiro (decurião). Abaixo destes o grupo dividia-se em subgrupos cada um com os seus oficiais (mestres do oficio) e supervisores. Estes grupos tinham reuniões periódicas, promoviam banquetes e exercitavam acções assistenciais.

Como estes grupos sofriam forte influência religiosa, criavam-se ritos de admissão e de passagem de uma para outra função. A transmissão dos ensinamentos era bastante restrita e um membro era severamente punido se deixasse o conhecimento específico do seu grupo vazar para terceiros.

Um curioso facto é que Robert F. Gould na sua História da Maçonaria (Londres, 1727), tenta fazer uma correlação entre a recém criada Maçonaria Obediencial (1717) e os Collegia Fabrorum, mas é evidente que esta desesperada tentativa visava apenas tirar o vínculo da antiga Maçonaria Operativa com as Guildas de Construtores por razões de preconceito puramente religioso, como veremos mais adiante.

Com a cristianização do Império Romano (a partir de 313 d.C.) e a decadência do Império Romano (476 d.C.) entramos no período histórico denominado de Feudalismo que se caracterizou por constantes conflitos causando o empobrecimento da população que passou a trabalhar em troca de protecção do senhor feudal. Foi um período de ruralização da sociedade.

Todo o sistema feudal era voltado para a agricultura e pouca ou quase nenhuma contribuição técnica ou arquitectónica existiu. Foram construídos diversos castelos cuja finalidade principal era de fortificação militar As pessoas ficavam praticamente confinadas em vilas na circunvizinhança dos castelos ou poderiam sofrer nas mãos de bandidos e invasores de outras terras. Deslocar-se de um para outro território não era terminantemente proibida e representava risco de vida.

É ainda neste período que surgem os primeiros mosteiros e serão os seus monges que irão dominar a arte da edificação. A Igreja controlava o ensino e os mais letrados ou eram da nobreza ou do clero. O conhecimento da plebe era quase nulo. A organização do ensino era dividida em dois ciclos:

  • o trivium (gramática, retórica, lógica) e o
  • quadrivium (música, aritmética, geometria e astronomia).

As construções desta época eram sempre encabeçadas pelos monges acompanhados por um selecto grupo de leigos que tinham aprendido dentro dos mosteiros a arte da construção, este grupo formava as Associações Monásticas. O trabalho mais pesado era realizado por cidadãos comuns dos feudos.

Entretanto é neste confuso mundo feudal que temos a oportunidade de encontrar uma Confraria extremamente organizada ainda nos moldes dos Collegia romanos, denominada de Mt agistri Comacinit, ou Mestres Comacini.

No ano de 643 d.C. o Rei Lombardo Rothari (636 a 652 d.C.) promulga um édito conhecido como Edictus Langobardorum com 388 artigos, onde chamamos a atenção para os artigos 144 e 145 que falam sobre a estrutura da confraria de pedreiros chamada de Comacini, com os seus Mestres (magistri) os seus ajudantes (colligantes) e os auxiliares (servi).

O Reino da Lombardia é o que hoje conhecemos como a Itália, excluindo-se as cidades de Roma e Ravenna que pertenciam ao Império Bizantino.

Historiadores defendem que os segredos da construção com alvenaria dos Collegia Fabrorum romanos nunca foram perdidos na Itália e que os Mestres Comacine eram os herdeiros deste legado.

Marcas típicas das construções Comacini foram encontradas além da Itália, na Península Ibérica, no sul da Alemanha, na Hungria e na Inglaterra.

As Guildas de Construtores, também chamadas de Corporações de Ofício, tiveram o seu inicio a partir do século IX d.C.

Na cidade de York encontramos no ano de 926 d.C. um manuscrito que é na realidade uma espécie de Constituição atribuída a Guilda dos Construtores da cidade de York.

Na realidade não se conhece o original de tal documento, apenas uma versão de 1807 que se diz traduzida do latim para o inglês e o alemão. Este documento foi veementemente rebatido por Findel em 1864, pois não se encontraram dados comprovados dos documento original.

O primeiro documento maçónico de facto é a Carta de Bolonha (na Itália), de Agosto de 1248, onde o original se acha arquivado no Arquivo do Estado de Bolonha. Em 1899 o Instituto Histórico da Itália publicou cópia desta Carta no Boletim n° 21, com o título de “A Sociedade de Artes de Bolonha os seus estatutos e inscrições”.

O historiador maçónico, o padre jesuíta Benimelli, considera este o documento maçónico mais antigo e mais importante.

A Carta de Bolonha era destinada a regulamentação das confrarias dos Mestres Pedreiros e os Mestres Carpinteiros. Em 1257 as Assembleias de cada um destes ofícios separaram-nas de comum acordo.

Na Carta fica patente que a Sociedade é constituída por Mestres e Oficiais, por Aprendizes ligados directamente ao Mestre e, depois de dois anos, por Aprendizes que entraram para a Sociedade (por mais 3 anos), o que equivaleria posteriormente a Companheiro de Ofício.

O local das reuniões deveria ser ou a Igreja de São Pedro ou o Palácio do Bispo.

Indubitavelmente, a “Carta de Bolonha” é o mais antigo de todos os documentos maçónicos (original) sobre a Maçonaria Operativa. É anterior, em 142 anos, ao “Poema Regius” (1390); 182 anos em relação ao Manuscrito Cooke (1430 / 40); 219 anos em relação ao “Édito de Estrasburgo” reconhecido pelo Congresso Ratisbona em 1459 e autorizado pelo imperador Maximiliano em 1488; e antecede em 59 anos o “Preambulo Veneziano dei Taiapiera” (1307).

Temos ainda as Regras para os Maçons da cidade de Londres, de 1356, onde constamos a existência de Mestres, artífices e aprendizes. Este documento foi redigido visando por fim a uma disputa entre duas facções de maçons de Londres.

É consenso entre os pesquisadores maçónicos que existia a actual forma de Grandes Lojas em York desde 1705, onde começa a lista de nomes de Grão-Mestres, e que há uma infinidade de documentos (actas) desta Grande Loja desde 1693 e da Loja Mãe de Kilwinning, na Escócia, desde 1677. A Loja Mãe Kilwinning é citada por William Schaw em 1598 como a mais antiga Loja de toda a Escócia.

Existia o cargo de Reitor de Mestre Obras para a Coroa da Escócia desde 1529. Com o Acto de União de 1707, James Smith (nascido em 1645) foi nomeado Reitor de Mestre de Obras, mas em 1718 ele escreveu uma carta a John Clerk de Penicuik que ele tinha sido “vergonhosamente desviado do serviço de Sua Majestade, no ano 73 de sua idade“.

Existe uma infinidade de outros documentos maçónicos, mas interessa-nos por hora um último documento, a Carta Régia de 1677, que cria a Venerável Companhia dos Maçons de Londres (e Westminster), cujos registos históricos da sua existência como Guilda remontam a 1356. A função de Superintendente de Obras da Coroa existe desde 1378. Sir Christopher Wren ocupou o cargo de 1689 até 1718. Wren fundou a Real Sociedade de Londres em 1660. Documentos de John Aubrey comprovam que Wren foi “aceito” na Fraternidade dos Maçons Aceitos em 18 de Maio de 1691 e Anderson na Constituição dos Maçons de Londres e Westminster, edição de Julho de 1723, dá conta que Wren teria sido o Grão Mestre até 1717, quando se formou a Grande Loja de Londres e foi eleito o desconhecido Cavaleiro Anthony Sayer. Wren faleceu em Fevereiro de 1723.

No site desta entidade (www.masonslivery.co.uk) informa que “os pedreiros, construtores das nossas grandes catedrais e igrejas, uniram-se em corporações para praticar o que eles chamaram de ‘a arte operativa’ da maçonaria” e, continua, “no entanto, no século 18 a natureza da Maçonaria tinha mudado e as lojas começaram a aceitar membros que não eram pedreiros e assim elas se tornaram Lojas ‘especulativas’ e não ‘operativas’ e ao longo dos próximos dois séculos e meio as lojas têm-se movido completamente para longe da arte da cantaria somente se referindo a ferramentas e artefactos de pedreiros em alguns dos seus rituais”.

Factores que irão influenciar a formação da Grande Loja de Londres e Westminster

No dia 21 de Abril de 1509 sobe ao Trono da Inglaterra, França e Irlanda o Rei Henrique VIII, até então católico.

Em 11 de Junho de 1509 Henrique VIII tivera de se casar com Catarina de Aragão, viúva do seu irmão, para assumir definitivamente o Trono da Inglaterra em 24 de Junho do mesmo ano, faltando quatro dias para completar a maior idade de dezoito anos.

A Rainha Catarina de Aragão teve sete filhas até 1518, sobrevivendo a fase da infância apenas uma, a princesa Maria. Em 1526 ficou constatado que a Rainha não mais poderia gerar filhos, facto que iria levar Henrique VIII a tentar iniciar um romance com Ana Bolena que logo informou ao Rei que só o aceitaria se este a reconhecesse como sua Rainha. Logo tornou-se um desejo quase insano do Rei a anulação do casamento com a Rainha Catarina.

O Rei procedeu várias tentativas junto à Santa Sé visando a anulação do seu matrimónio. Todas foram rechaçadas pelo Papa Clemente VII.

Não restando outra alternativa para confirmar a sua relação com Ana Bolena, que estava grávida, o Rei desposa-a numa cerimónia em 25 de Janeiro de 1533 selando, assim, o seu enfrentamento com a Santa Sé.

Ana Bolena foi oficialmente reconhecida como Rainha da Inglaterra pelo Parlamento em 01 de Junho de 1533, sendo Catarina de Aragão despojada dos seus títulos e a sua filha Maria foi declarada “ilegítima”, não mais fazendo jus, portanto, a sucessão real.

“Esta atitude de afronta sem precedentes à Igreja Católica valeu-lhe a excomunhão, declarada por Clemente VII em 11 de Julho de 1533. No seguimento da excomunhão, Henrique decidiu o rompimento com a Igreja Católica Romana, declarou a dissolução dos monastérios, tomando assim muitos dos haveres da Igreja, e formou a Igreja Anglicana (Church of England), da qual se declarou líder. Esta decisão tornou-se oficial com o decreto de supremacia (Act of Supremacy) de 1534” (Wikipédia, 2012).

Chegamos aqui ao primeiro ponto de convergência em que as atitudes políticas da realeza da Inglaterra irão influenciar directamente na formação do Sistema Obediencial maçónico e da criação da Grande Loja de Londres e Westminster, cento e oitenta e quatro anos depois, no dia 24 de Junho de 1717.

Mas sabemos que foi a partir de meados do século XVII que a Maçonaria de facto começou a ser modificada de dentro para fora com a crescente adesão de pessoas alheias ao Ofício da construção, geralmente nobres e distintos “cavalheiros”.

O primeiro registo da Loja de Edimburgo contendo uma adesão especulativa é datado de 8 de Junho de 1600, e é o mais antigo documento conhecido na Grã-Bretanha e Irlanda. O irmão foi John Boswell, proprietário de terras de Auchinleck, que participou como membro e cujo nome e assinatura atestam a Acta, juntamente com 12 maçons operativos.

De 1600 em diante temos registos de diversos “especulativos” sendo iniciados no ofício. Vários exemplos desta característica notável podem ser citadas, tais como numa loja em Warrington em que Elias Ashmole foi iniciado em 1646. Um registo extraordinário da preponderância de especulativos em uma Loja operativa, é encontrado em Aberdeen, em 1670, onde para 49 membros registados no “Livro de Presença”, nem uma dúzia eram operativos, o Mestre era um Tutor em Airth e colector da alfândega do Rei, enquanto vários dos seus companheiros eram nobres ou da aristocracia (classe educada).

Os anos de 1600 a 1660 foram bastante tempestuosos em toda a Inglaterra mas especialmente para os londrinos. Os católicos ainda ensejavam o retorno de um Rei católico ao trono inglês. No Outono de 1605 um grupo de extremistas católicos, liderados por Robert Catesby, arquitectaram um plano que visava provocar uma grande explosão na Câmara dos Lordes, no Parlamento Britânico, durante o acto da abertura da mesma, ocasião onde se reuniriam nela as duas casas do Parlamento (Câmara dos Lordes e Câmara dos Comuns), presidida pelo Rei James I da Inglaterra (Jaime I). Este fracassado evento tornou-se conhecido como a Conspiração da Pólvora.

O Rei James I oficializou o anglicanismo e perseguiu os puritanos e os católicos. Enfrentou diversos conflitos com o Parlamento chegando ao ponto de dissolvê-lo em 1611, governando sozinho durante 10 anos, até 1621, quando convocou um novo Parlamento com o intuito de conseguir financiamento para apoiar a campanha do seu cunhado, Frederico V, nomeado pelos rebeldes protestantes em 1620 como Rei da Boémia (actual República Checa), contra o Rei Fernando II, do Sacro Império Romano Germânico, durante a Guerra dos Trinta Anos.

A Guerra dos 30 Anos ocorrida de 1618 a 1648 e que atingiu quase a totalidade dos países europeus, caracteriza-se por ser um conflito preponderantemente religioso entre católicos e protestantes, que teve inicio com a disputa pela sucessão ao trono da Boémia.

Durante todo aquele período a Europa ficou dividida entre países católicos onde protestantes disputavam o poder e reinos protestantes com os católicos procurando depô-los. Cada um dos lados era financiado pelos seus pares de outros reinos.

O sucessor de James I, o Rei Carlos I da Inglaterra (Charles I), deu continuidade as políticas do pai tanto do ponto de vista religioso, onde assumiu uma linha ainda mais conservadora, quanto no campo político, quando em 1628 dissolveu o Parlamento só o reconvocando em 1640.

As atitudes do Rei Carlos I culminaram com a invasão ao Parlamento com uma tropa armada, em Janeiro de 1642, facto que lhe custou total oposição por parte do Parlamento. Londres já não representava um lugar seguro para o Rei e este foi estabelecer-se em Oxford, dando inicio à Guerra Civil na Inglaterra. Em 1646 o Rei Carlos I entrega-se as tropas presbiterianas na Escócia. Em 1648 ele é julgado e em 1649 é condenado à morte pelo Parlamento inglês. Entre 1653 e 1658 assume o comando da Inglaterra o Lord Protector, Oliver Cromwell, dissolvendo mais uma vez o Parlamento e impondo uma ditadura militar naquele reino.

Cromwell foi o responsável pela revogação do Acto de Eduardo I que em 1290 expulsara os judeus da Inglaterra. Atendendo ao apelo do rabino português Menasseh ben Israel (Manuel Dias Soeiro), estabelecido em Amsterdão, Cromwell autoriza o restabelecimento judaico.

O curto período de comando de Cromwell foi ainda mais conturbado que o de Carlos I. O filho de Carlos I, Carlos II, refugiara-se na França e com a morte do pai os escoceses o reconheceram como Rei da Escócia, em 1649. Foi a partir da Escócia, pais preponderantemente presbiteriano, que Carlos II, financiado pela Espanha e pelo Papa, orquestrou diversas incursões militares contra Londres.

Com a morte de Cromwell em 1658 e o fracasso do seu legado pelo seu filho Richard Cromwell, em 1660, tropas escocesas invadem Londres destituindo-o e dissolvendo o Parlamento existente promovendo uma eleição geral, que resultou na criação da Câmara dos Comuns. Em Maio de 1660 a Câmara dos Comuns decretou de imediato que Carlos II seria o soberano legítimo desde a execução de Carlos I em 1649, restabelecendo, assim, a monarquia inglesa.

É neste período turbulento que em Novembro de 1660 um grupo de doze renomados cientistas, filósofos se unem para criar a Sociedade Real de Londres (RSL), dentre eles destaca-se o Arquitecto e Maçom operativo Christopher Wren, que presidirá este instituto de 1680 a 1682 e Anderson o lista como Grão Mestre dos “operativos” em 1685 e de 1698 até 1716. Quinze anos depois, em 1695 irá presidir a RSL Charles Montagu, 1° Duque de Manchester e pai de William (John) Montagu (2° Duque de Manchester) a quem em 1723 o Pastor James Anderson dedica as suas Constituições (pelo cargo de Grão Mestre que estava ocupando).

Segundo o Irmão Bruce G. Hogg (Ars Quatuor Coronati vol. 113 – 2000, pg. 93): “a qualquer momento durante a primeira metade do século 18, pelo menos 25% dos membros da Sociedade Real eram maçons”.

O reinado de Carlos II (de 1660 até 1685) teve também os seus reveses. Entre 1665 e 1666 ele teve de enfrentar a Peste Negra que dizimou cerca de um quinto da população de Londres e em Setembro de 1666 conviveu com o Grande Incêndio de Londres, onde mais de treze mil casas e oitenta e sete igrejas foram atingidas. A partir de 1665 até 1667 travou inúmeros conflitos com a Holanda relacionados à América do Norte. Entre 1668 e 1670 aliou-se a Suécia e a Holanda contra a França de Luis XIV, seu primo. O Rei francês cede e assina um tratado em que se compromete pagar duzentas mil libras por ano a Inglaterra em troca de tropas e da conversão de Carlos II ao catolicismo.

Carlos II tenta manter tal acordo em segredo, entretanto em 1672 ele apoia abertamente a França na Guerra Franco-Holandesa com o envio de tropas e embarcações em favor da França e assina a Declaração de Indulgência, na qual manifestava a sua intenção de suspender todas as leis que penalizavam os católicos e a outros dissidentes religiosos.

Temeroso de que a aliança com a França fosse parte de um plano para tornar a Inglaterra Católica, o Parlamento posicionou-se contrário a conceder tolerância religiosa aos católicos opondo-se à Declaração de Indulgência e negou-se a financiar a Guerra Anglo-Holandesa, obrigando Carlos a firmar a paz em 1674.

Carlos II morreu em Fevereiro de 1685, após se converter ao catolicismo, estando na sua linha sucessória o seu irmão, o Duque de York, Jaime II (James II), que já se tinha declarado católico em 1673, quando se negou a prestar o juramento prescrito no Acto de Prova, instituído por James I, que pregava a exclusividade de acesso aos cargos públicos para os anglicanos e decretava como delito a recusa a fé na Igreja da Inglaterra (Anglicana).

Em 1686 o Rei força os juízes da Corte da Câmara a declarar que ele estaria dispensado das restrições religiosas impostas pelo Acto de Prova. Aproveitando a dispensa outorgada, Jaime II permitiu que alguns católicos romanos ocupassem os cargos mais altos do reino, provocando a intensificação das tensões religiosas.

Até 1688 os ingleses tinham a expectativa de que Maria, a filha mais velha de Jaime II e esposa de Guilherme, o holandês Príncipe de Orange (na França), declaradamente protestante, lhe sucedesse ao trono. Entretanto em 10 de Junho daquele ano a esposa de Jaime II dá a luz a James Francis Edward Stuart, encerrando de vez esta esperança.

Sentindo-se ameaçados por uma dinastia católica e uma suposta perda de terras, muitos protestantes influentes entraram em negociação com Guilherme, o Príncipe de Orange, que reúne um exército e marcha para Londres, com o apoio dos Whigs (partido político opositor dos Tories, que apoiava o Rei católico) e da princesa Ana, também filha de Jaime II.

Apesar da sua superioridade numérica, Jaime II decide não atacar o exército invasor e foge para a França, onde foi recebido pelo seu primo e aliado Luis XIV, que lhe dotou de um palácio, o Castelo de Saint-Germain-en-Laye, e uma vultosa pensão.

Como Jaime II tinha fugido, o Parlamento declarou que ele tinha efectivamente abdicado do trono, e assim o trono estava vazio. Para preencher a sua vaga, a filha de Jaime II, Maria foi declarada Rainha e esta deveria governar juntamente com o seu marido, Guilherme, que se tornaria Rei com o título de Guilherme III.

O Jacobitismo (não o jacobinismo), dado em alusão a forma no latinizada ao nome de James ou Jaime (Iacobus), foi a resposta dos católicos britânicos à deposição de Jaime II da Inglaterra promovida pelos protestantes em 1688. Os Stuarts passaram a viver no continente europeu, e os jacobitistas promoveram uma série de insurreições entre 1688 e 1746 visando restabelecerem-nos no trono britânico com a ajuda da França, Espanha e das forças católicas existentes em certas zonas como a Irlanda e as Highlands escocesas.

Dentro das Ilhas britânicas, o apoio principal ao Jacobitismo provinha da Irlanda e Escócia, zonas católicas. Também houve algum apoio do norte da Inglaterra e do País de Gales. Os realistas (royalists) apoiavam o Jacobitismo porque eles acreditavam que o Parlamento não tinha autoridade para interferir com a sucessão real e muitos católicos viam-no como o alívio da opressão protestante.

Em 1702 sucede a Guilherme III a sua cunhada, a Rainha Ana I, também de confissão protestante, embora em 1701 a França tenha reconhecido James Francis Edward Stuart, filho do refugiado Jaime II, como Rei da Inglaterra e Escócia, concedendo-lhe o título de Jaime III da Inglaterra e VIII da Escócia.

O Acto de União promulgado pela Rainha Ana I em 1707 provocou reacção dos escoceses e reacendeu a esperança dos jacobitistas em restaurar Jaime III no trono da Escócia. Mais uma vez a revolta foi rechaçada e a Rainha Ana I reinou entre altos e baixos até o ano de 1714, não gerando herdeiros, quando lhe sucedeu ao trono, em Agosto, o Alemão Georg Ludwig (Jorge I da Grã-Bretanha), Príncipe de Hanôver e Príncipe Eleitor do Sacro Império Romano Germânico, sendo o primeiro monarca da casa dos Hanôver.

O Rei Jorge I foi o nome preferido pelo Parlamento Inglês em detrimento a mais de 50 reivindicações de herdeiros ao trono inglês. Tal decisão do Parlamento deu-se exclusivamente pelo facto de Jorge I ser declaradamente protestante e todos os outros pretendentes serem católicos.

Em 1715 explode a revolta Jacobita (O Quinze) que visava a restauração da casa dos Stuarts no trono inglês. A revolta é esmagada pelas tropas do Rei Jeorge em menos de seis meses. Os Whigs convencem o Rei da participação activa dos Tories e consegue que seja aprovada no Parlamento a Lei Septenal, que garantia o mandato da maioria Whigs por oito anos. Até cerca de 1760 os conservadores Tories praticamente desapareceram da política inglesa.

Durante o reinado de Jorge I devido à sua carência no domínio da língua inglesa e ao pouco conhecimento dos problemas ingleses, o poder da monarquia na Grã-Bretanha reduziu drasticamente dando inicio ao actual sistema de Gabinetes dirigido paralelamente por um Primeiro Ministro, Sir Robert Walpole, Conselheiro Privado do Rei e líder do partido Whigs, de 1715 a 1742, fortemente envolvido com a Companhia dos Mares do Sul, que tinha como principal negócio o trafico de escravos e especiarias entre as terras do sul da América e a Europa.

Aqui vemos aparecer o também pastor John Desaguliers, como renomado instrutor da Casa dos Hanôver para os Reis Jorge I e Jorge II e em 1714 a Royal Society o aceita como membro, onde este se torna íntimo de Sir. Isaac Newton. Em 1717 irá promover o “reavivamento” da Maçonaria londrina e em 1719 será o Grão Mestre da Maçonaria em Londres.

Aqui temos mais um ponto de convergência histórica maçónica. A Companhia dos Mares do Sul possuía como investidores na Inglaterra o Sir Walpole, o Pastor James Anderson, o Pastor Desagulier, o Conde de Montagu e Isaac Newton e posteriormente na América do Norte respeitáveis cidadãos como Benjamin Franklin. Todos Maçons.

Segundo o Ir∴ Bruce Hogg os “reavivadores” de 1717 eram todos ligados ou a Real Sociedade de Londres ou a Casta da Realeza ou ambos. O Ir∴ Hogg propõe-nos uma pergunta: “o que levou alguns entusiastas científicos para entrar na Maçonaria enquanto outros não fizeram tal adesão?”

O Ir∴ Hogg continua:

Em 24 de Junho de 1717, como um movimento estratégico no jogo político de xadrez entre as Casas de Hanôver e Stuart, só Hanoverianos, apenas para realizar os seus próprios fins, reuniu quatro Lojas Maçónicas comparativamente sem importância situadas na periferia de Londres para formar a Grande Loja de Londres, a primeira Grande Loja da Maçonaria.”

Ainda citando o Ir∴ Hogg:

A Maçonaria sob Desaguliers tornou-se moda. A própria elite da Inglaterra rapidamente se uniu a ela. Os seus Mestres foram seleccionados dos mais alto da nobreza. Poderosa na verdade tornou-se a nossa Irmandade e ela foi definitivamente projectada para a influência temporal em razão da importância dos seus líderes. Aqueles que desenvolveram esta nova ordem teve um sucesso que ultrapassou as suas mais caras esperanças. O seu objectivo era uma Loja central forte em torno do qual estariam as outras Lojas em e no entorno de Londres. Mas em torno deste novo movimento a nobreza, o clero, o exército, as classes médias, todas as forças da nação, reunidos num único corpo. Tão surpreendente revolução do espírito humano não tinha sido testemunhado desde a explosão do cristianismo primitivo. A Inglaterra, descobriu uma unidade nacional e, como consequência, a Inglaterra tornou-se para todo o mundo civilizado um exemplo perfeito de governo esclarecido. A fórmula exacta, adequada à quantidade, tinha sido encontrado. Quinze anos após a sua formação, a Grande Loja de Londres tornou-se o centro de toda a Maçonaria Inglesa, e depois de 30 anos dominou a maçonaria de todo o mundo – graças a um homem!’”

Segundo o Ir∴ HL Haywood (Revista Builder, Fev. 1924, vol. X n° 2):

“Muito pouco se sabe realmente sobre a formação da primeira Grande Loja, mas parece certo que muito atrito foi gerado entre os membros ‘antigos’ e os velhos alojamentos independentes com relação as mudanças radicais que foram feitas pela primeira Grande Loja. Este facto pode significar que as inovações em rituais e regulamentos foram feitos e que isso despertou a inimizade dos ‘velhos irmãos’ que temiam inovações, neste caso, fica evidente que o novo material foi introduzido de fora, senão não teria gerado qualquer insatisfação com a ‘nova ordem’ das coisas.”

Para exemplificar o acima destacamos que no mais antigo Manuscrito Maçónico conhecido, o MS Dowland, datado de 1550, a Lenda do Templo (Naquita) é atribuída ao Rei Nimrod e a Euclides e Hiram Abiff é mencionado como um entre diversos personagens. Entretanto a partir de 1611, com a introdução da Bíblia em Inglês (versão Rei James), o Templo de Salomão despertou muito interesse. No final do século XVII (1690-) era comum a exposição de maquetes deste famoso Templo nos lugares mais badalados de Londres. Nas suas primeiras Constituições de 1723 o Pastor Anderson dedica algumas linhas a discursar sobre Hiram Abiff e na revisão de 1738 a Lenda Noaquita é totalmente substituída pela Lenda do Templo de Israel.

No início do século XVIII (1701-) a cidade de Londres é infestada pela criação de diversos Clubes. Quase todo homem, rico ou pobre, pertencia a um, havia clubes de beber, clubes musicais, clubes literários, clubes de homens gordos, clubes chineses, clubes para os homens com narizes grandes e para os pequenos, e todos os outros imagináveis forma de organização para fins de sociabilidade. Numa época em que os jornais diários eram inexistentes e os livros eram escassos, estes clubes eram centros de fofocas e informações em geral, bem como as sociedades para a propagação de várias “causas” (HL Haywood, 1924).

Segundo James Anderson, no final da “rebelião” de 1716, onde Lorde Mar tentou recolocar o católico James Stuart no poder, os maçons de remanescentes três Lojas de Londres e uma de Westminster reuniram-se na Aple Tree Tavern. Eram elas:

  1. O Ganso e a Grelha (Goose and Gridiron) da Igreja de São Paulo, Londres
  2. A Coroa, de Parker’s-Lane, perto de Drury-Lane, Londres
  3. A Macieira, da Apple Tree Tavern em Charles Street, Covent Garden, Londres
  4. O Copázio e as Uvas no Channel Row, Westminster.

Os irmãos destas quatro Lojas decidiram que se reuniriam novamente na próxima Assembleia Anual, em Junho de 1717, dia de São João Batista, onde Anderson faz o seguinte relato:

“No dia de São João Batista, no 3° Ano do rei George I, AD 1717, a Assembleia e Festa dos Maçons Livres e Aceitos foi realizada na Taverna O Ganso e a Grelha.

Antes do jantar, o mais antigo Mestre Maçom (agora Mestre de uma Loja) na presidência, propôs uma lista de candidatos adequados, e os irmãos, por maioria de mãos elegeram o Sr. Anthony Sayer, Cavalheiro, Grão-Mestre dos Maçons, que, foi investido com os encargos do Ofício e que depois de instalado foi devidamente felicitado pela Assembleia que lhe rendeu homenagem. Como Grandes Vigilantes escolheu o Sr. Jacob Cordeiro, Carpinteiro e o Capitão Joseph Elliot“

Um relato do Ir∴ A. F. Calvert, da Grande Loja da Inglaterra, menciona que: “A partir de 1717 e até 1736, a Loja nº 4 original (O Copázio e as Uvas), que se tornou nº 3 em 1729 e nº 2 em 1740, foi a primeira Loja do período do ‘Renascimento’. Considera-se provável que os membros dos números 1, 2 e três foram compostas na sua maior parte de pedreiros e irmãos da classe artesã, e essas lojas eram lojas operativas, enquanto a n°. 4 pode ser considerada a única especulativa ou formada por cavalheiros e todos os principais homens do Oficio no início dos anos surgiu a partir dela. Enquanto os irmãos pertencentes as outros três Lojas antigos foram imponente tanto como a posição de número quanto social. A número 4 tinha um rol de 70 membros, e entre as pessoas de posição e proeminência Maçónica pertencente a ela temos o Duque de Richmond, que criou a Comissão de Caridade, Senhor Paisley, o Duque de Queensberry, Sir. Waldegrave, Sir Richard Manningham, o Conde de La Lippe, o Barão Kaw, Sir. Adolphus de Ongleton, o Conde de Loraine, Sir Thomas Prendergast, Sir. Carmichael, Conde Walzdorf, Marguis des Marches, o Sir. William Cowper, Grande Secretário, e Irmãos George Payne, Desaguliers e James Anderson”.

Reacção das Lojas dos “Antigos”

Em Agosto de 1721 vemos na Acta da Loja da Capela de Santa Maria, de Edimburgo, na Escócia, está registada a visita do Irmão Doutor John Desaguliers, membro da Real Sociedade e ex-Mestre Geral das Lojas da Inglaterra.

Percebemos neste ponto que nem todas as Lojas do Reino tinham aderido à ideia de se unirem à recém criada “Grande Loja dos Maçons de Londres e Westminster”, até porque, como diz o próprio nome, ela restringia-se às cidades de Londres e Westminster.

Segundo diversos historiadores, várias Lojas na própria Londres não só não pactuaram com a “nova” Grande Loja quanto a repeliram veementemente. Principalmente nas Lojas cujos membros eram de origem da Escócia e da Irlanda vemos nascer um movimento de “contra-reforma” que irá culminar na criação da Grande Loja dos Antigos, em 1751, pois estes consideravam que a Grande Loja de Londres se tinha distanciado substancialmente das antigas práticas da Arte.

Isto deveu-se ao facto de que em 1736 as Lojas da Escócia se uniram para criar a Grande Loja dos Maçons Antigos, Livres e Aceitos da Escócia, encabeçados pela Loja Kilwinning e pela Loja Mary’s Chapell, as duas mais antigas de todo o reino.

Na Irlanda em 24 de Junho 1725 temos registo de uma reunião da Grande Loja da Irlanda, em Dublin, para instalar o novo Grão-Mestre, Richard Parsons, 1° Conde de Rosse. Esta Grande Loja abrangia todas as Lojas e maçons da Ilha da Irlanda.

Os antigos registos da Grande Loja de Londres também informam que em 1730 o primeiro Grão Mestre, Anthony Sayer, foi convocado à Assembleia Geral para prestar esclarecimentos acerca do seu apoio e presença na criação de novas Lojas sem a devida permissão da Grande Loja. Isto demonstra que nos seus primeiro anos a Grande Loja de Londres se reunia com muitas dificuldades de dentro para fora, dando-nos a sensação que ela tinha estabelecido uma inovação com relação aos antigos costumes.

Calvert, contemporâneo de Desaguliers dá-nos conta que foi durante o mandato deste (1719-1720) que a Grande Loja realmente encontrou o seu caminho. Ele trouxe diversos maçons antigos que retornaram às suas lojas, diversos nobres entraram na Ordem e foram constituídas várias Lojas novas. Ele é o responsável por deixar como seu sucessor o Conde de Montagu (1721) e é neste ano que ele visita a Grande Loja da Escócia, em Edimburgo, e foi filiado como membro da Fraternidade Escocesa.

É o Conde de Montagu quem conseguirá, pela sua ascendência nobre, oficializar a Grande Loja de Londres perante as autoridades da Inglaterra. Daí em diante as “cartas constitutivas” para “novos assentamentos” só seriam reconhecidos pelas autoridades caso tivessem Carta da Grande Loja. Estava fechado o cerco.

Evidente se mostra o facto de que as discordâncias entre os maçons antigos e os modernos se deram em razão dos antigos acusarem os modernos de rompimento com a antiga tradição. Os “aceitos” de Londres passaram a comportar-se diferentemente de todos os aceitos da Escócia e Irlanda e também de diversas Lojas na própria Inglaterra.

As principais acusações eram:

  1. a Instalação do Mestre da Loja, ou tinha sido abolida ou teria sofrido fortes alterações;
  2. ter havido inversão do segundo grau com o primeiro e vice-versa;
  3. a Lenda Noaquita foi substituída pela Salomónica;
  4. as formas de reconhecimento foram adulteradas;
  5. a abolição do Real Arco;
  6. a criação do Terceiro Grau;
  7. a descristianização da instituição.

Segundo relato de Laurence Dermott (1752) a Grande Loja “apagou” dos seus registos cerca de 45 Lojas entre 1742 e 1752 por não cumprirem com as novas obrigações.

Estas Lojas passaram a funcionar normalmente de forma isolada e sob a denominação de Lojas de São João.

Marcos Vinícius Oliveira

Bibliografia

  • Henry VIII” na CCatholic EncyclopediaC de 1913.
  • English | Eighteenth-Century Book Tracker London Lives 1690 to 1800 ~ Crime, Poverty and Social Policy in the Metropolis
  • http://www. easternct.edu/%7Epauleyb/c18booktracker/taxonomy/term/3?page= 11
  • London Lives 1690 to 1800 ~ Crime, Poverty and Social Policy in the Metropolis em http://www.londonlives.org/
  • Home | LOCATING LONDON’S PAST em http://www.locatinglondon.org/

Notas

Dinastia Merovigia

Segundo o site http://francegenealogie.free.fr a linhagem Merovigia tem início com Chlodion nascido entre 390 e 400 d.C. sendo seu sucessor o filho Merovee (412 a 458). Daí podemos traçar uma linha recta até Jaime I de Hanôver:

  • Dinastia Merovígea
    • Os Marcomanos (166 d.C.) – tribo germânica que se estabeleceu na Boémia Marcomer (346 – 404) – em 313 Édito de Milão e em 355/358 Reino dos Francos Faramundo (370 – 426)
    • Chlodion (392 a 447)
    • Merovee (412 a 458)
    • Childerico I (436 – 482)
    • Clóvis (466 – 511) – convertido ao Cristianismo Católico em 496
    • Clotaire (497 – 561)
    • Chilperic (539 – 584)
    • Clotaire II (584 – 629)
    • Dagoberto (604 – 639)
    • Clovis II (635 – 657)
    • Thierry III (654 – 691) bisavô de
      • Bertrade LAON que casou em 744 com
    • Pepino III – O Breve (715 – 768) filho de
    • Carlos Martelo (688 – 741) pai de
    • Carlos Magno (747 – 814)
  • Dinastia Carolíngea (751 – 987)
  • Dinastia dos Capetos (987 – 1328)
    • Eleanore d’Aquitânia (1122 – 1204)
      • Casou em 1152 com
    • Henrique II – Plantagenet (1133 – 1189)
  • Dinastia Plantageneta (Casa D’Anjou) até 1399
  • Dinastias Valois, York e Tudor (1328 – 1589) – os Henriques (do III ao VIII) e as Rainhas (separação da Igreja Católica em 1534 com Henrique VIII)
  • Jaime I – Stuart (1566 – 1625) até 1660
  • Jorge I – Hanôver (1660 – 1727) bisneto de Jaime I
  • Casa de Hanôver – até 1901 após morte da Rainha Vitória
  • Casa de Windsor – de Eduardo VII (de 1901…)
    • Rainha Elisabeth II – coroada em 1953…

Em 1621 surge a Sociedade dos Maçons em Londres (apenas maçons aceitos)

Cristopher Wren (1632 – 1723)

  • Amigo de infância do futuro Rei da Inglaterra Carlos II (reinado de 1660 a 1685)
  • Em Abril/Maio de 1660 restauração da monarquia (pós guerra civil de Cromwell)
  • Em Novembro de 1660 fundação da Royal Society de Londres;
  • Em Dezembro de 1663 aparece como Grande Vigilante
  • Em 1667 funda com Robert Hooke o “Saturday Club” (cunho secreto)
  • Em 1680 é eleito membro do Parlamento
  • De 1681 a 1682 presidente da RSL
  • Em 1685 é listado por Anderson como Grão-Mestre (quando subiu ao trono Jaime II) De 1689 a 1690 é novamente membro do Parlamento
  • Outra vez é listado como Grão-Mestre de 1698 a 1716

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