A Maçonaria e o Movimento Republicano

“(…) Sou Maçon, e disso não tenho qualquer dúvida; sou Republicano, e disso também não tenho qualquer dúvida. Porém, não é pelo facto de ser Maçon que sou Republicano, nem tão pouco é pelo facto de ser Republicano que sou Maçon[1]

A Maçonaria está intimamente ligada à História de Portugal dos últimos séculos. As suas doutrinas progressistas inspiraram os grandes movimentos liberais, republicanos e democráticos no nosso país. Essa profunda ligação à política trouxe-lhe, inclusivamente, e por diversas vezes, alguns dissabores, como cisões e perseguições, conforme refere António Arnaut, na obra intitulada Introdução à Maçonaria [2], e ao que acrescenta que esta “é uma lição que deve ser aprendida, pois, congregando a Maçonaria pessoas de todas as ideologias democráticas, não deve, como tal, intrometer-se na vida político-partidária, como, aliás, resulta imperativamente da Constituição em vigor” [3].

Este ponto de vista é corroborado por António Barata Pires, Grande Oficial da Grande Loja Nacional Portuguesa, que declara que “a Maçonaria, sempre que manteve com a política uma relação de proximidade perdeu o “norte” e, em vez de influenciar a política com a sua visão ética e moral do Homem, pelo contrário, deixou-se influenciar e até (.) invadir pela esfera político – partidária, importando confrontações e divisões que a abalaram – nalguns casos profundamente” [4], e vai mais longe, afirmando mesmo que “é até esta promiscuidade o factor que tem determinado uma relativa perda da sua influência na sociedade” [5].

Também António Reis reconhece que, em determinadas ocasiões, houve “uma certa promiscuidade”, como sucedeu, por exemplo, durante a Primeira República e lamenta que, nessa época, ser maçon constituísse “(…) quase uma condição sine qua non para uma ascensão profissional ou política (…)” [6], explicando que isso foi altamente prejudicial à Ordem, pois, não só fez com que fosse muito mais perseguida durante a ditadura, como, em muitos casos, a tornou mais impura, dado que os interesses políticos se confundiram com os da Maçonaria [7].

Já António de Oliveira Marques e João Alves Dias preferem salientar que “a maior obra maçónica (.) realizada tanto em loja como fora dela, foi a da tolerância e a do convívio” [8], e contrapõem que a proibição expressa de tratar assuntos de cariz político ou religioso deriva das Constituições de Anderson, sendo constantemente recordada aos “irmãos”, sobretudo no decurso das cerimónias de iniciação.

Todavia, e reportando-se, em particular, ao período anterior a 1820, os autores ressalvam que, de vez em quando, se afloravam temas defesos pela organização maçónica, nomeadamente de carácter político, tratando-se, no entanto, de excepções, visto que as conversas deste tipo tinham lugar sobretudo fora das sessões e resultavam do convívio e da solidariedade entre indivíduos política e ideologicamente afins, bem como da penetração de irmãos maçons nos órgãos do poder, admitindo que, embora se torne hoje impossível, sem o reconhecimento perfeito dos nomes de todos os “irmãos”, avaliar com rigor a infiltração maçónica nos vários domínios da administração pública e privada, “(.) sabe-se o bastante para os encontrar por toda a parte, mesmo que minoritários ou em posições secundárias” [9].

Os mesmos autores sublinham ainda que, no mundo “profano”, a Ordem impulsionou a difusão da instrução e da ciência, da beneficência e da entreajuda, tanto através das denominadas instituições paramaçónicas [10], (como, por exemplo, a Academia Real das Ciências de Lisboa, a Sociedade Real Marítima, as Casas de Conversação, a Sociedade da Rosa, o Conselho Conservador de Lisboa, o Supremo Conselho Regenerador de Portugal e Algarves, as Sociedades de 1817 – 1820, o Sinédrio, entre outras), quanto pela acção individual de cada maçon. Assim, no que concerne às sociedades científicas e literárias, os maçons colocaram-se na vanguarda, pugnando por uma ciência baseada na razão e na experiência, despida de preconceitos autoritários, religiosos e supersticiosos, e em favor da tolerância, da modernidade e da abertura de Portugal ao intercâmbio com o pensamento estrangeiro.

No que diz respeito às associações de carácter político, a obra da Maçonaria visou “sacudir” a opressão francesa e inglesa, e “regenerar” o país. Nas palavras de Oliveira Marques e Alves Dias, “profundamente patriotas, os maçons viam na continuação dos vícios governativos e administrativos próprios do regime despótico existente [antes de 1820] a causa mais grave da decadência do país e da sua subserviência às potências estrangeiras” [11]. Por conseguinte, a “regeneração” da pátria passaria por uma mudança de regime, parecendo fora de dúvida que a maioria ou, pelo menos, uma parte significativa dos “irmãos” tenha optado pelas instituições liberais e representativas. Ainda segundo os autores, “o Supremo Conselho Regenerador de 1817 e o Sinédrio de 1818-20, organizações controladas pela Maçonaria, foram os motores da grande revolução vintista” [12], não lhes parecendo de todo exagerado asseverar que “(…) à Maçonaria se deve a instauração da Liberdade em Portugal” [13]. Não havia dúvida: Vintismo e Maçonaria identificavam-se.

Francisco Ribeiro da Silva, no entanto, não partilha do supra-referido relativamente ao Sinédrio, embora reconheça esta organização como um corpo político. Segundo este, “é falso olhar o Sinédrio, criado no Porto em 1818, como uma sucursal maçónica. Não há qualquer indício de que fosse criado a partir de qualquer iniciativa do maçonismo dirigido pelo Grande Oriente Lusitano ou até de uma qualquer loja. Nem de que uma Loja o manipulasse ou teleguiasse. (.) É falso que os treze elementos do Sinédrio fossem maçons; parece até falso que a maior parte tenha pertencido à Maçonaria” [14]. Esta sua convicção baseia-se nos depoimentos de Xavier de Araújo e Silva Carvalho, que classifica de “esclarecedores e definitivos”, e em cuja transcrição pode ler-se, a título de exemplo, que a origem da Revolução do Porto não foi maçónica, que António da Silveira não era maçon, e que a Maçonaria do Porto nunca entrou no clube dos conjurados [15].

Ainda assim, o autor aceita que é hoje certo que os membros do Sinédrio mantiveram contacto com a Maçonaria madrilena, com vista à garantia de eventuais apoios por parte dos vizinhos espanhóis, e que eram maçons os nomes mais influentes do Sinédrio, como Manuel Fernandes Tomás, João da Cunha Sottomayor, José da Silva Carvalho e, talvez, José Ferreira Borges. Lembra inclusivamente a afirmação de Oliveira Marques de que João Ferreira Viana pertencia à Ordem e que os restantes membros se iniciaram já depois de terem ingressado no Sinédrio [16]. Defende, todavia, que “(.) não se pode daí concluir que o Sinédrio era da Maçonaria” [17].

Pensamos que esta aparente contradição poderá advir do facto de este género de instituições possuir alguma “autonomia”, isto é, uma “vida própria” desligada da vida maçónica interna.

Por seu turno, e aludindo especificamente à chamada conspiração de Gomes Freire, em 1817, Graça e Silva Dias declaram que “não pode negar-se à Maçonaria o papel de estrutura de apoio dos conjurados – mas fora de Lisboa e fora da tropa a Ordem tinha uma escassíssima implantação. E à parte da tropa aquartelada em Lisboa e Santarém, não se fez prova de cumplicidades conspiratórias no próprio seio das Forças Armadas [18]. (.) A Maçonaria funcionou como estrutura de apoio da conspiração, isto é, como aparelho modelador dos conjurados, não (.) como central da própria actividade conspirativa” [19]. Os mesmos sublinham que este é um facto que ressalta até do momento tardio em que Ferreira Soares e Morais Sarmento foram admitidos nos trabalhos conspiratórios [20].

Há, porém, um aspecto que reúne um largo consenso: a real e crescente politização da Maçonaria, sobretudo após a vitória definitiva do Liberalismo, podendo mesmo constatar-se “(.) uma elucidativa coincidência entre as dissidências no interior da Maçonaria e as clivagens da sociedade civil” [21]. As Obediências maçónicas multiplicaram-se, tendo-se criado facções correspondentes nas elites que dirigem os destinos do país.

É neste contexto que António do Carmo Reis afiança que “a Maçonaria funciona, na prática, como escola de quadros políticos. É, de facto, o laboratório em que os irmãos aceitam a hierarquia de competências e a diversificação de graus para o sucesso das ideias. Recusando ser um bloco monolítico, o grémio preserva o exercício da Liberdade: introduz na organização das lojas o apreço pelas tendências liberais” [22]. Desta forma, “(.) a instituição converte-se num espaço de aprendizagem que se transfere para o exterior e informa o organigrama dos partidos políticos – o Cartista e o Setembrista” [23].

A imprensa escrita portuense documenta as relações entre a Maçonaria e o Liberalismo, espelhando, simultaneamente, a situação vivida no país. Entre 1840 e 1850, os jornais veiculam as tendências Cartista e Setembrista, sendo que “(.) a imprensa Setembrista ataca o Cabralismo com acutilância, denunciando que o Governo tange «a rebate no sino misterioso das associações secretas, e os irmãos terríveis recebem a missão de exterminar os profanos inimigos da luz»” [24], enquanto que, por seu turno, “(.) as páginas da imprensa Cartista acusam a militância das lojas maçónicas, traduzida na influência dos «rapazes da moda» que chamam a Deus de «Supremo Architecto» e até dos oficiais de Exército, entre os quais «alguns há que estão filiados nas Templárias»” [25].

No entender do autor, o Porto é, aliás, a “terra da Liberdade”, epíteto que justifica enumerando os vários momentos em que a cidade invicta assumiu um papel determinante na História de Portugal: em 1820 vanguardizou o processo revolucionário com vista à implantação do Liberalismo; em 1832 foi o palco de combate para a reconquista do poder, e das reformas estruturais de Mouzinho da Silveira (também ele maçon); em 1846 protagonizou a ofensiva contra a tirania administrativa de Costa Cabral, arriscado desvio do Cartismo; em 1851 proporcionou o arranque do movimento da Regeneração, que veio a consolidar o Regime Constitucional [26].

Compete-nos mencionar que é também no Porto que vinga o anticlericalismo de raiz setembrista (de que o maçon Paços Manuel foi o hierofante) e vai enformar um dos vectores característicos do Republicanismo da geração de 1891. Este segmento anti clericalista prosperará nas lojas maçónicas do vale do Porto e será responsável pela acrimónia de afrontamentos entre a Igreja e a Maçonaria. Mas, dado o relevo que adquiriu, esta será uma temática a aprofundar um pouco mais adiante.

Posto isto, debrucemo-nos sobre o processo de “republicanização” [27] da massa crítica nacional (em que se incluem muitos irmãos), ou, se preferirmos, do modo como esta deixa de professar um Regime monárquico, passando a bater-se por ideais republicanos.

Liliana Raquel Rodrigues Fernandes

Nota

Este texto integra uma excelente dissertação apresentada por Liliana Raquel Rodrigues Fernandes à Universidade de Aveiro para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Estudos Portugueses.

Dada a sua extensão, os diversos capítulos serão publicados autonomamente, incluindo-se sempre o link para a totalidade do trabalho.

Clique para Ler

Notas

[1] Bases do discurso proferido no dia 5 de Outubro de 2006 pelo Professor Doutor João Alves Dias, in http://www.gremiolusitano.pt/?menu=1&submenu=24&idconteudo=172.

[2] Cf. ARNAUT, António, Introdução à Maçonaria. 5a ed.. Coimbra Editora, 2006, p. 53-58.

[3] Op. cit., p. 53.

[4] PIRES, António Barata, “Maçonaria e Cidadania no Terceiro Milénio”, in Diálogos com a Maçonaria. Maia, Ver o Verso Edições, Lda., 2006, p. 45.

[5] Loc. cit..

[6] LOPES, Isabel, Entrevista a António Reis – “Os maçons ajudam-se uns aos outros como numa família”, in: Única, 5 de Maio de 2007, p. 74 – 88, Expresso, N° 1801,5 de Maio de 2007, p. 76.

[7] Cf. loc. cit..

[8] MARQUES, A. H. de Oliveira, DIAS, João José Alves, História da Maçonaria em Portugal, Vol. I, Das Origens ao Triunfo. Lisboa, Editorial Presença, 1990, p. 295.

[9] Op. cit., p. 294.

[10] Embora fomentadas, criadas, ou até dirigidas por maçons, estas instituições possuem a sua vida própria, desligada da vida maçónica interna. Não é do interesse da Maçonaria que todos os membros destas instituições lhe pertençam, sendo, pelo contrário, preferível que alguns ou muitos lhe sejam alheios, de modo a que as relações entre aquelas e o chamado “mundo profano” se mostrem tão intensas quanto possível. O que importa é zelar para que o espírito de tais instituições se mantenha maçónico e, se possível, assegurar que a orientação geral ou, pelo menos, um certo controlo, permanecem entregues a maçons. Para informações mais detalhadas acerca das instituições referidas vide op. cit., p. 298 – 308.

[11] Op. cit., p. 295.

[12] Loc. cit..

[13] Loc. cit..

[14] SILVA, Francisco Ribeiro da, “A Maçonaria e o Liberalismo no Porto”, in: Pedro Alvarez Lázaro (coord.), Maçonaria, Igreja e Liberalismo – Masonería, Iglesia y Liberalismo. Actas da Semana de Estudos da Faculdade de Teologia (Porto, 1 a 4 de Fevereiro de 1994). Porto, Fundação Eng. António de Almeida, Porto, Universidade Católica Portuguesa, Madrid, Universidad Pontificia Comillas, 1996, p. 24.

[15] Cf. op. cit., p. 25.

[16] Cf. op. cit., p. 24 – 25.

[17] Op. cit., p. 25.

[18] Existiam, no entanto, alguns elos, ainda que soltos, para a distribuição de propaganda e recolha de fundos em Aldeia Galega, Évora e Campo de Ourique. Projectara-se, também, a implantação de núcleos noutras localidades. Cf. DIAS, Graça e J. S. da Silva, Os Primórdios da Maçonaria em Portugal, Vol. II, Tomo II. Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1980, p. 640 – 641.

[19] Loc. cit..

[20] Cf. op. cit., p. 641.

[21] SILVA, Francisco Ribeiro da, “A Maçonaria e o Liberalismo no Porto”, in: Pedro Alvarez Lázaro (coord.), Maçonaria, Igreja e Liberalismo – Masonería, Iglesia y Liberalismo. Actas da Semana de Estudos da Faculdade de Teologia (Porto, 1 a 4 de Fevereiro de 1994). Porto, Fundação Eng. António de Almeida, Porto, Universidade Católica Portuguesa, Madrid, Universidad Pontificia Comillas, 1996, p. 26.

[22] REIS, António do Carmo, “Maçonaria e Liberalismo no Porto: tópicos para um debate”, in: Pedro Alvarez Lázaro (coord.), Maçonaria, Igreja e Liberalismo – Masonería, Iglesia y Liberalismo. Actas da Semana de Estudos da Faculdade de Teologia (Porto, 1 a 4 de Fevereiro de 1994). Porto, Fundação Eng. António de Almeida, Porto, Universidade Católica Portuguesa, Madrid, Universidad Pontificia Comillas, 1996, p. 30.

[23] Loc. cit..

[24] Op. cit., p. 31, referindo-se o autor especificamente ao jornal A Coallisão, n° 7, de 10 de Janeiro de 1843.

[25] Loc. cit., referindo-se o autor ao jornal Periódico dos Pobres no Porto, n° 155, de 4 de Julho de 1843.

[26] Cf. op. cit., p. 30 – 31.

[27] Cf. WHELLER, Douglas L., História Política de Portugal de 1910 a 1926. Mem Martins, Publicações Europa-América, 1978, p. 48 – 50.

Artigos relacionados

2 Comentários em “A Maçonaria e o Movimento Republicano

  • Avatar

    Bom dia. Li o artigo A Maçonaria e o Movimento Republicano que achei muito interessante. Fiz o downloud e o lerei por inteiro, com calma. Tenha certeza que serei um leitor assíduo dos artigos publicados pelo Site, porque decidi aprofundar-me no assunto e, não tem sido muito comum encontrar bons livros à venda no comércio do Brasil. Obrigado pela remessa. Vitória(ES), 15.01.2019

    Reply
  • Avatar

    Leitura que acabei de ler muito bom para uma reflexão profunda e também para os irmãos que desejam um conhecimento mais sábio justo e perfeito M .’. M . ‘.

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *