A maçonaria no Entroncamento

fraternidade universal 3h6rtf
Loja Fraternidade Universal

Não sei se há maçons no Entroncamento, mas se os houver, não são os primeiros. A maçonaria chegou aqui na última década do século XIX, por iniciativa de um espanhol, Luiz Mayaffre Borrego, de Málaga, um empreiteiro de obras públicas que andava então ocupado na construção da segunda via da linha do Leste.

Com estrangeiros e portugueses se formou a loja Fraternidade Universal, em 1891.

Tinha, no seu início, 18 membros, a saber: o próprio Mayaffre, que era o Venerável; Frutuoso Santarino, natural da Mealhada, subchefe, iniciado no Entroncamento; António Joaquim Dinis, de Alfândega da Fé, chefe montador, que é possível ainda tenha descendência no Entroncamento, o qual vinha de uma outra loja, a 1º de Dezembro de 1640, de Lisboa, do Grande Oriente Lusitano Unido (GOLU); António Joaquim Afonso, de Terras do Bouro (Braga), maquinista principal, que vinha também da loja 1.º de Dezembro de 1640; João José da Silva, de Lisboa, encarregado da tenda da Companhia (armazém de víveres), vindo da mesma loja dos anteriores; Augusto Nogueira Soares, de Góis, subchefe de depósito, iniciado no Entroncamento; José François Borios, natural da Covilhã, subchefe de depósito, iniciado no Entroncamento; Manuel Gonçalves Silveira, de Rio de Moinhos, chefe de estação, também aqui iniciado; Lucien Guillaume Mathiotte , de Metz, Alemanha (atualmente Metz é cidade francesa), chefe de depósito, iniciado na Loja L´Hospitalière, em Madrid, cujos membros eram na sua maioria franceses; Joaquim Magro Folgado, de Salvaterra, farmacêutico, provavelmente o primeiro farmacêutico do Entroncamento, iniciado em 1891; Joaquim Valente Júnior, de Pardilhó, ferroviário; Arthur Westwood, de Manchester, Inglaterra, ferroviário; João Santos Godinho, de Elvas , ferroviário; António Silva Alfaro Júnior, do Entroncamento, ferroviário, este seguramente com família no Entroncamento atual; José Pedro dos Santos, do Barreiro, ferroviário; Francisco da Silva, de Elvas, ferroviário, os seis últimos iniciados em 1891, ano de fundação da loja; Agustin Hennaut, de Charleroi, Bélgica, chefe maquinista, vindo da loja Aliança Latina, tal como  o Venerável Mayaffre; e David da Silva Natária, de Ovar, ferroviário, iniciado em 1891, de que talvez haja descendência no Entroncamento.

A loja Fraternidade Universal do Entroncamento, fundada em 25 de outubro de 1891, estava filiada no Grande Oriente Nacional de Espanha (GONE), fação do visconde de Ros. Nesse tempo, havia em Portugal 22 lojas e 5 capítulos portugueses de obediência espanhola, distribuídos por 4 obediências.

Todas as outras lojas portuguesas, filiadas no GONE, estavam em cidades, à exceção de uma na Figueira da Foz, já então um centro urbano razoavelmente desenvolvido. Para além do facto de o Entroncamento ser então uma pequena aldeia que se resumia quase só às instalações ferroviárias, havia, na existência desta loja maçónica entroncamentense, outra singularidade, a de ser inteiramente formada por pessoas ligadas ao caminho de ferro. O farmacêutico Folgado parece estar fora dessa lista, mas num antigo jornal se menciona o sr. Folgado, enfermeiro da Companhia, que parece ser a mesma pessoa.

Com o correr do tempo houve algumas alterações, saíram Mayaffre Borrego e Augusto Nogueira Soares, e entraram Henrique Tourné, Grande Delegado da Ordem em Portugal, com o grau 33, José Duarte e Silva e Miguel Carneiro. Tourné era o representante em Portugal do GONE e já tinha passado pelas lojas Confederação Peninsular e Confederação, onde foi Venerável Mestre.

A documentação existente sobre a loja Fraternidade Universal (que teve de ser pedida ao Centro Documental de la Memoria Histórica de Salamanca) cessa em 1893. A presença de grande parte dos membros do grupo no Entroncamento também deixa de estar documentada noutros arquivos (paroquiais, municipais), a partir de 1893/1894. Pelos deveres da própria profissão, ter-se-ão deslocado do Entroncamento para outros sítios.

Passaram-se estes factos em tempo da monarquia e em fim de século, depois veio a Primeira República, e a esta seguiu-se uma Ditadura Militar.

A maçonaria, que tinha ganho força com a República, em 1929 viu a sua sede, o Palácio Maçónico no Bairro Alto, em Lisboa, ser invadida pelas forças da ordem e encerrada. Os tempos tinham mudado, começava um tempo de perseguição aos maçons, que culminaria com uma lei do Estado Novo, de 21 de maio de 1935, que determinava a imediata dissolução de todas as associações secretas.

Até lá, rodearam-se os maçons de todas as cautelas, para não serem denunciados e perseguidos. Uma das medidas foi decidir a triangulação das lojas existentes, que consistia em dividirem-se as mesmas em grupo de cinco obreiros, para poderem reunir-se sem atrair as atenções.

Foi nestas circunstâncias que foi criado um triângulo maçónico no Entroncamento, com pessoas que não eram da terra, nem aqui trabalhavam, com exceção de um médico, o Dr. Raul Wheelhouse, que aqui veio a ter um consultório médico.

Raul Wheelhouse era um competente cirurgião no Hospital da Misericórdia do Sardoal, onde operou António Marques Agostinho, eminente figura do poder local e da vida empresarial entroncamentenses.

Do seu círculo de amizades faziam parte maçons, e por essa via foi o Dr. Wheelhouse iniciado na maçonaria em agosto de 1931, em Arrifana, na linha do Vale do Vouga, e logo a seguir ajudou a fundar os triângulos n.º 330 do Sardoal e n.º 331 do Entroncamento, todos no mesmo ano, o do Sardoal em setembro e o do Entroncamento em outubro.

No primeiro ano, 1931, faziam parte do Triângulo n.º 331 do Entroncamento um comerciante de Abrantes, Fernando Farinha Pereira, que ficou como responsável, dois funcionários públicos, um de Lisboa e outro de Oliveira de Azeméis, um empregado de escritório, também de Oliveira de Azeméis, um advogado de Lamas, concelho de Sátão, e um industrial do Porto.

Em 1932 sai Farinha Pereira, para ir preparar um triângulo em Abrantes, e Raul Wheelhouse deixa o hospital do Sardoal e passa para o triângulo do Entroncamento em novembro desse ano.

Em 1933, entram José Lobato Falcão, de Alvega, militar demitido pela Ditadura, ex-deportado; Joaquim da Silva Nuno, proprietário nas Lapas; Renato Roque Laia, engenheiro dos caminhos de ferro, que vinha da loja Aliança de Lisboa; Manuel Machado Rocha, comerciante de Mação; Francisco Violante, de Pernes, vindo de um outro triângulo; e Francisco Moreira Pinto da Silva, este residente no Entroncamento, e vindo do Moçambique, onde pertencera à loja Ophir, da Beira.

Em fevereiro de 1933, o Dr. Wheelhouse veio exercer clínica no Entroncamento, atividade de pouca dura, porque foi relacionado com uma rede conspiratória no Ribatejo, e logo deportado para Angra do Heroísmo nesse mesmo ano. Quando voltou, as atividades maçónicas, as que ainda existiam, apenas funcionavam na clandestinidade.

Apesar de ter a sua residência e consultório em Lisboa, o Dr. Wheelhouse voltou ao Entroncamento em janeiro de 1936, retomando a clínica médica, pelo menos durante esse ano. Funcionaria ainda o triângulo maçónico na clandestinidade? Não há informação sobre esse período, e ademais o médico, recém-vindo da deportação, continuaria a ser vigiado. Sobre o triângulo do Entroncamento escreveu Oliveira Marques no seu Dicionário da Maçonaria Portuguesa, que esteve “ativo de 1931 até à clandestinidade”.

Algures, no Entroncamento, talvez existam ainda os lugares onde algumas destas pessoas se reuniam. Em tempos idos, houve um consultório médico no 1.º andar por cima da relojoaria Reis.  Esse edifício ainda lá está, a relojoaria também. Mas dois anos antes do consultório do Dr. Wheelhouse, já o triângulo maçónico n.º 331 existia.

Manuela Poitout

Este trabalho foi publicado originalmente na Página “Entroncamento Online” – Link para a publicação original.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *