A Sociedade Amor da Pátria

Na origem da Sociedade Amor da Pátria, está a fundação de uma Loja maçónica designada Amor da Pátria, a 28 de Novembro de 1859, sob a dependência da Confederação Maçó­nica Portuguesa (Marcelino Lima, 1940: 506).

Estabelecida por um conjunto de per­sonalidades pertencentes na sua maio­ria a uma burguesia instruída e ligada a quadros da administração pública, incluindo militares, esta Loja viria a constituir-se como associação profa­na, com o nome de Grémio Litterario Artista, e só depois com o nome de Sociedade Amor da Pátria (João José Alves Dias, 1995: p. 276).

A primeira reunião terá tido lugar na casa onde residia Manuel Maria da Terra Brum [1], junto da antiga Igreja da Conceição [2], constando os seguintes nomes: o citado Manuel Maria da Terra Brum, seu irmão João José Paim da Terra Brum, o cunhado João Betten­court Vasconcelos Correa e Ávila, Laureano Pereira da silva, João António Morisson, Manuel Veloso de Carvalho, José Afonso Botelho de Andrade da Câmara e Castro, António Joaquim de A. Beja, Francisco da Silva Carvalho, os irmãos António Garcia da Rosa, Manuel Garcia da Rosa e Luís Garcia da Rosa, Roberto Augusto de Mesquita Henriques, João Maria de Oliveira, João Pereira Sarmento e Manuel José Bettencourt (Marcelino Lima, 1940: 507; Careiro da Costa, 1959: 53; João José Alves Dias, 1995: 280-282).

A Loja Amor da Pátria, registada ini­cialmente na Confederação Maçónica Portuguesa, surge posteriormente in­tegrada na obediência do Grande oriente Português, entre 1867 e 1869, e a partir desta última data, no rito maçónico do Grande oriente Lusi­tano unido (João José Alves Dias, 1995: 275).

Pouco tempo depois da fundação da nova Loja “Amor da Pátria”, seria encontrada uma casa própria para o seu funcionamento, no edifício histó­rico que fora residência do Morgado José Francisco da Terra Brum [3] localizado numa parcela a norte do actual edifício, na rua D. Pedro IV, Fregue­sia da Matriz, Horta.

Quando já estava constituída em paralelo a associação profana Socie­dade Amor da Pátria, desenvolve-se a sua actividade cívica, de carácter cultural, económico e social. Assim, a 5 de Novembro de 1860, inaugura uma escola primária nocturna na ci­dade da Horta, e a 31 de Janeiro 1870, outra na Freguesia dos Flamengos, quando já em 1862 (2 de Julho) tinha estabelecido a “Caixa Económica Faialense”, com um capital de 2 400 reis, não só com o intuito comercial, mas também para subsidiar obras de beneficência e instrução (Marcelino Lima, 1940: 508).

Tornou-se frequente a Sociedade Amor da Pátria prestar auxílios a instituições de caridade do Concelho da Horta, como aos Asilos de Mendi­cidade e da Infância Desvalida, atra­vés da promoção de serões artísticos e literários, onde eram colhidas dá­divas. De resto, a administração do Asilo da Infância Desvalida era da sua responsabilidade, sendo que na sua direcção a grande maioria dos seus membros era da Maçonaria (v. João José Alves Dias, 1995: 276).

Durante longos anos a Sociedade Amor da Pátria funcionou no solar do morgado José Francisco da Terra Brum, porém, a 13 de Agosto de 1930, em resultado de um violento incêndio que deflagrou numa casa contígua a sul, onde estavam instalados diversos organismos da administração central e o Governo Civil, rápido se propagou àquele solar, tendo ficado destruído todo o seu segundo andar, ocupado pela sociedade e Loja Maçónica, salvando-se apenas parte do rés-do­-chão, onde existiam a instituição de crédito e duas salas de jogos. (Actas da Assembleia Geral da s. A. da Pátria).

Após o incêndio, foi deliberado em Assembleia Geral de 4 de Setembro do mesmo ano, construir um edifício de raiz “adequado e marcante” no mesmo local, e a aquisição do pré­dio em ruínas do lado sul, por onde o incêndio principiara, para “melhores e mais amplas instalações” (Actas da Assembleia Geral da s. A. da Pátria). Não obstante a contratação de um agente técnico e três mestres cons­trutores para elaborarem projectos do interior, conforme as necessidades funcionais da sociedade, e do sur­gimento de um quarto projecto de um sócio, ficaria lavrado em acta da Assembleia Geral de 18 de Outubro de 1930, a aprovação unânime de que o autor do projecto deveria ser “…um arquitecto consagrado, artis­ta de nomeada, artista de alto saber”, “possivelmente o melhor arquitecto do paiz. (.)”, e que o edifício “que se quer levantar deve ser uma espécie de monumento que marque por largos anos a existência d’esta sociedade. (.)” (Actas da Assem­bleia Geral da S. A. da Pátria).

No cumprimento do deliberado, tendo sido expressa a intenção de convidar um arquitecto de reputação nacional para projectar o novo edifício, a esco­lha recairia no Arq.° Manuel Joaquim Norte Júnior, um maçon que à data já era o mais galardoado dos arquitectos nacionais com o Prémio Valmor, o maior galardão nacional de arquitectura.

O Arq.° Norte Júnior deslocou-se à cidade da Horta entre Junho e Agosto de 1931, tendo assistido ao lança­mento da primeira pedra da actual sede da Sociedade Amor da Pátria, que teve lugar a 2 de Agosto daquele ano. A sua construção demoraria três anos, tendo-se realizado o acto de inauguração a 30 de Junho 1934 (Actas da Assembleia Geral da S. A. da Pátria).

Num contexto económico e político renovador, coincidente com o início dos anos trinta, onde se opera um surto de construção privada e do Estado, que tem como grande pro­motor Duarte Pacheco, enquanto Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e Ministro das obras Públicas, assiste-se ao despertar de uma nova linguagem “modernista”, como processo de afirmação simbólica do novo regime e, uma ruptura com os estilos historicistas antecedentes.

A Sociedade Amor da Pátria, reflecte bem este novo ciclo de produção arquitectónica nacional, que ocorre de forma mais densa na capital do País, Lisboa, em que o Arq.° Manuel Norte Júnior é um dos seus expoentes. o novo edifício erguido na Horta, não deixa ao tempo de gerar alguma polémica, parte dela vertida para a imprensa escrita local, porque rompe com a escala e os pergaminhos mo­destos e tradicionais do pacato e dis­tante burgo atlântico.

A sua arquitectura transporta fortes sinais de modernidade ou, traduz a influência do movimento moderno que culminou na exposição das Artes Decorativas de Paris (1925), ainda dentro de um estilo tradicionalizante: marcação vertical dos corpos cons­titutivos, enriquecimento formal da fachada e átrio de entrada, ganhan­do opulência, estilização de formas decorativas naturalistas nos relevos executados em argamassa, desenho geométrico das grelhagens das portas e janelas, estuques de parede e trata­mento das cimalhas e pilastras, poli­cromia de vitrais, aos pavimentos em pedra mármore e ladrilho dos pavi­mentos.

O edifício da Sociedade Amor da Pátria, com amplos e arejados espa­ços, confortáveis e modernos, des­taca-se no tecido urbano da cidade da Horta pela sua escala e qualidade arquitectónica, com uma nítida valo­rização da estética “Art Deco”, que em 1984, mereceu a classificação de Imóvel de Interesse Público (reso­lução n° 64/84, de 30 de Abril do Governo regional dos Açores).

Da história mais recente desta socie­dade faialense, é de realçar que foi no seu amplo salão principal, que funcionou durante alguns anos, a Assembleia Legislativa da região Autónoma dos Açores, tendo tido lugar o acto inaugural da I Legislatura a 4 de Setembro de 1976, na presença do Presidente da república, General Ramalho Eanes, e do Primeiro Minis­tro, Mário soares.

Já no ano de 2001, a sociedade foi agraciada pelo Presidente da repú­blica Jorge Sampaio com a Ordem do Mérito – Membro Honorário (2001. 09.04), e pelo Governo regional dos Açores declarada Instituição de Utili­dade Pública (Jornal oficial, II série, n ° 37 de 2001.09.11).

O Arquitecto Manuel Joaquim Norte Júnior (1878 – 1962)

O Arquitecto Manuel Joaquim Norte Júnior, nasceu em Lisboa, a 24 de De­zembro de 1878, tendo cursado Arquitectura Civil em Lisboa e em Paris. Profissional meticuloso e exigente, com uma notável capacidade e efi­cácia dentro do seu eclectismo, foi até hoje o arquitecto mais premiado de todos os tempos com o maior ga­lardão da arquitectura portuguesa, o Prémio Valmor, para além das men­ções honrosas e da atribuição da me­dalha de ouro do rio de Janeiro.

Por cinco vezes o Arq.° Norte Júnior recebeu a honra “Valmor”: em 1905, a moradia e atelier de pintura de José Malhoa, actual Casa Museu Anastá­cio Gonçalves, Av. 5 de Outubro 6-8, Lisboa; 1912, moradia Villa sousa, propriedade de José Carreira de sousa, Alameda das Linhas de Torres, n° 22, Lisboa; 1914, moradia de José Marques, Avenida Fontes Pereira de Melo, n° 28, actual sede do Metro­politano de Lisboa; 1915, edifício em altura, propriedade de Domingos da Silva, Avenida da Liberdade, n° 206 a 218, Lisboa, tem actualmente apenas o piso térreo ocupado por um conces­sionário de automóveis; 1927, Hotel Tivoli, pertencente a José de sousa Brás, na Avenida da Liberdade 176­180, depois Hotel Lis, que foi demo­lido em 1980 à excepção da fachada, hoje integrada no Tivoli Fórum.

Numa época particularmente activa do urbanismo e arquitectura lisboeta, contextualizada pela procura da lin­guagem “modernista” (Fernandes, 1990: 279-288) o Arq.° Manuel Norte Júnior encontra-se como um dos ele­mentos dessa notável geração em busca dessa nova linha estética, na sua maioria galardoados com pré­mios Valmor, como Miguel Ventura Terra, Arnaldo r. Adães Bermudes [4], Ernesto Korrodi, Marques da silva, António Couto de Abreu, Cristino da silva, até Cassiano Branco, Pardal Monteiro e Raúl Lino.

Tendo exercido a actividade de projectista até aos anos 40 do século XX, o Arq.° Norte Júnior ainda surge, com frequência, na memória viva da arquitectura contemporânea de Lisboa, desde os edifícios de residência a pré­dios de rendimento, da colectividade ao café, merecendo destaque, por exemplo: alguns prédios nas aveni­das novas, a Voz do operário, o Café Nicola, o Café “A Brasileira” ou, o Cine Teatro Variedades (v. silva). Fora de Lisboa, surgem com a assi­natura deste arquitecto, belos exem­plares de arquitectura civil. Como obras mais expressivas, veja-se entre outras, o Grande Hotel e o Hotel Paris no Estoril, o Cine-Teatro em Sintra, o famoso Casino de Sintra (1924), de referências neoclássicas, o Palace Hotel da Cúria (1926), em Aveiro, considerado como dos melhores exemplares europeus de Arte Nova. Nos Açores, apenas na cidade da Horta, ilha do Faial, se encontra um projecto deste arquitecto, a Sociedade Amor da Pátria.

Luís Manuel Machado Menezes
Coordenador na ilha do Faial da Direcção regional da Cultura.
Boletim do Núcleo Cultural da Horta, 18: 263-271.

Bibliografia

  • Costa , Careiro da (1959), «o Faial ao Longo de Cinco séculos», in Boletim do Núcleo Cultural da Horta, Vol. 2, n.º 1.
  • Dias , João José Alves (1995), «o Amor da Pátria é o único astro que nos guia – A Maçonaria na Ilha do Faial em 1892», in O Faial e a Periferia Açoriana nos séculos XV a XIX, Núcleo Cultural da Horta, Horta.
  • Fernandes , José Manuel (1990), «A arquitectura entre o modernismo e o naciona­lismo», in Portugal Contemporâneo, Dir. António reis, Vol. 4, Publicações Alfa, S.A., Lisboa.
  • LIM A , Marcelino (1940), Anais do Município da Horta, Vila Nova de Famalicão.
  • Silva, Raquel Henriques da, Bairro Azul – Do urbanismo, da arquitectura, da vi­vência – www.bairroazul.pt

Notas:

  • [1] Mais tarde 3.° Barão da Alagoa, filho do morgado José Francisco da Terra Brum.
  • [2] Destruída pelo terramoto de 1926.
  • [3] Neste solar do morgado José Francisco da Terra Brum, o Imperador D. Pedro IV na companhia da corte liberal portuguesa, ficou hospedado quando visitou pela primeira vez a Horta, em Abril de 1832, e recebeu a vereação camarária presidida por A. J. de Ávila, o futuro Marquês de Ávila e Bolama.
  • [4] Autor do projecto de arquitectura da ex-Agência da Horta do Banco de Portugal, inaugurada a 25 de Fevereiro de 1935.

Imagens:

Perspectiva parcial da Horta no século XIX, vendo-se em primeiro plano o Convento da Glória (actual Praça da república).
Casa de Manuel Maria da Terra Brum, do lado direito da antiga Igreja da Conceição, onde terá tido lugar a primeira reunião da futura loja maçónica Amor da Pátria.
Desenho sobre fotografia do solar do Morgado José Francisco da Terra Brum, onde se instalou a loja Amor da Pátria, até 13 de Agosto de 1930.
Vista do solar do Morgado José Francisco da Terra Brum engalanado, ao fundo do lado esquerdo, onde se ergue o actual edifício da Sociedade Amor da Pátria.
Vista do solar do Morgado José Francisco da Terra Brum (1.º plano lado direito) – 1916
Acto de lançamento da 1.ª pedra do actual edifício da Sociedade Amor da Pátria – 2 de Agosto de 1931

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *