Apontamentos da História da Maçonaria Portuguesa

A história da Maçonaria Portuguesa é um calvário sangrento. É a história de inúmeras vitimas, nas prisões nos cárceres, nas câmaras de tortura da inquisição, nos pelourinhos do povo e nas fogueiras dos numerosos autos-de-fé. Outros foram exilados nalguma ilha diabólica.

Na base dum alvará do Grão-Mestre inglês Lord Weymouth, o matemático George Gordon, o autor da parte matemática do “Dictionarium Brittannicum de Bailey”, escrito em 1730, introduzia a Maçonaria em Portugal. Na instalação da primeira Loja estiveram presentes numerosos oficiais da marinha inglesa. Em 1738 existiam em Lisboa duas Lojas. Uma Loja católica “A casa real dos maçons da Lusitânia ” e uma Loja protestante. A primeira reunia-se numa tasca dum Irlandês e era constituída principalmente por Irlandeses.

As informações que a inquisição recolheu de um dos compatriotas irlandeses, professor em teologia no colégio “Corpo Santo”, Charles O’Kelley, um dominicano, davam uma imagem favorável. Mesmo assim todos os membros foram citados, entre eles também três frades da ordem de São Domingos. A inquisição ficou satisfeita com as declarações e voltou a sua atenção para a Loja protestante.

Cinco anos depois surgiram na Maçonaria as primeiras testemunhas de sangue. Um frade dominicano, fanático provençal, descobridor dos heréticos, Bonnet de Meautry, que se chamou si mesmo “o carniceiro de Notre Seigneur” denunciou 17 franco maçons junto do Grão inquisidor Dom Pedro de Silveira por causa de “conspiração e heresia” e exigiu energicamente o castigo dos “Pedreiros livres”, homens cheios de ideias loucas sobre a religião.

O Rei João V consentiu numa perseguição e promulgou, sem consentimento das Cortes, um decreto retroactivo segundo o qual cada Maçom foi condenado á morte sem possibilidade de apelação. A 8 de Marco de 1743 a Loja Virtude em Lisboa foi assaltada. Os três membros presentes, Damião de Andrade e Manuel de Revelhos, ambos aristocratas e o irmão de serviço Christoph Diego, sofreram torturas mortais. Não indicaram nomes dos outros maçons mas, por uma denuncia duma mulher, a policia conseguiu encontrar três e detê-los. Foram os joalheiros franceses Jean Thomas Braslé e Jacques Mouton e o lapidário de diamantes e joalheiro de camafeus suíço Johann Coustos de Berna que participavam na instalação duma Loja. Gravemente maltratados e torturados no palácio da inquisição, durante um período de três meses, sem que qualquer segredo tivesse sido revelado.

No mesmo dia Coustos e os seus irmãos foram por meio dum desfile público levados para um auto-de-fé na igreja do São Domingos, vestidos numa mortalha, porque essa foi a maneira como eles foram executados, para lá de ouvir em presença do rei, o núncio do papa e o ministro plenipotenciário de Castela o castigo: quatro anos de cárcere e excomunhão para o protestante suíço e cinco anos de deportação para os outros. A tortura do Braslé teve como consequência a sua morte. Em 1744 Coustos foi libertado por iniciativa do ministro plenipotenciário inglês Lord Crompton, depois da intervenção do Grão-Mestre inglês Lord Harrington e com Mouton trazido para um navio holandês “O Damietta” e depois levado para Portsmouth e Londres. Dois outros maçons morreram na fogueira depois de auto-de-fé. Um deles foi o advogado judaico Dr. Jorge da Silva.

Durante o reinado do D. José I ( 1850 -1877) Sebastião Carvalho e Melo foi ministro plenipotenciário na corte de Viena, mais tarde Marques de Pombal e primeiro ministro de Portugal. Iniciado em 1744 numa Loja em Londres pelo Grão-Mestre Inglês Frederico de Gales, assistiu repetidas vezes às reuniões da Loja “Para os três canhões” em Viena. As reformas progressivas (criando novos ramos de indústria e portos, um sistema de canalização grandiosa, uma constituição liberal, um édito de tolerância, a eliminação da inquisição, da tortura e das classes privilegiadas) foram uma bênção sob todos os aspectos para o paupérrimo país, próximo da banca rota, e culturalmente arruinado. Pombal protegeu a reanimação da Maçonaria. Em Portugal e nas colónias surgiram Lojas que fundaram grandes bibliotecas e importantes serviços de assistência social para a população. Durante o trabalho de salvamento por ocasião do terramoto lisboeta em 1755 os maçons mereceram o agradecimento da nação pela sua assistência abnegada.

A subida ao trono em 1777 da rainha clerical Maria I, que colaborou de novo com os fidalgos e o clero e chamou os jesuítas expulsos em 1769, punha cobro à obra do Pombal. A rainha renovou a lei anti-maçónica do seu avô. Muitos irmãos eminentes tiveram que fugir. Em 1788 teve lugar outro auto-de-fé.

A revolução francesa foi mais um motivo para conflitos violentos. O governador de Madeira teve, em 1792, ordem para deter todos os maçons na ilha. Avisados pela mulher dele, conseguiram que o capitão dum navio inglês, Walter Ferguson, aceitasse transportar 64 irmãos, com suas famílias, no seu navio com dois conveses “Good Hope” de Funchal para América. Na barra no porto de Nova Iorque uma das velas ostentou símbolos maçónicos e as palavras “Asylum querimos”. Em consequência disso a Grande Loja da Pensilvania convidou os refugiados para Filadélfia. Uma fragata da frota da União levou os mártires para Delaware River. Washington saudou-os em nome dos Estados Unidos e declarou-os como cidadãos americanos. Em Portugal formaram-se, apesar de todas as perseguições, mais Lojas. Durante longo espaço reuniram-se nos navios ancorados nos portos portugueses. Famosa foi a fragata “Fenix”. Um navio de posto inglês onde tiveram lugar reuniões todas as sextas-feiras. Participaram capitães dos navios ingleses, oficiais ingleses e portugueses e monarquistas refugiadas de França. Às vezes estavam 140 irmãos presentes na “Loja da marinha real Fénix”. Esta Loja foi a Loja mãe da Loja maçónica lisboeta “Regeneração” donde resultaram mais cinco Lojas maçónicas. A coesão dentro das Lojas singulares em Lisboa, Coimbra, Porto, etc., foi assegurada por um grupo de seis pessoas “A comissão do expediente”. O Governo requereu em vão ao ministro plenipotenciário inglês, Sir John Partridge que mandasse regressar o navio de posto a Inglaterra. Mais severo foi o chefe da polícia, o Intendente Pina Manique. Num memorando dirigido ao príncipe regente D. João, filho da rainha que sofria de demência espiritual, declarou que um espião da policia, sob juramento, viu por um buraco que aquela “canalha amaldiçoada” pisara uma gravura do Salvador e que o crucificado derramou sangue sob suspiros lastimáveis. Mais uma vez os maçons foram postos sob pena de morte. Muitos maçons desapareceram nos cárceres para sempre. A despeito disso existiram numerosos exemplos de confissões de fidelidade heróica. Em 1798, 200 maçons juraram aceitar torturas terríveis antes de renunciar à arte real.

As diferenças que existiram entre os maçons lisboetas e portuenses foram apaziguadas solenemente em 1802 numa reunião com 200 participantes dirigida por Abbé Monteiro no palácio de Gomes Freire d’Andrade. Cerca de 1802 estabelece-se a primeira Grande Loja. Um conselheiro do supremo tribunal, Sebastião Sampaio Castro, foi eleito o primeiro Grão-Mestre de Portugal. Don Hipólito José da Costa viajou para Inglaterra para concluir um pacto de amizade com a Grande Loja da Inglaterra. Este pacto foi celebrado. As perseguições pioraram.

As tropas franceses que em 1807 entraram em Portugal, comandadas pelo general Junot encontraram nove esqueletos atados de homens aparentemente maçons num calabouço subterrâneo. A época dos franceses mostrou-se primeiramente favorável para a Maçonaria, mas em 1808 a Grande Loja teve problemas por motivos nacionalistas, porque ter sido forçada a pendurar em todos os templos maçónicos o imagem de Napoleão e por não condescender com o desejo do General Junot em aceitar um Grão-Mestre da sua graça. Sampaio foi reeleito em 1808. Mais duas vezes os franceses regressaram (uma vez sob Soult e depois sob Massena) ambos as vezes a actividade maçónica renasceu e de cada vez surgiu depois o antagonismo e até a luta. Em 1809 um desfile público dos maçons das forças armadas inglesas com bandeiras e emblemas despertou de novo a atenção da inquisição. Nos anos seguintes foram deportados para os Açores 30 maçons da capital.

Entretanto a Grande Loja liderada desde 1809 por Fernando Romão d’Ataíde Freire continuou a trabalhar em segredo no mosteiro São Vicente de Fora com 13 Lojas, das quais foram membros muitos oficiais e funcionários públicos liberais. O seu sucessor, o General Gomes Freire d’Andrade, um oficial e grande simpatizante da causa nacional, foi, depois de ser denunciado, enforcado em 1817 por ordem do então comandante em Portugal, o brigadeiro inglês Beresford, com onze irmãos que como o Grão-Mestre não se submeteram ao domínio estrangeiro, sendo partidários da monarquia constitucional e defensores da mudança. Um dia antes da execução um coronel inglês visitou o Grão-Mestre na cadeia e ofereceu-lhe como irmão a oportunidade para a fuga. Gomes recusou a oportunidade. Em 1853 foi erguido um monumento no sítio onde morreu.

Em 1818 D. João VI do Brasil declarou por sua vez a actividade maçónica um crime punido com a pena de morte. Durante os três anos da monarquia constitucional reinou mais uma vez a liberdade. O conselheiro do estado, Isão da Cunha Souto Mayor, actuou como Grão-Mestre. Depois da contra-revolução de 1823 apareceu logo a seguir um édito novo do D. João VI que condenava a actividade maçónica com o exílio de cinco anos em Africa. No ano seguinte o usurpador Dom Miguel de Bragança decretou uma portaria que acabou com as palavras “Viva o rei, Viva a religião católica-romana. Morte e ruína á raça malvada dos maçons“. Uma pastoral do cardeal Sousa, arcebispo de Lisboa, foi motivo para o assassínio, pela plebe, de 17 maçons estando entre eles o Marques de Loulé. “Deve ser derramado em massa o sangue dos portugueses como antigamente o sangue dos judeus porque o infante jurou não embainhar a espada antes de resolver a situação com os maçons. Estou sequioso de banhar as minhas mãos de sangue“, pregou o padre João Moriano. Seguindo a ordem do Grão-Mestre as Lojas foram fechadas. Nesse período a actividade ficou limitada à Ilha Terceira. Mas quando depois da capitulação de D. Miguel em 1834, a jovem rainha legítima, Maria II, tomou o leme, a Maçonaria espalhou-se novamente. Infelizmente estabeleceu-se no seio dos maçons, que regressaram depois de longa emigração, várias interpretações e ritos, e também conforme a índole portuguesa defenderam com energia linhas políticas diferentes nas suas Lojas. Existiam muitas divergências de opiniões. Por conseguinte não nasceu então uma Maçonaria homogénea.

Durante um período existiram quatro Grandes Lojas / Grandes Orientes e também uma Loja Provincial Irlandesa que trabalharam com rituais Inglês, Escocês, Irlandês e Francês. Durante um século foram fundadas Lojas, foram fundidas outras entre si, para mais tarde se separarem ou até se extinguirem.

(traduzido da Enciclopédia Internacional de Maçonaria por um M:. M:. da R:. L:. Alemgarbe)

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