As origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria (Parte IV)

Parte IX origens Ritual Igreja e Maçonaria

A alegoria mal compreendida, conhecida pelo nome de descida aos Infernos, causou muitos males. A “Fábula” esotérica de Hércules e de Teseu descendo às REGIÕES INFERNAIS; a viagem do Orfeu aos Infernos, encontrando seu caminho graças ao poder da sua lira (Ovídio, METAMORFOSES), a viagem de Krishna e finalmente do Cristo que “desceu aos Infernos” e “ressuscitou dos mortos” ao terceiro dia, todas se tornaram irreconhecíveis pelos “adaptadores” não iniciados dos ritos pagãos, que os transformaram em ritos e dogmas da Igreja.

Do ponto de vista astronómico, essa DESCIDA AOS INFERNOS simboliza o Sol durante o equinócio do Outono. Imaginava-se, então, que ele abandonava as altas regiões siderais e travava um combate com o demónio das trevas, que nos tira a melhor parte de nossa luz. Concebia-se o sol sofrendo uma morte temporária e descendo às regiões infernais. Mas, sob o ponto de vista místico, essa alegoria simboliza os ritos de iniciação nas criptas do Templo, chamadas o “mundo inferior” (HADES). Baco, Héracles, Orfeu, Asklépios e todos os outros visitantes da cripta, desciam aos infernos, donde ressurgiam ao terceiro dia, pois todos eram Iniciados e “construtores do Templo Inferior”.

As palavras de Hermes, dirigidas a Prometeu encadeado sobre as rochas áridas do Cáucaso – Prometeu ligado pela ignorância e devorado pelo abutre das paixões – aplicavam-se a cada neófito, a cada CHRESTOS durante as provas. “Não há fim para o teu suplício até que Deus (ou um deus) apareça e te alivie as tuas dores, consentindo em descer contigo ao tenebroso HADES, às sombrias profundezas do Tártaro” (Ésquilo: PROMETEU, 1.027 e ss.) Isto quer simplesmente dizer que, enquanto Prometeu (ou o homem) não encontrar o “deus” ou o Hierofante (o Iniciador) que desça voluntariamente consigo às criptas da iniciação e o dirija em torno do Tártaro, o abutre das paixões não cessará de devorar os seus órgãos vitais [8].

Parte X

Ésquilo, como Iniciado, não podia dizer mais do que isso! Mas, Aristófanes, menos piedoso, ou mais audacioso, divulga o segredo aos que não estão cegos pelos preconceitos por demais enraizados, na sua sátira imortal AS RÃS, sobre a “descida aos infernos” de Herákles. Lá encontramos o coro dos bem- aventurados (os Iniciados), os Campos-Elísios, a chegada de Baco (o deus Hierofante) com Terakles, a recepção com as tochas acesas, emblema da NOVA VIDA e da RESSURREIÇÃO das trevas da ignorância humana para a luz do conhecimento espiritual, a VIDA ETERNA. Cada palavra da brilhante sátira atesta a intenção interior do poeta:

Animai-vos, tochas ardentes… pois as vens
Agitando em tua mão, Jaco [9]
Estrela fosforescente do rito nocturno

As iniciações finais sempre eram feitas à noite. Falar-se, por conseguinte, de alguém que houvesse descido aos infernos equivalia, na antiguidade, a designá-lo como um INICIADO PERFEITO. Aos que se sentirem inclinados a rejeitar essa explicação, eu farei uma pergunta: podem eles nos revelar, neste caso, a significação de uma frase contida no sexto livro de Eneida de Virgílio? Que quer dizer o poeta senão que exprimimos acima, quando, introduzindo venerável Anquises nos Campos Elísios, ele o induz a aconselhar o seu filho Enéas a realizar a viagem à Itália… onde teria que combater, em Latium, um povo rude e bárbaro; mas, acrescenta ele, “não te aventures a tal antes de teres concluído A DESCIDA AOS INFERNOS”, quer dizer, “antes de seres um Iniciado”.

Os clérigos benévolos que, sob a menor das provocações, estão sempre prontos a nos mandar ao Tártaro e às regiões infernais, não suspeitam o bom voto formulado a nosso respeito, e qual o carácter de santidade que deveremos adquirir para poder entrar num local tão sagrado.

Os pagãos não eram os únicos a ter os seus Mistérios. Belarmino (de Eccl. Triumph lib. II, cap. 14) afirma que os primeiros cristãos adoptaram, dentre o conjunto das cerimónias pagãs, o costume de reunir-se na Igreja durante as noites que precediam as suas festas, para ali passar em vigília, ou “vésperas”.

Suas cerimónias, no começo, foram realizadas com pureza e a mais edificante santidade, mas nessas reuniões não tardaram em infiltrar-se abusos de imoralidade, e os Bispos julgaram melhor suprimi-las. Temos lido dúzias de livros que falam da licenciosidade que reinava nas festas religiosas pagãs. Cícero (de Leg. Lib. II, cap. 15) nos mostra Diagondas, o Aebano, que não encontra, para remediar tais desastres nas cerimónias, outras medidas senão a supressão dos próprios mistérios. Entretanto, quando comparamos as duas espécies de celebrações – os mistérios pagãos santificados desde tempos remotos, muitos séculos antes de nossa era, e os ágapes cristãos de uma religião apenas nascida e com pretensões a tão grande influência purificadora sobre os seus conversos – não podemos deixar de lamentar a cegueira mental dos seus defensores cristãos, de citar na sua intenção esta pergunta de Roscommon:

“Se começais com tal pompa e tal ostentação,
Por que é tão mesquinho e tão baixo vosso fim?”

O Cristianismo primitivo – tendo derivado da Maçonaria primitiva – também tinha os seus sinais, as suas palavras de passe e os seus graus de iniciação. “Maçonaria” é um termo antigo, e o seu emprego não vai muito além da nossa era. Paulo intitula-se “Mestre Construtor”, e era um deles.

Os antigos maçons eram designados por nomes diferentes, a maior parte dos eclécticos alexandrinos, os teósofos de Ammonius Saccas e os últimos neoplatónicos eram todos virtualmente maçons. Todos estavam ligados pelo juramento do segredo. Todos se consideravam uma fraternidade e tinham também os seus sinais de reconhecimento. Os eclécticos ou filaleteos contavam nas suas fileiras com os sábios mais capazes e mais eruditos da época, como também diversas cabeças coroadas. O autor da FILOSOFIA ECLÉTICA assim se exprime:

“As suas doutrinas foram adoptadas pelos pagãos e pelos cristãos na Ásia e na Europa, e durante algum tempo tudo parecia favorável a uma fusão geral das crenças religiosas. Foram adoptadas pelos imperadores Alexandre, Severo e Juliano. A sua influência predominante sobre as ideias religiosas excitaram os ciúmes dos cristãos de Alexandria; a escola foi transferida para Atenas, e em seguida fechada pelo imperador Justiniano. os seus instrutores SE RETIRARAM PARA A PÉRSIA [10] onde tiveram numerosos discípulos”.

Outros pormenores poderiam ser interessantes. Sabemos que os Mistérios de Elêusis sobreviveram a todos os outros. Enquanto os cultos secretos dos Deuses Menores, comos CURATES, os DACTYLI, os adoradores de Adonis, de KBIRI, e mesmo esse do velho Egipto, desapareciam sob a mão vingativa e cruel do desumano Theodósio [11], os Mistérios de Elêusis não podiam ser tão facilmente suprimidos. Eles eram, na verdade, a religião da Humanidade e brilhavam com todo seu antigo esplendor, senão na sua pureza primitiva. Seriam necessários vários séculos para aboli-los e eles se perpetuaram até o ano 396 de nossa era. Foi então que os “Construtores do Templo Superior, ou do Templo da Cidade”, apareceram em cena pela primeira vez, e trabalharam sem descanso para introduzir o seu ritual e o seu dogma particular na Igreja nascente, sempre contendora e combativa. O tríplice “Santus” da missa da igreja católica romana é o S.S.S. daqueles maçons primitivos, e é também o prefixo moderno dos seus documentos ou de todo “balaústre” [12]; é a inicial de SALUTEM ou SAÚDE e por isso foi dito acertadamente por um Maçom: “Essa tríplice saudação maçónica é a mais antiga entre os maçons”. (Ragon)

Parte XI

Mas os enxertos maçónicos na árvore da religião cristã não se limitam a isso. Durante os Mistérios de Elêusis, o vinho representado BACO e o pão ou trigo, CERES [13]. Ora, Ceres ou Demeter era o princípio produtor feminino da terra, a esposa do pai Aether ou Zeus; e Baco, o filho de Zeus-Júpiter, era o seu pai manifestado. Noutros termos, Ceres e Baco eram as personificações da substância e do espírito, os dois princípios vivificantes em a natureza e sobre a terra. O Hierofante Iniciador apresentava simbolicamente aos candidatos, antes da revelação final dos mistérios, o vinho e o pão, que estes comiam e bebiam para testemunhar que o espírito devia vivificar a matéria, isto é, que a Divina Sabedoria do Eu Superior devia penetrar no Eu interior ou alma, tomar posse dele, auto-revelar-se.

Esse rito foi adoptado pela Igreja cristã. O Hierofante, que então era chamado “Pai”, tornou-se agora – menos o conhecimento – o padre, o “pai” que administra a mesma comunhão. Jesus se chama a si mesmo a vinha, e a o seu “Pai”, o Vinhateiro; as suas palavras na Última Ceia mostram o seu perfeito conhecimento do significado simbólico do pão e do vinho, assim como a sua identificação com os LOGOI dos antigos: “Aquele que comer minha carne e beber meu sangue, terá a vida eterna”… E acrescenta: “as palavras (RHEMATA, ou palavras secretas) que vos dou, são Espírito e Vida”. Elas o são, porque “é o Espírito que vivifica”. Essas RHEMATA de Jesus são, na verdade, as palavras secretas DE UM INICIADO.

Mas entre esse nobre rito, tão velho como simbolismo, e a sua última interpretação antropomórfica, conhecida agora como transubstanciação, há um abismo de sofisma eclesiástico. Quanta força há na exclamação: “Infelizes sois, Homens da Lei, pois REJEITASTES A CHAVE DO CONHECIMENTO” (e hoje nem sequer permitis que gnose seja dada aos outros), e eu, com decuplada força digo que essas palavras jamais foram de maior aplicação que em nossos dias.

Sim, essa GNOSE “vós não a deixais penetrar em vós mesmo, e os que quiseram e querem atingi-la, foram por vós impedidos’, e ainda os impedis.

Os sacerdotes modernos não sãos únicos que merecem essa censura. Os maçons, os descendentes ou, em todo o caso, os sucessores dos “construtores do Templo Superior” da época dos Mistérios, e que deviam ter um melhor conhecimento, escarnecem e desprezam os seus irmãos que se lembram da sua verdadeira origem. Diversos grandes sábios e cabalistas modernos, que são maçons e que poderíamos citar, não recebem dos seus irmãos senão um desdenhoso sacudir de ombros. É sempre a mesma velha história. Mesmo Ragon, o mais erudito dentre os maçons de nosso século, queixou-se nestes termos: “Todas as velhas narrações atestam que as iniciações na antiguidade continham um cerimonial imponente, tornado memorável para sempre pelas grandes verdades divulgadas e pelos conhecimentos que dele resultaram. Entretanto, ALGUNS MAÇONS MODERNOS DE MEIO-SABER se apressam em tratar de charlatães todos os que, felizmente, se lembram dessas antigas cerimónias e desejam aplicá-las” (Curso. Filos.)

Parte XII

“Vanitas, vanitatum”: Nada é novo sob o Sol. As “litanias da Virgem Maria” o provam da maneira mais categórica. O Papa Gregório I introduziu a adoração da Virgem Maria, e o Concílio de Caldedônia proclamou-a Mãe de Deus. Mas, o autor das Litanias não teve receio (talvez por culpa da sua inteligência) de orná-las com o títulos e adjectivos pagãos, como demonstrarei.

Não há um símbolo ou metáfora nessas célebres Litanias que não pertença a um mundo de deusas; todas são Rainhas, Virgens ou Mães. Esses três títulos se aplicavam a Ísis, Rhea, Cibele, Diana, Lucífera, Lucina, Luno, Tellus, Latone, Triformis, Proserpina, Hécate, Juno, Vesta, Ceres, Leucotéia, Astarté, a celeste Vénus e Urânia, Alma Vénus, etc., etc…

Ao lado do significado primitivo da Trindade (significado esotérico, ou o do Pai, da Mãe e do Filho), não encontramos nós o “Trimurti” oriental (Deus de três faces), que no Panteão maçónico representa: “o Sol, a Lua e o Venerável”?. Ligeira alteração, em verdade, do Norte e do germânico Fogo, Sol e Lua?

Talvez fosse o íntimo conhecimento disto que fez o maçom Ragon escrever a seguinte profissão de fé:

“Para mim, o filho é o mesmo que Hórus, filho de Osíris e de Ísis; ele é o Sol que, cada ano, salva o mundo da esterilidade, e todas as raças da morte universal”.

E ele continua falando das litanias da Virgem Maria, dos templos, das festas, das missas e dos serviços da Igreja, das peregrinações, oratórios, jacobinos, franciscanos, vestais, prodígios, “ex-voto”, nichos, estátuas, etc…

De Marville, um grande hebraísta, tradutor da literatura rabínica, observa que os judeus dão à Lua todos os nomes que se acham nas Litanias e são utilizados para glorificar a Virgem. Encontra nas “Litanias de Jesus” todos os atributos de Osíris – o Sol Eterno – e de Hórus – o Sol anual.

E ele o prova.

“Mater Christi” é a mãe do “Redentor” dos antigos maçons, que é o “Sol”. Entre os egípcios, os “hoi polloi” pretendiam que o Menino, símbolo da grande estrela central, Hórus, era o Sol de Osireth e Oseth, cujas almas, depois da sua morte, tinham animado Sol e a Lua. Com os fenícios, Ísis se tornou Astarté, nome sob o qual adoravam a Lua personificada por uma mulher ornada de chifres que simbolizavam o crescente. Astarté era representada no equinócio de Outono, depois que o seu esposo (o Sol) tinha sido vencido pelo Príncipe das Trevas, e descido aos infernos, chorando a perda deste esposo, que é também, o seu filho, tal qual o faz Ísis chorando seu esposo, irmão e filho (Osíris e Hórus). Astarté tem na sua mão uma vareta cruciforme, uma autêntica cruz, e chora sobre o crescente da Lua. A Virgem-Maria cristã é frequentemente representada na mesma atitude, de pé sobre a Lua Nova, cercada de estrelas e chorando seu filho: “justa crucem lacrymosa dum pendebat filius” (ver o “Stabat Mater Dolorosa”). Não está aí a sucessora de Astarté, de Ísis? – pergunta o autor.

Realmente, basta recitarmos as “Litanias da Virgem” da Igreja Católica Romana, para verificar que repetimos os antigos encantamentos dirigidos à Adonaia (Vénus), a mãe de Adónis, o Deus Solar de tantas nações; à Mylitta (a Vénus assíria), deusa da Natureza; à Alilat, que os árabes simbolizam por dois chifres lunares; à Selene, mulher e irmã de Hélios, o deus Sol dos gregos; ou à “Magna Mater… honestíssima, puríssima, castíssima”, a Mãe Universal de todos os Seres, porque é a NATUREZA MÃE.

“Maria” é realmente a Ísis Myrionymos, a deusa mãe dos dez mil nomes! Como Sol, que era Febo nos céus, tornou-se Apolo na terra e Plutão nas regiões mais inferiores (depois do por do Sol), da mesma forma a Lua, que era Feba nos céus, Diana na terra (Gaia, Latone, Ceres), tornou-se Hécate e Proserpina no Hades. Será espantoso que Maria seja chamada “Regina Virginum”, “Rainha das Virgens”, e “castíssima”, “a mais casta”, quando as próprias orações que lhe são dirigidas às seis horas da manhã e da tarde, foram copiadas daquelas cantadas pelos gentios (pagãos), “às mesmas horas”, em honra de Feba e de Hécate? Sabemos que os versos das “Litanias da Virgem Stella Matutina” é uma cópia fiel do verso que se encontra nas Litanias dos “Triformis” dos pagãos. Foi o Concílio que condenou Nestorius, por ter designado, pela primeira vez, Maria como a “Mãe de Deus”, “Mater Dei”.

Mais tarde teremos algo a dizer sobre essas famosas Litanias da Virgem, e demonstraremos plenamente a sua origem. Colheremos as provas extraídas dos clássicos e dos modernos à medida que avançarmos, e completaremos o conjunto com os “Anais” das Religiões, tais como se encontram na doutrina esotérica. Enquanto esperamos, incorporaremos algumas outras exposições e daremos a etimologia dos termos, os mais sagrados, do ritual eclesiástico.

Parte XIII

Prestemos alguns momentos de atenção às assembleias dos “Construtores do Templo Superior” nos primeiros tempos do Cristianismo. Ragon nos mostrou plenamente a origem dos seguintes termos:

“A palavra ‘Missa’ vem do latim MESSIS – ‘colheita’, dondo nome de MESSIAS, aquele que faz amadurecer as colheitas – ‘Cristo-Sol’.

A palavra ‘Loja’, da qual se servem os maçons, fracos sucessores dos Iniciados, toma a sua raiz em LOGA (LOKA em sânscrito), uma localidade e um MUNDO; e do grego LOGOS – a Palavra, um discurso, cujo pleno significado é: um local onde certas coisas são discutidas”.

As reuniões dos LOGOS dos Maçons, PRIMITIVOS INICIADOS, acabaram sendo chamadas SYNAXIS, ‘assembleias’ de Irmãos, com o fim de rezar e celebrar a Ceia (refeição), onde eram utilizadas somente as oferendas não manchadas de sangue, tais comos frutos e cereais. Logo depois essas oferendas foram chamadas HOSTIAE, ou HOSTIAS puras e sagradas, em contraste com os sacrifícios impuros (comos prisioneiros de guerra, HISTES, dondo francês HOSTAGE – ÔTAGE ou REFÉM), e porque as oferendas consistiam de frutos da colheita, as primícias de MESSIS. Já que nenhum Pai da Igreja menciona, como certos sábios o teriam feito, que a palavra missa vem do hebreu MISSAH (OBLATUM, oferenda), esta explicação é tão boa quanto a outra. (Para um estudo profundo da palavra Missah e Mizda, ver os GNOSTICOS, de King, p. 124 e seguintes).

A palavra SYNAXIS tinha o seu equivalente entre os gregos na palavra AGYRMOS (reunião de homens, assembleia). Referia-se à Iniciação nos Mistérios. As duas palavras, SYNAXIS e AGYRMOS (14) caíram em desuso, e a palavra MISSA prevaleceu e ficou.

Desejosos com estão os teólogos de velar pela sua etimologia, diremos que o termo “Messias” (Messiah) deriva da palavra latina MISSUS (Mensageiro, o Enviado). Mas, se assim é, essa palavra poderia também ser aplicada ao Sol, o mensageiro anual, enviado para trazer nova vida à terra e à sua produção. A palavra hebraica Messiah, MASHIAH (o ungido, de Mashah, ungir) dificilmente poderia ser aplicada no sentido eclesiástico, ou o seu emprego ser justificado como autêntico, tanto quanto a palavra latina MISSAH (missa) não deriva da outra palavra latina MIT-TERE, MISSUM, “enviar” ou “reenviar”. Porque o serviço da comunhão, o seu coração e a sua alma, se fundamenta na consagração e oblação da HÓSTIA (sacrifício), um pão ázimo (fino como uma folha) representando corpo de Cristo na Eucaristia, e sendo feito de flor de farinha, é um desenvolvimento directo da colheita ou oferendas de cereais.

Ainda mais, as missas primitivas eram Ceias (ou último alimento do dia), simples refeição dos romanos, em que eles “faziam abluções”, eram ungidos e se vestiam do SENATORY, e foram transformadas em refeições consagradas à memória da última ceia de Cristo.

No tempo dos apóstolos, os judeus convertidos se reuniam em os seus SYNAXIS para ler os Evangelhos e as suas correspondências (Epístolas). São Justino (ano 150 de nossa era) nos diz que essas Assembleias solenes eram feitas nos dias chamados “sun” (o dia do Senhor, e em latim, DIES MAGNUS). Nesses dias, havia o canto dos salmos, a “colação” do baptismo com água pura e o ÁGAPE da Santa Ceia “com água e o vinho”. Que tem a ver essa combinação híbrida das refeições romanas pagãs, erigidas em mistério sagrado pelos inventores dos dogmas da Igreja, com o MESSIAH hebreu, “aquele que deve descer às profundezas” (ou Hades), ou com o Messias (que é a sua tradução grega)? Como demonstrou Nork, JESUS JAMAIS FOI UNGIDO, NEM COMO GRANDE SACERDOTE, NEM COMO REI, e é por isso que o seu nome MESSIAS não pode derivar da palavra equivalente hebraica, ainda mais que a palavra “ungido” ou “untado de óleo”, termo homérico, é CHRI e CHRIO, ambos significando UNTAR O CORPO DE ÓLEO (ver Lúcifer, 1887: THE ESOTERIC MEANING OF THE GOSPELS – O Significado Esotérico dos Evangelhos).

As frases seguintes de um outro maçom de grau elevado, autor da SOURCES DES MESURES, resumem em algumas linhas esse “imbróglio” secular: “O facto é , diz ele, que existem DOIS MESSIAS: um, descendo pela sua própria vontade ao abismo para a salvação do mundo (15) – é o Sol despojado dos seus RAIOS DOURO e coroado de raios negros como espinhos (simbolizando essa perda); outro, o MESSIAS triunfante, que alcançou o ÁPICE DO ARCO DO CÉU, personificado pelo LEÃO DA TRIBO DE JUDÁ. Em ambos os casos, ele tem a cruz…

Nas AMBARVALIAS, festas romanas dadas em honra de Ceres, o ARVAL, assistente do Grande Sacerdote, vestido de branco imaculado, colocava sobre a HOSTIA (a oferenda do sacrifício) um bolo de trigo, água e vinha; provava o vinho das libações e dava-o a provar aos outros. A OBLAÇÃO (ou oferenda) era então erguida pelo Grande Sacerdote. Tal oferenda simbolizava os três reinos da natureza: o bolo de trigo (o reino vegetal), o vaso do sacrifício ou CÁLICE (o reino mineral) e o PAL (a estola) do Hierofante, uma de cujas extremidades pousava sobre o cálice contendo vinho da oblação. Essa estola era feita de pura lã branca de tosão de cordeiro.

Os padres modernos repetem gesto por gestos actos do culto pagão. Eles erguem e oferecem o pão para a consagração; benzem a água que deve ser posta no cálice, e em seguida vertem o vinho, incensam o altar, etc., etc… e, voltando ao altar, lavam os dedos, dizendo: “Eu lavarei minhas mãos entre o Justo e rodearei teu altar, Ó Grande Deusa!” (Ceres). Assim o fazem porque o antigo sacerdote pagão assim o fazia, e dizia: “Eu lavo minhas mãos (com água lustral) entre o Justo (os irmãos completamente iniciados) e rodeio teu altar, ó Grande Deusa! (Ceres)”.

O Grande Sacerdote fazia três vezes a volta ao altar, levando as oferendas, erguendo acima da sua cabeça o cálice coberto com a extremidade da sua estola feita de lã de cordeiro, branca como a neve…

A vestimenta consagrada, usada pelo Papa, PALLIUM, TEM A FORMA DE UMA MANTA FEITA DE LÃ BRANCA, COM UM GALÃO DE CRUZES PÚRPURAS. Na Igreja grega, o Padre cobre o cálice com a extremidade da sua estola pousada sobre o seu ombro.

O Grande Sacerdote da antiguidade repetia três vezes durante o serviço divino seu “O Redemptor Mundi” a Apolo – o Sol; o seu “Mater Salvatoris” a Ceres – a Terra; o seu Virgo Partitura à Virgem Deusa, etc… pronunciando SETE COMEMORAÇÕES TERNÁRIAS. (Ouvi, ó maçons!). O número ternário tão reverenciado na antiguidade, como em nossos dias, é pronunciado sete vezes durante a Missa; temos três INTROITO, três KYRIE ELEISON, três MEA CULPA, três AGNUS DEI, três DOMINUS VOBISCUM, verdadeiras séries maçónicas. Acrescentemos-lhes os três ET CUM SPIRITU TUO, e a missa cristã nos oferecerá as mesmas SETE COMEMORAÇÕES TRÍPLICES.

Paganismo, Maçonaria, Teologia, tal é a trindade histórica que governa o mundo SUB-ROSA.

Podemos terminar com uma saudação maçónica, e dizer: Ilustre dignitário de Hiram Abiff, Iniciado e “Filho da Viúva”: o Reino das Trevas e da ignorância desaparece rapidamente, mas há regiões ainda inexploradas pelos sábios e que são tão negras quanto a noite do Egipto.

Fratres Sobrii Estote Et Vigilate

Finis

Helena Petrovna Blavatsky

Notas:

 [8] A região obscura da cripta, na qual, supunha-se, o candidato à iniciação rejeitava para sempre as suas más paixões ou maus desejos. Provêm daí todas as alegorias contidas nas obras de Homero, do Ovídio, de Virgílio, etc…, que os sábios modernos tomam no sentido literal. O Phlegetonte era o rio no Tártaro, ondo Iniciado era mergulhado três vezes pelo Hierofante, depois do que estavam terminadas as provas. O homem tinha nascido de novo; tinha deixado para sempre o velho homem de pecado na corrente sombria, e ao terceiro dia, quando saía do Tártaro, era um INDIVIDUALIDADE; a PERSONALIDADE estava morta. Toda alegoria (como a de Ixion, Tântalo, Sísifo, etc.) é a personificação de alguma paixão humana.

[9] Outro nome de Baco.

[10] Podemos acrescentar: e mais além, na Índia, na Ásia Central, pois encontraremos a sua influência em todos os países asiáticos.

[11] O assassino dos Tessalónicos, que foram massacrados por esse piedoso filho da Igreja.

[12] Balaústre – termo maçónico, significando trabalho escrito.

[13] Baco é certamente de origem hindu. Pausânias o mostra como sendo primeiro que conduziu uma expedição contra a Índia e que construiu uma ponte sobre o Eufrates. “O cabo que servia para unir as duas margens opostas é mostrado hoje, diz um historiador, tecido de cepos de vinha e de ramos de hera restaira” XXXIV, 4). Arianus e Quinto Cúrcio explicavam a alegoria do nascimento de Baco, saído da coxa de Zeus, dizendo que ele tinha nascido no monte Meru, e nós sabemos que Eratósthenes e Strabon acreditavam que o Baco hindu fora inventado pelos cortesãos de Alexandre, simplesmente para agradá-lo, pois que ele se comprazia em pensar que tinha conquistado a Índia, tal qual se supunha tinha feito Baco. Mas, por outro lado, Cícero menciona o Deus como sendo filho de Thyne e de Nisus; Dionísios significa o Deus Dis, do monte Nys da Índia. Baco coroado de hera ou Kissos, não é senão Krishna, um de cujos nomes era Kissen. Dionísios era, antes de tudo, o Deus com o qual se contava para libertar as almas dos homens das suas prisões de carne: – Hades ou o Tártaro humano, num destes sentidos simbólicos. Cícero chama a Orfeu “um filho de Baco”, e aqui encontramos uma tradição que, não somente representa Orfeu como vindo da Índia (diziam-no moreno de pele tisnada), mas também o identifica com Arjuna, o “chela” e filho adoptivo de Krishna. (Ver Five Years of Theosophy).

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