As raízes da Maçonaria Especulativa

A Ordem dos Franco-Maçons tem as suas raízes mergulhadas no tempo. Uns atribuem os seus primórdios às corporações de construtores da Idade Média e às guildas de artífices. Outros procuram encontrar os seus antecedentes nos mistérios do Egipto (de Osíris e Isis), no Colégio dos Magos do Fogo (Caldeia), nas comunidades essénias (Palestina), nos Colegia Fabrorum (Roma), nos Cavaleiros Templários ou nos Rosa-Cruzes.

O que parece evidente é que num dado ponto do processo histórico a maçonaria associada às grandes construções da Antiguidade (catedrais, igrejas paroquiais ou castelos) perdeu o seu carácter “manual” ligado à edificação e abriu-se a outros detentores de “segredos”. Obreiros que não vinham (Publicado em freemason.pt) dos mesteres e das guildas mas das classes sociais elevadas como a aristocracia, os homens da Ciência, os clérigos, a aristocracia fundiária ou os intelectuais. Porque é que essa evolução ocorreu e em que contexto teve lugar continua a ser uma questão em discussão.

Por simplificação, podem-se identificar três escolas de pensamento quanto às origens da maçonaria especulativa. Uma explicação tradicional liga-a à transformação ocorrida na maçonaria inglesa, em 24 de Junho de 1717, com a fusão de quatro Lojas Maçónicas na Grande Loja de Londres . Uma outra explicação “transcendental” associa-a aos mistérios da antiguidade crendo a Maçonaria testamentária dos grandes mistérios arcanos . Uma terceira explicação liga-a à sorte da Ordem dos Templários, à sua disseminação pela Europa continental e pela Escócia na sequência da execução do Grão-Mestre Jacques de Molay e da perseguição dos seus companheiros. Esta escola vê na maçonaria escocesa a linhagem mais autêntica dos descendentes de Jesus, o Gnóstico (the Royal Blood line) .

Seja qual for a explicação que se privilegie é impossível considerar a maçonaria como um edifício monolítico. Desde tempos idos ela passou por várias transformações que se ligam à história da Europa, à emergência das grandes nações europeias (e dos impérios), à perda de autoridade da Igreja (e do Papa) nos assuntos políticos e ao surgimento do protestantismo como a outra extremidade do mundo cristão. É por isso mais correcto falar-se em “maçonarias” para designar os desenvolvimentos que ocorrem nos vários países em circunstâncias mais ou menos fiéis ao modelo original . É claramente identificável nessa evolução um modelo insular (ou britânico) ligado à afirmação política da nobreza fundiária e dignatária em contraponto ao poder do monarca e um modelo continental representado pelas associações fraternais de assistência, de que a compagnonnage francesa é um feliz exemplo.

Ao longo dos tempos, a maçonaria assume-se como uma ordem iniciática construída à volta da iniciação como processo de apreensão individual do segredo. Ser iniciado significa entrar numa organização que se destina ao estudo dos mistérios da vida e da Criação e propõe aos que a abordam pistas de progresso espiritual. Se tomarmos em consideração a arquitectura real das antigas civilizações verificamos que os arquitectos e os maçons desempenham um papel relevante e que as associações iniciáticas ocupam um papel central no sistema do poder institucional. No Egipto, a instância cimeira do sistema social é ocupada pelo Faraó enquanto Mestre da Obra, pelos seus conselheiros mais próximos e pelos chefes das principais corporações de artífices. Por isso, a iniciação constitui um evento fundamental porque representa um ritual de passagem para o iniciado se integrar no corpo social .

Os Collegia romanos correspondem a guildas que controlam os vários ramos do comércio. Vários imperadores romanos tentam suprimi- los mas os seus éditos revelam-se ineficazes porque os membros conseguem provar a sua ancestralidade e natureza religiosa. Vários destes collegia tornam-se grupos de solidariedade, religiosos ou funerários e detêm privilégios e isenções pelo prestígio do trabalho que realizam. As suas organizações são idênticas às lojas maçónicas, dispondo de constituições internas. As reuniões (Publicado em freemason.pt) são dirigidas por um magister e dois vigilantes (decuriones), dispondo de um secretário, um tesoureiro e um capelão (sacerdos). Os collegia são abertos a laicos designados por padroeiros ou especulativos. As lojas têm três graus (aprendizes, companheiros e mestres) e dispõem de rituais de iniciação que incluem a morte e a ressurreição (como no moderno Terceiro Grau) e usam os símbolos maçónicos (esquadro, compasso, fio de prumo, nível e círculo). O Imperador Diocleciano na sua perseguição ao cristianismo tenta suprimir os collegia (entretanto transformados em Colégio de Arquitectos). Ordena-lhes que façam uma estátua de Esculápio, o que eles recusam . Diocleciano faz torturar quatro Mestres (Cláudio, Nicóstrato, Sinfrónio e Castório) e um Aprendiz até à morte. Os quatro ficam para a posteridade como os Quatro Mestres Coroados, santos padroeiros dos maçons, em toda a Europa.

No cristianismo as associações iniciáticas multiplicam-se. Para os construtores dos edifícios correntes (profanos) e religiosos a iniciação é o acesso a uma função socialmente reconhecida. Na organização social medieval, cada ofício tem a sua própria iniciação algo que permite a cada “mester” receber uma influência espiritual que faz do ofício não apenas o prolongamento da habilidade manual mas a projecção do seu ser no sentido de uma realização espiritual.

O ofício do construtor (maçom) tem grande prestígio social nele se compreendendo os que usam a madeira, a pedra bruta grosseira e a pedra trabalhada de forma requintada. A pedra indica uma solidificação no espaço e no tempo. As pedras talhadas ao ritmo dos construtores encontram o seu lugar próprio na edificação. Desta forma constroem-se catedrais, igrejas e monumentos. A pedra escolhida pela sua textura mineral para a construção é colocada pelos “companheiros” iniciados sob a direcção de um Mestre da Obra que concebe, no plano teórico, a construção divinizada.

A Loja tem um papel importante na vida dos construtores, é a casa de madeira onde os operários trabalham ao abrigo das intempéries e que pode albergar um pequeno número de obreiros. A Loja é relativamente pequena compreendendo o Mestre e os seus assistentes directos. É o local onde as refeições são tomadas, os instrumentos de trabalho guardados bem como os moldes que permitem fazer (e replicar) os elementos mais (Publicado em freemason.pt) complexos de construção . Os mestres alojam-se em estalagens onde vivem por períodos prolongados até que a construção esteja concluída. É provável que a Loja fosse aberta segundo um ritual não escrito, que os maçons tinham que saber de cor. Os trabalhos iniciavam-se com uma oração religiosa ao Criador, designado por um nome sagrado . A loja permite que mestres, vigilantes, contramestres e outras categorias de construtores se reúnam preparem os desenhos e os modelos relativos aos vários elementos de construção. Todo o novo maçom recebido em Loja tem de prestar juramento de guardar segredo da informação que lhe é transmitida depois da leitura das constituições próprias de cada oficina . Os primeiros regulamentos de organização do ofício remontam a meio do século XIV, período de maior segurança e desenvolvimento social. É crível que a Loja se torne o centro da vida dos construtores e centro de formação dos que chegam para principiar o ofício .

Papel de destaque é ocupado, na organização medieval do trabalho, pelo Mestre maçom que não é a um arquitecto “tout court”, conceptor separado das condições de execução do trabalho. O Mestre operativo tem uma responsabilidade alargada, é o arquitecto da construção, o oficial administrativo que gere os materiais, o empreiteiro geral e o supervisor técnico da construção. A arte da construção não é transmitida por livros, plantas ou desenhos de perspectiva mas através do exemplo vivo dos edifícios construídos. Qualquer conhecimento que o jovem maçom adquire aprende-o directamente do seu Mestre ou da experiência repetida de sucesso e insucesso.

O Mestre maçom fica associado, de forma estreita, à construção de forma a se assegurar que as suas ideias são susceptíveis de ser postas à prática. Quando o Office of Works (Repartição de Obras) é criado pelo Rei Henrique III, em 1256, o Mestre-de-obras é encarregue de fazer os registos de materiais, de proceder à compra de equipamentos e utensílios e à contratação da mão-de-obra. Os regulamentos do ofício de maçom de Londres, de 1356, determinam que o Mestre tem a obrigação de estipular a jorna diária dos maçons e dos seus assistentes. Segundo o Mason’s Ordinance de 1370, da Catedral de Iorque, um maçom que procurasse trabalho era sujeito a um período de experiência de uma semana (ou mais) para comprovar a sua perícia. Se o trabalho fosse satisfatório seria contratado por ajuste entre os supervisores e o Mestre da Obra .

Os maçons reúnem-se em Loja. O Mestre exerce nesta, a mesma autoridade com que dirige os trabalhos do canteiro. Chama a assembleia à ordem com um golpe de martelo. A Loja é o local de iniciação nos mistérios do ofício. Aquando da recepção o novo maçom é obrigado a “vestir a loja”, isto é, a desembolsar uma dada quantia que segundo a tradição tem que entregar à oficina .

Mais tarde, os maçons operativos passam a estar vinculados a regulamentos que listam regras de civilidade (Old Charges) e incluem normas tão diversas como se comportar à mesa ou como tratar o Mestre, sua filha e mulher. O documento Regius (Poema de Deveres Morais, datado de 1390) é o mais importante destas “charges”, uma espécie de compêndio de instruções para os mestres e directivas para os operários . Um outro documento, o manuscrito Cooke, documenta a lenda de constituição da maçonaria em Inglaterra atribuída ao rei Athelstan e a adopção do irmão do rei pela corporação dos pedreiros. Essa adopção garante-lhes uma constituição real e os estatutos reguladores da profissão . De acordo com a Carta Real, os maçons passam a ter o direito a se reunirem em York e serem governados por um Grão-Mestre, o Príncipe Edwin . Pela morte do príncipe, a maçonaria entra em declínio, mas é revitalizada em 1041 pelo Rei Eduardo, o Confessor, que designa Leofric, Conde de Coventry, como superintendente dos maçons.

À saída da Idade Média surge uma civilização nova que não tem as mesmas bases e os mesmos objectivos da era anterior. Factores económicos e políticos tornam-se essenciais e a religião ocupa um lugar cada vez menor nos assuntos do Estado. É no momento em que se apaga a dimensão sagrada da sociedade que emergem as sociedades secretas. Os construtores já não são apreciados como uma classe social importante até porque a nobreza considera o trabalho manual “vil e desonroso”. Hermetistas, alquimistas e astrólogos são olhados com suspeição. O Rei Luís XIV, de França, expulsa os astrólogos da Academia das Ciências. A liberdade de associação é coarctada. Os governantes temem os pequenos grupos que imaginam a orquestrar conspirações contra o poder real e que sob a forma de “fraternidades” preparam o surgimento de partidos de oposição .

Entre os grupos sob suspeita estão as lojas dos construtores que abrem as portas a todos os que não se revêem nas doutrinas sociais, reforçando-se por essa via os laços entre as minorias segregadas com a concentração do poder real, nas monarquias absolutas da Europa continental. A Maçonaria já não oferece uma qualificação profissional directa mas interioriza os antigos ideais da iniciação, em ritualismos que atraem as classes nobres e cultas. A mentalidade profana que consolida a ascensão da burguesia mercantil toma conta da maçonaria que se politiza. O simbolismo e espiritualidade maçónicas dos maçons medievais torna-se um objecto de museu e os rituais são adaptados aos gostos da época.

De certa forma, a constituição da Grande Loja de Londres em 1717 é o toque de finados da antiga mensagem espiritual e transcendental dos maçons operativos. A história tem sido contada inúmeras vezes: vários maçons pertencendo a quatro lojas londrinas (Loja n° 1 do Ganso Grelhado, n° 2 da Coroa, n° 3 da Taberna da Macieira e n° 4 da Taberna Caneca de Vinho) reúnem-se com outros Irmãos na Taberna da Macieira. Decidem restaurar a comunicação trimestral dos oficiais das Lojas, reunir-se em assembleia nas festas anuais e escolher de entre si um Grão-Mestre . A identificação da maçonaria com os pubs tem uma razão de ser pois é o local onde as pessoas comuns se reúnem e que funciona quer como local de refeições quer como clube.

As lojas reúnem-se no segundo andar dos pubs onde conduzem cerimónias com ritual abreviado entre a chegada dos pratos. Os obreiros usam luvas e espadas. O local não dispõe de mobiliário especial. Os símbolos são desenhados num painel ou traçados a giz (ou a carvão) no chão, sendo apagados no fim da sessão. O jantar tem um papel central em todo o cerimonial, bem como a música e as canções, já que as sessões têm por objectivo essencial o convívio .

A loja maçónica é um refúgio de paz e tranquilidade em tempos de incerteza política. A memória da guerra religiosa entre protestantes e católicos e entre protestantes “oficiais” e “dissidentes” está ainda na memória de todos. As viagens marítimas e as invenções técnicas transformam a economia medieval abrindo novas perspectivas de progresso e humanismo que fazem recuar o fanatismo e a intolerância. Emerge um tempo fértil para o crescimento da maçonaria especulativa .

Estes maçons especulativos decidem constituir-se em Grande Loja, reunindo-se para o efeito em assembleia na festividade de S. João Baptista, na Taberna do Ganso Grelhado, na praça da Catedral de S. Paulo. Elegem “com mão levantada o nobre Anthony Sayer para Grão-Mestre” o qual é imediatamente investido nos adornos do ofício pelo mestre mais antigo e instalado, “sendo felicitado pela assembleia que lhe rendeu homenagem” nas palavras do Pastor James Anderson. A subida do Rei Jorge I ao trono leva várias lojas a encontrar um protector mais activo, face à incapacidade física de Sir Christopher Wren .

A maçonaria vivera um período de grande prosperidade em Inglaterra sob a protecção do Rei Carlos II, o qual havia sido iniciado na arte real durante o seu exílio em França durante a república de Oliver Cromwell. Após o regresso do rei a Inglaterra, Henry Jermyn, Conde de St. Albans é eleito (em 1663) Grão- Mestre, tendo Christopher Wren e John Webb como Grandes Vigilantes. Em Junho de 1666,Thomas Savage, Conde de Rivers, sucede a Jermyn como Grão-Mestre e Christopher Wren é seu Vice-Grão-Mestre. Christopher Wren dirige a reconstrução da cidade de Londres pasto de um grande incêndio em 1666 e impõe que as novas construções sejam de pedra e tijolo em vez da tradicional madeira.

Christopher Wren dirige a reconstrução da Catedral de S. Paulo tendo a cerimónia (maçónica) de lançamento da pedra fundamental sido engalanada com a presença do Rei, do Grão-Mestre, dos seus adjuntos, da nobreza londrina, do Mayor, dos bispos e do clero. Durante o reinado de Jaime II (irmão do Rei Carlos II) a maçonaria é negligenciada, falecendo o novo Grão-Mestre, o Conde de Arlington, antes do rei ser coroado . A maçonaria operativa desaparece com o fim da Idade Média.

A Maçonaria Operativa surge no contexto da sociedade medieval, de forma a permitir a transmissão do conhecimento dos construtores e das associações corporativas num tempo em que não há livros, nem desenhos, nem planos de construção sendo os edifícios acabados a prova da arte dos seus arquitectos e artífices.

A passagem da era medieval à moderna é acompanhada pela erosão do papel social dos construtores das catedrais, das igrejas paroquiais, dos castelos e monumentos à medida que a máquina ocupa o lugar do trabalho braçal dos homens e o engenho dos artistas.

Colocada na iminência de desaparecer, a maçonaria operativa é forçada a abrir as suas portas a maçons não operativos, designadamente a nobres, aristocratas, clérigos e intelectuais que possam assegurar o seu financiamento e sobrevivência. A maçonaria torna-se especulativa e busca a protecção de um benfeitor, normalmente o Rei ou alguém próximo da família real. É essa a evolução da maçonaria inglesa com a criação da Grande Loja de Londres em 1717. Na Europa Continental a evolução é diferente e a maçonaria torna-se mais filosófica e interventiva socialmente.

Arnaldo M. A. Gonçalves

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