Breves notas sobre a influência do ideário Humanista no território de implantação do plano de Junho de 1758 para a Baixa de Lisboa

É difícil demonstrar no espaço disponibilizado, por questões editoriais, por forma objectiva, e com o necessário recurso a elementos iconográficos, a influência expressa no desenho urbano e no do edificado do território da Baixa dos princípios que pugnam por transformar a “pedra bruta” em “pedra cúbica”, por vezes só detectáveis com recurso a estudos de carácter fenomenológico.

Todavia, e até pelo facto de no próximo ano, segundo é do conhecimento público, se celebrarem os duzentos anos do Grande Oriente Lusitano-Maçonaria portuguesa (9 ou 12 de Maio de 1802), instituição herdeira das antigas organizações maçónicas operativas medievais e das especulativas regularizadas a partir de 1727 em Portugal, aceitou-se o repto lançado, sem que se deixe de recomendar a consulta a fontes bibliográficas temáticas mais expositivas e analíticas.

A intencionalidade com que a Arquitectura da Baixa terá sido concebida, não deixa muitas dúvidas, quanto à existência de uma filosofia humanística no ideário dos agentes sociais determinantes à sua execução.

Os traçados geométricos que através de várias tentativas, foram aflorando quer da inserção em planta do território no tecido urbano, quer dos alçados, quer da volumetria, quer até dos próprios elementos construtivos isolados, são por demais esclarecedores de uma forte intencionalidade.

Essa intencionalidade, castigará os espíritos que vêm na confrontação violenta de ideários quase sempre geradores de posições radicais, uma solução para a estabilidade ou para a evolução social. Todavia, a presunção da existência de uma harmonia imposta artificialmente, fundamentada em “verdades” inquestionáveis, põem em causa a racionalidade do Homem.

Não obstante uma forte oposição filosófica entre grupos sociais, uns afectos à continuidade da ordem estabelecida por agentes doutrinários da Igreja de Roma e outros afectos ao restabelecimento de uma ordem humanista, verifica-se que terá havido uma confluência de esforços, pelo menos entre sectores menos radicais. Será comprovadora desta verificação a acta com as declarações do padre Carlos O’Kelly, teólogo no Colégio de Nossa Senhora do Rosário dos Dominicanos Irlandeses, perante o Tribunal da Santa Inquisição de Lisboa a 18 de Julho de 1738, ou as notas sobre o clero católico maçon por Ferrer Benimeli, ou ainda os relatos sobre a actividade dos frades missionários Dominicanos na Irlanda transcritos por A. Nelly.

Talvez agora se possa perceber um pouco melhor a influência do traçado do plano de 1756, por Elias Sebastião Poppe, no traçado do Plano de 1758, ou o porquê da relação entre a Praça do Rossio e a Praça do Comércio (Terreiro do Paço), já determinadas em 1756.

Os métodos de análise de traçados geométricos reguladores do desenho urbano da Baixa, podem ser implementados a duas escalas.

  • Uma se considerarmos a implantação em termos de localização geográfica dependente de alinhamentos com territórios longínquos. Outra se considerarmos a sua implantação isolada de contextos fora dos seus limites.
  • A segunda permite de forma mais directa e objectiva estabelecer a ligação da escala técnica e construtiva com as resultantes das fases de concepção espacial.

Pelas verificações do número 5, das proporções resultantes do pentágono, do número de ouro e ainda da raiz de 5, obtidas no decorrer do estudo dos alçados de conjunto do território, procedeu-se em planta à construção de figuras com idênticas proporções.

O número 5 segundo os pitagóricos será o símbolo da união e do centro da harmonia e do equilíbrio, ou ainda a cifra das hierogamias, a união do príncipe celeste (3) e do princípio terrestre da mãe (2). Símbolo da vontade divina. O 5 em relação ao 6 é o microcosmo em relação ao macrocosmo, o Homem individual em relação ao Homem universal.

Sta. Hildegarda de Bingen desenvolve uma teoria onde identifica o Homem com o número 5 que …rege a sua própria estrutura.

O alinhamento da Rua do Carmo é rigorosamente definido pelo lado do pentágono cuja base se encontra coincidente com o alinhamento da fachada Sul da Praça do Rossio. O eixo desta rua forma um ângulo de 36°, com o eixo da Rua Augusta.

É evidente a delimitação da malha definida pelos quarteirões regulares que a figura obtida com os pentágonos proporciona.

Os limites Nascente e Poente da malha obtidos pelo alinhamento das respectivas fachadas contêm os segmentos que unem os vértices dos pentágonos cujas diagonais são perpendiculares ao eixo das vias longitudinais da Baixa.

Construindo dois hexágonos regulares e iguais com um lado sobreposto, em que o eixo da Rua Augusta contenha o centro dos polígonos e seja igual ao somatório das suas alturas, verificamos que no sentido longitudinal os vértices destes polígonos podem definir um rectângulo, cujos vértices coincidem em planta com os cunhais dos quarteirões que limitam a quadrícula inteiramente regular do plano [1].

Pode ser o hexágono, considerado como uma oposição da criatura ao Criador, mas o 6 também pode significar o Hexâmero bíblico, ou seja o que se encontra equidistante do Princípio e da manifestação … o mundo criado em seis dias.

Não esquecer também a estrela de seis pontas do selo de Salomão e o significado do hexagrama para a filosofia humanista, e da relação entre o hexágono e a circunferência, que permite obter o traçado da Vésica Piscis.

Concentrando-nos na malha inteiramente regular, e considerando-a definida pelos eixos dos seus arruamentos, deu-se início à verificação do rectângulo de proporção 5 – P(a,b) = 5 = 2,23606.

A proporção entre os lados do rectângulo definido pelos eixos da Rua do Ouro, Rua de Santa Justa, Rua da Prata e Rua da Conceição é igual a 2,23606=75 . Este rectângulo inscreve dezasseis quarteirões.

Considerando o rectângulo ABCD (1), obtido na figura, e um novo rectângulo A’B’C’D’ (2), definido pelos eixos de arruamentos que delimitam qualquer um dos quarteirões de habitação da malha regular, verificamos que os dois polígonos são equiproporcionais.

Se consideramos que (1) é a área do rectângulo ABCD e (2) a área do rectângulo A’B’C’D’, a sua relação de proporcionalidade é 16 – P [(1),(2)] = 16.

O lado AB é igual a 4 x A’B’, o lado AD é igual a 4 x A’D’, o lado AD é igual a AB x 5 e o lado A’D’ é igual a A’B’ x 5.

Tomando a altura média dos alçados dos quarteirões, medida até ao beirado, como o lado menor de um rectângulo, e o lado C’D’ do rectângulo A’B’C’D’ como o lado maior, verificamos novamente a proporção de 5 .

Se definirmos um rectângulo com o mesmo lado menor, do obtido anteriormente e o lado maior igual a B’C’, obtemos a proporção igual a 5. O rectângulo agora obtido, é equiproporcional a um rectângulo de lados 5 e 1/ 5.

Construindo um rectângulo definido por um lado igual à distância entre os eixos da Rua Áurea e da Rua da Prata e por outro lado igual à distância entre fachadas de topo de quarteirão que tenham um quarteirão de intervalo, obtemos um rectângulo de proporção áurea . Idêntica proporção pode ser obtida pelo rectângulo de lados iguais a B’C’ e à distância entre a Rua Áurea e a Rua da Prata.

A altura do homem identificada como uma unidade, inclui dois pentágonos e dois hexágonos de lados iguais, construídos com a mesma abertura do compasso, tal como o Criador desenhou o Universo.

Uma dúvida apenas subsiste:

Para que lado está virada a cabeça do Homem?

  • Para o poder temporal do Terreiro do Paço?

  • Ou para o poder secular da Praça do Rossio?

Vítor Manuel Vieira Lopes dos Santos*

* Nasce em Lisboa a 18 de Maio de 1955.

Licenciatura em Photo-Finishing Engineering – Eastman Kodak Institute of Technology (University of Rochester). Licenciatura em Arquitectura pelo Departamento de Arquitectura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, opção Renovação Urbana. Curso de Pós-Graduação e Especialidade em “Conservação e Recuperação de Edifícios e Monumentos”, pelo Departamento de Arquitectura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Na F.A. U.T.L. apresenta provas de Doutoramento em Arquitectura, na especialidade de Tecnologia da Arquitectura, com a defesa da tese intitulada “O Sistema Construtivo Pombalino em Lisboa em Edifícios Urbanos Agrupados de Habitação Colectiva – Estudo de um Legado Humanista da Segunda Metade do Séc. XVII”. Professor da Faculdade de Arquitectura da U.T.L.

[1] A parcela da malha regular da Baixa mais rígida em termos de traçado é a definida entre a Praça do Comércio e a Praça do Rossio e entre a Rua Áurea (Rua dos Ourives do Ouro) e a Rua da Prata (Rua Bela da Rainha)

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