Calendários maçónicos e Era Vulgar

Começaremos por conceituar o que significaria o termo “calendário”. Os dicionários indicam várias definições de acordo com emprego da expressão. Porém, no que se enquadra ao estudo do “tempo”, encontramos o seguinte:

CALENDÁRIO – (do latim “Calendae”, que significa o primeiro dia do ano no calendário romano. Curiosamente, o dia em que o cidadão romano costumava pagar as suas contas).

Conceito

calendárioCALENDÁRIO – formas, esquemas ou sistemas convencionados para adequar da forma mais racional possível os dias, as semanas, os meses e os anos, envolvendo os principais fenómenos astronómicos, relacionados em geral com a posição do sol e eventualmente da lua. Os Calendários podem ser lunares, quando são baseados unicamente nos movimentos da lua em torno da terra (calendário islâmico), solares, baseados no movimento da terra em torno do sol (calendário Cristão), ou lunissolares, os anos estão relacionados com o movimento da Terra em torno sol e os meses relacionados com o movimento da Lua em torno da Terra (calendário Hebreu).

O primeiro registo encontrado referente ao calendário organizado vem da Suméria. Segundo Christopher Knight e Alan Butler no seu livro “Civilização Um”, da editora Madras, em que fazem uma obra relacionada à “Civilização Minóica” e a sua relação com o estudo do tempo, todos os especialistas no assunto concordam que o Calendário Sumério é lunar e, que as suas raízes se perdem no tempo. Os Sacerdotes astrónomos Sumérios tinham profundo conhecimento dos fenómenos astronómicos. O ano no calendário sumério era composto a partir das fases da lua (que é de cerca de 29,5 dias), e que eles arredondavam para 30, formando um ano de 360 dias. Para solucionar a discrepância com o ano solar que era de 365 e 6 horas aproximadamente, deixavam que os dias se acumulassem, formando então, um ano bissexto no calendário. Vários calendários foram criados nas mais diversas culturas. Alguns ainda estão em uso, outros já não mais existem, além dos livros. Portanto, abordaremos aqui apenas alguns dos mais conhecidos.

Alguns dos calendários conhecidos:

Calendário civil, Calendário egípcio, Calendário Babilónico, Calendário grego, Calendário romano, Calendário Juliano, Calendário Hindu, Calendário gregoriano, Calendário eclesiástico ou litúrgico, Calendário muçulmano, Calendário maia, Calendário republicano ou francês, Calendário perpétuo, Calendário israelita ou hebraico, Calendário maçónico gregoriano.

Calendário gregoriano – O chamado calendário gregoriano é resultante da reforma do calendário Juliano e foi introduzido pelo Papa Gregório XIII (1502-1585). Neste calendário em cada quatro anos existe um ano bissexto, com excepção dos anos seculares, em que o número formado pelos algarismos das centenas e dos milhares não é divisível por 4. Para efeito de acerto para implantação, foi estabelecido na ocasião que o dia 05.10.1582 passaria a ser 15.10.1582.

Calendário israelita ou hebraico – Calendário hebraico é lunar e solar ao mesmo tempo. É constituído de 12 ou 13 meses de 29 e 30 dias, que principiam sempre na lua nova. Tal facto ocorre, pois, os 12 meses lunares (com 354 dias) não englobam o ano solar (365 dias), ocorrendo assim uma diferença de 11 dias, criando assim, de tempo em tempo um mês a mais. Os meses com 29 e 30 dias ocorrem, pois o período de cada lunação é de 29 dias, 12 horas e 40 minutos. Como cada dia e cada mês começam e terminam a meia noite, haverá uma diferença que após um período criará um mês com 30 dias.

Este calendário leva em consideração o ano agrícola, religioso e o civil (ou económico). Se considerarmos o ano agrícola e o religioso, o ano hebraico inicia-se no mês de Nissam (correspondente a Março / Abril). Considerando o ano económico ou civil, o ano tem início em Tishiri (Setembro / Outubro).

O ano civil israelita tem 354 dias, e para fazê-lo coincidir com o ano solar introduzem-se sete anos embolísmicos de 13 meses em cada grupo de 19 anos. Para se calcular o ano no calendário hebraico basta somar ao ano da E∴ V∴ o número 3760. Este calendário é, aparentemente, complexo e de difícil compreensão, sendo utilizado normalmente através de tabelas.

Nomenclatura dos meses e as suas correspondências:

  • NISSAN – corresponde Abib – 1º mês (21 Março a 20 de Abril)
  • IVYAN – corresponde a Ziv – 2º mês (21 de Abril a 20 de Maio)
  • SIVAN – 3º mês (21 de Maio a 20 de Junho)
  • TAMUZ – 4º mês (21 de Junho a 20 de Julho)
  • AV (ou Ab) 5º mês (21 de Julho a 20 de Agosto)
  • ELUL – 6º mês (21 de Agosto a 20 de Setembro)
  • TSHIRIRI (ou Tishrei) – corresponde a Etanin -7º mês (21 de Setembro a 20 de (Outubro)
  • MARSHESWAN – equivale a Bull – 8º mês (de 21 de Outubro a 20 de Novembro)
  • KISLEV – 9º mês (21 de Novembro a 20 de Dezembro)
  • TEBETH – 10º mês (de 21 de Dezembro a 20 de Janeiro)
  • SHEBETH – 11º mês (de 21 de Janeiro a 20 de Fevereiro)
  • ADAR – 12º mês (de 21 de Fevereiro a 20 de Março)
  • WE-ADAR – 13º mês

Calendário maçónico gregoriano – O ano tem início em 21 de Março sendo dividido em 12 meses com 30 ou 31 dias. O 12° mês possui apenas 28 dias. Tanto os meses como os dias não recebem denominações especiais. Trata-se na verdade de uma mistura entre os calendários gregoriano e hebraico. Para se saber o ano, acrescenta-se o número 4000 ao ano da E:. V:..

Apresentarei neste momento apenas os calendários que tem relação directa com a maçonaria, em particular os que interessam ao Rito Brasileiro.

Antes, porém, faremos uma pequena abordagem ao “tema” que é a palavra chave da pesquisa, o termo “ERA VULGAR”.

Era vulgar

ERA – Série de anos que principia com um grande facto histórico, período de tempo restrito, caracterizado por circunstâncias, eventos ou personagens particulares. A sua etimologia é bastante controversa. O indício da sua origem vem de Espanha e que surgiu da contracção das iniciais A.E.R.A, encontradas em monumentos antigos e que significam Annus Erat Regni Augusti (era o ano do reinado de Augusto), ou Ab Exordio Regni Augusti (Do começo do reinado de Augusto), pois, os Espanhóis iniciaram os seus cálculos a partir do período que o país ficou sob o domínio do Império Romano, na época do Imperador Augusto. Outras linhas de raciocínio indicam que a palavra “ERA” é derivada do Latim AES, AERIS (bronze), pois, das medalhas e moedas desse metal é que se deduzia a data do acontecimento notável que servia como marco inicial àquela série de anos.

Acreditamos que todos os povos prefeririam tomar como marco inicial o momento em que tudo surgiu, o momento da Criação, o instante em que a Terra principiou a sua primeira jornada em torno do sol. Na impossibilidade, cada povo adoptou um ponto que lhe foi importante. Os Judeus fundam a sua “ERA” na criação do mundo, segundo a sua crença. Os Romanos na fundação da sua Capital, os Gregos no inicio dos Jogos Olímpicos, os Egípcios na ascensão de Nabonassar, primeiro rei da Babilónia, ao trono daquele Império e os Cristãos, no nascimento de Cristo.

VULGAR – (Do Latim Vulgaris ou Vulgus) pertencente ao povo, comum, trivial, corriqueiro. O termo “VULGAR”, primitivamente representava as ”pessoas comuns”, que não pertenciam à realeza e, com o passar dos séculos passou a ter outros significados como “indecente, reles ou grosseiro”.

Foram os Judeus que substituíram o antes de Cristo e depois de Cristo por antes e depois da ERA VULGAR, possivelmente para não se reportar à Era Cristã. A “ERA VULGAR”, portanto, designa o Calendário Gregoriano actualmente adoptado no mundo.

Era comum, era corrente ou era vulgar (E∴ V∴ ).

Estas expressões estão intimamente ligadas ao Calendário Gregoriano e é conhecida também como Anno Domini (A∴ D∴ ), que em Latim significa “Ano de Nosso Senhor”. Antes do ano de 1582, utilizava-se o Calendário Juliano, estatuído por Júlio Cesar em 46. a.C.. Este Calendário arredondava o ano para 365 dias e 6 horas, o que resultava numa diferença de 11 minutos por ano, se comparado ao ano solar real (COIL, 1961, p.112) e, com o passar dos séculos isto resultou em diferença de dias. Preocupado com isto, o Papa Gregório XIII determinou correcções no Calendário Juliano, criando um novo Calendário que determinasse correctamente a data da Páscoa e as estações do ano. Foi então, criado o Calendário Gregoriano. E, como consequência da mudança do Calendário, naquele ano de 1582, a quinta-feira, dia 04 de Outubro foi seguida por uma sexta-feira, dia 15 de Outubro, o ano passou a ter exactos 365 dias e adoptou-se o sistema de anos bissextos. Com a correcção, a diferença entre ano trópico e civil foi reduzida e tornou-se quase desprezível (0,0003).

A expressão V∴ L∴ (Verdadeira Luz / Vera Lucis) ou A∴ L∴ (Anno Lucis)

A expressão V∴ L∴ ou A∴ L∴ , refere-se ao primeiro ano do Calendário Maçónico, (foram empregados na datação de antigos documentos Maçónicos do século XVIII, e interpretado como “Latomorum Anno” e, no texto original, em inglês, “Age of Stonecutters”, que significa “Idade dos Cortadores de Pedra”). E, está fundamentado nas pesquisas do Arcebispo Anglicano JAMES USSHER, que serviram de bases para a criação do Calendário Gregoriano, actualmente em uso. Segundo as suas fontes o momento da Criação teria ocorrido no ano 4004 a. C., ás 9 horas do dia 23 de Outubro. Começava aí, o Ano Um da Verdadeira Luz.

Calendários maçónicos e a utilização das siglas A∴ L∴ / V∴ L∴

A adopção das siglas A∴ L∴ / V∴ L∴ (Anno Lucis ou Ano Luz / Verdadeira Luz), na Maçonaria Simbólica foi iniciativa de JAMES ANDERSON, por acreditar que a Maçonaria deveria dispor de uma forma própria de marcar as suas datas, diferentes dos calendários religiosos como o Judaico e Gregoriano. Ele tomou como base a pesquisa do Arcebispo Anglicano chamado JAMES USSHER, que foi primaz de toda a Holanda e vice-chanceler da Trinity College, de Dublin. A sua pesquisa totalizou os intervalos de tempo na Bíblia, chegando a conclusão, que a data da criação do mundo, de acordo com os versículos da abertura do Livro de Génesis, foi em 23 de Outubro de 4004 AEC. Tal pesquisa foi tão respeitada, que consta na Enciclopédia de Religião. Para facilitar a utilização, JAMES ANDERSON arredondou o número para 4000 A∴ C∴ (COIL, 1961, p. 112), (OS SEGREDOS DO TEMPLO DE SALOMÃO, Kevin L. Gest, Ed. Madras, 2009, p.199).

As siglas para o início da contagem do tempo no Calendário Maçónico variam segundo os Ritos e as Potências onde são praticados, levando-se em conta cada cultura. Assim, o Rito do Arco Real acrescenta as expressões A∴ I∴ (Anno Invencion), o Rito de York usa o A∴ L∴ (Anno Lucis). Para os Ritos Brasileiro e Moderno utiliza-se a expressão V∴ L∴ (Verdadeira Luz ou Vera Lucis). Para os Ritos que utilizam o Calendário hebraico a expressão é A∴ M∴ (Anno Mundi).

O Rito de Mênfis utiliza o Calendário egípcio, assim como a maioria dos Ritos orientais.

O Rito do Real Arco utiliza Calendário próprio. Onde o ano um se inicia com a construção do segundo Templo de Jerusalém (Templo de Zorobabel) e, acrescenta ao ano da E∴ V∴ , o número 530.

O Rito da Estrita Observância inicia o seu Calendário no ano de 1314, o ano da destruição da Ordem do Templo. Este subtrai o número 1314, do ano da E∴ V∴ .

O Rito Misraim soma ao ano da E∴ V∴ , o número 4004 a.C.

O Rito Adonhiramita utiliza um Calendário pseudo-hebraico desde 1815, acrescentando a E∴ V∴ , o número 4000.

O Rito Escocês Antigo e Aceite utiliza o Calendário Hebraico, pois este Rito foi fundado por Irmãos de origem Judaica. No Brasil é usado o Calendário hebraico, com início em 21 de Março (NISSAN), acrescentando ao ano da E∴ V∴ , o número 4000.

O Rito Moderno ou Francês atribui aos meses igual número de dias que o Calendário Gregoriano, acrescentando o número 4000 ao ano da E∴ V∴ . Antigamente este Calendário iniciava o ano no dia 21 de Março, porém, em 1774, o Grande Oriente de França mudou o início do ano para o dia 1º de Março, alegando que o dia 21 de Março causava muita confusão.

O Rito de York tem um Calendário próprio e simples, acrescentando ao ano da E∴ V∴ , o número 4000.

O Rito Brasileiro, segundo documento nº 10, de Setembro de 1969, da E∴ V∴ , do SUPREMO CONCLAVE DO BRASIL, através do SUPERIOR CONSELHO DE CULTURA E ORIENTAÇÃO, oferta aos Maçons do Rito, o Calendário Maçónico Gregoriano, usado no “Livro de Ouro nº 1, do Grande Oriente do Brasil”, de 1822, com a sua correspondência ao Calendário Vulgar. “Somente através da concordância dos calendários, poderão os Maçons (e os profanos estudiosos da História) decifrar as datas constantes das 19 preciosas Actas, que compõem aquele Livro, páginas imperecíveis da Independência da Nossa Pátria”. O calendário Maçónico gregoriano adoptado pelo Rito Brasileiro já teve amplo uso entre Maçons. Começa no dia 21 de Março da V∴ L∴ (Verdadeira Luz), acrescentando-se mais 4000 anos a E∴ V∴ (Era Vulgar).

Desta forma, acrescentaríamos ao ano de 2016, mais 4000 anos, então hoje dia 16 de Fevereiro de 2016, seria: O 27º dia do 11º mês (tebeth) do ano de 6016 da V∴ L∴

Conclusão

No início da nossa pesquisa, comentei a respeito da complexidade do assunto “ERA VULGAR”. Ao longo das pesquisas encontrei muita dificuldade na procura de material sobre “ERA VULGAR e VERDADEIRA LUZ”. Embora se encontre muitos textos sobre o assunto, eles são bastante resumidos e não trazem conteúdo rico em detalhes. O melhor método foi pesquisar vários materiais e compará-los, aproveitando somente aqueles em que houve concordância entre os autores.

Outra dificuldade foi a diferença de opiniões encontrada com relação a datas e factos entre escritores e pesquisadores. Por exemplo: em certas obras lemos que o Calendário Juliano foi estatuído em 46 a.C., enquanto em outras consta 45 ou 42 a.C. (embora a diferença seja ínfima, causa dúvida quanto à fidelidade da origem).

O Irmão Hercule Spoladore afirma que o Calendário Gregoriano foi promulgado em 24 de Fevereiro de 1562, porém, o Irmão Kennyo Ismail e o escritor Irmão Rizardo da Camino, afirmam que isto ocorreu em 1582.

Segundo o Dicionário Maçónico (Wikipédia), e o escritor Kevin L. Gest (Os Segredos do Templo de Salomão- Ed. Madras), O Arcebispo Anglicano James Ussher nasceu em 1581 e faleceu em 1656. Como, então, poderia ter sido aplicada a sua pesquisa em 1562, antes dele nascer? Ou em 1582, quando contava apenas com um ano de idade?

Bem, lançar-se numa pesquisa deste porte, requer muito cuidado e tempo. O pesquisador irá entrar no campo das religiões e de culturas diferentes e com entendimentos que discordam entre si.

Enfim, falar do tempo não é tarefa fácil, principalmente quando sabemos que hoje utilizamos outros métodos para contagem do tempo. A tecnologia permite-nos hoje, discordar da teoria do “catastrofismo”, do naturalista Barão George Cuvier (1769-1832), que considerava um Criador para a história da Terra.

Actualmente, utilizamos dois conceitos básicos para contagem e organização do tempo e duas metodologias distintas para quantificar o tempo. Uma é a datação relativa, isto é, a determinação de uma ordem cronológica através de uma sequência de eventos e a outra, a datação absoluta, utilizando o que há de mais moderno na tecnologia como, C14, Chumbo-chumbo, U/Pb, K/Ar, Laser, entre outros. Hoje, através de métodos científicos podemos estabelecer com certa segurança a idade de fósseis, rochas e materiais em milhões e até bilhões de anos.

Enfim, o tempo é imensurável. A nossa curta passagem torna-se um nada diante do infinito. Torna-se um invisível ponto entre duas eternidades. Para entendermos este curto espaço, temos que fazer aplicação das lições aprendidas na Pedra Bruta. Temos que ter calma, paciência, perseverança e muita prudência, para que após trilharmos um caminho recto, vertical e horizontal, possamos receber do S∴ A∴ D∴ U∴ a Luz necessária para entendermos os mistérios da nossa breve jornada.

Adaptado de texto escrito por Osvaldir Pereira de Almeida

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2 Comentários em “Calendários maçónicos e Era Vulgar

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    Excelente reportagem.

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    QUANDO SE FALA EM TEMPO NÃO SE PODE USAR ESPAÇO (FINITO OU INFINITO), MAS PERÍODO.

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