Da maçonaria operativa ao Grand Orient de France (Parte II)

(Continuação – Link para a parte anterior)

Ensaio sobre as origens dos rituais e dos graus simbólicos

Vimos que a comunicação era um dos elementos essenciais na Recepção de Aprendizes. Era única para todos os membros. Com o tempo, ela emigrou para a Inglaterra devido à troca ininterrupta de trabalhadores entre os dois países. Os “aceitos” desdobraram-na talvez para se distinguirem dos operativos. Eles criaram uma (ou conservaram a existente) para os aprendizes, uma para os companheiros, e mais tarde, tendo-se tornado especulativos, uma para os mestres. Este desvio da “palavra” de origem escocesa, que, lembramos, não tinha em si qualquer valor esotérico, gerou, a partir dos anos 1735-1740, toda uma série de palavras ditas “sagradas”, criadas pelos inúmeros graus que vieram em seguida e que constituíram o que chamamos de Escocismo.

O modo de reconhecimento foi transformado num símbolo, de uma “verdade perdida”, ou de uma “palavra perdida”, juntando-se assim às famosas fórmulas orais encontradas nos contos de fadas, cujo poder misterioso abre todas as portas. Em 1753, o virulento propagador irlandês da maçonaria dita “dos Antigos”, Laurense Dermott, definiu-a como “a medula [10] da Maçonaria”.

A maçonaria operativa conhecia apenas dois graus, além de uma função, a do Mestre de Loja, que era escolhido por seus companheiros, pelo menos até 1710. A presença do Templo de Salomão na lenda da Ordem faz parte dos enigmas não resolvidos. Das 150 versões de manuscritos já mencionadas, apenas dois falam disso: o Regius (1390), poema em verso, e o Cooke, mais explícito do que o seu antecessor e a mais antiga referência aos “Deveres Operativos”.

Narra brevemente a história do ofício da maçonaria, assumindo parcialmente o que é dito na Bíblia. Dá um papel muito mais importante à Torre de Babel e a Nimrod do que a Salomão e ao seu Templo. São 76 linhas de texto contra 28, e menciona os dois pilares sobre os quais foram gravadas as sete artes liberais de Ciências e Artes (das quais, entre parênteses, encontramos vestígios no grau 30 do Rito Escocês). Dois pilares dos quais um não poderia brilhar e outro ficar sob sombras, afim de protegerem o precioso conhecimento da época da destruição ou da vingança de Deus.

É apenas no início de 1700 que eles retornam timidamente nos raríssimos “Antigos Deveres” [11] ainda em uso, mas logo desaparecem em benefício das duas colunas de Salomão. No mesmo período, no registro da Grande Loja de Edimburgo, à pergunta: “… onde existiu a primeira loja?”, responde-se “… no pórtico do Templo de Salomão”. Pouco antes de 1700, a Grande Loja de York menciona as festas celebradas na inauguração do famoso Templo e a morte de Hiram, o seu arquitecto, sem qualquer menção ao seu assassinato. Dez anos depois, o Manuscrito Dumfries no 4 dá às duas colunas tiradas da sombra um sentido religioso cristão que será retomado posteriormente.

Então, porquê Salomão? E porquê depois de um silêncio que durou 300 anos?

O que provocou este efeito terá sido o facto de em 1665, Jacob Jéhu Leon, um judeu espanhol, ter exibido em Londres um modelo muito bonito do Templo de Salomão, que atraiu enorme atenção (a exposição continuou com o mesmo sucesso até 1765, ou seja, um século depois)??? Ou seria a publicação, em 1688, de um livro “Le Temple de Salomon spiritualisé”, do escritor anabatista John Bunyan, autor conhecido e respeitável???

Vindo após esses dois eventos, parece que teria sido George Payne, por pouco tempo Grão-Mestre da Grande Loja de Londres, que, em 1721, ao apresentar o manuscrito Cooke, de 1410, na Reunião da Saint Jean d’Eté, se tornaria o iniciador de uma lenda salomónica desconhecida tanto dos operativos escoceses quando dos “aceitos” ingleses do século XVII. É lá que estamos, 1720-1730, à beira de uma maçonaria especulativa cujo simbolismo não conhecerá limites antes do final do primeiro quarto do século XIX.

Paradoxal e estranha é a anomalia que configura a completa ausência de ferramentas do ofício nos manuscritos que relatam a recepção de aprendizes e companheiros. Elas aparecem pela primeira vez em 1696 na acta do Registro de Edimburgo, a propósito do juramento: “Juro por Deus, pelo esquadro e pelo compasso”, fórmula repetida nos mesmos termos em 1710 e 1714. Em 1710, o manuscrito Dumfries no 4 também cita pela primeira vez três pilares sem qualquer relação com as duas colunas de Salomão, indicando que eles significavam Esquadro, Compasso e Bíblia. Teria sido este o prenúncio das três luzes que encontramos um pouco mais adiante?

Foi entre 1720 e 1730 que se introduziu a gama completa de ferramentas – régua, tesoura, maço, malhete, prumo, nível, trolha, etc. – que, pela graça dos especulativos, se transformariam em símbolos totalmente desconhecidos para aqueles que diariamente, durante séculos, por dever de ofício, os manipulavam. Ocorre o mesmo para os dois símbolos fundamentais da maçonaria, pedra bruta e cúbica polida. Eles jamais existiram nem entre os operativos nem entre os aceitos, e as primeiras Lojas especulativas do século XVIII ignoravam-nos. Devem ter nascido em França, por volta de 1740, sendo timidamente divulgados mais tarde, mas sem que um significado lhes tenha sido atribuído. No máximo, eles diziam: “… uma pedra sobre a qual as ferramentas são afiadas”, e é esta iconografia particular que nos anuncia a sua existência.

Então o que resta da lenda da qual somos os herdeiros, de cuja tradição operativa ancestral e simbólica nos tornamos veículos e à qual nos referimos com orgulho e reverência?

O maçon “aceito” era o elo entre operativo e o especulativo, mas, já no século XVII, os “usos” e não os ritos diferiam significativamente entre operativos e aceitos, e o fosso acentuou-se até que eles se tornam quase estranhos uns aos outros. Apenas os escoceses parecem ter preservado por muito mais tempo os elementos antigos, muito simples na verdade, que tentaram manter no seio das Lojas inglesas. É provavelmente essa contribuição, renovada ao longo do tempo graças aos movimentos dos maçons escoceses, que sugere, por analogia com o que tinha acontecido anteriormente, o porquê dos novos graus que surgiram na Inglaterra, em 1730 – sem que eles estivessem envolvidos – terem sido atribuídos à maçonaria escocesa. Eles receberam o epíteto de Escoceses e a partir desse momento este termo cobre todos os graus – além de aprendiz, companheiro e mestre – que surgiram mais tarde.

Assim sendo, qual foi a maçonaria trazida, em Junho de 1726, por Charles J. Radclyffe e seus amigos? Nada diferente do que existia na época e que estava descrito tanto no Registro da Grande Loja de Edimburgo como nas Constituições de Anderson, em 1723. A maçonaria com dois graus, de simbolismo apenas esboçado, mas já equipada com um propósito, muito vago é verdade, de “Ser o Centro de União”, com um sistema administrativo relativamente estruturado, mas limitado a critérios de regularidade, possivelmente uma lenda histórica gloriosa que lhe conferia nobreza, tudo acompanhado de um segredo misterioso sobre a natureza do qual todos ficavam perdidos, inclusive aqueles que o possuíam.

O manuscrito de Edimburgo descreve o desenrolar das reuniões: as poucas formalidades na convocação dos membros, a definição da multa para os ausentes, as admissões (cujo cerimonial perpetuava o que os operativos deixaram), a “troça” durante a refeição, a análise de multas anteriores, os eventuais julgamentos de delitos, os empréstimos de dinheiro para assistência, a eleição anual de oficiais e, finalmente, o banquete. Estes procedimentos foram definitivamente fixados em 1640 e continuaram a ser aplicados nos primeiros anos do século XVIII. Em algumas Lojas a recepção foi acrescida de uma leitura da história – lendária – da maçonaria. A obrigação permaneceu moderada; sem ameaça de sanção por violação ao juramento. O manuscrito Chetwode Crawley, por volta de 1700, o Haugfoot (1702), o Kewan (1714), etc., que revelam este procedimento, são de grande interesse porque mostram a transição que ocorreu entre os últimos “operativos aceitos” e os primeiros especulativos: nenhum manuscrito anterior se compara a eles, e não haverá outros depois deles.

Não parece que em França tenha sido diferente; e, se não temos documentos que nos apoiem ou contradigam, como dizer se foi ou não diferente? Uma Loja, em 1726, uma segunda, em 1729, uma terceira em 1730, todas de origem inglesa. Admitamos assim esta simplicidade [12], mesmo porque ela terá duração muito curta e não pode ser comparada com o que vai aparecer nos dez anos seguintes.

Os “costumes” transformar-se-ão em “rituais”. A sua proliferação desordenada criará ritos. Credulidade, vaidade, ganância, muitas vezes ajudadas pela imaginação, farão com que a razão perca o seu espaço. O simbolismo maçónico vai entregar-se a um caminho insano, às vezes dogmático, do qual não sairá senão depois de um século, retendo algumas sequelas. E, como tal afirmação exige provas, lembremos que o telhamento de Ragon, que foi dignitário do Grande Oriente, aponta mais de 1450 graus, com 1450 rituais diferentes, incorporados em 48 ritos maçónicos praticados por 54 ordens, incluindo 24 mistas e 6 académicas.

A história dos rituais é extremamente complexa, tanto na variedade de itens que serão incorporados quanto pela ignorância que temos da sua origem, data e local de aparecimento. Dois exemplos marcantes: a incorporação da lenda salomónica citada acima, e a lenda de Hiram, chave de toda a maçonaria especulativa escocesa, que ignorou completamente tanto a maçonaria operativa quanto a “aceita”, e cujo assassinato é estranho à Bíblia, sem que saibamos quando ou através de quem ela apareceu. Mas foi ela que originou o sistema de três graus da maçonaria simbólica e a sua extensão nos Altos Graus do Rito Escocês Antigo e Aceito, sem que jamais se fosse capaz de determinar as condições precisas em que se estabeleceram.

Podemos, sem medo de errar, fixar o ponto de partida da maçonaria especulativa na década de 1720. O que sabemos das suas primeiras cerimónias vem de “revelações”. Tudo o que é misterioso atrai; elas faziam um enorme sucesso e seu número não parava de crescer. Quanto ao conteúdo, quanto mais revela, mais é suspeito, embora se concorde que isto depende de uma análise rigorosa dos textos que permita identificar o que é genuíno e o que não é. Eles roubaram-se descaradamente tentando suplantar-se uns aos outros. Serviram como um auxílio à memória, e através da sua difusão é provável que tenham contribuído muito para o estabelecimento de rituais cujo desenvolvimento se estendeu por anos, fornecendo elementos mais ou menos simbólicos de todas as procedências e que se instalaram na mente dos maçons.

A primeira revelação apareceu num jornal de Londres, o “Flying Post”, a partir de 13 Abril de 1723, sob o título de “A mason’s examination“. Este panfleto sem grande alcance foi reproduzido em cartazes afixados nas ruas da cidade. Seguido, em 1724, por “le Grand Mystère dévoilé“, que foi republicado em 1725, juntamente com uma versão impressa de uma pretensa “Old Charges” conhecida como “Briscoe Text“, completamente absurda.

Muito mais grave foi, em 1730, foi o livro “Maçonaria Dissecada”, de Prichard. Certamente aborreceu a Grande Loja da Inglaterra, que marca imediatamente o trabalho como “impostor”. Ele trouxe muitos elementos, reconhecidos como válidos mais tarde, sob a forma de perguntas e respostas com, e pela primeira vez, uma versão muito simples da Lenda de Hiram. O conjunto compreende tudo o que poderia constituir um ritual de três graus.

Em 1735, uma edição pirata das Constituições de Anderson, de 1723, apareceu sob o título de “Pocket Companion”, mas não trouxe nada de novo. O livro de Prichard, reeditado muitas vezes, foi a única “revelação” inglesa durante os 30 anos seguintes, até 1760.

A França foi muito mais prolífica tanto no número de livros, quanto na diversidade das revelações. A primeira, “La Reception d’un Frey-Mason“, publicada em 1737, por Hérault, tenente de polícia, teve um grande impacto. Era um trecho de um relatório tirado das declarações de La Carton, uma dançarina da Opera de Paris, que tinha obtido as suas informações do seu amante, Lenoir Cintré. Se o texto é bastante insignificante, pois traz poucas novidades, a dezena de Revelações que se seguiram revelaram quase todos os “segredos” entre aspas, da Maçonaria, segredos estes até desconhecidos pelos próprios maçons ingleses, o que lhes dá um certo sabor.

Citamos, depois de Hérault (1737), outras revelações:

  • La Réception des Francs-Maçons 1738 ;
  • La Réception mystérieuse des Francs-Maçons, 1738
  • Le catéchisme des Francs-Maçons, 1740 (revista e corrigida 1749) ;
  • L’Almanach des cocus, 1741
  • Le Secret des Francs-Maçons, 1742
  • Le Sceau rompu, 1745
  • L’Ordre des Francs-Maçons trahi, 1745
  • Les Francs-Maçons écrasés, 1747

Algumas deram origem a várias edições. Só o “Trahi” teve umas trinta, além dos plágios. A bibliografia maçónica de língua francesa do período de 1730 a 1790 contém mais de 900 obras. Algumas tiveram direito a tradução para o inglês e o alemão e foram inflacionar o simbolismo maçónico estrangeiro, que não necessitava disso.

Não havia rituais como os conhecemos, mas narrativas claras através das quais é fácil reconstruir o cerimonial das reuniões. Os catecismos e a resposta às perguntas, que se tornarão as “Instruções” baseadas nas de Prichard (1730), incluirão regularmente, a cada edição, elementos novos, entre os quais, “as palavras” com o motivo para a sua introdução e o seu significado simbólico. No início do século, o mais antigo catecismo não apresentava mais que quinze questões. Em 1730, apenas no grau de aprendiz, apresentava mais de uma centena.

A iconografia começa por volta de 1740: painéis de Loja para os diferentes graus, gravuras de recepção, importantes pelo que aportam em complemento dos textos. As figuras extraídas da L’Ordre des Francs-Maçons Trahi (1742), do Catéchisme des Francs-Maçons (1749) e da La Franc-Maçonnerie Démasquée (1751) enriqueceram todas as obras publicadas posteriormente. Hogarth e Watson divulgaram aspectos pouco conhecidos, às vezes imaginados, da vida das Lojas na Inglaterra. A partir de 1750, os aventais maçónicos, magnificamente bordados, revelaram-se verdadeiros “livros mudos”, trazendo, para a sagacidade dos curiosos, todo o simbolismo da sua época.

De 1700 a 1725, as Lojas reúnem-se em tabernas das quais também obtêm seu nome. Em França, elas se vêem sob a protecção de um santo, geralmente aquele cujo prenome era igual ao do Mestre da Loja, e começam a partir de 1735. O mundo profano não era adequado para reuniões, e, sendo assim, precisavam sacralizar locais onde nenhum dos elementos herdados do século anterior existia. Isto foi remediado pelo painel da Loja. A data de seu aparecimento é incerta. Mas os textos indicam que no primeiro quarto do século XVII a imagem da Loja era desenhada no chão, com giz e carvão, sendo apagada no final da reunião. Tinha a forma de uma cruz e tornou-se “alongada” com “…as inovações introduzidas recentemente pelo Dr. Desaguliers e alguns outros modernos” (fim de uma citação de 1726).

Sacrílegos, eles substituem o giz e o carvão por fitas, tachas e letras móveis. Os tapetes das casas senhoriais onde se reuniam as Lojas com certas figuras importantes, explicam o novo procedimento. De acordo com um catecismo da época “as fitas eram brancas e tachadas, com as letras E para Leste e S para Sul”. Mais tarde, a decoração deu lugar a um tapete, e, de seguida, a um painel: nele vemos as colunas de Salomão, o sol, a lua, as ferramentas do ofício, as duas pedras, etc., sem que isto fosse regulamentado por qualquer texto.

Se, no tempo dos “aceitos” a loja era iluminada por uma chama que saía de uma terrina “triangular” na qual se queimava álcool de vinho, os especulativos usavam tochas. Note de passagem que os operativos e aceitos do século XVII nunca usaram o triângulo como um símbolo e que a terrina relatada acima era uma inovação. Segundo manuscritos de 1700 a 1720, as tochas que viriam a tornar-se “As Luzes”, eram sempre em número de três, não mais. Para a Loja de Edimburgo, que é primeira a mencioná-las (1698) elas são o mestre, o vigilante e o companheiro. O manuscrito Sloan (1700) dá uma outra versão: são o sol, o mestre e o esquadro. Para o Dumfries (1710), estas três tochas tornaram-se três pilares: o esquadro, o compasso e a Bíblia. Dois textos de 1724 e 1725 dizem que é o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Depois, um grupo de três textos corajosamente propõe doze luzes que são, na ordem: Pai, Filho, Espírito Santo, o sol, a lua, o mestre maçon, o esquadro, a régua e as ferramentas mencionadas na época. Repare a ausência muito importante da Bíblia e do compasso.

Elas crescem em números, e em meados do século um grau escocês terá oitenta e uma. A sua posição dentro do Loja varia constantemente. Prichard (1730) e o manuscrito Wilkinson (1730) fazem-nas viajar e atribuem-lhes o sol, a lua e o mestre da loja. É assim que a França as interpretará de 1730 a 1760. A partir dessa data haverá uma nova variação, e elas serão seis: três grandes luzes, bíblia, esquadro e compasso, e três pequenas luzes, sol, lua e o Mestre da Loja.

Talvez já fossem seis em 1730, quando Prichard e Wilkinson, citados agora, diziam: “três pilares sustentam a Loja: sabedoria, força e beleza”, fórmula vista pela primeira vez num texto maçónico. Sentença puramente simbólica, sobreposto ao grupo de três luzes, sol, lua e mestre maçon, com a qual elas não se confundem. O destino desses símbolos tornar-se-á definitivo em 1760, quando eles serão, respectivamente, associados ao Mestre da Loja, ao primeiro e ao segundo vigilantes. Naquela época, vários dos diplomas das Lojas emitidos para os seus membros continham o lema “Força e Estabilidade”, parecendo que se aplicava à Igreja visando garantir a sua perenidade, mas isto só foi encontrado em França e só neste tipo de documento.

Nós não temos nenhuma explicação satisfatória para a presença do pavimento mosaico na Loja apesar de ser um simbolismo bastante óbvio. Parece que na época em que se desenhava o painel da Loja no chão, era preciso visualizá-lo, provavelmente para situar oficiais, companheiros e aprendizes, e assim foram desenhados os quadrados pretos e brancos para distinguir os locais, embora não haja provas disso.

Na Inglaterra, o tapete em mosaico tinha a borda azul e a orla dentada em vermelho, terminada nos quatro cantos por uma borla. Guardará semelhança com a borla dentada que ilustra o Catecismo dos Maçons, edição de 1747, representada por uma longa corda terminado com duas borlas e que rodeia a parte superior do painel? Hiram era o filho de uma viúva. Nós, seus irmãos, somos os “Filhos da Viúva”. Na heráldica francesa, as armas de uma viúva são cercadas pela mesma corda descrita acima, e, a moldura do painel que contém estas armas, decorada com triângulos pretos e brancos. Assim se poderia esclarecer o significado deste símbolo, que tem sobrevivido em relativa obscuridade.

Desde a sua origem os maçons especulativos inscrevem-se na Ordem cósmica. Provas: o sol, a lua, os quatro pontos cardeais desenhados no painel da Loja, a orientação deste, as direcções nas quais se espera que os maçons de desloquem (De onde vindes? Onde ides?), as viagens feitas ao longo da recepção de um candidato no sentido da rotação do sol, a Estrela Flamejante do segundo grau, o céu estrelado, um dossel azul escuro salpicado de estrelas. Tudo isto materializa a vontade de fazer da Loja uma representação do universo. Isto desde 1710, no manuscrito Dumfries no 4 e no manuscrito do Trinity College de Dublin (1711). O catecismo de Prichard em 1730, confirma que, à pergunta: “Qual é a altura do Loja? “, responde-se: “tão ilimitada quanto o céu e as suas estrelas”.

O mobiliário da Loja foi mais reduzido. A mesa do Venerável, de nível. O patamar com três degraus virá muito mais tarde com o mestre e o livro; na sua parte inferior, uma pequena mesa baixa em que foram colocados o esquadro e o compasso: no momento do juramento, o candidato pousava o joelho direito sobre essas duas ferramentas, e assim formava um esquadro com a outra perna.

O painel da Loja, já citado, e as suas tochas – três ou três grupos de três, igualmente arranjados nos cantos do tapete, de acordo com a época e lugar. Nem cadeiras nem mesas. Os irmãos ficavam em pé e o venerável sentado. Mais para o fim do século, os vigilantes também beneficiaram de uma mesa cada um, com uma coluna de cerca de 25 centímetros sobre ela.

Quando as circunstâncias permitiam, as duas colunas de Salomão ladeavam a porta da frente: eram encimadas por um capitel (Bíblia, Reis 3 – 15,2) coberto com romãs. Salomão tinha denominado a primeira, à esquerda, de Boaz, que parece ter sido um de seus antepassados, e a outra de Jakin, mas o texto não fornece qualquer explicação. Esquerda-direita, direita-esquerda? A inversão da posição ocorreu na Inglaterra entre 1730 e 1735 de uma injunção que se seguiu à revelação das palavras sagradas para o mundo profano, afim da sua utilização por pessoas que não tinham sido admitidos regularmente.

Uma gravura inglesa, de 1750, mostra uma mesa, enorme, ocupando quase toda a gravura, em torno do qual os irmãos estavam em pé, com a cabeça descoberta, participando da recepção de um aprendiz: numa das extremidades o venerável, malhete na mão e coberto com um chapéu de três pontas, com um livro e um esquadro diante de si. Três pequenas velas em triângulo nos cantos da mesa. A atitude dos irmãos, vestidos com um avental longo, abetas para baixo e muito descontraídos, sem dúvida sem saber o que fazer com as mãos, além de colocá-las nos bolsos. Mais tarde, em 1787, um célebre quadro retrata a entrega de um prémio ao Irmão Robert Burns, poeta e escritor, durante uma sessão solene da Loja Cannongate de Edimburgo. Os irmãos, em número de três, estão espalhados ao redor da sala. Não ousamos dizer que é um templo, embora haja uma plataforma elevada no Oriente, com três bandejas. De pé, sentados ou descuidadamente deitados, conversando em volta das mesas espalhadas por toda a parte. Curiosa imagem de uma reunião maçónica que se parece muito mais com um encontro profano da pequena nobreza, mas eles estavam revestidos dos seus aventais e sem colar.

Os aventais eram de couro branco, emoldurados por uma fita azul ou branca, como tinha decretado a Grande Loja da Inglaterra, em 17 de Março de 1731. Anteriormente, a 27 de Junho de 1726, tinha ordenado que os Mestres de Loja e os vigilantes “usassem as jóias da maçonaria” penduradas numa fita branca em torno do pescoço, os mestres com o esquadro, os vigilantes com o nível e o prumo. Em 17 de Março de 1731, as jóias tornaram-se de ouro ou douradas e a fita passou a ser azul. Esta decisão nem sempre foi respeitada, e, em 1739, a Loja Antiquity manteve o “colar verde de acordo com os antigos costumes”. Para outras ele era amarelo, e avental branco, mas emoldurado de vermelho. A jóia-compasso é descrita no manuscrito Dumfries no 4, em 1710, e no frontispício das Constituições de Anderson, em 1723, mostrando o Duque de Montaigu, grão-mestre da Grande Loja, passando-a ao Duque de Wharton, seu sucessor. A cor das pontas do compasso em cobre e a do corpo em aço determinaram que, daí em diante, o colar será amarelo e azul, o que o “Trahi” de 1745 também confirma. Tornar-se-á azul em seguida, e o do mestre de banquetes continuará a ser vermelho, assim como o seu avental. Em 1742, o venerável porta o esquadro e o compasso, os outros oficiais apenas este último. Não era obrigatório, mas é a primeira menção em França deste uso que permanece até hoje.

O colar tinha apenas um objectivo: pendurar as jóias e assim distinguir os oficiais. Não tinha qualquer significado simbólico. Em 1759, uma gravura mostra que os colares eram usados da esquerda para a direita, o que parece dizer que ele não era feito para portar a espada em Loja, mas sim simbolizava a Igualdade. Nenhum dos personagens representados nas gravuras, incluindo os oficiais, ostenta luvas.

Duas questões sobre o ritual. A palavra não aparece em nenhum dos estatutos e regulamentos das Grandes Lojas. Parece resultar daí a natureza dos “eventos” maçónicos descritos nos relatos fornecidos pelas “revelações”. Quanto à “coisa” ritual, isto é, à recitação das cerimónias, parece ter sido codificada no final do século XVIII, pelo menos em França.

A maior dificuldade encontrada no estudo dos rituais provém do facto de que, até 1858, a sua impressão era proibida, e portanto, todos eles são manuscritos sem data e sem origem. A única edição impressa antes desta data foi a do Régulateur Maçon (1801) reproduzindo exactamente os rituais para o Rito Francês estabelecidos pelo Grande Oriente em 1782, mas que era desconhecida por este. A partir de 1800, uma série de “Thuileur” [13], que, do ponto de vista maçónico, era ilegal, apareceu sob a assinatura de maçons frequentemente proeminentes. Reconheçamos também que nenhum estudo “científico” da ritualística maçónica jamais foi realizado e que a sua abordagem permanece delicada.

A abertura e encerramento da Loja só foram estabelecidos entre 1742 e 1760, e primeiro em França. O Venerável Mestre da Loja, cujo título foi emprestado da Ordem dos Beneditinos, fazia-se avisar pelos vigilantes que iria ser aberta. Só ele estava coberto e retirava o chapéu na abertura, e em seguida, colocava-o novamente. Mas o “Trahi” de 1745 traz duas gravuras onde todos os assistentes estão cobertos. Então vinha a recitação do catecismo pelos oficiais. Em 1730, à pergunta “Sois maçon?”, o vigilante respondia: “consideram-me como tal” seguido de “onde se encontra o primeiro vigilante? Qual é o seu dever?”. E assim por diante, para cada um dos cargos. Os visitantes eram “telhados” (o termo parece já existir na época), duas vezes: antes de entrar e, em seguida, na Loja antes de ocupar o seu lugar. A presença de um profano, mesmo na sala dos passos perdidos, era denunciada pela expressão “chove”.

Na Inglaterra, no final do século, a reunião era interrompida por refrescos, anunciados por qualquer um dos vigilantes que deitava a coluneta no seu lugar, como já foi mencionado. O “trabalho” cessava, bebidas eram servidas, bem como, às vezes, a refeição. Seguidamente, os “trabalhos” eram reiniciados com o levantar da coluna. Não parece que naquele tempo a França conhecesse este procedimento, substituído – pode-se dizer que com vantagens – pelas lojas de mesa e o seu ritual particular. A partir de 1786, os trabalhos não tinham início sem que os vigilantes tivessem pedido aos irmãos as palavras, sinais e toques. Também nesta data foi introduzida a leitura do traçado dos trabalhos anteriores e a adopção das observações do irmão Orador, um oficial que a Inglaterra ignora até hoje. O encerramento da Loja foi ritualizado como a abertura, porque numa se fazia a cadeia de união – encontrada, pela primeira vez, em 1744 – e, na outra, se separavam sob o “Chant des apprentis” [14] que veio das Constituições de Anderson. Em 1760, “… no final de cada verso cantado, eles se juntavam as mãos cruzadas para formar uma cadeia, sacudindo-as para cima e para baixo, enquanto batiam com força a sola do pé no chão, o que causava surpresa para os de fora”.

Catecismo, beneficência e recepções eram a maior parte da actividade das Lojas. Contudo, durante muito tempo, o banquete era ainda mais importante. Em 1750, foi instituída a leitura da história da Maçonaria, retomando um costume dos antigos operativos. A imaginação desenfreada e entusiasmada, ajudada pela proliferação anormal de altos graus, trazia alegria aos corações. Se formos admitir a rigor, que o famoso discurso de Ramsay (1737) afirmando a influência dos cruzados sobre a origem da Ordem e sobre o desenvolvimento do seu simbolismo, tenha fornecido uma tese plausível para esta história (Émile Mâle demonstra a sua incontestável contribuição no domínio da arte), ficamos loucos diante de Deus instalando a sua Loja pessoal, para si mesmo, antes mesmo de Adão constituir a dele para ser, sem dúvida, “o Centro da União”.

Ao contrário, o que não pode ser negado é a influência que as surpreendentes divagações dos Altos Graus do Escocismo em plena evolução tiveram no desenvolvimento da liturgia dos três graus simbólicos, em particular nas duas recepções – aprendizes e mestres – dois psicodramas que devem ser examinados nas suas vicissitudes.

(CONTINUA – Link para a Parte III)

Autor: André Doré (1902-1985)

Secretário Administrativo do Grande Oriente de França. – Membro, depois membro honorário do Grand College of Rites (1979). – Historiador da Ordem Maçónica, dos Altos Graus e do Escocismo

Extr. de: Bulletin des Ateliers supérieurs du Grand Collège des Rites du Grand Orient de France, n ° 91 (Avril 1979), pp. 81-99 et n ° 92 (sept. 1979) pp. 121-146 Edition: Paris, 1979

Adaptado de tradução feita por S. K. Jerez

Notas:

  • [10] No sentido de “coluna mestra”, “coração” etc. (N.T.)
  • [11] Old Charges, no original (N.T.)
  • [12] Imagino, pelo que o autor afirma, que os franceses tenham alguma dificuldade em aceitar que tenham existido lojas inglesas em França (N.T.)
  • [13] Telhador
  • [14] Cântico dos aprendizes

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