Da maçonaria operativa ao Grand Orient de France (Parte III)

(Continuação – Link para a parte anterior)

Ensaio sobre as origens dos rituais e dos graus simbólicos

Em que é que os especulativos do século XVIII transformaram as recepções simples de aprendiz das Lojas operativas e as também despojadas dos “Maçons Aceitos” do século XVII?

Damos a esta cerimónia o nome de iniciação, mas ao longo de décadas ela tem servido como entrada ou recepção, não como iniciação. A palavra “iniciação” fez a sua aparição timidamente em 1801, no prefácio do “Régulateur Maçon” e apenas no caderno do venerável, que reproduzia às escondidas do Grande Oriente e sob seu selo, os rituais do Rito Francês em sete graus e quatro ordens que ele tinha estabelecido em 1786. Teria sido devido ao trabalho intitulado “Recherches sur les initiations anciennes et modernes” [15], publicado em 1781 pelo Irmão Jean Baptiste Claude Robin, membro da loja “Les Neuf Soeurs” do Oriente de Paris, e divulgado durante uma sessão memorável relatada por Dixemerie? Não se pode tomar ao pé da letra a frase “…os verdadeiros iniciados” encontrada em itálico (pág. 7 e 12) no texto de um panfleto anónimo publicado em Haia, em 1745, chamado “Le Tonneau jetté ou réflexions sur la prétendue découverte de l’Ordre des Francs-Maçons” [16] refutando a “l’Ordre des Francs-Maçons Trahi“, do abade Perau. Também é sintomático que a Convenção da Philalethes organizada em 1785-1787 pela Loja “Les Amis Réunis“, do Oriente de Paris, dedicada ao estudo da “ciência maçónica”, as suas origens e os seus objectivos, em nenhum momento tenha considerado uma pesquisa sobre as iniciações ou uma eventual reaproximação com os antigos “mistérios”. Só uma intervenção, feita pelo Irmão Westerholdt na sessão de 19 de Abril de 1785, faz menção à sua “…alta antiguidade” e acrescenta: “… a Maçonaria, tendo uma analogia perfeita com as iniciações”. Mas este estímulo não trouxe nenhuma reacção por parte de uma plateia composta pelos maçons mais proeminentes e os mais cultos de toda a Europa. De qualquer forma, a palavra “iniciação” só se tornou oficial, maçonicamente falando, em 1826 (Art. 217º da Constituição do Grande Oriente de França).

Quando começou a haver “iniciação” no sentido iniciático do termo? O máximo que se pode sugerir é que foi ao longo da década de 1780, após tentativas de codificação de rituais, feitas em primeiro lugar pelo Grande Oriente da França, em 1786, e também pelas Convenções de Lyon, em 1778, e de Wilhemsbad, em 1782, para o Rito Escocês Rectificado.

Certamente havia “iniciação” antes desta última data. Mas isto só afectou os círculos de Lyon, cujo misticismo declarado era expresso sob a forma maçónica. Desde 1767, Willermoz e seus seguidores dedicaram-se, através de um sincretismo que combinou os sistemas de Saint Martin e Martinès de Pasqually, a implementar estranhas cerimónias ao mesmo tempo religiosas e mágicas, destinadas a devolver ao homem decaído a sua pureza original. Uma carta enviada a João Batista Willermoz por seu irmão Pierre Jacques, datada de 1768 e preservada em Lyon pela colecção W. 5471, diz “… queremos iniciá-lo na hora certa”, mostrando que havia “iniciação”. Elas não eram restritas só aos Altos Graus, reservados para uma elite cuidadosamente escolhida e, portanto, muito pequena. Um documento altamente secreto, acessível a poucos eleitos, “L’Instruction des Grands Profès[17], último grau do Regime Rectificado de Lyon, de 1778, publicado recentemente num trabalho de Antoine Faivre sobre a obra de Le Forestier, confirma este facto (Lyon – Colecção W. 5475). Este tipo de cerimónias, deixando de fora aquelas muito diferentes, referem-se aos três graus simbólicos. No entanto, a seriedade e o rigor próprios da execução da cerimónia de iniciação dos altos graus – rigor tornado necessário pelo seu lado mágico – leva a pensar que ela contribuiu para fortalecer e estabilizar a liturgia das recepções de aprendiz, companheiro e mestre, destinadas mais tarde a se tornarem iniciações.

O aspecto esotérico do ensinamento ministrado nas oficinas de vocação superior, dedicadas à busca do desconhecido e do secretismo que isto envolvia, necessariamente levou à sacralização do ritual em todas as suas modalidades. Ocorreu insidiosamente, poderíamos dizer pouco a pouco, e assim, instaurou o carácter “iniciático” das recepções dos três graus simbólicos. Mas então surge a pergunta: que tipo de iniciação?

Não há nada que o homem tenha criado que não seja em resposta a uma necessidade profunda do seu consciente e mais ainda, do seu inconsciente. A universalidade no tempo e no espaço dos impulsos que o movem, ilustra o conceito de arquétipos inerentes a toda a espécie. Parece que estes últimos se impõem às várias formas de vida animal. A repetição contínua de atitudes, gestos, torna-se uma linguagem que se transforma, sem que percebam, em códigos especiais para cada um deles. No ser humano, o surgir da palavra ocorreu pelo controle da voz, e o pensamento que se seguiu levou-o a uma tomada de consciência do mundo e dos seus inúmeros perigos; a reflexão analógica e as práticas mágicas que disso resultarão, farão com que se unam. A eficácia destas últimas repousava sobre uma execução rigorosa do seu gestual. Nascia a ritualística, com os seus rituais de todos os tipos. Sob múltiplas formas, ela tem continuado a desenvolver-se, tanto nas relações sociais quanto no que se refere às abordagens do mundo não-manifestado, substância do “sagrado”.

A morte e o desaparecimento que ela implica deverão aparecer como o maior perigo a que o homem poderia ser submetido, daí a sua ansiedade, a recusa de aceitar, e a esperança de sobrevivência num além diferente. Portanto, a morte era apenas uma passagem que leva a um renascimento neste mundo não manifestado, mas pressentido, e que era domínio do sagrado.

Uma passagem, como a do nascimento à vida, da infância para a adolescência, desta última para a masculinidade pelo exercício da sexualidade, tudo sacralizado durante cerimónias rituais. Sendo o rito a única forma de aceder a estes diferentes níveis de ser, todas as civilizações, da mais primitiva à mais sofisticada, sabiam, e ainda sabem, que estas práticas são mantidas em segredo porque se espera que tragam um poder considerável para aqueles que são seu objecto.

Estamos no século XVIII. Um saber estranho circulava por toda a Europa sedenta de luz. O oculto reinava supremo nas mentes. Transmitido pelo rosacrucianismo, que prometia a imortalidade, pela alquimia, que prometia a riqueza, pelo hermetismo, que daria o poder, e pela Cabala, que traria o conhecimento, tudo adequado a um mistério próprio para despertar todas as curiosidades, este mesmo mistério que parece haver nas Lojas Maçónicas, tão antigas, ou pelo menos pensávamos que sim. A tentação de confrontar esse conhecimento com o que tínhamos, e adquirir outros, era grande. Na realidade, as Lojas tinham poucos, muito poucos, e a sua pobreza intelectual e esotérica era decepcionante. Era necessário alimentá-las, dar-lhes uma razão para ser qualquer outra coisa, que não sociedades “vazias”.

A lenda de Hiram chega justamente num momento que se formava o conteúdo doutrinal da Maçonaria especulativa nascente. Vimos antes que não se sabe a sua origem e que ela apareceu em algum lugar na Inglaterra ou na Irlanda. Ela é implantada gradualmente, surgindo em 1738, na segunda edição das Constituições de Anderson, embora tenha tido de esperar até 1760 para ser admitida de forma permanente, pelo menos na Grã-Bretanha, porque em França o processo de integração foi mais rápido. Ela gerará toda a série de Altos Graus que envolverão totalmente o mundo maçónico. Era óbvio que o assassinato de Hiram não podia ficar impune. Assim nasceram os graus de vingança e as cenas grandiloquentes que deram lugar às recepções que se seguiram, tornando-se necessário, para lhes dar um tempero, a introdução dos graus cavalheirescos. Ele – o assassinato de Hiram – é incorporado ao grau de mestre surgido antes dele por desdobramento do de companheiro, e sem que ninguém saiba porquê ou como, foi completamente absorvido.

De destacar a incrível popularidade dos Altos Graus e, especialmente, a dramatização das admissões e, decorrente delas, uma necessária estruturação da liturgia apropriada à recepção de aprendiz, para a qual se trouxeram elementos de todos os tipos, o que se estende de 1740 a 1850.

Nenhuma doutrina propriamente dita: nada da muito vaga filosofia Rosacruz, nem da mística judaica, introduzida furtivamente e aos poucos no rito bem cristão dos “Antigos” estabelecido na Irlanda por Laurence Dermott, e depois propagado por ele na Inglaterra antes de 1750, apesar da adopção em rituais de uma série de palavras hebraicas que ainda hoje representam problemas semânticos não resolvidos.

Somente símbolos…

Muitas vezes díspares, emprestados daqui e dali, aos quais foram atribuídos múltiplos significados, um tanto absurdos, incompatíveis com qualquer raciocínio lógico ou mesmo analógico. Alguns deles surgem tipicamente da magia cerimonial, como é caso do malhete do venerável – forma especial da varinha, sinal do poder e da soberania (lembremo-nos que as ferramentas não eram consideradas símbolos pelos maçons operativos) – das “insígnias” britânicas, aventais, cordões, jóias, ornamentos, como roupas e os pentáculos, das baterias, dos movimentos com o pé (agora extintos, mas mantidos no companheirismo) da cadeia de união, das circunvoluções de carácter cósmico, das repetições – verdadeiros “mantras” destinados a mexer com o inconsciente, do gestual – que se identifica com os “mudras” da Índia (o do grau de mestre é encontrado naquele país e figura nas esculturas da civilização pré-colombiana do México), etc., etc….

Queríamos reconstituir os primeiros cerimoniais de recepção de aprendizes, companheiros e mestres da Maçonaria especulativa. O manuscrito Graham (1726) e duas revelações, Exame do Maçon (1723) e Maçonaria Dissecada, de Prichard (1730) fornecem os elementos através de perguntas e respostas, corroborados pelo testemunho de John Coustos, em Dezembro de 1736, em Lisboa, durante seu julgamento no Tribunal da Inquisição. Aquilo que era relativamente simples no começo se complica singularmente no início de 1740 e a França não ficou de fora nas inovações que se seguiram.

Todos os textos insistem no facto de que o candidato requer a sua admissão de própria vontade e exige-se que forneça as razões do seu pedido. É necessariamente apadrinhado e a Grande Loja da Inglaterra torna isso obrigatório em 15 Dezembro de 1730. Na recepção, o padrinho colocava-o num quarto sem luz, completamente escuro, onde ficavam juntos por algum tempo sem que uma palavra fosse pronunciada. No final da sua estadia era-lhe perguntado por duas vezes se era de sua vontade ser recebido. A sua resposta afirmativa fazia com que fosse levado “… com os olhos vendados, despojado de metais, nem nu nem vestido, nem calçado nem descalço, mas de forma decente” diante da Câmara de recepção, em cuja porta ele dava três golpes que eram repetidos a partir de dentro. De seguida, era introduzido pelo padrinho, que o entregava “… pobre, sem dinheiro, cego e ignorante dos nossos segredos” e era recebido pelo aprendiz mais novo da Loja.

O “nem nu, nem vestido” não é encontrado em nenhuma parte dos documentos operativos, fazendo parte apenas dos “aceitos”. Parece que vem da tradição templária e provavelmente era usado para verificar o sexo do candidato. Não há explicação para o pé descalço, nem para o ombro, apesar da evidência de que o símbolo diz respeito aos metais, rejeitados por todas as mitologias e pela própria Bíblia, que os considerava nefastos, o que parece que foi ignorado pelo “Catéchisme” (1740), pelo “Secret” (1742) e pelo “l’Anti-Mason” (1748), etc. que diziam “… desprovido de todos os metais, porque quando nós enviamos os cedros do Líbano para o Templo (de Salomão) eles iam todos cortados, e não ouvimos nenhum golpe de martelo ou de outras ferramentas quando construímos aquele edifício”. É evidente que falta encontrar uma justificação. De acordo com William Preston, em “Illustration of Masonry” (1772), a iniciação afasta qualquer carácter maléfico dos metais ”… o metal (a moeda) não pode fazer a diferença entre os maçons, cuja ordem é baseada na paz, virtude e amizade”.

A câmara escura é a ancestral da Câmara de Reflexões. Ela era, e ainda é, totalmente desconhecida pela Maçonaria inglesa. Também permaneceu um certo tempo em França. Ninguém sabe onde e quando foi introduzida na recepção, mas mais provavelmente, terá sido entre 1765 e 1770. As Lojas utilizaram-na entre 1776 e 1780 e o Recueil Précieux de la Maçonnerie Adonhiramita, de 1783, escrito por Guillemain de Saint-Victor, dá uma descrição semelhante à dos rituais do Grande Oriente estabelecidos em 1786. Um quarto escuro com paredes escuras, iluminado por uma única vela, um banco, uma mesa sobre a qual há um crânio e todos os ingredientes – sal, enxofre, água, pão (o vitriol virá mais tarde). Nas paredes, os emblemas da morte e uma série de sentenças escritas em branco invocando a fragilidade da vida e a insignificância das coisas terrenas, além da ameaça caso o candidato não vivencie sua admissão com o coração puro. Há uma certa analogia entre este retiro de silêncio no “quarto escuro” e a reclusão do aspirante a cavaleiro nas vésperas do seu juramento. Ele também era convidado a escrever um testamento. Em 1786, um manuscrito do Grande Oriente acrescenta uma inovação: as questões ditas “de ordem”: o que um homem honesto deve a si mesmo? E aos seus semelhantes e à sua terra natal? Elas desapareceram em 1858 e reapareceram no final do século XIX.

O manuscrito Dumfries no 4 (1710) indica que o candidato entrava na Loja com “a corda no pescoço”. Para a pergunta que o seu mestre lhe fazia, respondia: “para me enforcar se eu trair meu juramento”. Esta é a primeira menção de tal símbolo vinda de uma “Loja” de aceitos. Apenas em 1760 foi retomado, e apenas na Inglaterra. Não aparece em qualquer das gravuras da série das “Réceptions“, de 1745, nem nas do ” Recueil précieux ” (edição de 1787), já citado, nem no quadro de Maler, de 1786, Réception dans une Loge de Vienne en Autriche, do acervo do Kuntshistoriches Museum de Viena, Áustria.

A recepção prosseguia com as viagens. De acordo com Prichard (1730) havia apenas uma, feita desde a entrada, no sentido dos ponteiros do relógio, e que terminava com três passos diante do Mestre da Loja para a realização do juramento. Em França, a “Réception d’un Frey-Maçon” informa três “em torno da área marcada no chão, onde estão desenhados a lápis um grande J e um grande B”, prenunciando o painel da Loja que seria estabelecido definitivamente entre 1740 e 1745. A sua decoração variava em função do grau, assim como a disposição dos símbolos (o esquadro e o compasso, em particular, encontraram o seu lugar definitivo durante o século XIX), igualmente de acordo com os autores. É por isso que para o aprendiz, temos “um painel da Loja de aprendiz, de seguida o verdadeiro painel …, depois o painel de verdade”, etc. cada qual superando o anterior. A intromissão hermética é muito clara, e a obra de Lenglet Dufresnoy, Histoire de la philosophie hermétique, em três grandes volumes publicados em 1742, desempenhou um papel considerável na criação e evolução do pensamento esotérico em gestação. Provavelmente deve-se-lhe a confirmação do carácter cósmico do que se viria a tornar o Templo Maçónico, com a presença do sol, da lua, da abóbada estrelada, da estrela flamejante, e a introdução de circunvalações de acordo com as formas desta última. Surpreende, por isso, que nenhum de entre os catecismos, tão prolixos nas suas explicações, fale sobre o sentido das viagens impostas ao candidato. Mas se não o faz, é porque sem dúvida este sentido não existia!

É apenas na década de 1780 que eles informam que a primeira viagem “… é feita em câmaras subterrâneas; a segunda, nas galerias superiores; a terceira, ao redor do templo”, mas não há qualquer explicação do porquê. E só em 1832 elas foram relacionadas às três fases da vida, através do Irmão Vassal, dignitário do Grande Oriente, interpretação que se manteve.

Foi também por volta de 1780 que os três elementos, água, ar e fogo, foram associados às viagens. O processo de dramatização vindo dos altos graus transforma-as de provas simbólicas e purificadoras em testes reais, imitando as antigas iniciações que o trabalho do abade Robin, já citado, popularizou. Isto foi feito sem ordem ou directrizes. Nada está estabilizado: as variações de um ritual para outro são inúmeras e as vagas explicações que acompanham as viagens revelam a indigência de um pensamento que se pretende iniciático, mas que ainda não está firmemente estabelecido. O sentido moral prevalece, e o objectivo buscado e admitido é intimidar o candidato, talvez para verificar a firmeza de seu carácter. Ainda que o breve contacto com as chamas da prova de fogo pudesse impressionar, a prova da água era inócua e a do ar não passava de uma ameaça. O manuscrito do ritual do Loja Mãe escocesa de Marselha explica-o assim:

“Senhor, você ainda tem (esta é a terceira viagem) que se submeter a uma prova, muito mais intensa e mais dolorosa que outras: é necessário que você viaje no ar. Você não tem medo de ser lançado na atmosfera aérea e não se dá conta das consequências fatais de uma queda a que você se expõe?”

“Tendo o Recipiendário dito que não, todos os irmãos pedem que seja poupado de uma viagem tão perigosa”.

Havia a marcação do selo com um ferro quente, claro que um simulacro. A prova de sangue com o qual ele tinha de assinar o seu juramento é tão assustadora para o candidato, aos olhos dos irmãos, que um destes, bem-intencionado e cheio de piedade gritava “graça” no momento da preparação, que era concedida. Esta mesma prova viria a se tornar a mistura de sangues, ainda praticada [18] hoje de uma forma simbólica. Havia o cálice da amargura cuja interpretação não traz nenhuma dificuldade. Veio da Alemanha, através do Rito Rectificado praticado em 1755. A prova da Terra, vivenciada na Câmara de Reflexões, só aparece como tal no decorrer do século XIX. Tudo isso, completamente ignorado anteriormente, surgiu de repente na década imediatamente anterior à Revolução Francesa e perpetua-se por trinta anos após a “retomada de 1794” [19]. O Grande Oriente tinha aprovado estas inovações e deu-lhes um sentido exclusivamente moral, incluindo-as no seu ritual de 1786 e depois no Régulateur Maçon de 1801, mas sem abrir mão da sua natureza intimidatória.

“A primeira viagem deve ser a mais difícil. Deve ser feita devagar, muito lentamente, com uma caminhada muito irregular que deverá tirar partido da disposição do local para torná-la difícil, por obstáculos e dificuldades criados com esmero, mas sem o uso de qualquer meio que possa ferir ou molestar o recipiendário. Faz-se com que caminhe a passos lentos, às vezes um pouco mais rápido. Faz-se, de tempos em tempos, com que se abaixe como se fosse entrar num subterrâneo, onde será levado a dar um passada larga como se fosse atravessar um fosso, e por último vai andar em ziguezague, de modo que não possa avaliar a natureza do terreno em que viaja. Durante esta viagem, lançar-se-á sobre ele granizo e trovões visando imprimir na sua alma uma sensação de medo”.

A explicação desta viagem: as vicissitudes da vida humana. Se até então a Maçonaria simbólica tinha escapado da dramatização exagerada dos altos graus escoceses, parece que o convite para encher de dificuldades a recepção ao grau de aprendiz teve como resultado a junção do grotesco à tragicomédia.

Uma enciclopédia do início do século XIX reproduziu o artigo Franc-Maçonnerie l’admission d’un candidat. Dizia que, durante a primeira viagem, o candidato “…é conduzido à beira de uma armadilha que lhe dizem ser um precipício, no qual é convidado a saltar. Caso se recuse, é empurrado e cai da altura de vinte pés sobre dez lâminas de papelão a dois pés de altura uma da outra, que se arrebentam em sucessão, fazendo um barulho terrível. Na parte de trás encontram-se os colchões que o receberão”.

A cena do perjúrio merece ser incluída na antologia das cerimónias escocesas de antes da Revolução:

“Uma mesa, no meio da qual fazemos um buraco redondo, é colocada num canto da Loja. É coberta com um manto que vai até o chão. Um irmão, geralmente o mais pálido, é colocado debaixo da mesa, ajoelha-se e coloca a cabeça pelo buraco que é tapado por um prato de estanho cujo fundo foi removido e a cabeça é envolta num pano tingido de tinta cor de sangue, produzindo a ilusão de uma decapitação”.

Segue a descrição da cena em que a venda do recipiendário é removida, com os comentários de costume e a conclusão do redactor “essa prova terrível causa grande impacto”. Grande parte dos factos descritos pode parecer suspeita, embora seja retirada de uma famosa enciclopédia. São estas descrições e outras da mesma ordem que permitiram a P. Méjanel, de modo realista, ilustrar as obras do famoso Léo Taxil contra a Maçonaria. E como não mencionar a história surpreendente que consta da monografia de uma Loja de Paris, activa ainda hoje, publicada em 1830 e disponível na Biblioteca Nacional, que diz que durante uma iniciação entre os anos 1806 e 1810, o candidato foi convidado a decapitar um cadáver real, trazido para o Templo com essa finalidade. Houve um escândalo …

Sem querer pôr em dúvida a realidade dos factos apresentados, seria imprudente generalizar estes poucos e raros episódios cuja execução, além de tudo, trazia problemas materiais difíceis de resolver. Jogo duvidoso, um pouco perverso, bem próprio de uma época em que os heróis eram comuns, ou simplesmente desejo de impressionar os espíritos para valorizar uma pseudo-iniciação de misticismo ambíguo, com a qual os actores se identificavam inconscientemente?

Mais reservado e fiel às instruções do Grande Oriente, a Loja Isis Montyon, do Oriente de Paris, especialista em iniciações extravagantes, inventou a “prancha de bolas” e introduziu-a com a balança, em 1810, nas recepções de aprendiz!

A prestação do juramento, tornada obrigatória no século anterior, era acompanhada de ameaças terríveis em caso de perjúrio. Elas eram obra dos especulativos, pois os operativos jamais as fizeram. Os manuscritos de 1696 a 1710 indicam que havia penalidades registradas na obrigação de aprendizes, mas não dão a sua natureza e se há “a corda no pescoço” citada no manuscrito Dumfries no 4 (1710), pois parece que ela era apenas um símbolo.

A língua e o coração arrancados, a cabeça decepada de Prichard (1730), e os funerais impostos entre a maré baixa e a maré alta, eram as penas infringidas nos séculos XVI e XVII por crime de traição e até apareciam no código penal britânico da época; a França, que as recebeu, preservou-as até perto de 1780. Não há exemplos de que tiveram de ser aplicadas.

Na Inglaterra, desde o início do século o juramento era prestado sobre a Bíblia. Entre 1727 e 1730, o candidato segurava um malhete na mão direita e uma espátula (trolha) na mão esquerda. Em França, faziam-no sobre a Bíblia, mais frequentemente sobre os Evangelhos ou o Evangelho de São João, jurando perante Deus, segundo o Recueil Précieux (1782). Em 1786, o Grande Oriente adiciona em seguida ao Grande Arquitecto, os termos “…sobre os Estatutos da Ordem e sobre esta espada, símbolo de honra”.

A cerimónia de juramento e consagração que se seguia sofreu muitas variações. Em atitude solene os assistentes ficavam todos de pé, de espada na mão. Dois oficiais conduziam o neófito, sempre com os olhos vendados, ante a mesa do Venerável (não diziam altar ou plano). Ele ficava em pé, com joelho direito apoiado numa almofada sobre a qual era colocado um esquadro. Com a mão esquerda, segurava um compasso aberto com as pontas sobre sobre o peito esquerdo, a mão direita apoiada no “Livro” e às vezes levantada para o céu. De seguida, repetia a fórmula que lhe era transmitida pelo Venerável.

(CONTINUA – Link para a Parte IV)

Autor: André Doré (1902-1985)

Secretário Administrativo do Grande Oriente de França. – Membro, depois membro honorário do Grand College of Rites (1979). – Historiador da Ordem Maçónica, dos Altos Graus e do Escocismo

Extr. de: Bulletin des Ateliers supérieurs du Grand Collège des Rites du Grand Orient de France, n ° 91 (Avril 1979), pp. 81-99 et n ° 92 (sept. 1979) pp. 121-146 Edition: Paris, 1979

Adaptado de tradução feita por S. K. Jerez

Notas:

  • [15] Pesquisas sobre as iniciações antigas e modernas (N.T.)
  • [16] O tonel entornado ou reflexões sobre a alegada descoberta da Ordem dos maçons (N.T.)
  • [17] A Instrução dos Grande Professos
  • [18] Não no REAA da GLESP (N.T.)
  • [19] Queda dos jacobinos? (N.T.)

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