Da maçonaria operativa ao Grand Orient de France (Parte IV)

(Continuação – Link para a parte anterior)

Ensaio sobre as origens dos rituais e dos graus simbólicos

Ao longo de todo o século XVIII, o juramento era prestado nos três graus. Era, por vezes, embora raramente, feito apoiando-se os dois joelhos sobre a almofada, às vezes variando: joelho esquerdo, aprendiz, joelho direito, companheiro, ambos os joelhos, mestre ou mesmo aprendiz; esta diversidade durou na Inglaterra até 1814. Às vezes as mãos do recipiendário eram colocadas sobre o “Livro” enquanto o Venerável mantinha um compasso sobre seu peito.

A cena de perjúrio foi uma invenção do século XIX. Não parece ter sido praticado em todo o século XVIII, e a renovação do juramento era feita após a queda da venda (Régulateur Mason, 1801). Isto acontecia depois de o candidato ser reconduzido ao Ocidente. A seu pedido, e ao golpe do malhete, era-lhe dada a luz. O momento podia ser impressionante. Alguns irmãos “portando tochas com mechas embebidas em álcool de vinho, no corpo das quais havia sido colocado pó de licopódio. Ao serem agitadas, o pó se espalhava, inflamando o álcool que queimava e produzindo uma chama muito alta de luz muito brilhante”. O neófito, então, dava-se conta de que todos os maçons ali reunidos estavam a apontar as suas espadas contra ele. Depois de uma pausa, o Venerável tranquilizava o novo aprendiz, dizendo que essa atitude deles doravante lhe garantiria ajuda em caso de necessidade.

Os demais regressavam às suas colunas, e de pé e com a espada na mão, o Mestre da Loja procedia à consagração. Esta era feita, de acordo com a época, o lugar e a Loja, pelo malhete, depois pela espada, pelo malhete e a espada e, às vezes, pelo malhete e pelo compasso. Uma vez o neófito em pé, ou em pé com um joelho sobre a almofada e o esquadro que tinha sido usado para a Obrigação, o Venerável o constituía aprendiz maçon, “para a glória do Grande Arquitecto do Universo”, de acordo com uma fórmula um pouco semelhante à usada hoje, confirmando de seguida a sua admissão na Ordem ao aplicar-lhe na cabeça pequenos golpes de malho ou espada por três ou três vezes três vezes. Após um abraço, eram-lhe entregues o avental e as luvas. Naquela época e ao longo do século XVIII, a abeta do avental de aprendiz ficava para dentro, invisível. A dos companheiros, às vezes adornadas com os utensílios, ficavam levantadas e abotoadas a fim de se manterem assim, e as dos mestres, abaixadas. Até o colar do mestre fazer a sua entrada em loja nos anos 1775, só a posição da abeta permitia identificar o grau de um irmão. Na Idade Média, o uso de luvas estava associado a cerimónias religiosas e militares.

Entre os operativos, o empregador oferecia um par ao “aprendiz registrado” no momento da sua recepção, sem que haja qualquer explicação sobre isso. O The Maçon’s examination, de 1723, indica que o recém-admitido recebia dois pares de luvas brancas, um “para ele e um para uma mulher”, sem mais comentários. Prichard (1730), nada menciona a respeito. Mas Hérault, na Réception d’un frey-maçon (1737) acrescenta “…o segundo par é para a mulher que ele mais considera”. Em 1760, ao entregá-las, o Venerável dizia: “Um pedreiro jamais deve mergulhar as suas mãos na iniquidade” e, em 1786, orientava “as luvas, por sua brancura, vos lembra da candura que sempre deve reinar na alma de um homem honesto, e da pureza de nossas acções”. Quanto à mulher “…nós rendemos homenagem às suas virtudes”. E Goethe mostrava que o grande valor deste presente residia no facto de “…que um pedreiro poderia fazê-lo apenas uma vez em toda a sua vida”. Tendo o costume se tornado tradição, a oferta de luvas continua até hoje.

Em seguida, vinha o convite para o reconhecimento do novo aprendiz, a comunicação dos sinais, da postura, da marcha, das palavras. A primeira era manifestada pela bateria e pela aclamação vivat, vivat, et semper vivat, substituída em meados do século por Huzzé nas lojas escocesas. Na Inglaterra, os trabalhos eram interrompidos, fazia-se um brinde no local, ao novo irmão, e retomavam-se os trabalhos. Em França, instituiu-se um costume de fazer com que o(s) recém-chegado(s) oferecesse(m) um banquete após a recepção; os abusos foram tantos que acabaram por desistir desta prática.

A origem dos sinais maçónicos permanece misteriosa e a sua introdução na maçonaria especulativa é desconhecida. O reconhecimento dos maçons operativos residia na “palavra do maçon” e nada indica que houvesse um gesto que a acompanhasse. É quase impossível considerar o “sinal de ordem”, conhecido aqui e ali na estatuária medieval, como sendo a indicação da existência de tradição “maçónica” entre os talhadores de pedra. Ou então, deveria ter-se em conta a descrição precisa dada por Philo de Alexandria em “A Vida Contemplativa” e Flávio Josefo no seu “Antiguidades Judaicas“, no primeiro século de nossa era. Não podemos sequer considerá-la, a exemplo do sinal de sofrimento do Mestre, quase universal, como um tipo de arquétipo da espécie humana.

Os passos e a marcha são relatados em textos antigos de 1724, 1725, 1729 e 1730, mas sem a sua descrição. Em 1737, o registro do julgamento de Coustos, em Lisboa, indica que se entra na loja com três passos, não descritos. Só em 1745, em França e na Alemanha, é que, ao ficar em pé, é dito que os pés deveriam estar unidos calcanhar contra calcanhar e que cada passo era feito em esquadro, e o “Sceau Rompu” [21], que traz esses detalhes, acrescenta que a marcha do Mestre consistia de três passos em ziguezague. O “L’Anti-Maçon” (1748) mostra, num diagrama, três passos para cada uma das marchas, pés em esquadro, mas claramente separados, numa linha recta para o aprendiz, em ziguezague para os dois outros graus, com a diferença de que, na marcha de Mestre, durante o 2º e 3º passos um dos pés não encostava no chão, um ponto a que voltaremos ao falar na recepção de mestre. Na verdade, não havia uma regra fixa e a confusão vai durar até depois de 1800. Em 1760, o “The Three Distinct Knocks“, expondo a prática dos “Antigos”, indicava um passo para os aprendizes, dois para os companheiros e três para os mestres, sem especificar como eles deveriam fazê-lo. Confirmava, assim, o protesto de Laurence Dermott, que em “Ahimon Rezon” se mostrava indignado com o facto de que os modernos teriam mudado a marcha, o que a tomar-se como verdade o “Jakin and Boaz“, de 1762, que, sempre em nome dos “Antigos”, definia, em ordem crescente de grau, 1, 2 e 2 passos. Além disso, nos anos que se seguiram tivemos 1 + 2 + 3 ou 3, 5 e 8 ou 12 + 3, etc. etc. Nunca houve qualquer explicação sobre um possível sentido da marcha dos maçons …

Vimos a origem de “palavras”, descendentes ilegítimas do misterioso “Mason’s Word” dos operativos, tiradas da Bíblia presumivelmente na primeira década do século XVIII. As atribuídas aos três graus simbólicos não sofreram as vicissitudes dos outros componentes da Ordem Maçónica. A inversão das colunas e, portanto, dos vocábulos que as designam, tornada necessária por razões de segurança, foi apenas um episódio menor, e certamente não valem o barulho feito a respeito pelos “Escoceses”. No máximo, podemos dizer que algumas Lojas inglesas escolheram a palavra “mahabone” para o terceiro grau ao invés do termo que usamos actualmente. E é preciso lembrar que o Grande Oriente criou a palavra semestral em 23 de Outubro de 1773.

Quando é que os aprendizes maçons passaram a ter três anos e porquê?

Todos os catecismos até 1750 dizem “menos de sete anos” assim como os companheiros também menos de sete anos, porque entre os operativos era o tempo que se levava para passar de aprendiz a companheiro-obreiro, ou companheiro-mestre, tendo este último, consequentemente, “sete anos e mais”. Um documento de 24 de Junho de 1765 fez uso de uma fórmula usada repetidamente até hoje, “P:.L:.N:.N:.Q:.S::C:.” [22] para os números que nos são conhecidos. De essência pitagórica, vinda, por meio do forte hermetismo em voga naquela época, mascarava, sob um aspecto misterioso que lhe conferia importância, uma ignorância que parece não ter desaparecido.

Costumava-se acolher o novo irmão com algumas breves palavras de boas-vindas, com o que se encerrava a recepção. Ela era seguida pelo banquete já mencionado, chamado “Loja de Mesa”, que merece um estudo especial profundo.

Até 1730 havia praticamente só dois graus, e a recepção do segundo consistia de uma obrigação, da comunicação de um sinal não descrito, de uma palavra até hoje secreta e dos cinco pontos do companheiro. Documentos anteriores a 1727, como o Manuscrito Edinburgh Register House, de 1696, o Manuscrito Trinity College de Dublin, de 1711, o The Mason’s examination, de 1723 e o Manuscrito Graham, de 1726, explicam muito bem o cerimonial de passagem do grau de aprendiz para o de companheiro, assim como aqueles publicados até 1750, depois de Prichard (1730), sobre a contribuição simbólica ocorrida a partir dessa data. Além do próprio episódio do assassinato de Hiram, é facto que o terceiro grau foi estabelecido por sucessivas divisões dos dois primeiros, apropriando-se, em particular, dos principais elementos do grau de companheiro. Alguns deles voltaram mais tarde para a sua fonte original.

O aspirante a companheiro tinha de ser instruído nos “Mistérios” da Maçonaria. Assim, ele era interrogado, por um lado, sobre as circunstâncias da sua admissão, sobre o cerimonial usado e o porquê dele, e, também, sobre aquilo que tinha aprendido.

As perguntas e respostas eram breves. Na verdade, recitavam “de memória” o catecismo sem pararem para pensar, num rigoroso exercício de memorização. Há os 90 pontos de Prichard relativos à orientação, à aparência e ao mobiliário da Loja, ao papel de seus oficiais, ao “segredo”, à linguagem corporal. Este texto revelador é precioso e podemos aprender com ele, guardando dele somente isto: “Que o fundamento desta Câmara sejam três colunas ou pilares, força, sabedoria e beleza”, que o tecto “seja um céu de nuvens embelezado por cores de todos os tipos”, que o pavimento “seja decorado com obras de mosaico”, “que no centro haja um cometa (a estrela flamejante)” e que “ao redor da Câmara haja um forro com um brocado de ouro que constitua a cerca ao seu redor”. Todos estes elementos, além de alguns utensílios, foram incluídos no painel da Loja. Além disso, dizia “que o ponto Je, ou ponto central, impeça qualquer erro do mestre ao fazer a circunferência, a linha um comprimento sem largura, a superfície um comprimento com uma largura e que um corpo compacto (volume) envolva tudo”.

Há também enigmas. Assim, o mestre está “vestido com uma jaqueta amarela e calças azuis” (empunha um compasso, que na época era o seu atributo), e os segredos estão escondidos “no peito esquerdo (do maçon), a ‘chave’ que permite o acesso está fechada numa ‘caixa de osso osso‘” [23], a qual “se abre e que não se fecha a não ser com uma chave de marfim” pendurada e amarrada “a uma correia de seis polegadas”. [24] Solução do enigma: a boca, o palato e os dentes, e se o idioma é a chave de marfim (?) o que se chama de “guardiã do palavreado” são as palavras.

Um aprendiz não pode passar a companheiro sem ter “servido a seu mestre”, o que ele faz “com cal, carvão vegetal e uma pá”, significando respectivamente “liberdade, seriedade e zelo” (tradução da edição de 1743) ou “com giz, carvão vegetal e o recipiente de preparar argamassa” ou “Liberdade, fervor e zelo” (1788). Esta interpretação livre dos símbolos, expressão de um humor muito britânico neste caso, não haveria de satisfazer tanto o abade Perau, cujo aprendiz em “Trahi“, de 1742, tinha trabalhado com “cal, pá e tijolo”, ou seja,” liberdade, confiança e zelo “, porque ele pensava adicionar, numa nota: “É preciso que o maçon sinta a precisão destes emblemas”. No entanto, a acreditar-se no prefácio do livro de um de seus concorrentes na literatura maçónica, ele tinha sido “iniciado” de autoridade, e para aquela ocasião o termo “iniciado” é adequado, porque tinha-se feito introduzir indevidamente numa loja e, descoberto, tinha sido antecipadamente “colocado sob uma goteira ou (sob uma bica de calha durante uma chuva forte) para que a água o penetre da cabeça aos pés e encharque os seus sapatos” punição reservada para curiosos e formulada nos catecismos.

Se bem que “nem nu, nem vestido,” sem a venda e a corda no pescoço, ainda estejam em vigor no Rito de Emulação, nem os textos nem a iconografia existente sugerem que tenha sido assim durante a maior parte do século XVIII. Deve ter sido um presente dos “Antigos” para os “Modernos” da segunda metade do século, confirmado na fusão de 1813. Em França, e bem depois, alguns poucos rituais escoceses adoptaram-no. O aspirante tinha provado que tinha sido instruído nos mistérios maçónicos, aprendido que se tornara companheiro “por causa da letra G” ou “pelo amor da letra G”, e reiterava, da mesma forma que antes, o juramento proferido na sua admissão ao grau de aprendiz.

Não parece que tenha havido qualquer viagem durante a recepção ao segundo grau, a menos que se identifique como tal os cinco passos praticados pelo Rito de Emulação, que os traz do século XVIII. As mencionadas pelos catecismos não têm a característica da marcha bem específica do aprendiz, e parece puramente simbólica.

  • Já viajou alguma vez? pergunta o Grão-Mestre (que se tornará o Venerável)
  • Fiz uma viagem no Oriente e no Ocidente. e, noutra versão “de Leste para o Oeste”.
  • Já alguma vez trabalhou?
  • Sim, para a construção do Templo.
  • Onde recebeu o seu salário?
  • Na Câmara do Meio.
  • Como pode entrar na Câmara do Meio?
  • Pelo pórtico. e, noutra versão “passando por uma antecâmara”.
  • O que você viu pelo caminho?
  • Dois grandes pilares …

E o candidato, de seguida, toma contacto com os dois pilares de Salomão cujos nomes ele tinha aprendido sem saber a que aplicá-los, e as suas dimensões, conforme a descrição dada pela Bíblia (Reis I. cap. 7).

  • Como chegou à Câmara do Meio?
  • Por uma escada oculta em caracol, ou “por uma escada oculta em espiral de lance duplo”.
  • Quantos degraus tem aquela escada?
  • Sete ou mais …“… porque sete ou mais compõem um colégio perfeito, ou fazem uma loja justa e perfeita”.

Sinal, palavra e toque são necessários para franquear a porta, muito alta, da câmara do meio, onde ele vê “algo parecido com a letra G”.

  • O que significa este G?
  • Geometria ou a ciência.

Ele tinha dito isso no início do catecismo. Mas esta questão não era pertinente nem poderia receber outra resposta. Prichard, ou os autores dos textos, talvez tomados de remorso ou pela inquietude de eliminar Deus, o que, numa época em que os poderes estavam sob a tutela das igrejas, era um perigo considerável, acrescentou um pouco mais tarde, como resposta à mesma pergunta:

– “O Grande Arquitecto da roda do mundo, ou aquele que foi enviado sobre o topo do Templo” (tradução, palavra por palavra, da edição de 1743);

ou “o Grande Organizador do Universo, que foi colocado no ponto mais alto do Templo” (tradução da edição de 1788).

Duas frases que merecem uma análise …

A letra G estava traçada no centro da câmara do meio. Em 1740, duas gravuras no “Dialogue between Simon and Philip” representam-na. Uma, fechada num contorno “de diamantes”; a outra, no meio de um sol radiante que não pode ser confundido com a Estrela Flamejante, que também pertencia à panóplia [25] do grau de aprendiz. As duas fizeram a sua primeira aparição, em 1726, num folheto que anunciava uma série de palestras sob o título de “The Antidiluvian Masonry“, criadas para dar o significado da letra G, da Estrela Flamejante etc., inovações introduzidas por Desaguliers e outros, também para se levantar contra a indignidade que constituía o facto de apagar o quadro de Loja com vassoura e balde ao final da reunião.

A aparente simplicidade do significado da letra G, geometria, Grande Arquitecto (God) faz esquecer que ela que é a terceira letra do alfabeto hebraico, o número 3 em si, o da trindade divina, e que está, portanto, ligada ao simbolismo Cabalista. Desde a sua origem ela é o único elemento estável do segundo grau e que ainda mantém os seus dois sentidos primitivos. A eles juntamos outros: um catecismo manuscrito anterior a 1750 define-a como: “glória, grandeza, geometria, a 5a ciência”, glória ao Grande Arquitecto, grandeza para o mestre da Loja, geometria para os irmãos. Contrariando isto, outro manuscrito que data da década de 1780 cita somente a geometria e elimina o Grande Arquitecto. Um acidente, sem dúvida, porque o ritual do Grande Oriente, de 1786, reimpresso no Régulateur Maçon, em 1801, depois no Régulateur Symbolique, de 1839, diz que “ela é o monograma de um dos nomes do Altíssimo, fonte de toda luz e de toda ciência”.

Quando foi a Estrela Flamejante associada com a letra G?

Há uma menção em 1726 e uma segunda que a inclui na mobília da Loja de aprendiz, em 1730, bem como uma terceira no “Dialogue between Simon and Philip“, em 1740, que atribuem a sua paternidade a Desaguliers e aos seus amigos – o que deve ser verdade – e sem qualquer significado especial. Ela parece ter seguido o caminho da abóbada estrelada, surgida em 1711. Mas os Reis Magos ficaram muito tempo vagando na estrada, como diz o “Trahi“, edição de 1767. Em ambos os painéis, de aprendiz e companheiro, mostrados no primeiro “tal como foi publicado em Paris, mas impreciso”, aparece a letra G na estrela que arde, e, no segundo, “o verdadeiro plano de recepção”, a estrela sempre flamejante sobre uma esfera ao pé da qual está a letra G. No “Les Francs-Maçons Écrasés“, de Larudan (1778), nos painéis de aprendiz e companheiro, a estrela arde, sem a letra, aparece sem chamas no painel do Mestre, e o G não aparece em nenhum dos três. “A estrela misteriosa” – ela permaneceu assim – tinha adquirido notoriedade durante o período de separação dos dois graus, companheiro e mestre, e da estabilização de seus respectivos rituais, por volta de 1760. Ela foi confirmada desde o momento em que a tradição hebraica entrou na maçonaria e introduziu o iod no seu centro, o que a tornou divina. O Grande Oriente consagra-a definitivamente entre 1773 e 1786, quando estabeleceu o chamado rito “francês”.

Durante a comunicação ao novo companheiro dos sinais e toques, devemos prestar uma atenção especial aos “5 pontos do maçon” que passaram a ser chamados depois de 5 pontos do Mestre. Em 1730, Prichard incorpora-os neste grau.

  • Como Hiram foi elevado?
  • Como todos os maçons quando recebem a palavra de mestre.
  • Como assim?
  • Pelos 5 pontos da confraria.
  • Quais são eles?
  • Mão contra mão, pé contra pé, bochecha contra bochecha, joelho contra joelho, e mão no dorso.

Note-se que não são os gestos feitos para levantar o corpo de Hiram que criam os 5 pontos, mas que são eles, os da “confraria”, que lhes dão essa finalidade, já que parece que eles existiam antes do assassinato do Mestre. Isto é comprovado por seis textos entre 1696 e 1727, isto é, muito antes do episódio de Hiram se tornar parte da maçonaria especulativa.

A primeira descrição do sinal data de 1696, no Manuscrito “Edinburgh Register House” aquando da recepção do segundo grau, nos dias em que havia apenas dois. Perguntado sobre quantos pontos tem o Maçon, o recipiendário respondia:

“5, quais sejam, pé contra pé, joelho contra joelho, coração contra coração, mão contra mão, orelha contra a orelha”.

Existem variações, tanto na forma como eram praticados – Manuscrito Sloane 3329 (de cerca de 1700), Manuscrito Trinity College de Dublin (1711), “Mason’s Examination” (1723) (onde havia seis pontos: pé, joelho, mão, orelha, língua, coração), “The grand Mystery open” (1726) (pé, joelho, peito, a mão apoiando as costas, testa, bochecha) – como na ordem em que eles ocorrem. O “The Mason’s confession”, refere-se a uma Loja na Escócia, em 1727, que começa com “mão contra mão”, e o manuscrito Graham (1726) traz (pé, joelho, peito, bochecha, mão).

Nenhum documento, manuscrito ou impresso, fornece qualquer explicação, nem sobre a origem nem sobre o significado a ser dado a este gesto, que para dizer o mínimo, é incomum. Em 1760, o “The Three Distinct Knocks” trará o significado do primeiro ponto, o que não resolverá o problema puramente simbólico e moral de cada um dos pontos. O mundo operativo desconhecia-os: materialmente, não podia ser um sinal de reconhecimento e nas Lojas não havia esoterismo. Agora são os “aceitos”, que, no final do século XVII e início do XVIII, relatam os pontos do maçon e é possível que a sua presença seja anterior a 1696. Porque, na sua maior parte, os “aceitos” eram pessoas educadas, muitas vezes eruditas, que tinham a Bíblia como a base da sua cultura.

Relatamos aqui dois casos de ressurreições ocorridas através de um contacto muito próximo entre os mortos e os vivos que estavam unidos contra eles afim de trazê-los de volta à vida. Dois profetas do século IX a.c. ressuscitaram pessoas assim. Um foi Elias, que ressuscitou uma viúva que o acolhera com fome; outro, foi Eliseu, seu sucessor que era filho de uma mulher de Sunam. A história do milagre é explícita. (Livro IV Reis, 34 e 35). “Ele subiu na cama, pegou a criança e colocou a sua boca sobre a boca dela, os olhos sobre os olhos dela e as suas mãos sobre as mãos dela. E deitou-se sobre ela e a carne da criança se aqueceu. E ele tornou a subir na cama e se deitou sobre a criança e a criança bocejou sete vezes e abriu os olhos”.

As razões para a incorporação, numa recepção maçónica, de processos “mágicos”, poderão fazer com que um evento tão miraculoso permaneça obscuro e até mesmo misterioso. Pelo menos 35 anos antes da lenda de Hiram surgir, eles fornecem uma justificativa plausível para o cenário do desenrolar do funeral dos seus heróis. O estado de decomposição do corpo, descoberto vários dias após o assassinato, certamente não contribui para uma manobra “pé contra pé, peito contra peito, bochecha contra bochecha”, que tenha em vista levantá-lo. Mas, se esta operação tinha a intenção de trazer o mestre de obras de volta à vida, e, assim, recuperar o segredo que ele tinha levado para a sepultura, os “cinco pontos do maçon”, recuperam um sentido e uma lógica que se fazia muito necessária. É pouco provável que o companheiro, e depois o mestre que os herdou, estivessem cientes de seu conteúdo. É o destino dos símbolos atravessar os séculos ignorados, alvos da incompreensão, incoerência e, então, um dia, ressurgir do esquecimento e encontrar a sua luz.

(CONTINUA – Link para a Parte V)

Autor: André Doré (1902-1985)

Secretário Administrativo do Grande Oriente de França. – Membro, depois membro honorário do Grand College of Rites (1979). – Historiador da Ordem Maçónica, dos Altos Graus e do Escocismo

Extr. de: Bulletin des Ateliers supérieurs du Grand Collège des Rites du Grand Orient de France, n ° 91 (Avril 1979), pp. 81-99 et n ° 92 (sept. 1979) pp. 121-146 Edition: Paris, 1979

Adaptado de tradução feita por S. K. Jerez

Notas:

  • [21] – Selo Rompido (N.T.)
  • [22] – Talvez o equivalente a N.V.P.D.S.S., mas noutra situação? (N.T.)
  • [23] – O texto original diz “boette d’or” mas o livro de Prichard diz, em inglês “Bone Bone box” (N.T.).
  • [24] – Prichard diz Cabo de reboque de 9 polegadas ou um palmo(N.T.).
  • [25] – Segundo o Houaiss, na Idade Média, armadura completa de cavaleiro europeu (N.T.).

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