Da maçonaria operativa ao Grand Orient de France (Parte V)

(Continuação – Link para a parte anterior)

Ensaio sobre as origens dos rituais e dos graus simbólicos

Não há detalhes sobre a entrada do número 5 no grau de companheiro. A resposta é difícil. Os documentos manuscritos da ritualística não são datados e são bastante raros até os anos 1770. As revelações impressas de Prichard, Perau, Larudan, aos quais se juntam os ingleses, são publicadas a partir de 1760. O “cinco” não aparece em parte alguma antes de 1750. A estrela com cinco pontas, comprometida devido ao seu nascimento ilegítimo, não desempenhou nenhum papel até que a contribuição do hermetismo, das doutrinas conjuntas dos pitagóricos e cabalistas lhe permitiram fazer carreira. Aparecia na idade, nas viagens, nos passos e nos degraus do altar, embora para o Régulateur du Maçon as menções a ela fossem sete. Tudo praticamente foi estabilizado em 1786, com o ritual do Grande Oriente. As ferramentas que acompanhavam as viagens migraram de um para o outro por opção das Lojas, mas os comentários que suscitavam, onde a moral teria um lugar de destaque, não ficaram sem valor.

Um ritual da Loja Mãe Escocesa de Marselha, posterior a 1770, fez executar as cinco viagens sem ferramentas ou explicações, mas colocou os companheiros dispostos em cadeia, cada um com a mão direita sobre o ombro esquerdo do anterior e fez com que batessem na pedra cúbica um após o outro. A cada uma das batidas, havia uma parada diante da estrela flamejante e comentários. Na Inglaterra, ciências e artes liberais fazem uma tímida aparição nos catecismos de aprendiz do “Three Distinct Knocks” (1760) e do “Jakin and Boaz” (1762), e, em seguida, são passados para o segundo grau, em 1769. Em 1775, William Preston, em “Illustration of Masonry“, acrescenta muitas explicações. A França vai recebê-las apenas no início do século XIX, assim como os sentidos que terão lugar importante durante as viagens, incorporando-os.

Embora se saiba de fonte segura que o primeiro grau da Maçonaria Operativa apareceu no início do século X, e o segundo, nos primeiros anos do século XVI, não podemos definir com precisão quando nasceu o Grau de Mestre. A primeira menção a ele remonta a 12 de Maio de 1725. Naquela data, uma sociedade para maçónica, a Philo Musicae Architecturæ Societas Apollini, elevava vários maçons ao terceiro grau. Ela tinha sido criada em Fevereiro de 1725, por oito irmãos amantes da música e da arquitectura. Os seus regulamentos obrigavam todos os membros a serem maçons, o que levava os profanos que eram admitidos a serem recebidos na Maçonaria no momento da sua entrada na Sociedade. Este procedimento irregular levou a um protesto, da Grande Loja da Inglaterra, que não foi considerado. A Philo Musicae desapareceu em 1727.

A segunda menção de uma elevação ao terceiro grau aconteceu em 25 Março de 1726, na Loja “Dumbarton Kilwining no 18”, da Escócia, fundada em 29 de Janeiro daquele ano, seguida, em 27 Dezembro de 1728, pela Loja “Greenock Kilwining no 12”, que, naquela ocasião, introduziu a cobrança de taxas para a elevação nos dois graus. O sistema de três graus se propagou lentamente: a Loja “Antiquity no 2”, criada em 1717, o adoptou em Abril de 1737, e a Loja “Dundee no 18”, fundado em 1728, apenas em 1748.

Talvez existissem na Escócia no final do século XVII e na Inglaterra nos primeiros anos do século XVIII, a julgar pelo que sugerem, de um lado, o Manuscrito Sloane 3329, e de outro, a Philo Musicae… – cujos fundadores pertenciam à Loja no 14 que se reunia na Head Tavern, situada na Great Queen’s Street – que, pelo menos em 1724, fazia uso desta prática. O manuscrito Trinity College Dublin, de 1711, comprova que ele era conhecido, se é que já não estava em vigor na Irlanda naquele ano, e seu catecismo trazia “os segredos próprios de cada grau”. O “The Mason’s examination”, de 1723, faz uma breve alusão ao aprendiz, ao companheiro e ao mestre. O ponto a destacar desta inovação, e que é de importância fundamental, é que em nenhum lugar aparece a lenda de Hiram.

A primeira versão conhecida dela surgiu em 1730, por meio de Prichard, no seu “A Maçonaria Dissecada” e somente no catecismo, através de perguntas e respostas. A segunda foi publicada em França, em 1740, sob a assinatura de Leonardo Gabanon, pseudónimo de Louis Travenol, num livro intitulado Le Catéchisme des Francs-Maçons, precedido por um resumo da história de “Adoniram, arquitecto do Templo de Salomão”, várias vezes reproduzido. Ele acrescentava, sob a forma de narrativa, muitos detalhes não incluídos no questionário de Prichard. Então, em 1742, surgiu “L’Ordre des Francs-Maçons trahi”, do abade Perau, que desavergonhadamente “pirateia” o seu antecessor e, como seria de se esperar, não poderia fazer nada muito melhor a não ser embelezar a história com alguns incidentes muito importantes, procedimento este que se perpetua nas sucessivas edições e que enfureceu os “escoceses”, nascidos naquele tempo. Assim, a partir de 1745, estabelece-se, ilustrada pela iconografia, a dramatização de um catecismo que se tornou ritual através da adopção de um cenário que revive o assassinato lendário do arquitecto do Templo de Salomão.

Mais conservadora, a Inglaterra ficou próxima de Prichard em termos de sobriedade. Ficou surpresa com a audácia e independência da maçonaria francesa, tanto que a segunda edição das Constituições de Anderson, em 1738, deu apenas uma importância relativa à lenda de Hiram. Os ingleses só a adoptaram definitivamente por volta de 1760. Naquele mesmo ano, uma enésima revelação do “The Three Distinct Knocks” acrescentava novos elementos ao desenrolar das cerimónias e, com isso, aprendemos finalmente os nomes dos três assassinos do mestre arquitecto, numa investigação que durou 30 anos!

A origem da lenda é misteriosa. Onde? Quando? Como? Um manuscrito, o Graham (1726), esclarece ligeiramente a sua aparição através de uma história aparentemente bíblica, mas para a qual não há correspondência no Antigo Testamento.

Os três filhos de Noé, convencidos de que o seu pai ao morrer, tinha levado com ele um segredo de grande importância, partiram em busca do seu túmulo, na esperança de encontrá-lo nas imediações. Combinaram que, caso não conseguissem, a primeira coisa que encontrassem seria “para eles, como um segredo” recebido do próprio Deus. A inconsistência de uma proposta para substituir um segredo de natureza desconhecida por algo não relacionado com ele, não parece ter abalado o espírito de nossos três personagens. Entretanto, uma vez o túmulo aberto e encontrado o cadáver decomposto, eles pegam um dedo, que desliza, depois o punho e o cotovelo, e levantam o corpo “pelos cinco pontos dos maçons”. Um deles disse: “ainda há medula neste osso” (marrow in this bone), o segundo retrucou, “mas é um osso seco”, e o terceiro diz “ele cheira (fede)”. Com isso, decidiram dar o nome que é conhecido até hoje na Maçonaria”, ou seja, “marrow in the bone”. Foi a primeira vez que se revelou uma palavra de mestre.

Ela sofreu algumas alterações e tornou-se “magboe ad Boe” em “The Whole Institutions of free maçons opened as also their words and signs“, impresso por William Wilmot (1725), que declara explicitamente ser seu significado “a medula no osso, assim o nosso segredo é guardado”. Ele aparece como “marrow bone” no manuscrito Sloan 3329 e no manuscrito Trinity College Dublin(1711). Sendo assim, cinco anos antes da revelação de Prichard – e talvez ainda mais cedo – o grau de mestre em gestação oferecia a narrativa de um segredo perdido que se tentava trazer do além morte, por uma operação de comprovado carácter mágico, cujo significado e propósito escapava aos seus autores. Não parece que fosse anterior a 1700, embora os cinco pontos do maçon surgidos mais para o final do século XVII deixem supor uma tentativa de inovação nessa direcção. A lenda de “Noé” teve algum impacto, porque Anderson, que a ignorara em 1723, a recupera em 1738 ao fazer dos maçons, tornados “filhos de Noé”, “verdadeiros noaquitas, o seu primeiro nome de acordo com as velhas tradições”. Por volta de 1744, o grau do Real Arco inglês toma emprestado vários de seus elementos.

Como e por quem se efectua a passagem da lenda incompleta de Noé – incompleta porque lá não há assassinato – para a do Hiram assassinado por maus companheiros, aparecida na sua quase totalidade em 1730? É esta última novidade que atrai a forte reacção contra Prichard, tratado como impostor pela Grande Loja da Inglaterra, que na época só praticava os dois graus, aprendiz e companheiro, com um cerimonial bem simples? A sua lenta introdução na liturgia maçónica certamente não favorecerá o estabelecimento de um ritual mais vigoroso que vá além da simples recitação do catecismo de 1730, o que durará até cerca de 1760.

Em França, a recepção de mestre, descrita pela primeira vez por Leonard Gabanon no “Catéchisme des Francs-Maçons“, em 1740, e retomada pelo abade Perau em “Trahi“, de 1742, mostra que a história de “Adonhiram” foi encenada desde a sua chegada ao continente. O candidato a mestre era chamado a viver plenamente o drama do assassinato, que repetia em todos os detalhes. Sóbrio no começo, o cenário foi-se complicando em seguida em função de detalhes e explicações diferentes uns dos outros. Tudo se parece estabilizar pouco antes da Revolução [26], e assim foi no primeiro quarto do século XIX.

O recipiendário estava trajado como desejasse, mas sem espada, revestido do avental de Companheiro, com a abeta levantada e abotoada. Depois de bater três vezes na porta da Câmara de Recepção, entrava a convite do primeiro-vigilante, acompanhado por um aprendiz, companheiro e mestre que, neste caso, é chamado de Irmão Terrível. Apenas os mestres são admitidos. Na Câmara onde se dá a cerimónia é traçado o painel de mestre, que tem a forma de um caixão cercado por lágrimas, sobre o qual se coloca um ramo de acácia, e onde está escrito Jehova, que é a antiga palavra de mestre. Ao pé do Oriente há um compasso aberto (que na época era o símbolo do Mestre da Loja), a oeste um crânio e dois ossos cruzados, um esquadro e os quatro pontos cardeais. Ilumina-se este desenho com nove velas, três no Leste, três no Sul, e três no Oeste, e em torno se postam três irmãos, um no Setentrião, outro ao meio-dia e o terceiro no Oriente, que têm, cada um, um rolo de papel escondido sob as suas roupas. No “Trahi“, o crânio e os ossos ficam, respectivamente, numa extremidade do desenho, e são adicionadas as ferramentas, e à direita, uma montanha sobre a qual há um ramo de acácia. Em algumas gravuras a montanha é representada por uma pequena pilha de pedras localizadas num canto da Câmara, ao lado do Oriente. Um pouco mais tarde, o desenho do crânio é substituído por um crânio real iluminado por dentro por uma vela. Diante do Grande Mestre da loja, chamado Mui-Respeitável, há um pequeno altar, o Evangelho e um pequeno malhete. Os dois Vigilantes, chamados de Veneráveis, colocam-se voltados para o Ocidente, de frente para o Grande Mestre, nos dois cantos da Loja, e os outros oficiais, indiferentemente, em volta da Loja com os outros irmãos. Há apenas um que está à porta, dentro da Loja, com uma espada desembainhada em cada mão, uma com a ponta para cima e a outra, apontando para baixo, que ele segura com a mão esquerda para dá-la ao Primeiro Vigilante. Na hora da entrada do candidato é feito o sinal do mestre “… colocando a mão direita sobre a cabeça, com o dorso voltado para a testa, os quatro dedos estendidos e juntos, o polegar afastado, levando-a à boca do estômago”.

Pretende-se tornar impressionante a introdução do recipiendário na Câmara de recepção. O Primeiro Vigilante abre violentamente a porta, aponta-lhe a sua espada e ordena que segure a ponta e a mantenha sobre o seu peito direito. Segura-o com a mão esquerda e fá-lo realizar três vezes o percurso ao redor da Loja, saudando o Grande Mestre a cada passagem, saudação à qual se juntam todos os irmãos. Retornando ao Oriente, entre os dois Vigilantes, o candidato é convidado a se aproximar do Mui Respeitável pela marcha de mestre, que agora lhe é ensinada pelo Primeiro Vigilante. Ela começa com o duplo esquadro – ou seja, calcanhares unidos, pontas dos pés unidas às duas pernas do esquadro desenhado no chão, em seguida três grandes passos em triângulo, o primeiro à direita, o segundo à esquerda cruzando o caixão, e o terceiro à direita na extremidade deste, com os dois pés juntos de modo a formar a dupla esquadro-compasso. Esta marcha, cujo significado não tem qualquer explicação, é chamada de “do esquadro ao compasso”. A cada passo o candidato recebe um golpe sobre os ombros dado por cada um dos três irmãos que transportam os rolos de papel. Depois disso, ele renova os votos feitos anteriormente, o Grande Mestre dá três pequenas pancadas de malhete na sua testa e, imediatamente após o terceiro, “…os dois Vigilantes que o seguram jogam-no para trás, onde ele fica estendido sob a forma do caixão, enquanto outro irmão vem e coloca sobre seu rosto o que parece ser um pano manchado de sangue em vários lugares”. Os irmãos sacam das suas espadas, apontam-nas para o corpo do recipiendário (que não pode ver), mantendo esta atitude por um momento, após o que embainham as espadas. De seguida, vem a cena do levantamento minuciosamente descrita. O Grande Mestre se aproxima do recipiendário, toma-o pelo dedo indicador da mão direita, apertando com o polegar a primeira junta [27], e, fingindo fazer um esforço para levantá-lo e deixando-o escapar voluntariamente ao sentir os dedos se soltando, e diz… (editado)

“Então é-lhe tirado o pano de cima da cabeça, e conta-se de memória o que se fez em toda a cerimónia, instruindo-o nos principais mistérios e nas obrigações da mestria mediante as quais será reconhecido entre os maçons como um irmão que já passou por todos os graus da Maçonaria, e não tem nada a desejar além de aprender perfeitamente o catecismo a seguir”. (Catéchisme des Francs-Maçons, de 1740).

Como foi feita a transição do simples conto de Prichard para o cenário dramático da morte de Hiram, que termina com o seu sepultamento? E qual o sentido a ser dado a este último uma vez que nada vem depois dos funerais ordenados por Salomão? Esta história não poderia permanecer inacabada e então prosseguiu nos graus de vingança do Escocismo, embora tenha sido deixada em suspenso no grau de Mestre. Parece que ao longo da evolução da jovem Maçonaria Especulativa, não são estes os símbolos que aparecem como vectores de ideias, mas as ideias que buscam símbolos através dos quais se expressar. Este processo ao reverso do pensamento analógico, evidente no simbolismo das ferramentas, ocorre também para a lenda. Revela a necessidade inconsciente de lhe dar uma base mais sólida, mesmo carregada de mistério, que aquela de uma busca por um vago segredo perdido, como ilustram os trabalhos ocultistas e alquímicos.

Analisado do ponto de vista do nosso conhecimento actual, trata-se de um rito de morte e ressurreição no alvorecer da sua evolução, uma nova modalidade de um rito ancestral inerente a toda a espécie humana. Mas que, sem querer diminuir a inteligência de nossos antecessores, e apesar de, para alguns, ter uma abordagem semelhante à dos autores clássicos da antiguidade, seria capaz de introduzir tal interpretação nos emergentes rituais do que iria se tornar a Ordem Maçónica? Daí a pobreza, a inconsistência e a insegurança apresentadas pelas raras e breves explicações fornecidas pelos textos há mais de cem anos e que seria desnecessário levantar. Então mais uma vez, porquê esta encenação nas lojas?

O século era todo voltado para o teatro, um modo mais adequado de expressão, mais acessível e menos cansativo do que o livro. O tema “A coisa perdida”, no seu contexto dramático, se prestava bem para uma fábula teatral e a oportunidade era uma boa demais para que se deixasse de explorá-la, apimentando o que era, para o segredo dos maçons e o banquete que se seguia, um espectáculo. O conjunto tinha um certo charme. E é assim que se desenvolveram uma sucessão de cenários que gradualmente se transformaram em rituais.

Cerimoniais divulgados pelas revelações, revelações que criam cerimoniais ou interacção das duas coisas? Certamente ambas. Prichard deu a ideia geral do episódio de Hiram, Leonard Gabanon, o pano de fundo (1740), e o abade Perau completou a encenação do psicodrama em 1742. Gabriel Louis Calabre Perau, nascido em 1700, escritor prolífico, com quarenta livros até à sua morte, em 31 de Março de 1767, escreveu, entre outros, 13 volumes da Vie des hommes illustres de d’Auvigny, publica várias edições de Bossuet, em 20 volumes, etc. Isto significa que era especialista no assunto. Ele comprova-o, no “Trahi”, também publicado sob o título já usado por Gabanon, de “Le secret des Francs-Maçons”, que inunda o mundo maçónico entre 1742 a 1781. É claro que foi saqueado copiosamente com variações, traduzido para o inglês por J. Burd, em Fevereiro 1760, sob o título de “A master Key to the Free Masonry“, o que permitiu que o autor de “Three Distinct Knocks” lhe tomasse por empréstimo muitas coisas sem qualquer remorso.

A recepção de mestre de Perau traz duas importantes inovações. As três viagens subsistem (chegam, às vezes, a ser nove), mesmo que ainda se ignore porque são feitas. Durante a caminhada, ele descobre que um mestre está estendido sobre o caixão, o braço esquerdo ao longo do corpo, o direito dobrado sobre o peito, mão aberta sobre o coração, os dedos cerrados, o polegar em esquadro, e coberto pelo avental levado para este fim, com o rosto escondido por um pano manchado de sangue. Assiste ao levantar deste irmão pelo Grande Mestre, de acordo com os cinco pontos do maçon. O recipiendário, de seguida, começa a marcha na mesma forma apresentada no catecismo de 1740. Um ritual posterior (1780) singularmente esclarece o sentido do cruzamento do caixão. Quando o companheiro entra na Câmara da Recepção, arrancam de repente o seu avental, porque ele é suspeito de ser um dos assassinos de Hiram, do que ele se defende. É então convidado a passar sobre o corpo do mestre arquitecto a fim de provar que não é culpado. Estamos aqui na presença de uma provação durante a qual ele cairá morto caso esteja envolvido no crime. A cerimónia continua com a obrigação e, clérigo como é, o abade Perau destaca uma solenidade do juramento, cujo teor não tinha sido negligenciado. O candidato ajoelhado, com as mãos sobre a Bíblia, beija-a três vezes depois de repetir as punições que o ameaçam em caso de perjúrio. De seguida, sob três golpes de malhete do Grande Mestre, ele é projectado sobre o caixão, o seu avental é levantado sobre o peito e a cabeça é coberta com um pano ensanguentado. Cercado de espadas, é levantado. É interrogado sobre o papel das ferramentas fictícias representadas pelos rolos de papel que serviram para dar os golpes nos seus ombros durante a marcha “do esquadro ao compasso”, enquanto o assassinato dá lugar à obrigação pelo malhete do Venerável. Mas Prichard (3ª edição, de 1730), indica quais são as ferramentas utilizadas pelos assassinos, que são (traduzindo literalmente) um malhete de assentamento, uma ferramenta para assentamento, um maço para assentamento. Isto não impediu que um ritual (que não é o de “Perau”) trouxesse tijolos, pedra cúbica e malho. Uma edição bem posterior torna ambos os Vigilantes e o Venerável responsáveis ​​pelo assassinato, com um golpe na têmpora direita, um golpe na têmpora esquerda, de seguida, um golpe na testa dado por este último, que mais tarde pergunta “o que vocês fizeram?”. “Uma representação do nosso mestre Hiram, morto por ter se recusado a revelar os segredos da Maçonaria.

O levantamento é feito pelos cinco pontos do maçon após duas falhas com o indicador e o dedo médio, e a palavra do mestre, (editado), é dada em duas etapas: (editado) no ouvido direito e (editado) no ouvido esquerdo. Mas Perau mudou completamente o significado ao falar, pela primeira vez, na lenda de Hiram, sobre a decomposição do corpo: “A carne deixa os ossos”. Este aspecto não foi tomado da lenda de “Noé”. Prichard e Gabanon tinham feito puxar a ponta dos dedos sem indicar a causa e, segundo eles, Mac Benac significava “O Mestre foi atingido”, que Nicolas Bonneville, em 1788, na sua tradução de “A Maçonaria Dissecada” deu como “o construtor foi atingido”, significado que se mantém na Inglaterra. Outra inovação devida a Gabanon e retomada por Perau é o sinal feito com uma mão acima da cabeça e que é o prelúdio para o sinal de horror com ambas as mãos. E quanto ao sinal actual?

A escolha da acácia jamais teve o seu segredo elucidado. A sua colocação sobre o túmulo levantou duas explicações, uma para a marcação do local, o outro para decorar, uma preocupação curiosa por parte de assassinos. Ela era “musguenta” de modo visível e a verdura tornava-a decente. Sem dúvida, os autores da história cederam inconscientemente ao antigo costume de plantar flores ou arbustos em sepulturas, um resquício das crenças dos antigos de que a alma dos mortos se manifesta através deles.

O ritual de mestre sofreu algumas alterações durante as décadas que se seguiram às suas primeiras codificações, mas incluíam apenas pequenos detalhes que se desvaneceram com o tempo. Estabilizado na década de 1780, o seu profundo significado espalhou-se muito lentamente e, mesmo assim, só durante o século XIX. Contudo, a história de Hiram, lida quando da recepção, conheceu belos enredos criados por conta da imaginação dos escritores, e já falamos sobre a génese e evolução dos altos graus, corolários do assassinato do arquitecto de Salomão.

Decorre do exposto que a assim chamada tradição iniciática operativa é estritamente imaginária, e que neste caso e por consequência, uma filiação “operativos-especulativos” prova-se inexistente.

A ritualística maçónica não nasceu de uma eclosão do Céu. A sua criação é artificial, obra humana, e, como qualquer obra humana, se o seu parto ocorreu com alegria e esperança, foi hesitante, sujeito aos erros e às mudanças de todos os tipos, e foi penoso.

Há a “tradição maçónica”, de facto iniciática, mas não no sentido guenoniano [28] da palavra iniciação. Foi a nobreza dos nossos predecessores que levou, dia após dia, à constituição de “uma Ordem” retomando o que, nos diversos esoterismos – orientais, gregos, judaicos, cristãos – estava bem além da mediocridade quotidiana. E foi esta mesma nobreza que fez com que eles estabelecessem um princípio e, acima de tudo, assumissem o esforço de cumpri-lo.

E ela tem a verdadeira “Iniciação”, aquela “que coloca no caminho,” aquela que dá ao virtual iniciado o poder da reflexão, da vontade, da verdade e da esperança acumulados por dois séculos e meio por estes incontáveis e anónimos irmãos ​​animados por uma fé inabalável na humanidade e no seu futuro.

O reverso da medalha é a história e a sua verdade cruel.

O anverso da medalha, o homem na sua verdade eterna.

FINIS

Autor: André Doré (1902-1985)

Secretário Administrativo do Grande Oriente de França. – Membro, depois membro honorário do Grand College of Rites (1979) – Historiador da Ordem Maçónica, dos Altos Graus e do Escocismo

Description: Note: Extr. de: Bulletin des Ateliers supérieurs du Grand Collège des Rites du Grand Orient de France, n ° 91 (Avril 1979), pp. 81-99 et n ° 92 (sept. 1979) pp. 121-146
Edition: Paris, 1979

Tradução: S. K. Jerez

Notas:

  • [26] Revolução Francesa, ocorrida entre 1789 e1799 (N.T.)
  • [27] O texto original diz le pouce appuyé sur la première et grosse pointure. Não sei o que significa (N.T.)
  • [28] Referência à René Guénon (N.T)

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