Do Ultimatum ao 31 de Janeiro de 1891

O 11 de Janeiro de 1890 ficará sendo para ela (a pátria portuguesa) uma data memorável. Este dia valeu séculos[1].

Na época que ficou conhecida como a “corrida para África”, e que teve como ponto alto a Conferência de Berlim (1884 – 1885), as principais potências europeias procuraram garantir a exploração do maior território possível naquele continente. Portugal, pioneiro na descoberta da costa africana tinha, no entanto, apenas uma incipiente ocupação junto ao litoral na Guiné, em Angola e em Moçambique. Não obstante, o Governo de Barros Gomes (1889) elaborou um ambicioso projecto que ficou conhecido como o Mapa Cor-de-rosa, pelo qual se reivindicavam para Portugal todas as terras compreendidas entre Angola e Moçambique.

O problema é que, para além das dificuldades que enfrentaríamos ao procurar estabelecer uma ocupação efectiva do terreno, o Mapa Cor-de-rosa colidia com o ainda mais ambicioso projecto do africanista britânico Cecil Rhodes (1853 – 1902), que consistia em unir sob a Union Jack [2] toda a África Oriental, do Cabo ao Cairo.

Aquilo que foi entendido como uma provocação portuguesa teve resposta imediata: o Governo do Primeiro-Ministro Salisbury apresentou ao Embaixador português Luís de Soveral um Ultimatum ameaçando com a guerra caso Portugal não retirasse todas as tropas estacionadas no território em causa [3].

Eis o polémico texto que haveria de marcar a nossa História:

o que o Governo de Sua Majestade deseja e em que insiste é o seguinte: que se enviem ao Governador de Moçambique instruções telegráficas imediatas para que todas e quaisquer forças militares portuguesas, actualmente no Chire e nos países dos Macololos e Machonas, se retirem. O Governo de Sua Majestade entende que, sem isto, as seguranças dadas pelo Governo português são ilusórias.
.
Mr. Petre ver-se-á obrigado, à vista das suas instruções, a deixar imediatamente Lisboa com todos os membros da sua delegação, se uma resposta satisfatória à precedente intimação não for por ele recebida esta tarde; e o navio de Sua Majestade “Enchantress” está em Vigo esperando as suas ordens.

Legação Britânica, 11 de Janeiro de 1890” [4].

Em 1890, a comoção provocada por este infame ultimato ditou uma nova etapa na popularização do ideal da República. Para Basílio Teles, activista republicano, o Ultimatum foi mesmo o acontecimento mais considerável que, desde as invasões napoleónicas, abalou a sociedade portuguesa [5].

O patriotismo optimista sofria um enorme revés. Pode dizer-se que a crise provocou uma chaga profunda na alma portuguesa, como se a nação se encontrasse, de repente, à beira do abismo [6]. O Governo, e em especial o rei, foram responsabilizados por isso.

Na realidade, o elenco governativo de Serpa Pimentel enfrentava um grave dilema: embora a opinião pública fosse fortemente hostil à Grã-Bretanha, não faltando vozes a defender o uso da força contra o brutal aliado, a posição do Governo tinha de ser cautelosa nos meios a utilizar e digna perante a humilhação sofrida. O corte de relações com a Grã-Bretanha, que para muitos se impunha, podia redundar na perda de Angola e Moçambique, uma vez que não dispúnhamos de um exército forte, nem de material bélico que nos permitisse defrontar os ingleses de igual para igual. Mas esta conjuntura era algo que ultrapassava o entendimento da opinião pública.

A forçosa e humilhante cedência ao poderio de Inglaterra foi, deste modo, considerada um acto de traição nacional nascida da corrupção: eram o rei e a sua camarilha que estavam combinados com os ingleses. A força calorosa do patriotismo passou então a ser o “(…) grande vento que enfunou a vela do Partido Republicano” [7], ao mesmo tempo que se adensa uma fortíssima indignação antibritânica.

É neste contexto que o maçon Henrique Lopes de Mendonça (1856 – 1931) escreve a letra para a marcha patriótica A Portuguesa, composta pelo seu irmão Alfredo Keil. Após a implantação da República, em 1910, A Portuguesa viria a tornar-se, por lei de 1911, o Hino Nacional português. É de salientar que a letra deste hino se mantém inalterada até à actualidade, com excepção de um dos versos do refrão: as palavras de ordem “contra os bretões, marchar, marchar!” dão lugar, embora não antes de 1957, a um mais lato “contra os canhões, marchar, marchar!” [8].

Segundo Joaquim Veríssimo Serrão, pode afirmar-se que o Partido Republicano era ao tempo uma formação de intelectuais, praticamente todos de tendência liberal e agnóstica, que viviam o sonho da regeneração da pátria. Todavia, para o autor “(…) impõe-se reconhecer a extrema cautela dos republicanos no tratamento que concediam ao rei D. Carlos. Pondo em causa a degradação dos partidos monárquicos, evitavam atingir a pessoa do soberano, por terem a consciência de a quase totalidade da população ser católica e fiel à família real. Não hostilizar esses sentimentos era a palavra de ordem que vinha do partido, embora os sectores mais jovens ardessem em desejos de militância, com o apoio de uma imprensa onde se destacavam O Protesto (1878), órgão dos socialistas, e O Século (1881), fundado por Magalhães Lima que, antes disso, já criara A República Portuguesa (1872)” [9].

Logo no ano seguinte ao do ultimato estalou no Porto a revolta de 31 de Janeiro, cuja repressão foi sangrenta e deu à causa da República os primeiros mártires. A História desta revolta encontra-se bem documentada por diversos autores, mas podemos indicar como referência particularmente interessante e completa a obra intitulada História da Revolta do Porto – João Chagas, Ex-Tenente Coelho: depoimento de dois «cúmplices» [10]. A morte de líderes históricos como Elias Garcia e Latino Coelho em 1891 e José Falcão em 1892 haveria de alterar a estratégia militante do Partido Republicano, mas não ainda com a aspiração revolucionária que apenas se concretizou no tempo da ditadura franquista.

Não obstante o desfecho da sublevação, Alexandre Cabral defende que

“(…) desde a primeira hora, o malogro da revolta não foi encarado como um desastre político irremediável para o movimento democrático, antes pelo contrário, se considerou como representando um factor de grande valor subjectivo e objectivo na escalada pela implantação da República[11].

Cabral traz até nós um documento curiosíssimo no que concerne ao modo como muitos dos nomes sonantes da sociedade e política portuguesas da época, e que eram, na sua maioria, comuns à Maçonaria (Magalhães Lima, Teófilo Braga, o Bispo de Betsaida, entre outros), encaravam e “julgavam” a instituição monárquica; referimo-nos, tão somente, à obra intitulada Os Crimes da Monarquia [12], que trata, nada mais nada menos, que do julgamento realizado em 1891 no supremo tribunal da “Justiça” (jornal académico republicano de Lisboa). Explica Alexandre Cabral que “[a]s peças que constituem o Julgamento de Os Crimes da Monarquia, que decorreu no cenário fantasioso do Supremo Tribunal d’ A Justiça (de facto, ao que presumimos, numa modesta sala de redacção do «jornal académico de Lisboa» que tinha por título A Justiça), correspondem aos catorze artigos que sobre o extraordinário Julgamento a folha académica de Lisboa inseriu nas suas colunas de honra de 4 a 21 de Julho de 1891” [13]. O mesmo acrescenta que os trabalhos deste “julgamento” foram abruptamente interrompidos por acção repressiva policial [14].

No que concerne à revolta republicana de 31 de Janeiro há ainda outro aspecto a apurar: qual o papel da Maçonaria na insurreição, nomeadamente da Maçonaria do Porto.

Fernando de Sousa declara que têm sido desenvolvidas numerosas especulações quanto à intervenção da Maçonaria neste evento histórico, especulações essas que, no seu entender, não correspondem àquilo que foi a realidade [15]. Referindo-se concretamente ao Grande Oriente Lusitano, o autor afirma que esta instituição “(…) não apadrinhou e muito menos incentivou o movimento de 31 de Janeiro de 1891, o que ajuda a explicar, se não o fracasso, pelo menos o isolamento dos revoltosos e a efémera duração daquele fenómeno revolucionário[16].

Fernando de Sousa fundamenta o seu posicionamento argumentando que não eram maçons João Chagas, redactor do jornal República Portuguesa, Basílio Teles, Sampaio Bruno e Júlio de Matos, todos eles republicanos com importantes responsabilidades na preparação do movimento, o mesmo se aplicando a Santos Cardoso, proprietário, editor e redactor do jornal A Justiça Portuguesa, que atiçou durante longos meses a violência contra a Monarquia, e constituiu o elemento preponderante no aliciamento dos militares que participaram na revolta. Além disso, segundo o autor, exceptuando Alves da Veiga, nenhum dos sete membros anunciados para integrarem o Governo Provisório pertencia à Maçonaria, o mesmo sucedendo com todos os soldados, sargentos e oficiais revoltosos, e com os numerosos advogados que defenderam os presos em Conselho de Guerra.

Reportando-se especificamente aos membros da Maçonaria portuense, Fernando de Sousa menciona que apenas foram detectados seis irmãos envolvidos na insurreição: Alves da Veiga, que se expatriou; Aurélio dos Reis, da loja Honra e Dever, julgado em Conselho de Guerra e absolvido; Miguel Verdial, da loja Independência, julgado em Conselho de Guerra e condenado; Adriano Pimenta, também da loja Honra e Dever; António Pinto de Almeida e Francisco Sousa Paula, ambos da loja Independência, que não chegaram, todavia, a ser detidos.

O autor acrescenta que, “das lojas maçónicas situadas fora do Porto, apenas temos conhecimento da participação do republicano Heliodoro Salgado nos acontecimentos de 31 de Janeiro de 1891, um recém-chegado à Ordem, uma vez que tinha sido admitido em 1890, na loja Obreiros do Trabalho, ao Vale de Lisboa” [17], sublinhando, no entanto, que tal não significa que a Maçonaria lisboeta ignorasse o movimento do Porto: “é claro que os maçãos republicanos de Lisboa não só tinham conhecimento da revolta como se esforçavam por a secundar na capital. (…) Elias Garcia, principal figura do Partido Republicano Português e Grão-Mestre da Maçonaria, estava perfeitamente ao corrente do andamento da insurreição nortenha, sem todavia comprometer institucionalmente naquela, quer o Partido Republicano quer a Ordem[18], relata.

Neste sentido, as reuniões conspiratórias que se desenrolaram na capital, e nas quais participaram, além de Elias Garcia, outros republicanos e maçons como Constantino de Oliveira, Feio Terenas, Gomes da Silva, Higino de Sousa, Tomás Cabreira, etc., tiveram sempre lugar no domicílio de António Carlos de Magalhães.

Contudo, em inícios do ano de 1891, quando se encontrava já substituído interinamente das funções de Grão-Mestre, Elias Garcia foi obrigado a abandonar o directório do Partido Republicano, por motivos de saúde, vendo, desta forma, a sua influência política drasticamente reduzida. Apesar disso, Alves da Veiga continuou a manter estreitas ligações com o velho General, inteirando-o da evolução dos acontecimentos. Na antevéspera da insurreição, Elias Garcia, já bastante debilitado pela doença que alguns meses mais tarde o vitimou, recebeu uma missiva de Alves da Veiga, entregue por um irmão da loja Independência, na qual o advogado portuense lhe comunicava que, contrariamente à sua vontade, o dia em que a revolta devia ocorrer havia sido antecipado, pedindo-lhe, por essa razão, que interviesse de imediato, a fim de Lisboa secundar o movimento, bastando para tal, garantia Alves da Veiga, o levantamento de um ou dois regimentos da capital.

Ora, conta Fernando de Sousa que Elias Garcia e outros maçons republicanos que com ele se encontravam se limitaram a enviar ao Porto um sargento que levava instruções para impedir a insurreição, mas que se deparou já com as tropas na rua… “A tal diligência parece ter-se reduzido a intervenção de Lisboa, quer ao nível da Maçonaria, quer (…) do Partido Republicano, a demonstrar a ausência de um verdadeiro plano a nível nacional, e a precipitação dos revoltosos do Porto” [19], refere.

O autor prossegue o seu raciocínio declarando que, se a intervenção da Maçonaria não foi determinante no desenrolar da insurreição, a posição do Grande Oriente Lusitano no rescaldo dos acontecimentos não se fez esperar, quer através do seu Grão-Mestre interino, quer através do Supremo Conselho, condenando firme e peremptoriamente, logo em inícios de Fevereiro, o movimento do Porto como contrário aos princípios veiculados pela instituição, ordenando a suspensão de Alves da Veiga, bem como de todos os irmãos acusados ou que fossem indiciados como estando implicados na revolta, e repudiando qualquer conivência naquele “desgraçado facto”.

À semelhança do que sucedeu com o Partido Republicano, a Ordem maçónica apressou-se na sua demarcação da aventura revolucionária portuense, a fim de preservar a sua integridade e continuidade.

Fernando de Sousa está convencido de que, enquanto membro de ambas as instituições, Alves da Veiga terá actuado à revelia dos poderes constituídos, provocando, tanto no seio da Maçonaria, como no Partido Republicano, uma temporária cisão entre o Porto e Lisboa, cisão esta que, no caso da Maçonaria, tivera já antecedentes no século XIX. Afirma ainda que a dissidência atingiu também a família maçónica do Vale do Porto, uma vez que apenas um escasso número dos seus irmãos tomou parte na revolta.

O autor advoga que as reuniões havidas nas instalações do grémio Independência devem ser entendidas à luz da referida cisão, bem como a uma certa impunidade de que Alves da Veiga desfrutava pelas suas funções de venerável, ciente de que os seus irmãos, muitos deles monárquicos, não denunciariam as suas acções, ilegais, sem dúvida, tendo em conta a Constituição e regulamentos da Ordem.

Assim, a intervenção da Maçonaria do Porto nos acontecimentos de 31 de Janeiro de 1891, salvo, naturalmente, as personalidades já indicadas, ter-se-á limitado, fundamentalmente, à cumplicidade do silêncio.

Face ao exposto, para Fernando de Sousa, a conhecida consagração do 31 de Janeiro pela Maçonaria do Porto, relaciona-se muito mais com a posterior evolução política nacional e com a “interpretação mítico-simbólica da realidade”, do que propriamente pela sua participação no desenrolar dos acontecimentos.

Este ponto de vista é, na globalidade, partilhado por Fernando Catroga, que frisa que “(.) como a história veio a demonstrar, o 31 de Janeiro não só foi prematuro, como irrompeu no lugar errado[20].

Explica Catroga que, no entender de alguns analistas, o Porto reunia todas as condições para o espoletar de uma revolução de pendor antidinástico. Berço da revolução liberal, possuía uma intelectualidade republicana (em que se incluíam individualidades como Amorim Viana, Rodrigues de Freitas, Alves da Veiga, José Sampaio Bruno, Júlio de Matos e Emídio de Oliveira) que, através do livro, da cátedra, da imprensa ou do comício, há muito agitava a opinião pública da cidade. Por outro lado, o seu comércio era forte, enquanto que um operariado crescente, ao lado de uma actividade artesanal ainda significativa, se mostrava aguerrido na defesa dos seus interesses e, em particular, na reivindicação de medidas protectoras do chamado trabalho nacional. Em simultâneo, a crise cambial brasileira e a falência da casa Baring, principal credora do Estado Português, acentuaram a depressão financeira, situação que se repercutia com grande acuidade numa zona intimamente ligada ao comércio e de muita emigração. Ora, segundo o autor, se tudo isto são argumentos que justificam a génese nortenha da intentona republicana, são também razões que contribuem para o seu insucesso [21].

Refere Catroga que é inegável o peso da memória da revolução vintista nas motivações dos revolucionários da década de 90. Estes sentiam-se igualmente investidos de uma missão que iria inaugurar uma nova era. Daí que, não obstante as resistências dos tecnicamente mais avisados, as reuniões preparatórias da revolta, tal como os procedimentos adoptados em si, denotassem a presença daquela carga mítica, conforme transparece do depoimento do autor:

discutiram-se os nomes redentores a dar às ruas e praças da cidade libertada e gizou-se um plano de actuação que quase repetia o percurso dos sublevados de 1820. E, na opinião de Basílio Teles, tal paradigma assentava numa ilusão sobre a história e conduzia a um erro capital. Rejeitando a ocupação dos pontos altos (Batalha) e a tomada imediata do Quartel-General e da estação dos correios e telégrafo, e negligenciando o apoio da artilharia (Pilar e Foz), os revoltosos reuniram-se em Santo Ovídeo e evoluíram nas partes baixas da cidade, zonas em que se expuseram mais à previsível ofensiva das tropas fiéis à Monarquia. Mas, no geral, esse tinha sido o caminho de Sepúlveda. E foi ainda sob o exemplo vintista que alguns «irmãos» da loja maçónica Independência, tal como os elementos do Sinédrio, escolheram a Câmara Municipal para lerem a proclamação que deveria levantar todo o país, como se, por efeitos mágicos da mera invocação da palavra sagrada (República), o novo regime ficasse plebiscitado. Com isso, esqueciam-se das diferenças históricas e não levavam em conta este pormenor essencial: enquanto em 1820 não houve oposição relevante, em 1891, as boas intenções tiveram de se defrontar com a força armada[22].

Para Catroga, pormenor igualmente importante, e que Basílio Teles também assinalou, é o facto de os conspiradores não terem procurado planificar devidamente o movimento, de modo a conseguirem alargar a sua base de apoio, bem como uma maior capacidade de combate de rua. Contudo, tal imprevidência acaba por não ser surpreendente, se tivermos em conta que, incrivelmente, nem sequer as personalidades escolhidas para o Governo Provisório, com excepção de Alves da Veiga, o proclamador, estavam presentes nos Paços do Concelho, sendo que algumas delas, como Rodrigues de Freitas, até se opunham à insurreição.

Por outro lado, nem militares nem civis tiveram quaisquer contactos prévios com as organizações operárias da cidade, e só quando se desenhava a derrota é que Basílio Teles procurou os dirigentes socialistas locais, com o intuito de lhes solicitar a mobilização dos trabalhadores a fim de se criarem outras zonas de sublevação e de se diminuir a pressão que as tropas monárquicas vinham exercendo sobre os sediciosos no coração da cidade. Debalde e tardio esforço, tanto mais que, com o encerramento das fábricas devido à revolta, o operariado se encontrava disperso. Desta forma, embora se contasse com a conivência de elementos civis, a revolta foi predominantemente militar.

Posto isto, pode dizer-se que “(…) a conspiração progrediu sob um clima feito de ilusões e de equívocos: pensava-se que bastava a convocação dos manes da revolução vintista, quando se pretendia consumar algo que ultrapassava em muito o grau de politização da cidade e do próprio país. E, se os erros de ordem militar podem ser invocados para justificar a derrota, isso não pode escamotear outra evidência: sonhou-se com uma revolução, mas não se conseguiu mais do que uma revolta regional, quase exclusivamente militar [23].

Catroga salienta ainda que os cronistas dos acontecimentos, bem como a tradição, têm assinalado o peso da Maçonaria, quer no fomento, quer na preparação da revolta, mas que subsistem grandes dúvidas quanto ao seu real empenhamento na iniciativa:

de facto, vários testemunhos fazem-se eco de reuniões efectuadas em lojas maçónicas, reuniões, porém, abertas a conspiradores não mações. E, nas vésperas do 31 de Janeiro, Alves da Veiga terá convocado todos os «irmãos» da oficina Independência para servirem de cobertura aos movimentos dos revoltosos. O que não admira, pois sabemos que era o venerável da loja. Mas, significou isto um comprometimento da Maçonaria portuense e do Grande Oriente na rebelião? Ou, ao contrário, este apoio maçónico não ultrapassou o âmbito do empenhamento de alguns (poucos) mações (o que não admira, pois boa parte destes era ainda monárquica)? Para respondermos, precisaríamos de conhecer o que se passou nos bastidores do movimento republicano e nas sessões das oficinas maçónicas; o que, por agora, é manifestamente impossível.
.
O facto de José Elias Garcia ter sido, nesta conjuntura, grão-mestre da Ordem e, simultaneamente, um dos dirigentes de confiança dos republicanos parece tornar crível que as ligações maçónicas não foram inteiramente estranhas a esse conluio. Contudo, Elias Garcia, por doença, encontrava-se praticamente afastado dos trabalhos. Por outro lado, a linha do Grande Oriente, neste período, caracterizava-se por um apartidarismo pluralista inserido no respeito pela ordem constitucional, e ainda não tinha chegado a hora da sua completa republicanização[24].

Por conseguinte, Fernando Catroga é de opinião que, apesar da inequívoca participação de alguns maçons, que não terão sido tantos como a tradição faz supor, o Grande Oriente Lusitano, no seu todo, e enquanto instituição, não terá ultrapassado, no contexto da crise provocada pelo Ultimatum, os limites de uma actuação de fundo patriótico não partidarizado; ou seja, ter-se-á mantido vigilante na defesa dos valores essenciais do Liberalismo (e do nacionalismo) e atento à ofensiva ultramontana.

Na verdade, por esta altura, a corrente que se opunha à partidarização ou politização excessiva da Maçonaria era ainda muito forte, o que explica a condenação veemente da sublevação por parte do Conselho da Ordem, bem como a suspensão dos direitos maçónicos dos irmãos envolvidos. É certo que nem todas as lojas receberam com agrado esta atitude por parte das instâncias superiores, havendo notícias de que em algumas oficinas, e sobretudo na loja Obreiros do Trabalho, terão saído decisões de apoio aos maçons revoltosos, e que, por outro lado, as suspensões não terão vigorado por muito tempo. De qualquer modo, convém notar que nesta época, a Maçonaria ainda não estava republicanizada e que será necessário aguardar por novas condições sociais e políticas para que tal venha a suceder, o que só acontecerá decorrida década e meia [25].

Para Catroga, bem vistas as coisas, o 31 de Janeiro, se foi um momento precursor, constituiu também o fechar do círculo das lutas políticas de inspiração liberal dinamizadas a partir da Invicta. Os pólos de desenvolvimento económico e de crescimento urbano, tal como as características dos projectos que se colocavam como alternativas ao statu quo (republicanismo, socialismo, anarquismo) encontravam no Sul do país, com destaque para Lisboa, as condições sociais adequadas ao florescimento republicano [26].

O autor sugere, assim, que o republicanismo constituía um projecto pouco acessível a mentalidades rurais, ou ainda debilmente urbanas, e fortemente catolicizadas, como as das gentes do Porto, já que, em última análise, exprimia, essencialmente, aspirações das camadas sociais que estavam em crescimento devido ao desenvolvimento das cidades e que, por isso, mais se distanciavam das formas de comportamento das sociedades tradicionais.

Ora, tal como a Catroga, parece-nos evidente que, por maior que fosse a pujança da economia portuense no princípio dos anos noventa do século XIX, o Porto não possuía uma estrutura social, nem uma evolução cultural propícias à radicação de um ideário predominantemente anticlerical e secularizador. Por esta altura, nem mesmo a capital oferecia semelhantes condições. Logo, não terá sido por mero acaso que o movimento republicano só tenha efectivamente arrancado em força a partir do momento em que as consequências do desenvolvimento capitalista (expressas no crescimento urbano, na intensificação das lutas económicas e políticas, no fomento do associativismo social, cultural e político) se tornaram pertinentes.

O autor tece ainda um reparo: contrariamente ao que poderia pensar-se, o facto de Rodrigues de Freitas ter sido o primeiro deputado republicano (1878) e de, posteriormente, ter garantido sucessivamente a sua reeleição, não significa que os republicanos fossem influentes no Porto. Segundo Catroga, tais vitórias eleitorais ficaram a dever-se mais ao prestígio de que o professor de Economia gozava na cidade do que a qualquer razão ideológica de peso. Com efeito, Rodrigues de Freitas, antes de se declarar republicano, já havia sido eleito deputado reformista (1870, 1871), e não deixa de ser sintomático que, desde 1878 (ano da fundação do Centro Republicano do Porto) até 1899, mais nenhum outro candidato tenha vencido qualquer eleição, mesmo quando Freitas não se apresentou a sufrágio. Só em Janeiro de 1900, dado que o Governo anulou a eleição anterior, o Porto elegeu três deputados republicanos, a saber: Afonso Costa, Francisco Xavier Esteves e Paulo Falcão, sucesso que ficou a dever-se a uma razão conjuntural derivada do descontentamento popular pelo modo como o poder monárquico lidou com uma epidemia que assolara a cidade [27].

Uma vez tratada a malograda revolta de 1891, debrucemo-nos sobre a evolução dos destinos do país desde essa altura até ao 5 de Outubro de 1910.

Liliana Raquel Rodrigues Fernandes

Nota

Este texto integra uma excelente dissertação apresentada por Liliana Raquel Rodrigues Fernandes à Universidade de Aveiro para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Estudos Portugueses.

Dada a sua extensão, os diversos capítulos serão publicados autonomamente, incluindo-se sempre o link para a totalidade do trabalho.

Clique para Ler

Notas

[1] Basílio Teles, citado por António Carlos Carvalho e João Carlos Alvim, em História da Revolta do Porto – João Chagas, Ex-Tenente Coelho: depoimento de dois «cúmplices». Ed. fac simile. Lisboa, Assírio e Alvim, 1978, p. XXVIII. Basílio Teles (1866 – 1923), professor e activista republicano, participou na revolta de 31 de Janeiro de 1891 e exilou-se. Foi o primeiro Ministro da Fazenda a ser nomeado após a instauração da República. Não chegou, porém, a tomar posse, sendo o cargo ocupado pelo maçon José Relvas.

[2] Nome da bandeira do Reino Unido (Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte), formada a partir de elementos das bandeiras das nações que o constituem: Inglaterra, Escócia, País de Gales, (que juntos compõem a Grã-Bretanha), e Irlanda do Norte. Ainda hoje está presente nas bandeiras de alguns dos países que fizeram parte do Império Britânico e que, embora sejam estados soberanos, integram a Commonwealth (que tem a Rainha Elizabeth II como chefe suprema), como, por exemplo, a Austrália e a Nova Zelândia. A bandeira do Reino Unido é, por vezes, erroneamente confundida com a bandeira de Inglaterra. Para informações acerca da Commonwealth vide http://en.wikipedia.org/wiki/Commonwealth_of_Nations.

[3] Cf. FERNANDES, Ferreira, FERREIRA, João, Frases que Fizeram a História de Portugal. Lisboa, A Esfera dos Livros, 2006, p. 184.

[4] Tradução de Basílio Teles, citada por António Carlos Carvalho e João Carlos Alvim, em História da Revolta do Porto – João Chagas, Ex-Tenente Coelho: depoimento de dois «cúmplices». Ed. fac simile. Lisboa, Assírio e Alvim, 1978, p. XXI.

[5] Cf. MORAIS, Jorge, Com Permissão de Sua Majestade – Família Real Inglesa e Maçonaria na Instauração da República em Portugal. Via Occidentalis Editora, Lda., 2005, p. 19.

[6] Cf. SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, Vol. X. Lisboa, Verbo, 1989, p. 13

[7] SARAIVA, José Hermano, História Concisa de Portugal. Col. Saber, 20ª ed.. Mem Martins, Publicações Europa-América, 1999, p. 348.

[8] Vide Anexo VII – O Hino Nacional

[9] SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, Vol. X. Lisboa, Verbo, 1989, p. 18 – 19.

[10] História da Revolta do Porto – João Chagas, Ex-Tenente Coelho: depoimento de dois «cúmplices». Ed. fac simile. Lisboa, Assírio e Alvim, 1978.

[11] CABRAL, Alexandre, Os Crimes da Monarquia. Col. Seara Nova, Lisboa, Seara Nova, 1973, p. 13 – 14.

[12] Vide op. cit

[13]p. cit., p. 11.

[14] Cf. loc. cit..

[15] Vide SOUSA, Fernando de, “A Maçonaria do Porto e a Revolta Republicana de 1891”, in: Humberto Baquero Moreno… [et al.], Estudos de História Contemporânea Portuguesa. Lisboa, Livros Horizonte, 1991, p. 391 – 409.

[16] Op. cit., p. 403.

[17] Op. cit., p. 401.

[18] Loc. cit..

[19] Op. cit., p. 402.

[20] CATROGA, Fernando, O Republicanismo em Portugal – da Formação ao 5 de Outubro de 1910. 2ª ed.. Editorial Notícias, s.d., p. 88.

[21] Cf. op. cit., p. 84.

[22] Cf. op. cit., p. 84 – 85.

[23] Op. cit., p. 85.

[24] Op. cit., p. 86.

[25] Cf. op. cit., p. 86 – 87.

[26] Cf. op. cit., p. 87

[27] Cf. op. cit., p. 87 – 88.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *