Iluminismo e Maçonaria (Parte I)

Introdução

A Maçonaria é caracteristicamente universalista, por ser uma sociedade que aceita a afiliação de todos os cidadãos que se enquadrarem na qualificação “livres e de bons costumes”, qualquer que seja a sua raça, a sua nacionalidade, o seu credo, a sua tendência política ou filosófica, exceptuados os adeptos do comunismo teorético, porque os seus princípios filosóficos fundamentais negam ao homem o direito à liberdade individual da autodeterminação.

Embora assim caracterizada, esta universalidade não implica a Maçonaria em ter um poder administrativo soberano centralizado, nem mundial nem supranacional, e nem significa que tenha princípios doutrinários ou filosóficos universais de aceitação obrigatória por parte dos seus membros. Os únicos princípios filosóficos ou doutrinários, se é que assim se pode denominá-los, são a crença num Ser Supremo e a crença na sobrevivência do espírito, sem nenhuma definição que identifique estes conceitos ou estas crenças, em relação à determinada filosofia ou a determinada religião.

A definição destes dois postulados é deixada ao livre arbítrio de cada Maçon, de forma a não interferir nas suas convicções ou tendências pessoais. Esclareça-se que na filosofia actual a expressão Ser Supremo tem o significado convencional de Deus Único.

O Ser Supremo é habitualmente referido na Maçonaria como o Grande Arquitecto do Universo, uma expressão que, apesar de conter os atributos físicos Grande e Arquitecto, não privilegia nenhuma concepção de Deus em particular. Grande Arquitecto do Universo tem para os Maçons apenas um significado simbólico, o da unificação sob um só conceito, da geração de todos os seres pela contínua actuação das leis que governam o Universo. Dar-lhe uma interpretação diversa ou menos ampla, seria prestigiar uma ou outra corrente filosófica, contrariando o princípio de neutralidade maçónica.

Desta forma, não tem a Maçonaria um centro ou um órgão administrador supranacional ou mundial, apesar de ter órgãos administrativos regionais, com jurisdições geograficamente definidas, chamados potências. A sua atribuição exclusiva é manter a unidade das lojas, regulando a sua organização administrativa, definindo as regras dos relacionamentos delas entre si e com os seus membros e destes entre si. Todas estas potências maçónicas são também absolutamente independentes entre si, e todas têm os seus próprios estatutos e os seus próprios regulamentos.

Potências e Lojas são autónomas, somente em sentido administrativo, mas nem os Grão-Mestres e nem os (Veneráveis) Mestres das Lojas se podem pronunciar em nome da Maçonaria Universal. Mas, desde que para isso estejam oficialmente autorizados pelas suas Assembleias, podem pronunciar-se oficialmente sobre desenvolvimento dos seus trabalhos, na escolha da forma e do direccionar das suas actividades sociais e culturais. Isto equivale a dizer que os Grão-Mestrados e os Mestres das Lojas sempre seguem a tendência da maioria das suas assembleias. Esta autonomia impede que as decisões particulares se transfiram a outros Grão-Mestrados e a Mestres de outras Lojas.

Esta definição de Maçonaria permitiu, que em tempos passados algumas lojas, ou grupos de lojas, se pronunciassem a favor da república e outras lojas ou grupos de Lojas a favor de reinos constitucionais como, por exemplo, aconteceu no Brasil durante o segundo Império. Mas estas posições, aparentemente divergentes, atendem às aspirações da liberdade maçónica, porque ambos os mencionados sistemas políticos, limitam os poderes dos seus governantes máximos, o presidente ou o rei.

Portanto, não tem sentido a hipótese de que uma recíproca influência Iluminismo/Maçonaria, tantas vezes alegada por igrejas cristãs para condenar a Maçonaria, possa tê-la levado a ser anticristã. Mesmo que a maioria dos membros de determinada loja possa ser de iluministas não cristãos, devem eles respeitar a minoria quanto ao direito à sua própria convicção filosófica ou religiosa.

Na verdade, pode ter acontecido no correr da História da Maçonaria Moderna, que uma ou outra loja tenha sido formada por uma maioria iluminista dominando a administração e impondo o seu ponto de vista. Mas são excepções raríssimas que habitualmente se corrigem, tanto pela alternância anual das administrações das Lojas, como pela constante mudança das concepções filosóficas, uma das características do livre uso da razão.

Algumas igrejas cristãs insistem nesta ligação como algo condenável, por concluírem afinal que a Maçonaria teria absorvido do Iluminismo, a ideia central de submeter ao crivo da razão todos os aspectos do conhecimento, o que demonstraria a oposição Maçonaria/Religião, por considerarem que o livre pensamento é o inimigo da fé, por excelência. Mas isto não acontecerá, porque os livres pensadores jamais predominarão na humanidade.

Um apoio espúrio a este ponto de vista, recebem essas igrejas em afirmações historicamente incorrectas, como a contida na Enciclopédia Mirador internacional sob o verbete “Iluminismo”, onde diz: “Entre os sucessores do Iluminismo está a Maçonaria” (v. 11, p. 5.982). Evidentemente, o redactor do texto explicativo do verbete não procurou instruir-se em fontes fidedignas, pois as origens da Maçonaria são anteriores aos primeiros movimentos Iluministas. Na verdade, pode a Maçonaria ter sofrido influência dos Iluministas, mas esta influência foi temporária, pois no mundo actual a maioria absoluta dos Maçons é de cristãos.

Contrariando esta afirmação enciclopédica, afirma-se que foram os Iluministas que se filiaram às Lojas Maçónicas, como um lugar seguro e intelectualmente livre e neutro, apropriado para a discussão das suas ideias, principalmente no século XVIII, quando os ideais libertários ainda sofriam sérias restrições por parte dos governos absolutistas na Europa. Por isto não se pode negar, que certamente a Maçonaria pode ter contribuído para a difusão do Iluminismo e que este por sua vez, possa ter contribuído para a difusão das lojas maçónicas.

A Maçonaria, contudo, não adoptou e nem incorporou teses de origem iluminista aos seus dois princípios básicos anteriormente referidos, e nem o poderia ter feito, pois isso comprometeria o seu postulado de universalidade. Assim, a Maçonaria pode ter contribuído apenas indirectamente para o crescimento dos movimentos iluministas, por congregar os seus seguidores e pô-los em contacto directo entre si, na mesma forma do acontecido com os constitucionalistas, com os republicanos ou com os liberais. Nem por isto, a Maçonaria se tomou iluminista, constitucionalista, republicana ou liberal, por princípio.

Mas esta preocupação das Igrejas é uma perda desnecessária de energias, pois menos de um por cento das pessoas de fé, teriam a necessária cultura filosófica para racionalizar os seus princípios de fé. E ainda mais, das pessoas que teriam esta capacidade, talvez menos de um por cento, teria a necessária coragem para fazê-lo. Restaria uma ínfima percentagem de pessoas, talvez menos de 0,01%, a colocar eventualmente a sua fé em perigo, se é que essa percentagem, mesmo tão ínfima, chegue a tanto.

Não se definirá aqui o que é Maçonaria, porque o assunto foi exaustivamente tratado na obra MAÇONARIA HISTÓRIA E FILOSOFIA. Discorrer-se-á somente sobre o Iluminismo, cuja essência é frequentemente mal compreendida e cujos movimentos nem sempre são percebidos, e lamentavelmente, porque é um movimento intelectual que todo o Maçon deveria conhecer. Foi o Iluminismo que despertou a humanidade para o uso da razão, em todos os campos do conhecimento.

Isto, contudo, não o torna um inimigo das religiões, porque devido ao seu diminuto número, os homens pensantes jamais destruirão qualquer religião. Poderão, quando muito influenciar um ou outro membro isoladamente. São muito raros os homens em condições de discutir temas filosóficos.

Iluminismo

O Iluminismo não é uma corrente filosófica, é um sistema de pensamento conduzido pela razão, o maior avanço cultural que liberou o homem para as grandes aventuras do conhecimento. Com ele, o homem tornou-se apto a escolher o ponto de partida dos seus pensamentos, dentro dos limites da sua própria liberdade intelectual.

As grandes aventuras materiais, tais como a de Moisés, conduzindo os seus hebreus durante quarenta anos através do deserto, como as conquistas militares de Alexandre, o Grande, como as grandes viagens internacionais de Marco Pólo, como as grandes batalhas de Napoleão, como a teoria gravitacional de Sir Isaac Newton e tantas outras de que está plena a História, são sobejamente conhecidas de todos os estudantes, porque elas transmitem sensações de poder e sonhos de vitórias. Mas poucos são os que conhecem os reflexos das aventuras dos grandes heróis e dos avanços culturais da humanidade.

Quão poucos conhecem o verdadeiro sentido da aventura de Moisés, que captando o verdadeiro sentido da fracassada aventura monoteísta do Faraó Aquenaton, concebeu o seu próprio projecto, conseguiu fazer dos hebreus um povo, criou uma nação e fundou uma religião monoteísta, no seio de um mundo que era todo politeísta. Foi sem dúvida, uma grande aventura intelectual, que ainda influencia a humanidade três mil anos depois. Somente os estudantes iluministas reconhecem isto.

Quão poucos sabem, que Alexandre, o Grande, foi discípulo do grande filósofo grego Aristóteles e que a sua maior conquista não foram as suas grandes vitórias militares, mas sim ter sido o grande difusor da cultura helénica, o fundador da cidade de Alexandria, a capital cultural que dominou o mundo antigo, com a sua biblioteca de seiscentos mil volumes.

Quão poucos sabem, que a grande aventura de Marco Pólo, trouxe como resultado a notícia de outros grandes povos, com grandes religiões a produzir homens tão ou mais virtuosos que os das religiões ocidentais, e assim proporcionou pela primeira vez na história, estudos comparativos de religiões e civilizações.

Quão poucos sabem, que as teorias revolucionárias de Sir Isaac Newton e de Albert Einstein mostraram ao mundo pela primeira vez, que o Universo pode funcionar e evoluir pelas suas próprias leis e que não há necessidade de uma permanente intervenção de um Poder Supremo, abalando com isto uma teoria teísta de séculos. Apesar dessas descobertas, as leis continuam a ser de origem divina para os teístas. Para os iluministas, contudo, por considerarem que o conhecimento de Deus não é acessível ao homem, este assunto não está em discussão.

Quão poucos sabem, que existiu um Giordano Bruno, considerado o fundador do pensamento crítico moderno? Quantos conhecem as consequências da influência das teorias de Galileu Galilei sobre o pensamento do seu tempo?

Assim foi também com o Iluminismo, a grande aventura intelectual que revolveu as tradições medievais relativas à religião, à economia e à política e as submeteu ao tribunal da razão, perante o qual quase todas foram condenadas por causa da sua fragilidade científica e da sua fragilidade lógica. Por isto, deveria o Iluminismo, estar escrito com letras destacadas entre as grandes aventuras da história da humanidade.

Ainda não o foi, porque como toda a aventura do campo metafísico, o Iluminismo é um fenómeno que se restringe ao diminuto universo dos homens que pensam, isto é, o universo dos que não aceitam verdades impostas ou sugeridas, mas usam a razão para buscar a sua própria verdade, O conceito de Ser Supremo não representa para a Maçonaria, mais que um nome sugerido para a força universal, que é a origem do Universo.

Os rastos culturais deixados por estes homens pensantes, tanto no passado como ainda no presente momento histórico, são extremamente ténues. Também os leitores desses pensadores, constituem um campo cultural excessivamente restrito.

Quem sabe correctamente, mesmo os que o condenam, o que foi e o que significou o Iluminismo, para o avanço do pensamento na Idade Moderna e Idade Contemporânea?

(Continua – Ligação para a Parte II)

Ambrósio Peters

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