Iluminismo e Maçonaria (Parte II)

(Continuação – Ligação para a Parte I)

Iluminismo um sistema de conhecimento

O Iluminismo caracteriza-se pela confiança no progresso e na razão, pelo desafio à tradição e à autoridade no âmbito da filosofia e pelo incentivo à liberdade de pensamento. O Iluminismo distingue-se particularmente por um optimismo quase utópico ante o progresso da ciência, por uma quase veneração pelo uso irrestrito da razão e por um antitradicionalismo radical.

Este fascínio pelo uso da razão, tem o mesmo sentido do fascínio pelas aventuras materiais das grandes viagens, dos grandes descobrimentos, como o progresso da ciência e os constantes avanços em desvendar os segredos do Universo. O Iluminismo é o fascínio pelo desconhecido que sempre levou os homens, cada vez um pouco mais adiante. E este mesmo fascínio que incentiva os iluministas, ou os iluminados, porque os avanços do pensamento, sempre descobrem novas teorias e novas concepções filosóficas, e nunca o pensador, tal como os aventureiros do mundo material, saberá exactamente onde o levará o seu raciocínio.

Não se definirá, portanto, correctamente o Iluminismo, dizendo-o um sistema de conhecimento, porque ele não compreende o estudo de um determinado tema filosófico. Seria mais correcto denominá-lo um movimento intelectual, voltado para a busca da verdade pela razão sem a revelação, verdade em todos os campos do conhecimento, o religioso, o político, o económico, o científico, o social, o filosófico. Tem algo estranho nesta frase?

Citando René Descartes (1596 – 1650), possivelmente um dos pioneiros iluministas, que já no início do século XVII, colocou na base do seu cartesianismo o carácter universal e absoluto da razão, que partindo do cogito (eu penso), pode pelas suas próprias forças, chegar à descoberta de todas as verdades possíveis, subordinando as conclusões às experiências reais, somente quando necessário para dirimir dúvidas no caso de evidências equivalentes. Por causa das suas ideias avançadas, Descartes teve de se transferir para a Suécia, para evitar perseguições.

Emmanuel Kant (1724 – 1804) escreveu a respeito do Iluminismo: “O Iluminismo é a evasão do estado de menoridade que o homem costuma atribuir a si próprio. Menoridade é a incapacidade de servir-se do próprio intelecto sem o guia de outrem. A cada um é atribuível esta menoridade, se a causa não for um defeito do intelecto mas a falta de decisão e coragem para servir-se dele como guia. ‘Savere aude‘ (ouse saber)! Tenha a coragem de servir-se do seu Próprio intelecto.” Este é o mote do Iluminismo.” (Ia: Nicola Abbagnano – Dicionário de Filosofia).

Na História Moderna, houve necessidade de acontecimentos traumáticos, para acordar o homem à percepção de que algo estava errado com as tradições antigas e medievais. Este despertar para o Iluminismo começou lentamente e de forma vagamente perceptível entre os pensadores do final do século XVI.

Os primeiros iluministas foram de início extremamente cautelosos ao emitir os seus pensamentos, pois entravam em conflito com todo o conjunto das teorias e teses que dominava o mundo ocidental cristão, desde a Idade Média.

Possivelmente, alguns acontecimentos históricos do século XVI foram os grandes impulsionadores deste despertar, como por exemplo, os grandes descobrimentos marítimos do século XVI, que mostraram ser a nossa Terra muito mais complexa e ampla do que aquela descrita na Bíblia; ou a insubordinação de Henrique VIII de Inglaterra, que mostrou que cada país pode ter a sua própria religião oficial sem depender de Roma; ou a Reforma de Martinho Lutero, que trouxe a público as fraquezas da Igreja Romana; ou o Édito de Nantes de 1596, que mostrou ser possível a liberdade religiosa em França; ou as viagens de Giordano Bruno pela Europa, pregando os seus novos conceitos de liberdade de pensamento e mostrando pela primeira vez, que havia um público ávido por novas e revolucionárias ideias.

Por isto, o Iluminismo veio ganhando terreno lentamente a partir do início do século XVII, na Inglaterra, para chegar à sua idade áurea em França, no final do século XVIII, conhecido como o século das luzes.

Os Deístas ingleses mais influentes foram, por ordem de ano de nascimento:

  • Thomas Hobbes (1588 – 1679);
  • Lord Herbert of Cherbury (1593 – 1648);
  • Sir Robert Boyle (1627 – 1691);
  • Charles Blount (1629 – 1693);
  • John Locke (1632 – 1704);
  • Sir lsaac Newton (1642- 1727);
  • Mathew Tindal (1653- 1733);
  • John Toland (1670 – 1722);
  • Bernard Mandeville (1670 – 1733);
  • Terceiro Conde de Shaftesbury (1671 – 1713);
  • Anthony Collins (1676 – 1729);
  • Henry Vise, de Bolingbroke (1678 – 1751);
  • Conyers Middleton (1683 – 1750);
  • David Hume (1711 – 1776); Joseph Priestley (1733 – 1804);
  • Thomas Woolston (+1733).

Lord Cherbury faleceu em 1648, ano em que Oliver Cromwell derrotava o Rei Carlos I, assumia o poder e conduziria a Inglaterra a republica, numa revolução civil caracterizada por desentendimentos e lutas religiosas entre presbiterianos puritanos e exaltados, anglicanos e católicos. Impressionado com esses desentendimentos, Lord Cherbury, paralelamente à sua careira militar e diplomática no continente, dedicou os seus últimos anos de vida ao estudo das razões dessa inconsequente disputa religiosa, na tentativa de estabelecer os motivos básicos, causadores desses permanentes conflitos entre credos e sistemas religiosos.

Na sua primeira obra, De Veritate (Paris, 1624), Lord Cherbury propôs uma teoria do conhecimento baseada num padrão universal e inato da percepção da realidade, rigidamente oposta aos conhecimentos de origem sobrenatural como o conhecimento de Deus, conhecimentos sobrenaturais estes, que por serem inteiramente subjectivos, seriam a causa dos conflitos.

Na sua obra, De Religionis Gentilium Errorum que apud eos Causas (Londres 1645), Lord Cherbury apresentou cinco pontos que constituiriam o núcleo dos desentendimentos entre todas as religiões:

  1. Fé na existência de uma deidade;
  2. Obrigação de adorar esta deidade;
  3. Demonstrar adoração com a prática da moralidade;
  4. Arrependimento dos pecados e propósito de não reincidir neles;
  5. Crença em recompensas ou castigos divinos, nesta ou numa outra vida.

A influência inicial das teses de Lord Cherbury dissipou-se no roldão da revolução puritana de Cromwell, mas o Deísmo encontrou um reforço especial entre os eclesiásticos, que na reminiscência da Renascença, inclinaram-se para uma contraditória teologia racional. Nos desentendimentos entre puritanos, católicos romanos, anglicanos e protestantes, frequentemente se invocava a razão como árbitro.

Os neoplatonistas de Cambridge, invocavam a intuição moral inata, contra o sensualismo de Hobbes. A revolução republicana evidenciou a necessidade da busca de uma unidade no campo da moralidade, que somente poderia ser alcançada pelo livre uso da razão. Em relação ao uso da razão como árbitro, deve-se considerar que muitos homens religiosos costumam limitar o uso da razão, apenas aos casos que não são fundamentais para as suas crenças, isto é, são pensadores apenas quando lhes convém.

Uma característica da filosofia de Hobbes, baseada nos novos conhecimentos matemáticos e científicos, era a rejeição de uma teologia baseada no sobrenatural. Hobbes explicou a diversidade das religiões, como resultado do temor do homem ante o poder dos fenómenos naturais, ou como resultado das reflexões do homem ante a universalidade das relações de causa e efeito em todos os acontecimentos. Dizia Hobbes ainda, que os milagres e a revelação eram altamente improváveis e certamente produto da ignorância e da imaginação. Dizia também Hobbes, que a criação de uma religião positiva por um Estado forte, cujo soberano tivesse o poder necessário para impor as leis e as prescrições oficiais, seria a única alternativa para evitar as brigas entre as religiões. Para amainar estes desentendimentos, propunha Hobbes o caminho da interpretação racional dos milagres e uma crítica histórica dos textos bíblicos. Nas teses de Hobbes nota-se um evidente domínio do racionalismo sensualista, isto é, provindo da percepção da realidade pelos sentidos.

Este racionalismo de Hobbes, ficou limitado na sua aplicação ao homem e o seu comportamento moral, e não se estendeu aos conceitos de Deus. Foram Spinoza e Bayle que deram ao Deísmo, a característica da sua aplicação universal a todos os campos do conhecimento, inclusive ao conhecimento de Deus.

Viajantes que voltavam da China, da Índia, da Arábia, do Egipto, da Pérsia, trouxeram notícias de outros povos com outras religiões e outras filosofias, tornando inevitável à comparação dessas filosofias e dessas religiões, com a religião dos povos do cristianismo. Estas comparações foram exaltadas por Locke e reforçadas pela ciência natural de Isaac Newton.

Newton e Bayle, partiram para a reconciliação dos credos com a metafísica mecanicista, da auto-suficiência de um Universo desenvolvendo-se pelas suas próprias leis e pelas suas próprias forças. Tem-se aí uma mescla da teoria do conhecimento sensualista de Locke com uma teologia mecanicista, um criticismo histórico da revelação e uma Ética apriorística inata.

Em outras palavras, o Deísmo inglês é uma mescla do conhecimento da realidade através dos sentidos, com uma metafísica baseada na auto-suficiência do Universo no seu desenvolvimento, reforçada por uma crítica histórica dos textos bíblicos e regras de moral preestabelecidas pela natureza. Esta impossível concordância, permaneceu como característica do Deísmo Inglês, até quase o final do século XVIII.

Em 1688, sob a intervenção de Guilherme de Orange, apoiada pelo Parlamento, houve a segunda Revolução Inglesa, ou a Revolução Gloriosa, que até 1694 produziu a Declaração dos Direitos, a limitação do poder real, a consolidação das liberdades tradicionais e a liberdade de imprensa. A tolerância resultou na diversificação das tendências políticas, no abrandar da ortodoxia dos dogmas religiosos e na definição de um padrão de demonstrações favoráveis ao conteúdo da revelação.

Locke, e também John Toland, defenderam a tese de que o conteúdo da revelação e os princípios religiosos, nada poderiam conter que contrariasse a razão, mas que a religião seria necessária para instruir o conhecimento humano, quanto à sua relação com o sobrenatural.

Foi Mathew Thindal quem estabeleceu o texto básico do deísmo inglês, segundo a proposição de Locke, e quem buscou uma identificação da revelação com a razão, aduzindo uma nova ordem de argumentos em defesa dessa posição.

Dizia Thindal, que a bondade de Deus, a grande extensão da Terra e a longa vida do homem, mostrariam como improvável que somente os judeus e os cristãos poderiam ser favorecidos com a graça de receber a fé, ficando o restante da humanidade, sem direito a ela.

Citou como exemplo, os milhões de chineses, que não obstante seguirem preceitos morais rígidos, não teriam direito a fé, simplesmente porque os princípios práticos do seu confucionismo, contrariavam pontos da lei mosaica; por outras palavras, não teriam direito a fé por terem nascido na China.

Para Thindal, pode-se encontrar em todas as religiões o substrato da fé, por ser ele tão antigo quanto à criação. A doutrina do pecado original, por exemplo, não pode ser exclusiva das religiões bíblicas, pois a não ser que seja irracional, deveria ser encontrada em todas as religiões de todos os povos.

Porém mostra-se ortodoxo, quando concorda que Judaísmo e Cristianismo conheceram a revelação directamente, apesar de confirmar que a crê identificada com a lei natural. A primitiva e incorruptível fé, é a prática da moral em obediência à vontade de Deus, expressa pela lei natural, e que esta foi a doutrina que Jesus ensinou.

Mas de todos os deístas ingleses, David Hume, foi sem dúvida, o mais influente. Ele condensou o criticismo deísta e o emancipou de uma concepção racional de Deus e da sua característica de interpretação histórica. Ele livrou a teoria do conhecimento de Locke, da teologia mecanicista e confinou o pensamento humano aos limites da percepção dos sentidos, partindo dos simples factos da experiência e não de normas ético-religiosas.

Fazendo a distinção entre o problema metafísico, do conhecimento da ideia de Deus pela razão e o problema histórico da origem das religiões, afastou a hipótese de se poder chegar ao conhecimento de Deus através da razão. Atribuiu a origem das religiões, a uma má interpretação da experiência. Na sua conhecida crítica aos milagres, opôs à possibilidade da sua ocorrência a possibilidade de erro, por parte do observador ou dos historiadores.

Para Hume, as experiências humanas são sempre afectadas pela ignorância, pela fantasia, pela presença da esperança e do medo, e isto explicaria suficientemente as religiões. Estas fundamentais correcções na tese deísta, feitas por Hume, não foram percebidas pelos seus contemporâneos ingleses. Os princípios deístas adquiriram importância no século XIX, com o cepticismo, o pessimismo ou o panteísmo, ainda que a concepção de uma religião natural tenha continuado com as suas velhas características inglesas.

Vê-se assim, que o Deísmo inglês praticamente voltou a ser ortodoxo, por não ter ousado estender o uso da razão a todos os sectores do conhecimento humano, tendo por isto estagnado ao findar o século XVIII. Para os deístas ingleses, a religião natural, a existência de Deus e a imortalidade da alma humana, continuaram sendo conceitos universais.

O Deísmo chegou a França no início do século XVIII, sob influência dos pensadores ingleses, mas sem mais aquela ligação com a religiosidade destes. O deísmo francês, deixou de lado a teologia, que sempre se constituía no maior obstáculo ao progresso do deísmo na Inglaterra. Dos deístas ingleses, os que deixaram maior influência no pensamento dos franceses foram Hobbes, Locke, Shaftesbury, Pope, Bolingbroke e Hume.

Os Deístas franceses foram por ordem de ano de nascimento:

  • Charles Montesquieu (1689 – 1755);
  • François Marie Arouet (Voltaire) (1694 – 1778);
  • Chevalier de Jaucourt (1704 – 1779);
  • Jean Jacques Rousseau (1712 – 1788);
  • Denis Diderot (1713 – 1784);
  • Claude Helvetius (1715 – 1771);
  • Etienne Bonnot de Condillac (1715 – 1780);
  • Jean D’Alembert (1717 – 1783);
  • Robert Turgot (1721 – 1781);
  • Paul Flenri Holbach (1723 – 1789);
  • Marie Jean Condorcet (1743 – 1794).

O deísmo em França, apesar destas influências, assumiu uma característica materialista e revolucionária, ao deixar de lado o seu aspecto religioso, e no seu estudo merecem especial referência Voltaire, Rousseau, o Círculo de Holbach e o grupo dos Enciclopedistas.

Voltaire abraçou com entusiasmo a tese da religião natural e logo entrou em polémica com a Igreja que ele condenava, tanto pela sua intolerância e pela sua ligação espúria com o Estado, quanto por causa da sua filosofia e pelo seu falso cartesianismo religioso. Ele derivou a sua filosofia natural, dos pensamentos de Newton e de Samuel Clarke (1675 – 1729), a sua teoria do conhecimento e as suas ideias de tolerância, de Locke, os seus princípios éticos, de Shaftesbury, o seu método crítico e a sua concepção da religião natural, dos Deístas. Pode-se dizer que a sua filosofia é totalmente de origem inglesa.

Dizia Voltaire, que todos os fenómenos históricos podem ser explicados pela interacção do homem com o seu meio ambiente e pela intervenção indirecta de Deus através das leis naturais. A moralidade e a religião natural não seriam inteiramente inatas, mas sem dúvida simples e universais condições do desenvolvimento, seguindo o seu curso através de erros e acertos, da ignorância e do medo. Dizia mais, que por isto o deísmo ficara repleto de conteúdos religiosos, por se restringir ao campo da moralidade e da racionalidade restrita ao mundo físico.

Para Voltaire, tudo o que caracteriza a natureza humana é o mesmo em qualquer parte, dependendo a sua variação apenas da variação dos costumes e das condições de vida. O que principalmente influencia o pensamento, são o clima, o governo e a religião, sendo que a submissão inconsciente a estes factores costuma produzir um modelo padrão de princípios doutrinários e de comportamento, que acaba levando ao fanatismo, que é a causa primeira de desentendimentos entre as religiões. Os dogmas incorporam aquele modelo padrão e por isso são a principal causa do fanatismo. Só uma moralidade consciente pode inspirar a harmonia.

O surgimento de uma religião positiva, pode ser estudado psicologicamente nas crianças e nos selvagens, e este estudo mostrará que o medo e a ignorância das leis da natureza estão sempre entre as primeiras causas. Paralelamente, surgem os grupos sociais que, gerando a necessidade de uma autoridade, são a causa subsequente. Somente na China, a religião escapou desse pernicioso desenvolvimento. Foi a Índia que se tornou a sede da especulação teológica e com isso influenciou as religiões do ocidente. Entre as mais importantes, estão o Judaísmo e os seus parentes próximos, o Cristianismo e o Islamismo.

Moisés foi o sagaz líder religioso e político que levou os Israelitas para uma vida difícil no deserto e lhes impôs um Deus que proveria todas as suas necessidades se o obedecessem e os castigaria se não o fizessem. Este temor de Deus foi transmitido ao Islamismo e ao Cristianismo. Os profetas judeus foram tão entusiastas da sua religião, quanto foram os dervixes muçulmanos e os primeiros líderes do cristianismo. Jesus foi um visionário, tanto quanto o foi o fundador dos Quackers, e a sua religião cresceu graças à sua união com o platonismo.

Os conceitos de Voltaire, a respeito da evolução da história, penetraram profundamente na cultura europeia. Com relação ao meio ambiente e ao bom senso, dos quais Voltaire é o mais representativo defensor, nasceu uma escola que levou a doutrina do mecanicismo (evolução do Universo pelas suas próprias leis e forças) e do sensualismo (percepção da realidade através dos sentidos) às suas últimas consequências, evoluindo para a filosofia do materialismo.

Os enciclopedistas removeram radicalmente do Deísmo, o grande factor da religião natural, conservando somente o seu método critico em relação à história das religiões e ao conteúdo da revelação. O idealizador desta escola foi Denis Diderot, que reuniu em torno do seu projecto, um elenco de destacados iluministas e foi em razão disto que a Enciclopédia se tornou o grande instrumento de expressão do Iluminismo.

A censura do Estado e da Igreja, obrigou os idealizadores da obra a aceitar contribuições literárias de autores conservadores, de modo a tentar estabelecer um equilíbrio entre as duas forças. Esta colaboração forçada, tomou a projectada visão céptica e racional da obra dos enciclopedistas, compromissada com a defesa da revelação. Diderot providenciou para os tópicos conservadores mais importantes, a subtil inclusão de referências cruzadas, que os ligaram a artigos fundamentados no espírito de Bayle, reduzindo o seu impacto conservador sobre os leitores. Diderot foi bem sucedido na aplicação dessas correcções.

Foi o círculo de Holbach que ousou aplicar até às suas últimas consequências, o materialismo às questões religiosas. Helvetius expôs os princípios de uma psicologia materialista e ética, tomando as suas teses um arsenal de instrumentos contra todas as religiões e as suas consequências, a intolerância e a corrupção moral.

Holbach foi sem dúvida, o autor do Sistema da Natureza, mas a sua tese não é original na descrição da origem das religiões e da sua relação com o medo, com a esperança e com a ignorância das leis da natureza. Fraude, ambição e entusiasmo doentio já tinham sido usados por outros pensadores, como ingredientes de influências políticas e sociais que sempre acabariam cristalizados como credos, com tendências animistas geradoras de sistemas metafísicos e teológicos, origem da intolerância irracional.

Dos círculos de Holbach e do grupo dos enciclopedistas, nasceu a assim chamada escola ideológica, cujo problema filosófico principal foi a análise das concepções mentais originadas das sensações vindas do mundo material. A partir dessas escolas, mas à parte delas, desenvolveu-se o positivismo de Comte.

Rousseau deu uma tendência diferente ao Deísmo, aceitando como essenciais, o sensualismo de Locke (todo conhecimento provém, e só provém das sensações), os princípios da filosofia natural de Newton e de Clarke e à maneira de Shaftesbury e de Diderot, a crença em instintos morais inatos definidos como percepções distintas de meras ideias adquiridas.

Rousseau manteve-se fiel à posição deísta de ligar esta moral da percepção à crença num Deus, e colocou-se contrário a separação entre estas ideias inclusas no cepticismo de Diderot (o homem não pode chegar a qualquer conhecimento indubitável). Rousseau deixou-se influenciar por Richardson, tanto quanto por Locke, e para ele a percepção moral, tornou-se a base de um sistema metafísico construído a partir dos dados da experiência sob a influência da filosofia deísta, mas livre de constantes referências ao formalismo sentimental e emocional como origem das religiões. A origem das religiões não é dogmática.

Por isto, Rousseau e Voltaire não acham a religião produto de cultura intelectual, mas da ingenuidade e da indiferença dos incultos. O consciente e o progresso racional da civilização resultam no declínio, quando a opção pelo progresso intelectual se confunde com o simples bem-estar. Com Rousseau, a religião natural toma um novo sentido. A natureza não é mais universalidade ou racionalidade na ordem cósmica como contraste entre o sobrenatural e os fenómenos positivos, mas sim é a sinceridade e a simplicidade primitivas em comparação com artificialidade da estudada reflexão.

No seu projecto do surgimento das religiões. Rousseau saiu do entendimento comum das discrepâncias e das contradições entre os credos históricos. Até então, a religião positiva não era tanto o produto da ignorância e do medo, quanto da corrupção do instinto original pelo egoísmo do homem, erigindo credos rígidos que lhe garantissem injustificados privilégios ou escape da moralidade natural.

Para Rousseau algo da verdadeira fé encontra-se em todas as religiões, e de todos os credos, o Cristianismo seria o que reteve o melhor da fé original e a moralidade mais pura. Foi desta maneira tão simples e sublime que interpretou o evangelho e ele mesmo quase não o pode crer como obra humana.

Atribui os elementos irracionais da doutrina de Jesus, à má compreensão dos seus seguidores, mais especialmente Paulo que não esteve pessoalmente com ele, Seria natural que entre os adeptos desta visão e os materialistas houvesse desentendimentos.

A religião de Rousseau teve pouca repercussão em França, mas foi grande a sua influência no surgir do idealismo de Moses Mendelsohn (1729 – 1796), na Alemanha, onde o Iluminismo se transformou no pietismo um movimento da Igreja Luterana pela intensificação da pura e verdadeira fé.

Na Itália, aparece Giovanni Battista Vico (1668 – 1744), que procurou formular uma filosofia em bases históricas e científicas, chegando a esboçar a primeira Filosofia da História. Tomou como modelo de toda evolução da história a história ideal dos gregos e dos romanos. Dizia Vico, que a história das nações e das civilizações começa com uma idade divina, passa para uma idade heróica e depois retorna à barbárie como tinha acontecido com gregos e romanos.

Em outros países europeus não houve flagrante evolução do Iluminismo.

(Continua – Ligação para a Parte III)

Ambrósio Peters

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