Iluminismo e Maçonaria (Parte III)

(Continuação – Ligação para a Parte II)

Iluminismo e a Maçonaria

O propósito deste capítulo é fazer uma análise crítica da frequente afirmação, de que a Maçonaria Moderna teria sofrido uma influência negativa do Iluminismo, e que esta influência a teria desviado para um suposto lado anticristão, causando o abandono das primitivas raízes cristãs dos Maçons Medievais.

É preciso repetir, que a Maçonaria Moderna não é de forma alguma uma sociedade sucessora dos Maçons Medievais, apesar de ter herdado deles alguns usos e costumes, de significado doutrinário neutro e de ter absorvido deles o espírito de assistência mútua. Mas isto não equivale a uma comparação entre as suas essências.

Segundo os capítulos iniciais deste livro, pode-se situar o surgimento da Maçonaria Moderna entre os anos de 1534 e 1561, podendo-se dizer que é o fruto indirecto da intranquilidade social, provocada pela disputa religiosa entre o Catolicismo e o Anglicanismo, pelo domínio religioso de Inglaterra. Foi esta intranquilidade que levou muitos homens cultos ingleses, não alinhados com o anglicanismo, a se aproximar dos Maçons Medievais, como já visto no capítulo “Maçonaria Moderna”. Os novos Maçons Modernos, que se chamam francomaçons-aceitos, eram homens de uma classe social mais culta, ao passo que os Maçons Medievais, continuaram a ser profissionais da construção.

Encarando desta forma, deve-se considerar todos aqueles itens herdados e esse envolvimento religioso directo ou indirecto, apenas como a estrutura palpável ou o sustentáculo perceptível da Maçonaria Moderna. A sua essência contudo, nada tem a ver com isto, pois ela sempre foi desde o seu início, um centro de formação de fraternidade universal entre os seus membros e da defesa da liberdade política e religiosa, isto é, da liberdade individual de cada um, de procurar com a consciência tranquila e sem oposições, o seu próprio destino numa fraternidade universal.

Esta é a parte mais importante da Maçonaria Moderna, pois é o que faz a diferença com as guildas da Maçonaria Medieval, que não passavam de meras organizações assistenciais. Estas guildas não eram fraternidades, devido à sua finalidade material, pois destinavam-se à defesa de interesses trabalhistas e à assistência mútua.

A Maçonaria Medieval era Cristã? Evidentemente que era, pois na Idade Média da Europa Ocidental, tempo em que se formaram e floresceram as guildas, havia apenas uma Igreja, e alguém ou alguma associação que não lhe pertencesse, tornar-se-ia socialmente marginalizado, isto é, excomungado.

A defesa de direitos trabalhistas e comerciais nunca foram o objectivo da Maçonaria Moderna, o que evidencia claramente que ela não é a sucessora da Maçonaria Medieval. A forma exacta como a Maçonaria Moderna herdou dos Medievais aquela estrutura palpável, ainda não foi inteiramente desvendada, porque não há documentos que comprovem qualquer das teorias já aventadas.

A primeira notícia que se tem da Maçonaria Moderna, diz que a Rainha Elizabete lhe deu apoio porque era uma sociedade que se mostrava alheia a motivos políticos ou religiosos, sendo já então uma entidade neutra, religiosa e politicamente. E muito natural que assim fosse, pois o período entre o cisma de Henrique VIII em 1534 e a primeira notícia de 1561, foi pleno de perturbações políticas em que se debatiam não só o anglicanismo e o catolicismo, mas também as novas religiões que se criavam na Europa com a Reforma de Lutero.

É por isto, que o “Os Deveres do Maçon” e o “Regulamento Geral” no Livro das Constituições da Grande Loja de Londres, de 1723, não fazem nem uma única referência a um Ser Supremo, referindo-se no artigo 1, “De Deus e da Religião” superficialmente a um vago ateísmo estúpido. O adjectivo estúpido, refere-se a um ateísmo por decepção ante os males do mundo, que um Deus Todo Poderoso podia evitar e não evitava.

O termo “ateísta estúpido” ali empregado, não se refere obviamente ao racionalismo em relação à existência de Deus, que nunca chegou a ser defendido pelos deístas ingleses. Ateísmo estúpido é portanto uma expressão deísta, pois o deísmo inglês nunca negou a existência de Deus, já que apenas afirmava que o conhecimento dele não estaria ao alcance do homem. O ateísmo racionalista somente viria com os iluministas franceses, depois de 1723.

Assim como a Maçonaria inglesa não contemplou uma crença num Ser Supremo na sua primeira Constituição, assim também O Grande Oriente de França eliminou da sua Constituição, a obrigatoriedade da crença num Deus Supremo, no ano de 1877, pelos mesmos motivos, isto é, para preservar a neutralidade religiosa.

Nesta atitude, o Grande Oriente de França igualou-se à Grande Loja de Londres, que até a formação da Grande Loja Unida de Inglaterra, em 1813, também não exigia oficialmente essa obrigatoriedade, tanto que um dos motivos principais da grande loja opositora, chamada Grande Loja dos Antigos, foi a acusação de que a Grande Loja de Londres permitia a admissão de não-cristãos. O certo é que, tanto a Maçonaria Inglesa da Grande Loja de Londres surgiu e cresceu par a par, com o Iluminismo Inglês, quanto a Maçonaria francesa, do Grande Oriente de França, surgiu e cresceu par a par, com o Iluminismo Francês. Quem influenciou quem? Difícil decidir historicamente, porque essas interacções não deixam registos claros.

A modificação feita pela Grande Loja Unida de Inglaterra, introduzindo em 1813 a obrigatoriedade da crença num “Supremo Arquitecto do Céu e da Terra”, não modificou fundamentalmente o Livro das Constituições de 1723, porque a expressão “Supremo Arquitecto do Céu e da Terra”, não se adapta a nenhuma religião em particular, mas serve para todas, cristãs ou não cristãs. A expressão não passa para os maçons pensadores, de um mero símbolo da Ordem Universal. A própria expressão “crença num Ser Supremo”, contida nos Landmarks, pode ser interpretada como uma simples expressão deísta.

Portanto, analisado esse conjunto de considerações, pode-se dizer que o deísmo inglês não modificou a Maçonaria, pois provavelmente a maioria dos fundadores da Grande Loja de Londres era composta de deístas. Não há indícios claros disso nos documentos históricos, mas todo o conjunto do texto da Constituição de 1723, o indica desde que seja analisado globalmente.

Seria mais apropriado dizer que a Grande Loja de Londres nasceu deísta, e esta é a definição do artigo primeiro dos “Deveres de um Maçon” do Livro das Constituições de 1723, mantido no Novo Livro de 1723.

De outra parte, também os Deístas Franceses, ou os Iluministas Franceses, deram suporte à formação da Maçonaria em França, que acabou optando pela não obrigatoriedade da crença num Deus para os seus iniciandos, o que não torna o Grande Oriente de França ateu.

Na verdade, o Iluminismo Francês não modificou a orientação quanto à religião dos Maçons ingleses, que continuaram acreditando em Deus, nem dos Maçons brasileiros que sempre foram todos cristãos liberalistas mas não iluministas, nem dos Maçons das colónias inglesas que continuaram cristãos, logo predominantemente teístas.

Na verdade, a convivência com o Iluminismo nada mudou na Maçonaria, porque todos os regulamentos do ano de 1723, ainda estão presentes na Maçonaria actual.

Conclusão

O facto de a Maçonaria Moderna ter começado a surgir concomitantemente com o Iluminismo, pode ou não ser mera coincidência histórica.

O deísmo inglês começou a surgir, como vimos anteriormente, com Lord Herbert of Cherbury, ainda ao final da primeira metade do século XVII, momento em que a Maçonaria Moderna já tinha quase cem anos e mostrava um desenvolvimento esplendoroso com o grande Arquitecto Inigo Jones.

Mas esta é a primeira manifestação pública de Lord Cherbury em Londres, que já tinha sido precedida pelo aparecimento de Giordano Bruno no ano de 1583, o qual tinha obtido o apoio da Universidade de Cambridge, onde fez diversas palestras.

Assim, pode-se alongar o surgimento do Iluminismo na Inglaterra para um tempo anterior, e aproximar-se do nascimento da Maçonaria Moderna, em meados do século XVI. Mas esta também foi a época do nascimento do Anglicanismo e a época do surgimento da Reforma religiosa na Europa.

Mas quando se coloca este facto lado a lado com o nascimento da Maçonaria em França, com raízes na Grande Loja de Londres e considera-se que o seu desenvolvimento se deu passo a passo com o Iluminismo Francês, parece que a ideia de mera coincidência histórica perde o sentido.

Relacionaram-se os deístas ingleses separadamente dos deístas franceses, e por ano de nascimento, para poder mais facilmente relacioná-los com dois períodos históricos da Maçonaria Moderna, o período inglês seguido do período francês.

Feita a comparação, viu-se que os deístas ingleses tiveram a parte intelectual mais produtiva das suas vidas entre os anos de 1640 e 1770, exactamente o período em que a Maçonaria Moderna na Inglaterra deu os seus primeiros passos e atingiu o seu auge. Nota-se que na fundação da Grande Loja de Londres, no ano de 1721, a julgar pelo status social dos seus Grão-Mestres, devia haver uma presença dominante de pessoas da alta burguesia e da classe média alta. Anthony Sayer e George Payne eram gentis-homens, Jean Desaguliers era pastor religioso e pesquisador cientifico. Se assim não fosse, nenhum nobre se teria filiado, porque os nobres nunca se filiariam a uma associação frequentada por pessoas não socialmente bem qualificadas.

As novas Lojas Especulativas, que se fundaram nas Américas, perderam o carácter eminentemente iluminista, para assumirem um carácter predominantemente liberalista, principalmente nas disputas políticas que precederam a sua independência ou as suas mudanças de sistema de governo.

Actualmente, em quase todo o Mundo, as Lojas Maçónicas tornaram-se novamente teístas, porque os seus membros, vindos da classe média e não sendo intelectuais, tornaram-se predominantemente teístas e ausentes nas disputas filosófico-religiosas.

Deve-se concluir assim, que as características de Liberalismo, Iluminismo e Teísmo estão presentes nas Lojas individualmente, e não na Maçonaria como um todo. Se uma determinada Loja é Iluminista, ela o é porque a maioria dos seus membros é iluminista, e deixar de sê-lo, quando a maioria dos seus membros o deixar de ser.

Assim, pode-se concluir que nem o deísmo, nem o Iluminismo, nem o teísmo ou o liberalismo, nem qualquer outro “ismo”, influenciaram a Maçonaria como um todo, mas actuaram exclusivamente nas Lojas em que os membros dessas correntes filosófico-religiosas eram a maioria.

Assim, pode-se concluir que o deísmo inglês, até entrar em declínio ao final do século XVIII, contribuiu para o crescimento das actividades da Grande Loja de Londres e que a partir deste declínio, passaram a dominar as Lojas, os maçons conservadores, provocando mudanças constitucionais da Grande Loja Unida de Inglaterra, de 1813. Igualmente, o deísmo francês, contribuiu para as actividades das Lojas do Grande Oriente de França durante o século XVIII, até que a maioria dos seus membros foi dispersa ou morreu na guilhotina, por pertencer às classes perseguidas pelos revolucionários de 1789.

A situação actual das Lojas da Maçonaria Moderna, predominantemente de orientação teísta, evidenciam que influências de correntes filosófico-religiosas são passageiras e jamais deixam uma influência durável sobre a Maçonaria como um todo.

Ambrósio Peters

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