Irmão Moisés, o primeiro Maçon de Facto (Parte II)

(… Continuação)

Especulações instigantes

MoisésUma antiga tradição, colectada pelo historiador Apion (provavelmente na obra de Maneton) refere-se a um sacerdote chamado Osarseph, que se tornou governador de uma província egípcia, onde a maioria dos habitantes era de origem estrangeira. Isto teria acontecido logo depois da expulsão dos hicsos, povo semita que dominou o Egipto durante mais de dois séculos, povo esse que seria aparentado com os hebreus. Apion diz, inclusive, que esse povo, os hicsos, conhecidos como povos pastores, após ter sido expulso do Egipto, emigrou para a Palestina, tendo fundado a cidade de Jerusalém. Assim, é lícito supor que a província acima referida, governada pelo sacerdote Osarseph, pode ter sido Gósen, a terra onde a Bíblia diz que os hebreus habitavam. Esse sacerdote teria vivido na época do faraó Amenhotep IV, e aos vinte anos foi investido no alto cargo de sacerdote em Heliópolis.

  • O nome de Moisés não aparece em nenhum documento egípcio, mas o vizir Osarseph é citado em estelas e inscrições da época como sendo um importante dignitário, que além de exercer funções sacerdotais, também foi governador e mestre arquitecto da casa real, tendo construído grandes monumentos no país. A suposição que aqui se faz é a de que Osarseph e Moisés podem ser a mesma pessoa. Nesse caso o faraó Akhenaton (Amenhotep IV) teria feito de Moisés o Sumo Sacerdote da nova religião que ele quis implantar no Egipto. Podemos inferir também que ele lhe deu o governo da terra de Gósen, onde habitavam os hebreus, seus conterrâneos. Dessa forma, Moisés teve condição de organizar os trabalhadores hebreus numa espécie de Confraria, que teria sido responsável por grandes obras de arquitectura no país. Segundo a Bíblia, os hebreus ergueram as cidades de Tendas, Phiton e Ramsés. As duas primeiras eram cidades armazéns e a última uma cidade santuário que depois foi dedicada ao faraó Ramsés II, que subiu ao trono em 1290 a C, cerca de 35 anos após a fuga de Moisés do Egipto.
  • Gósen é identificada como a antiga Avaris, capital dos hicsos, povo semita que dominou o Egipto entre os séculos XVIII a XV a C. As fontes que nos levam a essa especulação constam dos relatos feitos por Apion e também por Maneton. No entanto, Maneton refere-se a esta organização de pedreiros como sendo composta por hebreus e egípcios expulsos das cidades pelo facto de serem leprosos (o que justifica o facto de Moisés se preocupar tanto com a lepra entre os hebreus e até ter prescrito muitas regras a respeito do tratamento dessa doença.
  • Apion, entretanto, diz que esses leprosos tinham sido postos a trabalhar nas pedreiras para que não contaminassem a população sadia. Lá eles ter-se-iam organizado e escolhido como seu líder um sacerdote de Heliópolis chamado Osarseph, o qual lhes deu uma organização corporativa, que repudiou os deuses do país e adoptou costumes completamente diferentes dos vigentes entre os egípcios. Estes costumes eram muito semelhantes aos que Moisés prescreveu para os hebreus, razão pela qual se sugere aqui que a história de Moisés, conforme contada no Êxodo, talvez tenha origem nesses eventos. ( O Tesouro Arcano- Madras, 2013-São Paulo).

Os hebreus e a sua fama de pedreiros

A Bíblia informa que os hebreus viveram como cativos durante quatrocentos anos no Egipto. Foram libertados por Moisés, depois que Deus castigou os egípcios com dez horríveis pragas, que sobre o país se abateu de forma miraculosa. A nossa opinião é que as chamadas dez pragas do Egipto são, como a grande maioria dos eventos narrados no Êxodo, simbolismos que ocultam ensinamentos esotéricos e não factos históricos que realmente ocorreram tais como foram descritos.

Esta opinião baseia-se no facto de a Bíblia se constituir num grande repertório de simbolismos e conhecimentos arcanos, que precisam ser efectivamente decodificados para assumir o seu real significado. Noutro ensaio exporemos o nosso entendimento a respeito desses singulares contos que envolvem as Dez Pragas do Egipto, os Dez Mandamentos, a Dez Séfiras da Árvore da Vida, e outros simbolismos semelhantes. Eles são, na nossa opinião, alegorias alicerçadas no mesmo arquétipo. Por ora só apontaremos que existe uma relação simbólica entre esses três elementos da tradição hebraica e que eles estão conectados com conhecimentos arcanos de grande importância, transmitidos pela ciência da Cabala.

A Bíblia não informa a data em que os hebreus imigraram da Palestina para o Vale do Nilo, mas o calendário hebraico regista que esse Êxodo ocorreu em 2448 a C. ano que corresponde, no calendário cristão, ao de 1453 a. C. Assim, se os hebreus viveram no Egipto durante 430 anos, é lícito supor que eles para lá devem ter imigrado depois de 1800 a. C. Essa data foi inferida pela informação contida em Reis, 6;1. Ali se diz que o Êxodo teria ocorrido 480 antes do início da construção do Templo de Jerusalém. Como essa construção começou por volta de 1112/1113 a.C., chegamos, por dedução, às datas acima mencionadas.

Por outro lado, se tomarmos por base os trabalhos de Apion e Maneton é possível calcular que essa imigração tenha ocorrido entre 1780 e 1580 a C, numa época em que o Egipto estava sendo governado pelos hicsos, povo semita que se supõe ser da mesma origem que os hebreus.

Apion, segundo Flávio Josefo, (Contra Apião, Livro I, Cap. 26, 28), informa-nos que os hicsos imigraram para o Vale do Nilo e conquistaram o Egipto sem luta, mas por terem religião e cultura diferente dos egípcios, acabaram “destruindo cidades e “os templos dos deuses”, provocando grande matança e devastação no país”.

Informa também esse autor, que os seus “reis pastores” governaram o Egipto por cerca de duzentos anos, estabelecendo a sua capital no Delta do Nilo, na cidade de Aváris. Mas por volta de 1580 a C. um faraó de nome Amósis, comandou uma campanha militar contra Avaris e expulsou os hicsos de volta para a Palestina. Lá eles fundaram Jerusalém. Essas informações, todavia, são refutadas por Flávio Josefo, que acusa Apion de farsante e falsificador da história hebraica, pois que tira dela o seu carácter heróico e transcendental, conforme narrado na Bíblia. (Flávio Josefo, Contra Apião, Vol. I, pág. 73-105 § 14-6; pág. 223-232 § 25-6).

Todavia, Apion também informa que um grupo de 80 mil leprosos e doentes, após a partida dos hicsos, teria recebido permissão do Faraó para se estabelecer em Aváris. Esses leprosos, eram, na sua maioria, descendentes dos hicsos, e mais tarde se rebelaram e chamaram de volta os “reis pastores”, que voltaram para destruir cidades e aldeias e “cometer sacrilégio contra os deuses egípcios”. Por fim, teriam sido derrotados e expulsos do país. Esses últimos, segundo infere Apion, seriam os hebreus do Êxodo.

A versão de Apion, embora contestada por Flávio Josefo e oposta ao que escreveram os cronistas bíblicos, parece estar mais de acordo com a verdade histórica. Afinal, não se encontrou ainda na vasta historiografia egípcia desenterrada pelos historiadores e arqueólogos, qualquer menção à passagem do povo hebreu pelo Egipto na época mencionada pela Bíblia, nem dos prodígios ali narrados. Tudo leva a crer que os sucessos referidos nas crónicas bíblicas se referem à memórias de factos ocorridos no Egipto na época dos hicsos, envolvendo os ancestrais dos hebreus, que ali viveram e se envolveram nos conturbados acontecimentos que se seguiram à expulsão daquele povo, particularmente a famosa revolução monoteísta promovida pelo faraó Akhenaton.

É dessa forma que sustentamos a nossa especulação com respeito às origens da tradição maçónica sustentada na experiência israelita e a ideia de que Moisés teria sido o verdadeiro fundador dessa tradição. Essas inferências podem ser recenseadas em todos os rituais maçónicos e estão insertas em praticamente todos os ensinamentos dos diversos graus. Por isto a nossa assertiva de que Moisés teria sido o primeiro Maçon de facto.

João Anatalino Rodrigues

Bibliografia

  • Anatalino, João – O Tesouro Arcano, Ed. Madras, São Paulo, 2013
  • O Parto de Deus – A Bíblia em Sonetos- SuzanGraf- Suzano, 2016
  • BUDGE, Ernest Wallis. The Gods of Egipcians, Vol. I e II. New York, Ed. Dover, 1969
  • DODSON, Aidan, The Hieroglyphs of Ancient Egypt. Barnes & Noble, New York, 2001
  • OSMAN, Ahmed, Moisés e Akhenaton, São Paulo, Madras, 2007

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Um Comentário em “Irmão Moisés, o primeiro Maçon de Facto (Parte II)

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    Meu caro Ir.´. João Anatalino,

    Muito interessante este assunto sobre “Moisés.”
    Muito obrigado.

    T.f.a.
    Franco Perrone

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