Jazigo dos Duques de Palmela – Uma simbólica Maçónica

Jazigo da família Palmela – Uma simbólica do Antigo Regime e da Ordem Maçónica

Jazigo dos Duques de Palmela
Jazigo dos Duques de Palmela

O visitante que movido pela curiosidade entre no Cemitério dos Prazeres e virar na primeira rua à direita, duzentos metros depois, depara com um monumental jazigo, em forma piramidal, rodeado por um comprido gradeamento. Verificará que à frente da necrópole e seguindo a vedação se prolongam duas filas de sepulturas de terra batida, facto que só por si lhe chamará a atenção num cemitério tão densamente marmorizado e logo em frente a um dos seus mais imponentes jazigos. Ao fundo, voltado a ocidente, no local mais distante (se o visitante seguir o itinerário proposto) um portão gradeado que se encontra aberto dar-lhe-á acesso a este espaço. Se porventura entrar, está no jazigo da família Palmela. Uma ampla avenida com sepulturas térreas de ambos os lados, sendo reconhecíveis pela fixação de pequenas cruzes, envolvida por ciprestes, alguns dos quais o tempo envelheceu, abre- se à frente e termina, cerca de trinta metros adiante, à porta do enorme jazigo.

O visitante acaba de penetrar num espaço de mortos, mas, visto de outra maneira, penetra num mundo onde o imaginário dos vivos prefigurou a ideia da morte e a materializou naquela manifestação arquitectónica, carregada de símbolos que são a memória do tempo e o discurso sobre as últimas finalidades da existência.

É que o Homem, sendo o único ser em cujo universo vivencial tem sempre omnipresente a consciência da finitude [1], também é o único para quem o sonho da imortalidade é o motor de crenças e fés, de esperanças e desejos, e que o conduz a traçados ontológicos em que a própria morte é negada. Basta que se tenha esse referencial de longa duração – as ritualizações funerárias que cruzam todos os tempos e todas as civilizações – para logo se perceber que sempre se indagou o futuro do finado, recusando a putrefacção do corpo como o iniludível e definitivo fim da existência, porque é “convicção do homem de que a continuidade da vida é um dos dons supremos da religião, que julga e escolhe a melhor de duas alternativas – a esperança da continuidade da vida e o receio da aniquilação[2].

No caso concreto, o Cemitério dos Prazeres coloca-nos perante a evidência desse receio que, dissimulando o cadáver, conduz à construção de “moradias” dos mortos – jazigos e sepulturas marmorizadas – que procuram iludir a terra, enquanto factor interveniente na putrefacção.

A “morte romântica” [3] exacerbada pela soteriologia cristã da salvação individual e pelo estabelecimento de uma relação intimista do morto com o círculo familiar mais próximo sobredetermina uma postura mun-dividencial que conduz à construção de jazigos que procuram panteonizar o morto e, por outro lado, transformar o espaço do “repouso eterno” num outro lar, onde a família se encontrará, depois da vida terrena, na esperança da redenção colectiva no dia do Juízo Final. De certa forma, e com as devidas cautelas, poder-se-á pensar que estamos perante uma reinterpretação da escatologia de Antigo Regime que predizia a salvação dos crentes – vivos e mortos -, conduzindo à inumação ad sanctos, apud ecclesiam. onde o espaço físico da Igreja coincidia com o espaço do imaginário que alimentava este teleologismo. Agora, afastadas as inumações das igrejas pelo combate liberal [4], o jazigo de família continuava a perpetuar o reencontro dos mortos na outra vida, ainda que sobre novos postulados escatológicos.

Desta forma, o jazigo é construído segundo ditames de crença religiosa e de valoração social, como se aqueles que manifestassem maior esplendor arquitectónico pudessem aspirar a lugar mais acolhedor no reino de Deus. E evidente que falamos da arquitectura funerária catolicizada. Porém, se o século XIX assistiu à sobrecarga dramática da morte, também foi o século da activa luta pela laicização da sociedade, procurando não só a secularização da vida social e política, e por aqui perseguindo a construção de um Estado de formulação liberal, como no mesmo contexto, para a resolução da questão religiosa, a expropriação da tutela dos mortos à Igreja, inumando-os em cemitérios de administração municipal afastados da urbe é indissociável da consolidação do poder monárquico-constitucional [5].

Os argumentos higienistas, as doutrinações de inspiração racionalista e positivista encetadas por liberais, republicanos e socialistas sustentavam uma nova postura teleológica que consubstanciava uma ideia de imortalidade, não pela crença numa vida transcendental, mas pela eternização do morto, presentificado como vivo pela incorporação subjectiva na memória da comunidade [6]. Ora este tipo de religiosidade cívica, se criou uma arquitectura cemiterial despojada de símbolos religiosos (entenda-se católicos), não foi capaz de substituir o discurso de ressurreição legitimado pela Igreja. E se quisermos perceber mais profundamente as razões deste inêxito dos militantes laico-liberais, pensamos que. entre outras explicações que não iremos aqui chamar, foi o facto de fone contingente dos adeptos deste tipo de militantismo serem maçons. Se no terreno da luta política e anticlerical eram os arautos das novas ideias, os arautos da elite pensante que procurava um Portugal renascido dos escombros do Antigo Regime, em termos individuais a prospecção que faziam das finalidades da existência era ritualizada nas Lojas, no cume do drama litúrgico maçónico, pela morte e ressurreição de Hiram. arquitecto do Templo de Salomão [7]. Positivistas na política, laicos na acção pública, no segredo dos Templos questionavam os problemas metafísicos da existência e mesmo quando funcionaram como os apoios de organização à luta no “mundo profano”, os maçons, com raras excepções [8], continuam ligados à religião cristã, em cuja liturgia se inspiram os rituais maçónicos.

Não iremos discutir aqui as relações entre a Igreja Católica e a Maçonaria [9]. Importa- nos, sobretudo, relevar a seguinte ideia: muito embora as relações entre as duas instituições não possam ser consideradas de pacíficas, no decurso do século XIX. em termos de opções individuais a luta anticongreganista não coincidiu com a renúncia dos maçons ao discurso soteriológico cristão e se tivermos em conta a normatividade constitucional produzida peio liberalismo, ficamos cientes de que a religiosidade, em termos de aceitação dos princípios espirituais defendidos pela Igreja, não era incompatível com a revaloração dos limites do sagrado e do profano que os maçons colocavam.

Não vale a pena continuar a reflexão. Basta que se conclua que a redução maniqueísta que alguns pretendem ver, a Maçonaria contra a Igreja e vice-versa, peca por excessiva pelo que apresenta de simplismo.

Uma Simbólica de compromisso

À luz deste contexto onde entendemos que as manifestações ritualizantes da morte nos descobrem as posturas mundividenciais dos vivos perante esse acto definitivo já que, impossibilitados de conhecer a nossa própria morte, a revemos na morte do Outro [10], regressemos ao jazigo da família Palmela.

Pedro de Sousa Holstein, 1º Duque de Palmela
Pedro de Sousa Holstein, 1º Duque de Palmela

Iniciada a construção em 1846, quatro anos antes da morte do 1º Duque, D. Pedro de Holstein, sob a direcção do arquitecto italiano Cinátti, o jazigo de família ficará pronto em finais de 1848 [11]. Quando ocorreu a sua morte, em Outubro de 1850, já se encontravam depositados no mausoléu três mortos da família [12].

Importa, pois, não esquecer que o jazigo é pensado e decidida a construção pelo seu proprietário. Por essa razão, ainda que condicionada pela “leitura” arquitectural que Cinátti fará em termos de projecto, não temos muitas dúvidas em afirmar que o discurso simbólico que atravessa aquele espaço cemiterial reflecte, em primeira instância, a postura do Duque perante a morte que, de certa forma, é uma projecção do que foi a sua vida pública, isto é, o compromisso entre o velho e o novo, entre o fidalgo ainda imbuído de resquícios de comportamentos herdados do Antigo Regime e o homem que., influenciado pela experiência liberal inglesa, se coloca na primeira linha da defesa do cartismo [13].

Se não cabe neste breve estudo o relato da sua vida e obra, não deixa de ser surpreendente como, antes da Regeneração, numa fase embrionária do arranque das construções cemiteriais marmorizadas, onde as manifestações do simbolismo laico e maçónico não tinham expressão significativa [14], como a concepção deste monumento funerário rompe com as formas convencionais, catolicizadas. dos primeiros jazigos e propõe um discurso em vários planos ontológicos, onde surgem indissociáveis a expressão da teleologia cristã e a simbólica maçónica no que concerne à evolução do Ser.

Espaço e Memória

Numa primeira observação, a distribuição do espaço de inumações parece influenciado pela natureza do sepultamento do Antigo Regime. O jazigo, no qual eram depositados os restos mortais da Família e o jardim circundante onde se enterravam os servidores da Casa Palmela, conduz-nos, por um lado, à ideia de relações verticais de solidariedade de tipo senhorial, e, por outro, ao discurso redentor da Igreja pré-iluminista, onde a salvação colectiva era assegurada pelo sepultamento ad sanctos, apud ecclesiam. Na realidade esta estratégia sacralizadora do espaço de sepultamento coincidia com o espaço do imaginário que recriava a ressurreição dos corpos no dia do Juízo Final e projecta-se no modelo funerário que albergava na ágora os mortos de titulatura e no jardim, em vala ou coval, os melhores e mais fiéis servos [15]. O Anjo da Morte que encima a cúpula piramidal do monumento segura a cruz numa clara identificação com a soteriologia católica e a capela do mausoléu contém os elementos iconográficos do sofrimento cristão: um Cristo crucificado, de construção barroca, as pinturas do tecto e a multidão de anjos e querubins que envolve o painel central da capela conduzem ao universo das esperanças do “repouso entre o esplendor da luz perpétua”.

Não estranha esta atitude. O Duque é católico e, por isso, a prospecção que faz da vida para além da morte assenta nesta crença. E se esta capela nos apresenta outros sinais em que a mundividência laica se afirma em pleno, nomeadamente na estatuária feminina, das quais Teixeira Lopes assina duas esculturas em mármore de Carrara de rara beleza, não podemos esquecer que tal invasão do terreno sagrado ocorre já nos finais do século e sob as ordens do 3º Duque de Palmela.

Porém, ao tempo da construção este catolicismo vincadamente tradicionalista é uma expressão da culturização do primeiro patriarca. Se atentarmos no percurso biográfico de Palmela, na sua educação e nos princípios defendidos, com segurança captamos os resíduos da antiga atitude cavaleiresca, onde o valor da guerra e da honra possuíam especial significação. A apresentação voluntária para combater contra os invasores franceses, o Manifesto dos Direitos de Sua Majestade Fidelíssima a Senhora D. Maria II, que escreve em Londres de parceria com José António Guerreiro, os esforços para os pagamentos das dívidas decorrentes da luta anti-miguelista que o leva à venda dos bens de família revela-nos essa feição da velha nobreza, à qual não terá sido estranha a influência do Duque de Lafões, de quem foi ajudante quando tinha vinte anos [16].

Porém, essa permanência da memória antiga integrava novas influências de pendor iluminista. A monarquia constitucional inglesa, a experiência vivida em Roma, quando aí acompanhou seu pai, e o levara a apaixonar-se pelos estudos da Antiguidade Oriental, não serão estranhos à sua acção política, onde sempre defendeu de maneira coerente a Carta Constitucional, e integram o seu conceito de morte que justifica a forma piramidal do Jazigo. Sabendo-se da “egiptomania” que agitou a Europa desde o séc. XVIII, o fascínio pelo estudo da terra das pirâmides e da visão optimista da morte polvilhou os cemitérios ocidentais de jazigos com esta forma geométrica [17].

Solidifica esta convicção, que vimos desenvolvendo sobre as características de Antigo Regime que estiveram na base do projecto, o facto de o Jazigo ter sido pensado e projectado para ser construído, não no interior do cemitério romântico dos Prazeres. mas na propriedade do Duque. Se ignoramos as razões que o conduziram a integrá-lo no espaço cemiterial, não lhes devendo ser estranhas as imposições legais que obrigavam aos enterramentos nestes recintos, o que sabemos é que inicialmente o Jazigo/Capela fora concebido para ser fixado nos seus terrenos particulares e que se confrontavam a sul com os limites do cemitério. Só na altura em que se inicia a construção, isto é, depois de todo o processo de criação arquitectónica. é que vai doar uma larga porção de terreno à Câmara Municipal, por forma a que o Jazigo fique no interior dos Prazeres. É nesta linha que se deve compreender o ofício dirigido pela edilidade ao responsável do cemitério [18] que autoriza o Duque a construir o novo muro norte “afim de metter para dentro delle as terras que possue, e lhe ficão contíguas, as quaes cedeu à municipalidade: devendo contudo V. prevenir os operários para que não derrubem o muro que ora existe, sem estar construído o outro, ou então que seja tapado de modo a que tal não fique devassado o Cemitério”.

Ora se a natureza do espaço, propriedade privada de Palmela, e a projecção de uma inicial capela funerária privativa se identifica com comportamentos idênticos ocorridos durante os séc. XVII e XVIII, em que várias casas brasonadas construíram as suas capelas para sepultamento particular, não podemos deixar de atentar ao facto de que o complexo funerário obedecia, por outro lado, a um outro discurso teleológico que, reavaliando os critérios do sagrado e do profano, nos coloca no interior do simbolismo maçónico.

Uma Simbólica maçónica

Não há notícia de que Palmela tivesse sido iniciado na Maçonaria [20] e poderá à primeira vista parecer estranha a elaboração de um discurso cosmológico que impregna os valores espirituais daquela instituição. Adiante procuraremos explicar esta aparente contradição. Neste momento queremos sublinhara ideia de que. elegendo o simbolismo maçónico para ritualizar os sepultamentos. o Duque conduz-nos a questionar a morte tendo em conta a conciliação entre as velhas práticas inumatórias e uma manifestação tanatológica de novo tipo de que promana a reinterpretação dos princípios eclesiais tradicionais à luz de uma nova ordem de valores que, consubstanciando o património espiritual maçónico, é também de cunho marcadamente liberal.

Muito embora a Maçonaria especulativa tivesse surgido em Portugal em meados do séc. XVIII (20), a história do seu crescimento e consolidação é indissociável da história do liberalismo português. Quer a partir do Grande Oriente Lusitano, constituído nos inícios de oitocentos, quer através de Lojas de outras Obediências, a que adiante nos referiremos, a expansão geográfica e de adeptos da maçonaria, até ao arranque do movimento republicano, impõe leituras que passam pela luta para a criação do Estado monárquico-constitucional [21].

Palmela está nesse combate liberal e, usando a conceptualização de Vovelle [22], a sua experiência de “morte vivida” cruzada com o “discurso sobre a morte” coloca-o na trajectória maçónica que questiona as finalidades últimas da existência.

O espaço onde se inscreve o monumento recria o Templo de Salomão. Com uma disposição geográfica que o coloca organizado entre o Ocidente (porta de acesso ao jardim) e o Oriente (local onde se encontra o mausoléu), os mortos da família Palmela repousam nesse Oriente Eterno que na simbólica da maçonaria corresponde às zonas do imaginário que integram os maçons falecidos.

Mas toda a organização e racionalização do espaço é de inspiração maçónica. Sabendo-se da significação dos números e dos valores sacralizados que incorporam, a Maçonaria, influenciada pelo pensamento religioso e pitagórico, impregna alguns de particular significação simbólica, e entre outros, surgem em lugar privilegiado, o três [23] (o número das Luzes da Loja, a idade dos Aprendizes, os lados do Delta luminoso, os graus maçónicos por excelência – Aprendiz, Companheiro e Mestre), o cinco (as Luzes da Loja perfeita, a idade do Companheiro. o número de pontas da Estrela Flamejante), o sete (o número de Mestres para o funcionamento de uma Loja justa e perfeita, a idade do Mestre maçom), vejamos o seguinte: para entrar no jardim do Jazigo é necessário subir sete degraus cúbicos, para ter acesso ao mausoléu existem cinco degraus e, nesta caminhada de Ocidente para Oriente, em direcção ao Delta que encerra o mais profundo do segredo maçónico, objectivado no número 3, encontraremos este número, não no espaço terreno, mas no alto da pirâmide, no livro que o Anjo da Morte exibe, já em direcção à dimensão cósmica onde se procura a identificação da existência com a substância que poderíamos definir a partir do postulado hegeliano do Espírito Universal.

Esta visão imanentista e dinâmica do movimento da Ideia maçónica é prospectivada a partir da tensão permanente entre as duas colunas do Templo de Salomão, cujo conflito dialéctico se supera na entronização do Mestre e de identificação com a Luz.

Palmela e o seu arquitecto Cinátti conhecem esta dramaticidade ôntica. A porta do mausoléu as colunas do Templo seguram um frontispício onde está desenhado o Delta. A partir daqui, desenvolvendo-se pelo jardim, de um lado e de outro da avenida, estão enfileiradas as sepulturas dos servos da família e, como se verificará, esta disposição obedece a critérios de profundo simbolismo maçónico.

No Rito Escocês Antigo e Aceito, junto à coluna norte do Templo, sentam-se os Aprendizes, os maçons que trabalham a pedra bruta e iniciam a sua caminhada para a transformar em pedra polida. Esta migração simbólica a partir do trabalho da pedra assenta nas tradições herdadas da maçonaria operativa e incorpora subjectivamente, através do ritual [24] a exigência de aperfeiçoamento espiritual que conduzirá o Irmão à elevação de grau, passando a Companheiro, com a idade simbólica de cinco anos e com direito a assento junto à coluna sul do Templo. Ora, na sobrecomposição especulativa da significação das duas colunas, a primeira, a do Norte, é regida pela Lua. é nocturna, feminina, enquanto a segunda, a do Sul, é a coluna apolínea, solar, com afirmação masculina [25]. E a compreensão deste simbolismo (que aqui apresentámos na sua expressão mais simples) que leva a que os sepultamentos obedeçam a critérios de rigor. Assim, a partir da coluna norte estão inumadas as mulheres que foram empregadas da Casa Palmela, enquanto da coluna sul irradiam as sepulturas dos mortos masculinos [26]. Tudo se passa como se no Oriente os mortos da titulatura emanassem a Luz para a qual caminhavam os que jaziam em ambas as colunas do Templo.

É sabido que esta ritualização maçónica da construção do Templo de Salomão, quer objectivado na própria organização das Lojas quer no apelo que é feito a cada maçom para a construção do Templo espiritualizado, intimista, e que une os Irmãos no mesmo ideal de justiça, paz e filantropia fundamenta-se no Livro dos Reis, no capítulo dedicado a Salomão e ao lendário esforço para construir o Templo que garantisse a guarda da Lei Sagrada, depositada na Arca da Aliança. Esta evocação, assim como do mestre Hiram que levanta as colunas e decora a bronze o espaço sagrado, sofreu um tipo de apropriação que fundamenta a eticidade maçónica. Na verdade, Salomão protagoniza na curta monarquia hebraica o momento de maior esplendor da unidade das doze tribos (é a unidade da diversidade), é a figura emblemática de uma Justiça humanizada e assente em princípios de Moral de novo tipo (recorde-se a disputa das duas mulheres em torno do filho e a decisão salomónica). Daí que a sua entronização seja ritualizada como o encontro com a identificação do maçom com a descoberta do segredo maçónico, após as várias etapas iniciáticas em que a pedra bruta se vai transformando em pedra polida. Neste contexto, segundo a tradição, o chão do Templo foi decorado com um pavimento de quadriláteros alternadamente brancos e pretos, o que nos explica a idêntica pavimentação da avenida que vai da porta do jardim ao pórtico do Jazigo Palmela, e a mesma tradição maçónica esclarece o facto de a pirâmide que forma a cúpula assentar numa base de pedra polida. Isto é, os Palmelas “repousam” no Oriente Eterno, no interior da pedra polida, o mesmo é dizer identificados com a Luz divina [27].

A Magia do Número e o Enigma

Já mostrámos como os números têm um significado mágico na ritualização simbólica maçónica. Porém, o poder mágico de tais símbolos é extensivo a entidades religiosas de diversos grupos culturais. Já na Suméria, no Egipto, entre os hebreus, os números incorporam emanações mágicas que condicionam a vida dos homens e intervêm na descoberta antecipada do futuro. Dentro da tradição judaico-cristã, entre outros, o número doze tem uma significação particular (doze são os símbolos do zodíaco, doze tribos constituíram o Estado de Israel, foram doze os discípulos de Cristo, em doze partes está dividido o calendário luni-solar dos hebreus). Curiosamente, é através da combinação dos números com dupla significação, cristã e maçónica, que se resolve a harmonia arquitectural da necrópole da família Palmela. Vejamos: o gradeamento em tomo do jardim é composto por unidades de três esquadrias intercruzadas em cujo centro está a cabeça solar de um leão. Em tomo do Jazigo estas unidades reproduzem-se cinco vezes. Outras cinco vezes aparecem agrupadas à entrada. No comprimento de todo o jardim o grupo ternário referido repete-se doze vezes. Doze são também os nichos para depósito de restos mortais que ladeiam a cripta que, sob a capela, guarda o corpo embalsamado do 1º Duque de Palmela, e se descermos às catacumbas construídas à semelhança das catacumbas romanas dos primeiros cristãos, tornam a ser doze os nichos que a norte e a sul albergam os mortos, como se repete o doze no mesmo espaço entre Oriente e Ocidente. Se nos recordarmos que no Rito Escocês Antigo e Aceito (aquele que maior divulgação teve em Portugal no séc. XIX e na nossa centúria) o grau 12 corresponde ao Grão- Mestre Arquitecto, encontraremos a harmonia pretendida entre a mundividência cristã e a lógica maçónica cuja verdade se vai revelando conforme se aperfeiçoa a arte real da arquitectura do templo salomónico.

E evidente que alguns dos postulados aqui defendidos subordinam-se a uma metodologia analógica. A ausência de espólios documentais não nos permite ir mais além. E mais fascinante é o problema quando pensamos que o Duque de Palmela não era maçom e não podemos acreditar que a eventual qualidade maçónica de Cinátti planeie toda esta riqueza iconográfica, à revelia de D. Pedro de Holstein. E que este, sendo um homem culto, contando pouco mais de sessenta anos quando decidiu a construção da obra, sabendo-se que não morreu de nenhuma doença que implicasse senilidade (a causa da morte foi uma pneumonia aguda) [28], não é crível que não percebesse o discurso teleológico que tal desenvolvimento arquitectural sobre- determinava.

Pensamos, de outra forma, que a resolução do enigma e originalidade do jazigo, peça fundamental da arquitectura funerária portuguesa, e da cultura romântica que promana da marmorização dos cemitérios no contexto europeu após a emergência do liberalismo, é indissolúvel da vida pública do Duque.

Na turbulência política e social que caracteriza as primeiras décadas do liberalismo português e que com curtos interregnos se estende até 1851, o Duque de Palmela assume-se como um liberal que apoia, defende e combate pela aplicação da Carta Constitucional. Como Fernando Catroga [29] esclarece, “com a vitória liberal em 1834, a maçonaria portuguesa apareceu dividida, tendo como pontos de referência algumas das principais figuras da nova situação: José da Silva Carvalho, Saldanha e Passos Manuel”. Estes três homens personificam projectos políticos diferentes e representam estruturas maçónicas diferentes. O primeiro interpreta as posições do Grande Oriente Lusitano, e os restantes, as entidades que ficaram conhecidas pela Maçonaria do Sul e Maçonaria do Norte.

Interessa-nos o primeiro, Silva Carvalho e o Grande Oriente Lusitano surgem-nos ligados ao cartismo, representando a facção mais conservadora do movimento liberal [30].

Portanto, os objectivos políticos do Grande Oriente identificavam-se com os de Palmela e, por isso, não estranha que tenham sido maçons desta Obediência que com ele mais de perto tenham privado, quer no exílio inglês durante a aventura miguelista, quer durante a Regência na ilha Terceira, quer nos combates políticos que travou em Portugal. Vejamos: Silva Carvalho, que chega a Grão-Mestre no período de 1822 a 1839, é seu companheiro privilegiado de exílio, sendo o responsável pela recolha de fundos que com o apoio do Visconde de Itabanaia e Mendizabal organizava a expedição militar dos exilados contra D. Miguel. Por outro lado, durante o exílio em Inglaterra, a Loja Fidelidade congrega maçons e dinamiza a resistência que combate pelos direitos régios de D. Maria II, sendo certo que a liderança de Palmela, que era tutor da rainha por decisão de D. Pedro IV, contava com este apoio e não podemos duvidar de íntimos contactos entre os militantes maçónicos e Palmela, unidos no mesmo objectivo político. Nos Açores, o mesmo se torna a passar. São homens ligados ao Grande Oriente Lusitano os que com ele mais directamente contactam e estabelecem o princípio da regência. Basta que se veja que durante estes anos, de 1828 a 1834, quatro anos longe de Portugal continental, repartidos entre Inglaterra e Açores [31] que, unidos para a acção, nos pareça natural que o exílio, depois o isolamento insular, concitasse processos de sociabilidade que permitissem, como aconteceu de facto, o estabelecimento de laços de amizade entre muitos destes homens. Assim, e apenas numa pequena resenha, vejamos quem são alguns dos homens que repartem o exílio e isolamento ilhéu com Palmela: Rodrigo Fonseca Magalhães, que chegou a Grande Administrador do GOL e é o responsável pela legislação cemiterial; Mouzinho da Silveira, que foi iniciado maçom; Agostinho José Freire, que assume, a seu tempo, o alto cargo de Grande Administrador do GOL; Manuel Gonçalves Miranda, que entre 1839 e 1841 é Grão-Mestre, Marquês Sá da Bandeira; Domingos de Lima; Cândido José Xavier; e o já citado Grão Mestre Silva Carvalho, entre muitos outros.

Para um homem com o perfil intelectual de Palmela não é estranho que a companhia, durante anos, com maçons tão distintos conduzisse a permuta de conhecimentos, a troca de informações que, por certo, condicionou a expectativa de aprendizagem do Duque e, de certa forma, o iniciou na Ordem maçónica, não em termos ritualísticos, mas ao nível da prospecção de novas estratégias gnosiológicas que não se restringiam aos postulados da Igreja romana.

Só assim se compreende o Jazigo da Família Palmela, construído por Cinátti, na década de 40 do séc. XIX. e que décadas mais tarde Albert Camel e Teixeira Lopes entregarão a grande e magnífica monumentalidade tumular.

É que a Morte nesse pulsar constante que condiciona os ritmos sociabilitários, que é fonte de medos e interrogações, sendo o mais íntimo dos actos humanos, projecta-se no universo de sonhos e angústias, modelando as posturas culturais dos vivos.

O Duque de Palmela encontra-se no cruzamento de antigas e novas formas de entender a finitude dentro do processo evolutivo antropossociocultural que a História registou como “ciência da memória”, como a define Reis Torgal. Hesitante entre o ideal cavaleiresco de Antigo Regime e as filosofias racionalistas decorrentes do iluminismo e que a Maçonaria, (reclassificando os limites do sagrado e do profano) assumiu como a essência da sua própria natureza institucional. D. Pedro Holstein foi, perante a morte, aquilo que foi na vida. O homem do compromisso entre o antigo e o moderno, que se substantivava na Carta Constitucional de que, se não foi o mais brilhante defensor, foi um dos mais legítimos representantes. O seu Jazigo expressa essa transição. A decadência do sepultamento ad sanctos, apud ecclesiam, que a afirmação do projecto liberal liquidou, e a emergência de encenações tanatológicas laicizadas que, sem iludir a escatologia cristã propunham outras questões sobre as finalidades últimas da existência. O discurso tumular maçónico que mostrámos marca, pela originalidade e riqueza simbólica, um momento único da arte funerária portuguesa que as décadas seguintes não deixarão de aprofundar e que Palmela nos legou como um dos mais extraordinários discursos sobre a morte.

O visitante quando dali regressar, após esta curta viagem que lhe propusemos, estará mais rico e, por certo, ficará com vontade de ali tornar e descobrindo novos símbolos (que serão novas interrogações), acabará por se confrontar mais uma vez com a grandeza da vida e da maneira como a Vida colectiva se perpetua através da própria necessidade da Morte.

Francisco Moita Flores

Texto de apoio à visita “branca” ao jazigo da família Palmela – Cemitério dos Prazeres, em 940612 pelas 11 horas (in “História”, nº 152 – Maio de 1992)

Notas

[1] Veja-se a este propósito Egar Morin, O Homem e a Morte. Lisboa. Ed. Europa-América. s/d. e ainda Louis-Vincent Thomas, L’ Anthropologie de la Mort. Paris. Éd. Payot. 1978.

[2] Cf Malinowski, Magia, Ciência e Religião, Lisboa, Círculo de Leitores, 1990, fls. 51.

[3] Sobre o espectáculo necrolático decorrente da sobrecarga de dramaticidade acrescentada pela mundi-vidência romântica, ver Philipe Ariés. O Homem perante a Morte. 2 vois., Lisboa, Ed. Europa-América; Michel Vovelle. La Mort et l’Occident, de 1300 à nous jours. Paris. Ed. Gallimard, 1983; e para o caso português o estudo imprescindível de Fernando Catroga, A Militância Laica e a Descristianização da Morte em Portugal (1865-1911}, 2 vols., Coimbra, 1989.

[4] V. Fernando Catroga, op. cif.

[5] Idem. Ibidem

[6] Idem. Ibidem

[7] É abundante a literatura sobre os rituais maçónicos e o valor dos símbolos recriados durante a ritualização dos trabalhos das Lojas. Citaremos apenas três que consideramos de boa qualidade: A. H. Oliveira Marques. Dicionário da Maçonaria Portuguesa. 2 vols.. Lisboa. Ed. Delta. 1986: Alec Mellor, Dicionário da Franco-Maçonaria e dos Franco-Maçons. S. Paulo. Liv. Martins Fontes Editora. Lda.: Jules Boucher. La Symbolique Maçonnique ou l’Art Royal remis en lumière et restité séllon les regies de la Symbolique Esotérique et Traditionelle. Paris. Ed. Dervy-Livres. 1948. 3.a ed.

[8] Miguel Bombarda, embora já no see. XX. assume-se publicamente com anti metafísico, encontrando no monismo de Haeckel a explicação suficiente para a evolução do Homem.

[9] Veja-se Oliveira Marques, op. cif. e ainda Borges Grainha. História da Maçonaria em Portugal. Lisboa. Ed. Vega. e Graça e Silva Dias. Os Primórdios da Maçonaria em Portugal. 4 vols.. Lisboa. IXIC. 1980.

[10] V. Jankélevitch. La Mort. Paris. Flammarion, 1977.

[11] Agradecemos esta informação gentilmente cedida pela Dra. Anabela Vicente, assim como as indicações prestadas pelo Arq. Mário Martins.

[12] Os dois primeiros foram mulheres, a primeira que faleceu em 19/8/1848 e a segunda em 27/6/1849. Os seus restos mortais foram trasladados para o mausoléu em Setembro de 1848 e 49, respectivamente. Cf. Registo Geral de Inumações. 2.”Cemitério. I-1-1843 a 2-1-1844. fls. 78-v.

[13] Vários autores se debruçaram sobre a vida do Duque de Palmela. Entre outros, citamos Almeida Garrett {Monumento ao Duque de Palmela. 1859), a biografia escrita por Maria Amália Vaz de Carvalho (A Vida do Duque de Palmela, D. Pedro de Sousa e Holstein. Lisboa. 1899. 2 vols).

[14] É no Cemitério do Alto de S. João que encontramos abundantes jazigos exibindo uma iconografia maçónica. Porém, o seu crescimento ocorre nas últimas três décadas de oitocentos…

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