Liberdade, Igualdade e Fraternidade

Introdução

Era a França do século XVII, a Europa estava mergulhada nas superstições da Idade das Trevas, a Igreja velava, qual mãe de recém-nascido, pela manutenção do que até então tinha sido conquistado, quanto ao devotamento de seus fiéis. Cria-se num deus vingativo e contador dos pecados da carne, os capitais. A inquisição grassava por toda a Europa medieval colhendo os prosélitos do demónio, os bruxos, os magos e toda a sorte de ideário que desafiasse seus dogmas de fé.

Sobre o pensamento da época, Jonathan I. Israel faz o seguinte comentário no seu Iluminismo Radical:

“Durante o final da Idade Média e o começo da Idade Moderna, até cerca de 1650, a civilização ocidental baseava-se num núcleo compartilhado de fé, tradição e autoridade. (…) A Europa de meados do século XVII ainda era, não apenas predominante, mas opressivamente, uma cultura em que os debates sobre o homem, Deus e o mundo que penetravam na esfera pública se revolviam em torno do ‘confessional’ – isto é, temas católicos, luteranos, reformados (calvinistas) ou anglicanos -, e os estudiosos se digladiavam para estabelecer que bloco confessional possuiria o monopólio da verdade e o título de autoridade outorgado por Deus. Tratava-se de uma civilização na qual quase ninguém desafiava a essência da cristandade o as premissas básicas daquilo que era considerado um sistema ordenado por meio da força divina, da aristocracia, da monarquia, propriedade da terra e autoridade eclesiástica.” P. 31.

Este ambiente era inóspito a qualquer tipo de pensamento que incentivasse a liberdade humana, sendo por este mesmo motivo o pilar de sustentação das classes hegemónicas daquela época. Este poder mantinha a coesão da sociedade e impedia qualquer tipo de mudança.

Contudo, algo grande estava para acontecer e abalar todo este sistema de dominação para sempre: foi chamado de Iluminismo, ou idade das luzes. Tal linha de pensamento, encabeçada por Descartes e Espinosa – claro que muitos outros fhilosophes faziam fileira nos exércitos do pensamento renovador, lançou os primeiros esboços do que se tornaria a maior revolução do planeta, enfraquecendo a autoridade do clero, derrubando uma monarquia e abalando outras várias pela Europa.

Sobre o pensamento que começava a tomar corpo e manifestar-se sobre a terra, Israel escreveu que:

“(…) Em contraste, depois de 1650, absolutamente tudo, não importava quanto era fundamental ou quão profundo estava enraizado, foi questionado sob a luz da razão filosófica, e os conceitos eram quase sempre desafiados ou substituídos por outros diferentes gerados pela Nova Filosofia e por aquilo que pode ser classificado como Revolução Científica.” idem

O grande lema revolucionário

Tela de Hubert Robert (Paris, 1733 – Paris, 1808) célebre gravurista francês, representante do barroco europeu, a visão é da Bastilha sendo tomada pelo movimento revolucionário.
Tela de pintor anónimo. A representação demonstra o furor e violência do combate para a tomada da prisão.

É oportuno que se desfaça um grande equívoco histórico, estabelecendo-se os correctos termos e eventos. É obvio que o que se irá dizer não é original, já sendo até mesmo notório nos círculos maçónicos, mas não se peca por dizer.

É que ao contrário do que comumente se pensa, e se reproduz ao ensinar a história da revolução, foi que o povo francês revolucionário adoptou como dístico a conhecida tríplice expressão, tema do presente trabalho; nada mais incorrecto.

Apesar de guardar alguma correspondência não é de todo coincidente, e esta diferença pequena, distorce brutalmente todo o conceito que integra a tríplice afirmação pela qual conhecemos, usualmente, o lema francês da Revolução de 1789.

Na verdade, a França do século XVIII foi o palco de uma das maiores e mais sangrentas guerras civis da história moderna, sendo mesmo, reconhecido na época, como o lugar mais violento do planeta.

O movimento revolucionário precipitou-se, em 17 de Junho, na reunião do Terceiro Estado que foi proclamado a “Assembleia Nacional” e, pouco depois, “Assembleia Nacional Constituinte”. Já em 12 de Julho, começam os motins em Paris, culminando em 14 de Julho com a tomada da prisão da Bastilha, uma prisão e depósito de armas que era considerado o símbolo maior do poder real sobremodo por ser destino dos que se posicionavam contra o absolutismo francês.

Neste período a Monarquia absolutista de Luiz XVI foi combatida e derrubada. Porém não sem mostrar a sua mais vigorosa resistência, considerando que a monarquia francesa era o bastião do absolutismo europeu:

“Mas o rei tinha decidido. “Os príncipes de Descartes” (este, um dos mais insignes iluministas da época) foram “de modo formal proibidos nas escolas do reino”, conforme colocou um proeminente cientista francês do século XVIII, e foi dada ordem de que apenas a “philosophie d’Aristote” (tentativa de usar a filosofia como ciência subordinada à teologia e sem um pensamento próprio, mas sim orientado) fosse ensinada. Nas décadas subsequentes, a proibição ao ensino do Cartesianismo, bem como a obrigação de se leccionar apenas a filosofia aristotelio-scholastica, foi de forma contínua reafirmada por uma longa série de éditos de Sorbonne. Eruditos que se recusavam a aquiescer, em especial se contrariassem de forma aberta a política real, tinham de responder de maneira formal. Pierre Valentin Faydit tinha sido expulso dos oratorianos em 1671 por causa da sua zelosa defesa do Cartesianismo. O padre Malebranche, cujos livros, publicados nos Países Baixos, foram banidos de França, foi proibido de leccionar e confinado ao semi isolamento. Antoine Arnauld, embora mais pró jansenismo do publicamente apoiava o Cartesianismo, sentiu- se obrigado a fugir para a Holanda em 1679.”

E para que os revolucionários, impulsionados pelas ideias Iluministas fossem vitoriosos, promoveu-se o seguinte lema, que se tornou à época palavra de ordem: “Liberté, Égalité ou la Mort”.

Não havia espaço, no ambiente de combate e revolução armada, para a fraternidade. A energia decorrente do verbo tornado ideia, agora se deturpava e agregava a morte se isto fosse necessário ao cumprimento de todo ideário de Revolução.

O que se conclui é que a Maçonaria apesar de possivelmente ter inspirado o ideal da Revolução Francesa, não esteve por trás dos eventos, num trabalho secreto, nos bastidores trabalhando para o derrubar do absolutismo francês.

Até porque o lema revolucionário não continha a palavra fraternidade como componente do ternário que foi posteriormente adoptado pela Maçonaria. Ao contrário, anunciava-se que o movimento de Revolução seria levado às últimas consequências se necessário fosse, nada tem a ver com a fraternidade proposta nas Lojas.

Castellani esclarece-nos sobre o tema:

“A Revolução Francesa foi, também, um marco histórico importante para a Maçonaria, embora tal facto seja exacerbado por autores pouco afeitos à História, os quais afirmam que, após a revolta, os Maçons passaram a utilizar a divisa “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, que seria a da Revolução, como síntese da sua doutrina moral e social. Todavia, o lema da Revolução Francesa era “Liberté, Égalité ou la Mort” (Liberdade, Igualdade ou a Morte). O lema oficial do país “Liberté, Égalité, Fraternité” (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) só surgiria com a Segunda República, em 1848, sendo, posteriormente, adoptado pelos Maçons.”

Como se percebe, os revolucionários não pretendiam a fraternidade, palavra adicionada posteriormente quando do advento da Segunda República Francesa, em 1848, quando então, a divisa foi também assumida pela Maçonaria.

Portanto, é equivocado pensar ou pretender que o grande lema foi obra de maçons daquele século de radicais mudanças. Na verdade, foram os maçons que assumiram a divisa, mas esta não foi gerada no seio da Maçonaria.

É de se notar que, uma pesquisa histórica realizada pela pesquisadora B. F. Hyslop para se apurar as influências da Maçonaria no movimento revolucionário francês, aponta que somente em dois documentos maçónicos na biblioteca de Paris as três palavras foram encontradas reunidas:

“(…)Quase todos registram “Saúde, Força, União ou falam do templo onde reina “o Silêncio, a União e a Paz”. O resultado desse estudo está publicado em “Annales Historiques de la Révolution Française” – Janeiro, 1951, p. 7 . A 1- República conheceu bem a divisa “Liberdade, Igualdade ou a Morte”, mas tal programa ideológico não foi jamais o da Maçonaria. Foi somente sob a 2- República que a “tríplice divisa” foi adoptada oficialmente pelo Governo Francês. Mas não foi a República que tomou emprestada a divisa à Maçonaria, mas sim, a Maçonaria é que a tomou emprestada à República”(Castellani).

Não se pode negar que alguma participação maçónica tenha ocorrido para que a Revolução eclodisse. É que grandes filósofos iluministas da época eram irmãos maçons, e portanto, natural que houvessem pensamentos que se consolidariam no movimento a partir de ideias maçónicas:

“Na realidade, uma fria e desapaixonada análise dos factos não pode colocar o pesquisador em nenhum dos dois extremos, pois se não houve, de facto, uma conspiração revolucionária interna na Maçonaria francesa, devesse convir que ela funcionou como um extraordinário veículo político das ideias liberais, que encontrando terreno fértil no descontentamento causado pelas crises sociais, económicas e políticas, levou à eclosão da Revolução, marco histórico da ascensão da burguesia e da decadência da monarquia absoluta e facto de grandes consequências para todos os povos do mundo.”

Portanto, a despeito de não ser a tríplice divisa um lema genuinamente maçónico, pode-se em certa medida reconhecer que o espírito da divisa estava presente já no ideário da revolução, e que este espírito foi moldado por mentes afeitas à Ordem. E que o espírito posteriormente encarnou nas palavras que tanto se proclama. Identificada a Revolução como filho, a Maçonaria logo cuidou de dar lhe o devido tratamento. Assim penso.

O movimento Revolucionário Francês culminou com uma nova Constituição que foi precedida de uma declaração, a qual ficou conhecida por “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”. O regime feudal e outros privilégios foram abolidos. Aqui os ideais revolucionários, em tom mais pacífico e desejos da estabilidade da nova nação Francesa, agora sim, sobre o lema: (Liberté, Egalité, Fraternité).

O movimento revolucionário e a interpretação do simbolismo maçónico das colunas do templo de Salomão

Há que se fazer uma necessária observação sobre os acontecimentos durante o período revolucionário. Como se consignou no capítulo anterior, o lema inicial da Revolução era: Liberdade, Igualdade ou a Morte e a Segunda República, em 1848, já mais revolucionada pelos ideais Iluministas, abandonou a antiga destruição que continha e acolheu um tom mais conciliador, substituindo “ou a morte” por “fraternidade”.

Entendemos que não foi sem propósito a alteração promovida nos lemas da Primeira e Segunda República francesa. Mais que isso, é possível vislumbrar o poder das Colunas do Templo em pleno esplendor, tal qual na condução do povo Hebreu pelo deserto durante o êxodo.

As colunas do Templo

O iniciado, ao adentrar o templo da Loja, não importa o rito sob o qual os trabalhos sejam desenvolvidos, passa necessariamente por duas colunas. São elas as colunas “B” e “J”, ou Boaz e Jachim. Estas eram duas colunas que ficavam na entrada do templo de Salomão do lado de fora e, assim como tudo na Grande Obra tem um significado a ser conhecido e revelado aos seus membros mais dispostos a conhece-los, há nas duas colunas um grande mistério.

A coluna da esquerda, “B” ou Boaz, recebe o nome do bisavô de Davi, este, um dos mais importantes Reis de Israel e consolidador do reino israelita. A coluna Boaz representa o poder temporal como expressos pelas acções de Davi. Também é conhecida como a coluna da Força. Carrega em si portanto o grande poder de modificação de destruição.

Já a sua irmã, conhecida como “J” ou Jachim, localizada a direita da entrada do Templo do Rei Salomão, filho de Davi a quem o “Eu Sou” conferindo-lhe sabedoria, permitiu que edificasse o Templo, recebeu este nome (a coluna) do sumo sacerdote que exercia a função de dedicação do Templo de Salomão. Representa o Poder do sacerdote a força benevolente da religião. O poder de criação, de geração ao contrário da sua irmã.

Quando as duas colunas estão juntas, assumem a uma camada adicional de sentido. Podem estar unidas simbolicamente por uma pedra angular, um lintel, ou pelo Real Arco dos Céus. Mas quando estão juntas, o ritual diz sobre elas: As duas grandes colunas colocadas no Pórtico ou entrada do Templo do Rei Salomão têm importância separada e conjunta. A primeira denota ‘força’; a segunda, ‘estabelecer’; e, quando estão juntas, ‘estabilidade’, pois Deus disse “Com força estabelecerei Minha palavra na Minha casa para que ela fique de para sempre.” Lomas, Robert – Símbolos Maçónicos, ed. Madras

O evento Revolucionário, se considerados os seus momentos conforme os seus primeiro e segundo lemas, traz em nosso ver uma interessante revelação. O primeiro (“Liberdade, Igualdade ou a Morte”), durante a Revolução Francesa, com toda a energia e violência necessárias para a queda do Ancien Regimen – como se pode notar pelas telas que representavam a Queda da Bastilha e os episódios públicos de execução na guilhotina; e o segundo, tentando consolidar o que fora conquistado e buscando a estabilidade da sua conquista (“Liberdade, Igualdade e Fraternidade”), não só para a França, mas também para a universalidade dos homens (não sem razão o nome “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” inspirou várias Constituições pelo Globo).

Enquanto no primeiro acto é quase possível visualizar a coluna Boaz ou da força na sua plana actuação, no segundo a Coluna Jachim, da “estabilidade” começa a actuar. Ambas estabelecem com força para que a Revolução fique de pé para sempre.

“As duas colunas representam duas forças que agem sobre a sociedade. Elas são a força secular do rei (entendido como governante), que rege, protege o povo e governa a terra e força espiritual do sacerdote, que guia a vida religiosa e espiritual do povo. O símbolo da coluna dupla representa o grande poder para a estabilidade, que emana dessas duas forças quando trabalham juntas. Se uma delas fica poderosa demais, a sociedade será atirada num despotismo religioso ou secular, nenhum dos quais é desejável.”

Repare que a representação da “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” está entre colunas.

As duas colunas também são mencionadas no Livro de Enoch, segundo o Livro, Enoch, sabendo que o Dilúvio se aproximava, e temendo que todo conhecimento se perderia construiu duas colunas numa alta colina, uma de bronze, para resistir à água e outra de granito, resistente ao fogo, Na coluna de granito havia uma descrição dos apartamentos subterrâneos que construiu conforme o sonho dado por Deus. Na coluna de bronze, Enoch fez constar os fundamentos das artes e das ciências.

Isso demonstra o poder constante do símbolo e bem utilizado tanto no lema Revolucionário e no dístico pós-revolução. Também o texto da “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” está emoldurada por duas colunas de modo a transmitir ao pensamento colectivo a força da estabilidade revolucionária.

As colunas estiveram presentes na fundação dos Estados Unidos da América, ao figurar George Washington entre colunas com a indumentária maçónica.

Oliver Cromwell, primeiro governante eleito da Inglaterra e protector do Reino, também foi pintado entre duas colunas de modo a demonstrar a potência da estabilidade fornecida pelo par de colunas.

Todos estes eventos históricos ou lendários foram precedidos de uma grande comoção e instabilidade, como O Grande Dilúvio do Livro de Enoch, A Independência Americana no caso de George Washington e na Guerra Civil Inglesa, com Oliver Cromwell. Mas foram sucedidos por grande estabilidade e mudança.

Os valores Liberdade – Igualdade – Fraternidade e uma interpretação do simbolismo do primeiro grau

A despeito das conclusões encontradas em capítulo anterior, a desmistificar a completa interferência e identificação do lema

Revolucionário com a Maçonaria, há magníficos ensinamentos a se extrair do dístico da Segunda República Francesa (Liberdade, Igualdade, Fraternidade).

É que, mais que o carácter político-social da Revolução, que por óbvio, teve majestoso impacto na sociedade moderna, há ensinamentos de cunho pessoal que podem e devem ser retirados deste grande evento histórico.

Pensar na Revolução Francesa e o lema da Segunda República tão somente em termos político-sociais é deixar de lado uma interessante análise quanto ao poder que a Maçonaria e seus ensinamentos tem revelado aos seus iniciados.

Por isso, neste trabalho, abandonamos as análises concernentes ao colectivo do ideal de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, e propomos, tão somente, uma crítica, de ordem a permitir um melhor aprimoramento moral do Maçon após a consideração da actuação do simbolismo presente em cada palavra do ternário da Segunda República Francesa.

O poder da Liberdade

Rizzardo da Camino, no seu Dicionário Maçónico nos adverte quanto aos perigos da Liberdade, a qual deverá sempre ser complementada por um conjunto de acções sob pena de se oprimir, desajustar, desiludir e desequilibrar.

No prelúdio do Iluminismo, a liberdade foi extremamente debatida. Principalmente entre dois filósofos que tentavam sustentar suas ideologias a respeito da monarquia enquanto regime político.

Faz-se necessário entender um pouco que seja do pensamento reinante ou mesmo suas divisões para ter a dimensão do que com “força foi estabelecido” e então poder compreender o poder dos instrumentos dados ao Maçon que se dispuser a estuda-los e usa-los adequadamente na Grande Obra.

Espinosa foi, entre muitos dos philosophies, talvez aquele que mais se destacou, e seus pensamentos e escritos faziam grande oposição a outro iluminista: Thomas Hobbes. Este, firme apoiante do regime monárquico, pretendia uma conciliação entre o novo e velho. Entre o Regime Absolutista e as ideias de iluminação.

Mas, Yeshua, já tinha dito que não se pode tornar vinho novo sobre odres velhos, o pensamento republicano de Espinosa é sobremaneira mais revelador do que aquele esposado por Hobbes.

Segundo Espinosa, um ‘homem livre’ é aquele que vive de acordo com a razão e não e guiado pelo medo, mas deseja o bem de forma directa, isto é age, vive e conserva seu ser buscando a sua própria vantagem.

Esta própria vantagem deve ser entendida como a conservação do seu próprio ser, ou seja, o trabalho sobre si mesmo, visando o aprimoramento, o desenvolvimento moral. Eis aqui o no que trabalha o Aprendiz: em desbastar e esquadrejar a pedra bruta como consta no Ritual Adonhiramita. (Raymundo D’Elia Júnior, pág. 76).

Ao contrário, a escravidão em Espinosa, é o reverso da liberdade, é uma condição interna da mente, ou uma prisão mental, como resultado de difíceis condições externas. Escravidão é, em essência, a falta de poder ou de capacidade para se buscar as próprias vantagens, sendo potencialmente uma consequência de paixões e do impulso de agir de acordo com ideias externas inadequadas (Jonathan I. Israel).

Estas conceituações em torno do que é liberdade e do que é escravidão, conforme esposado por Espinosa conduzem a algumas conclusões interessantes.

A primeira é que a liberdade é um poder, uma potência e Espinosa identifica a virtude como o “poder” e a virtude humana está ancorada na razão e o maior bem que a mente humana pode conceber é conhecer a Deus, ou seja, apreender racionalmente a natureza das coisas.

Sendo a liberdade um poder, a escravidão é a impotência. Segundo ele, os homens irracionais são guiados pelo impulso e governados por ideias inadequadas. Esta é a segunda conclusão.

Aqui vai a terceira: é de se notar, por indispensável, que tal quais as exposições de Espinosa, no se livro Ética, a Maçonaria também nos fornece por meio de seus mistérios e símbolos as ferramentas adequadas para a definição da virtude e vício.

O Malho e a Liberdade

Poder. Esta é a melhor conceituação de liberdade, quem é livre pode, tem a força, a capacidade. Vimos que isso está em Espinosa e não vem do acaso. Estava no gérmen da Revolução Francesa como acima demonstrado.

No simbolismo maçónico há um instrumento oriundo da Maçonaria Operativa, mas assumido pela Especulativa. Trata-se do malho. Consiste numa massa, feita de buxo, espécie de madeira dura que simbolizava a firmeza e perseverança (Raymundo D’Elia Júnior, pág. 77).

A palavra malho vem do latim malleus e quer significar martelo ou massa e é o emblema do trabalho e da força material. Suas funções são derrubar os obstáculos e superar as dificuldades. Oswald Wirth nos ensina que o malho representa a vontade que executa, insígnia de comando, que a mão direita, o lado activo, brande, e está relacionado com a energia que age, com a determinação moral, cujo resultado é a realização prática. Eis aqui uma das simbologias maçónicas para liberdade (Raymundo D’Elia Júnior, pág. 77).

Rizzardo da Camino fala a respeito do malho:

“(…) O malho não é instrumento de criação, mas de desbastação, ele retira e não coloca (…) A força bruta é revelada através do Malho (…) O ‘auto desbastamento’, com a retirada das primeiras arestas, é uma acção forte, decisiva e dolorosa. Inicialmente o Aprendiz sofre perdas irreparáveis, mas pouco a pouco surgir a obra perfeita dentro de si mesmo, com a preparação da sua ‘Pedra Polida’, que bem equilibrada com formas perfeitas, utiliza na construção do Grande Templo Interno.” (pág. 266 e 267).

Este é o paralelo entre a Liberdade, como potência, força destinada à realização, à mudança no mundo físico, e o Malho. Aquele que não é livre não tem a virtude de, com a sua razão, encontrar a Deus. Os vícios o escravizam e a liberdade é abatida superada. Com o Malho, os vícios podem ser retirados da personalidade do iniciado, pois não tem serventia para a Grande Obra.

Isso pode ser depreendido de Eliphas Levi, no seu Dogma e Ritual, ao tratar do Recipiendário.

“O homem que ama as suas ideias e que receia desvencilhar-se dela, aquele que teme as novas verdades e não está disposto a duvidar de tudo antes de admitir algo ao acaso (…) Se ama mais o mundo do que a razão, a verdade e a justiça; se tua vontade é incerta e vacilante, seja no bem seja no mal; se a lógica te espanta, se verdade nua te faz enrubescer, se te fere abordar os erros em que foste educado (…) os segredos (…) serão compreendidos apenas por um pequeno número de homens e aqueles que o compreenderem, certamente não o revelarão.(…)” (pág. 69)

O Malho representa a liberdade, pois somente com ela pode desvencilhar-se de grilhões impostos pela própria mente, pelo meio em que está inserido, pela época em que está encarnado.

Esta compreensão de liberdade foi forte o suficiente para promover a evolução da humanidade a partir do ano de 1650 com as ideias Iluministas. Milhares de mentes se tornaram mais livres após a disseminação destes pensamentos. Esta força libertária actua até hoje. O poder do Malho está latente para libertar da escravidão tanto o homem enquanto indivíduo quanto o a irmandade de homens.

Ragon e Plantageneta afirmam que o malho seria a representação da inteligência que age e persevera, a inteligência que dirige o pensamento, e anima a meditação daqueles que, no silêncio e na sua consciência, procuram incessantemente a verdade. (Raymundo D’Elia Júnior, pág. 77).

Eis a mesma afirmação em Eliphas Levi quanto à actuação do pensamento livre e inteligente de actuar perseverante, incessante capaz de promover as mudanças necessárias a uma Humanidade pretendida pelo G.A.D.U.

“Quando um filósofo assume como base de uma nova revelação sabedoria humana esse raciocínio: Penso, logo existo, muda, de certo modo, a sua vontade, segundo a revelação cristã, a noção antiga do Ser Supremo. Moisés faz dizer o Ser dos seres; Eu sou quem sou. Descartes faz o homem dizer: Eu sou quem pensa, e, como pensar é falar interiormente, o homem de Descartes pode dizer como o Deus de São João, O Evangelista: Eu sou aquele em quem está e por quem se manifesta o Verbo. In principio erat verbum. E o que é o princípio? É uma base da palavra, é uma razão de ser do verbo. A essência do verbo está no princípio: o princípio é o que é; a inteligência é um princípio que fala. O que é essa luz intelectual? É a palavra. O que é a revelação? É a palavra; o ser é o princípio, a apalavra o meio e a plenitude ou o desenvolvimento e a perfeição do ser é o fim: falar é criar.” (Eliphas Levi, Pág. 67).

Nesta citação é possível perceber a menção ao grande “philosophie” iluminista René Descartes, o qual foi aprisionado por conta de suas ideias filosóficas, mas a sua mente era absolutamente livre, não se podendo aprisionar de qualquer forma. Tornou-se livre novamente a convite da Rainha Cristina da Suécia.

Simbolicamente o Aprendiz detém o Malho na mão direito, o princípio activo, a força a inteligência para remover o que lhe aprisiona, o Kether (Eliphas Levi).

Mas para que se destina toda esta força? Passemos agora ao segundo verbo a igualdade.

A Igualdade

Qualquer acção livre, por si só não pode conduz a coisa alguma. O Malho brandido a esmo tem em si grande força destruidora. Como já advertiu Da Camino, em nome da Liberdade se comentem os mais hediondos crimes. Tal é a energia desprendida com o Malho.

Esta energia, a potência precisa estar direccionada, contida, amparada sob pena de aquele que encontrar a mais ampla liberdade se deturpar num déspota e não em ser livre e pensante.

Aqui está o mistério do binário. O binário é o gerador da sociedade e da lei; é o número da gnosis, isto é, a ciência, o conhecimento, Eva emergindo das costelas de Adão apara formação da humanidade (Eliphas Levi, pág. 79).

Na filosofia radical Iluminista de Espinosa, igualdade é viver de acordo com as leis que dita nossa razão e tão longe do medo tanto possível. Incontestavelmente, para construir uma boa vida, os homens devem unir-se num único corpo e formar a riqueza comum.

O Cristo resumiu a igualdade a partir da Lei e os Profetas do Antigo testamento, comprovando que veio para cumprir a lei e não para a revogar. A máxima proposta por Yeshua foi o segundo dos mais importantes mandamentos “amai o seu próximo como a ti mesmo”. Ora, somente com a ideia do outro se pode entender de próximo, de igualdade, de dualidade. Enquanto Adão estava só no Éden, nenhum ser se compara a ele em termos de liberdade, o “penso, logo existo” era absoluto. Mas se fez necessário a criação de Eva, sem a qual Adão nunca seria completo.

Estas ideias não foram formuladas pela filosofia radical Iluminista, mas foram por eles alcançadas provendo a humanidade de extraordinários resultados retirando a Idade Média do Absolutismo e promovendo governos democráticos.

Radicati com frequência reafirma a proposição de Espinosa de que a democracia é a forma política mais próxima do estado de natureza. Afirmando que a religião de Cristo não difere da religião da natureza, mas que foi depois pervertida pelas Igrejas e pelo Clero, ele afirma que as leis de Cristo sendo exactamente iguais àquelas da natureza… propunham estabelecer uma democracia perfeita entre os homens, o único método que podia usar para fazê-los felizes. Com esse propósito, sustenta ele, Cristo introduziu uma comunidade de bens, proibindo luxúria e riquezas e ordenou que nenhum homem deveria se mais distinto do que outro, bem sabendo que num governo realmente democrático, os homens e serem iguais.” (Jonathan I. Israel, pág. 317).

É claro que com o excerto transcrito, não se quer, de modo algum afirmar que cada homem não deva receber conforme o seu trabalho. A citação é tão somente uma demonstração do que se idealizou na época e que acabou sendo concretizado no que tange ao governo de muitas nações pelo Globo.

Estabelecidas estas premissas, o que tem de simbolismo maçónico nesta quadra trabalho? É o que se passa a expor.

Igualdade e o cinzel

No primeiro grau, conforme a Tábua de delinear proposta pelo Rito de Emulação nos é ensinado que: “Entre os Maços Livres e Aceitos, o Esquadro ensina a moralidade, o Nível a igualdade e o Prumo a correcção e rectidão na vida e nos actos. (…) O Venerável Mestre distingue-se pelo Esquadro, o Primeiro Vigilante pelo Nível e o Segundo Vigilante pelo Prumo.”

A igualdade é aferida pelo nível, mas somente pode ser obtida com o labor de outro instrumento de construção: o Cinzel. Em que trabalham os Aprendizes? Pergunta certo ritual. Em desbastar e esquadrejar a Pedra Bruta. É a resposta. Este é o complemento necessário e indispensável ao Kether, ou Malho ou força criadora ou liberdade. Aqui estão o activo, representado pelo Malho e o passivo, que recebe a energia, pelo cinzel.

“Enquanto o Cinzel, que representa a escultura, a arquitectura e as belas artes seria um instrumento praticamente nulo sem o Malho, significando que ambos os utensílios ou instrumentos devem ser sempre empregados em conjunto de forma inseparável, para produzirem seus melhores e mais importantes efeitos. (Raymundo D’Elia Júnior, pág. 76).

Arremata sobre os dois símbolos o grande Oswald Wirth:

Estes 2 Instrumentos são inseparáveis, para talhar a Pedra Bruta. O primeiro representa as soluções aprisionadas no nosso espírito, é o Cinzel de aço, que é aplicado sobre a Pedra, seguro pela mão esquerda, lado passivo, que corresponde à receptividade intelectual, ao discernimento especulativo.

Mas como se estabelece uma relação entre igualdade e o cinzel? A resposta é simples: sendo o a Pedra Bruta desforme e imprestável para a Grande Obra, é dizer, não pode se ajustar a outra pedra para a construção do Templo, somente promovendo-se a igualação da Pedra Bruta em Polida, esquadrejada, é que se poderá ajustando-se várias pedras, construir o Templo.

Aqui está a lição moral que reside na igualdade. Somente com a liberdade necessária ao trabalho e promovendo-se a remoção das arestas e os vícios é que se chegará à verdadeira igualdade entre os homens.

Se analisarmos a máxima de Cristo: “Amai o próximo como a ti mesmo”, veremos que antes de se amar o próximo, temos que visitar o nosso templo interior para alcançar o termo “a ti mesmo”. Melhor esclarecendo: se faz necessário descobrir-se o que é amar-se e depois atribuir ao próximo este mesmo amor. Ao aparar as arestas, o iniciado prepara-se, já que a Pedra Bruta representa a alma do Maçon, com suas falhas e vícios, para ser ajuntado aos seus irmãos, devidamente esquadrejados.

Nestes princípios activo e passivo, representados por vários símbolos Maçónicos, como o Malho e o Cinzel, ou não propriamente Maçónicos, como a Liberdade e Igualdade, é que reside toda criação.

“O que é, portanto, a criação? É a casa do Verbo Criador. Que é o cteis (ou vulva)? É a casa do falo. Qual é a natureza do princípio activo? A de se expandir. Qual a do princípio passivo? A de se reunir e fecundar. O que é o homem? O iniciador, aquele que destrói, cultiva e semeia. O que é a mulher? A formadora, a que reúne, rega e colhe. O homem faz a guerra e a mulher procura a paz; o homem destrói para criar; a mulher edifica para conservar; o homem é a revolução; a mulher é a conciliação; o homem é o pai de Caim, a mulher é a mãe de Abel. O que é a sabedoria? É a conciliação e a união entre os dois princípios; é a doçura de Abel dirigindo a energia de Caim (ou a doçura do cinzel dirigindo a energia do malho) é o homem seguindo as doces inspirações da mulher; é o vício vencido pelo legítimo matrimónio; é a energia revolucionária dulcificada e domada pelas suavidades da ordem e da paz (O que na Revolução Francesa era Liberdade, Igualdade ou a Morte se torna na Segunda República, Liberdade, Igualdade e Fraternidade); é o orgulho submetido ao amor; a ciência reconhecendo as inspirações da fé. Então a ciência humana se faz prudente por sua modéstia e se submete à infalibilidade da razão universal. Pode assumir então o nome de Gnosis, porque reconhece, ao menos, o que ainda não pode se vangloriar de saber perfeitamente.” (Eliphas Levi, pág. 81)

O trecho acima é perfeito para o esclarecimento dos princípios activo e passivo, representados no simbolismo Maçónico de Primeiro Grau, entre outros, pelo Malho e o Cinzel. Mas o que se obtém com a actuação destas ferramentas de construção de Templos e Fortalezas?

A fraternidade

Aqui se deposita o resultado de todo trabalho. A fraternidade, segundo Da Camino, é uma associação fraterna, cujo objectivo é demonstrar que todos os homens podem conviver na mesma carne.

A fraternidade não é uma conquista a ser alcançada, mas uma resultante do binário anterior. Trata-se assim, mais de uma consequência do que um objectivo. É dizer, uma vez estando devidamente consolidadas a liberdade e a igualdade, a fraternidade se estabelecerá firmada com a força.

A fraternidade é o Reino de Deus desejado na oração do “Pai Nosso”, a qual ensinada por Cristo aos seus discípulos que careciam de maneiras de se falar com o G.A.D.U.

É o ternário, ou Binah, conforme anota Eliphas Levi, “o ternário é o fim e a expressão suprema do amor: somente se buscam dois para se converterem em três.”

É neste sentido a síntese do qual a Liberdade é a tese e a igualdade é a antítese. Aqui está completo o triângulo recto com a combinação de seus catetos a dar origem à hipotenusa. Nestes termos, a humanidade estará apta a ingressar em épocas de perfeição.

No simbolismo Maçónico podemos visualizar a Pedra Cúbica, representada pelo Maçon que, debruçando sobre si faz emergir o material bom para a Grande Obra e é alçado pelo Lewis figurado na Tábula de Delinear do Primeiro Grau até o assentamento nas paredes do Templo sendo unido pelo cimento do amor universal.

Este talvez seja o projecto divido ainda na escuridão representado pela tábua de delinear que está em parte na sombra e em parte na luz.

Concluo o trabalho com uma citação encontrada no livro de Wagner Veneziani Costa, Maçonaria a Escola de Mistérios a Antiga Tradição e seus Símbolos, pág. 541:

“Ó, Mestre, não sei se amo a Deus,” E ele perguntou: “Não há nada, então, que você ame?” Ela respondeu: “Meu pequeno sobrinho.” E ele lhe disse: “eis seu amor e dedicação a Deus, no seu amor e dedicação a essa criança”. “E aí está”, disse Campbell, “a suprema mensagem da religião”.

Agradecimentos

Agradeço ao G:.A:.D:.U:. pela sua imensa bondade e misericórdia que tem me seguido por todos os dias de minha vida. E porque sem um Mestre como Ele, nunca seria possível um aprendiz.

Agradeço aos meus Mestres na Loja, em especial ao Mestre Francisco Demétrio de Araújo, Fábio Fonseca e Silva e Roberto Garcia Filho, pois sem os Mestres, um aprendiz nunca seria possível.

Por fim, agraço a minha amada esposa Aline, pois sem seu amor e compreensão, minha alma jamais teria possibilidade de conhecer o Amor Divino.

Gleidson Francisco da Silva – A:. – Loja Luz e Brio – Oriente de Quatis – 2017

Bibliografia:

  • DA CAMINO, Rizzardo. Dicionário Maçónico. São Paulo: Madras Editora.
  • D’ELIA JUNIOR, Raymundo. Maçonaria – 100 Instruções de Aprendiz. São Paulo: Madras Editora.
  • Ritual. 1° Grau – Aprendiz Maçon – Cerimónias aprovadas pelo Rito de York.
  • ISRAEL, Jonathan I. Iluminismo Radical – A Filosofia a Construção da Modernidade, 1650-1750. São Paulo: Madras Editora.
  • LEVI, Eliphas. Dogma e Ritual de Alta Magia. São Paulo Ed. Madras.
  • LOMAS, Robert. O Poder Secreto dos Símbolos Maçónicos. São Paulo: Madras Editora.
  • RAGON, J. M. Ortodoxia Maçónica. A Maçonaria Oculta e a Iniciação Hermética. São Paulo: Editora Madras.

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