Maçonaria, catolicismo, os jesuítas e outras conexões

Os que estudam o Rito Escocês da Maçonaria constatam nele um acentuado aspecto religioso. Não me refiro aos Graus Simbólicos – que, na verdade, constituem o trabalho litúrgico maçónico geral ou “craft” – mas ao desenvolvimento superior, do Grau 4º ao Grau 33º. A Maçonaria, que deveria ser refractária ao proselitismo religioso, não escapou, no curso da sua história, às inspirações clericais: se na Inglaterra predominou a influência do anglicanismo e presbiterianismo, na França (berço do Rito Escocês) prevaleceram os efeitos do catolicismo.

Não tenho a pretensão de esgotar o assunto nas limitações de minha capacidade ou nas possíveis imperfeições deste artigo. Mas creio que esta análise, fácil de ser compreendida, lançará alguma luz sobre os supostos “mistérios” que rondam a maçonaria escocesa, o rosacrucianismo e os interesses velados do Vaticano sobre as Loja maçónicas.

Deixemos de lado as fantasias, as crendices, e vamos aos factos:

Depois de os Stuarts terem sido exilados em França, Andrew Michael Ramsay proferiu uma instrução aos maçons (1736- 1737), afirmando que a maçonaria seria a sucessora das antigas tradições do tempo das guerras santas na Palestina “quando maçons estiveram na Terra Santa e, ao retornarem, trouxeram os nossos segredos para a sede da ciência arcana“. Ecos da Ordem dos Templários levaram aqueles maçons e as suas Lojas a reclamarem legítimos ou supostos direitos dos antigos maçons operativos ligados à nobreza, à burguesia e à Igreja Católica. Vocês encontrarão muitos autores maçónicos torcendo o nariz para o célebre “Discurso de Ramsay” – uns por desconhecerem a história, outros por insistirem em manter este assunto, bastante esclarecedor (e comprometedor), longe dos nossos estudos.

Ramsay tinha-se convertido ao catolicismo e mantinha, em França, estreita relação de amizade com os jesuítas. Desta proximidade, a maçonaria passou a atrair simpatizantes para a causa da Contra-Reforma Católica que incluía, desde o Concílio de Trento (1545 a 1563) a catequização dogmática mediante a acção da Companhia de Jesus (Societas Jesu, “os jesuítas”, ou S. J.), ordem fundada pelo basco Íñigo López de Loyola (o Santo Inácio de Loyola).

Além das intenções políticas dos jesuítas em França – assunto que escapa ao objectivo deste artigo – a Companhia de Jesus pretendia reconduzir e voltar a submeter o povo britânico à autoridade do Vaticano mediante o apoio dos Stuarts e, obviamente, pela “doutrinação escocesa” do Cavaleiro Ramsay e das astúcias do Rosa-Cruz cristão, Charles Edward Louis Casimir Severin Stuart. O complot dos jesuítas incluía, além de uma moderna cruzada, acções e pressão junto dos políticos da Europa e a conquista do parlamento inglês. O sistema proposto por Ramsay pressupunha ainda um conselho secreto de jesuítas infiltrados no rito maçónico.

Tudo isto foi convenientemente “desmentido” mais tarde, e Charles Edward Stuart tratou de desdizer quaisquer ligações com as lideranças dos graus templários e a conexão jesuíta. Mesmo o Rito Escocês Rectificado (RER) foi diversas vezes “corrigido” e depurado durante as Magnas reuniões de Colónia, Lyon e Wilhelmsbad, nas quais foram colocados de lado os elementos introduzidos na maçonaria pelos jesuítas. Foi no âmbito do Rito Escocês Rectificado que nasceu o autêntico martinismo de Martinez de Pasqually, Barão von Hund e Louis Claude de Saint Martin, mais tarde desfigurado e falsificado em diversas correntes devido à ferrenha oposição de Jean Baptiste Willermoz (o que explica, de certa forma, os resquícios de um mal interpretado cristianismo católico nas suas actuais correntes).

Durante os séculos XVIII e XIX evidenciaram-se muitas correntes anti-jesuísticas a partir do Iluminismo francês, reforçando uma suposta rivalidade entre os maçons e a Companhia de Jesus. Os intelectuais jesuítas replicaram. Com o conhecimento maçónico que tinham adquirido, convenceram o Papa Leão XIII e os bispos de França a fazerem infiltrar Léo Taxil (Joseph Antoine Pagès) na maçonaria, mediante iniciação, que produziu uma série de livros e panfletos acusando as Lojas de satanismo e adoração a um bode.

Papa Leão XIII

Em Abril de 1884, o mesmo Papa Leão XIII escreveu a Encíclica Humanun Genus (“O género humano”) onde colocou uma pá de cal sobre o assunto, pronunciando-se assim a todos os fiéis e ao clero:

“Nós rogamos e imploramos a vós, respeitáveis irmãos, a juntar os vossos esforços com os nossos, e esforçadamente lutar pela extirpação desta praga maligna, que está a esgueirar-se através das veias do corpo da política […] Desejamos que o vosso primeiro acto seja arrancar a máscara da Maçonaria, e deixar que ela seja vista como realmente é; e por sermões e cartas pastorais instruam o povo quanto aos artifícios usado pelas sociedades deste tipo para seduzir os homens e persuadi-los a entrar nas suas fileiras, e quanto à perversidade das suas acções e à maldade dos seus actos […]

Que nenhum seja enganado por uma pretensão de honestidade. Pode parecer a alguns que os maçons não exigem nada que seja abertamente contrário à religião e à moral; mas, como todo princípio e objectivo desta seita está naquilo que é vicioso e criminoso, juntar-se com estes homens ou em algum modo ajudá-los não pode ser legítimo […] A Maçonaria mostra-se insolente e orgulhosa do seu sucesso, e parece que ela não colocará limites à sua pertinácia. Os seus seguidores, ajuntados por perversos acordos e por conselhos secretos, ajudam-se uns aos outros, e excitam-se uns aos outros a uma audácia nas coisas malignas.”

(A encíclica pode ser lida neste link do Vaticano)

Joseph Aloisius Ratzinger, depois Papa Bento XVI

No século XX, os estudos académicos (mesmo nas Universidades Católicas) lançaram novas luzes sobre o assunto; acreditava-se que um diálogo isento e inteligente poderia ser reiniciado entre católicos e maçons. As coisas pareciam ir-se compondo quando, em Novembro de 1983 o Cardeal Joseph Ratzinger, cumprindo ordens do Papa João Paulo II, durante a audiência de Fevereiro de 1981, chamou de novo o povo católico para o parecer imutável de Leão XIII, também expresso como a negativa da Igreja a respeito das associações maçónicas e outras associações igualmente não mencionadas:

A “Congregação Para a Doutrina da Fé” é a sucessora da “Suprema e Sacra Congregação do Santo Ofício”, também chamada “Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal” ou simplesmente, como no passado, a “Santa Inquisição”. “Declaração Sobre a Maçonaria – Foi perguntado se mudou o parecer da Igreja a respeito da maçonaria pelo facto que no novo Código de Direito Canónico ela não vem expressamente mencionada como no Código anterior.

Esta Sagrada Congregação quer responder que tal circunstância é devida a um critério redaccional seguido também quanto às outras associações igualmente não mencionadas, uma vez que estão compreendidas em categorias mais amplas.

Permanece portanto imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçónicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão. Não compete às autoridades eclesiásticas locais pronunciarem-se sobre a natureza das associações maçónicas com um juízo que implique derrogação de quanto foi acima estabelecido, e isto segundo a mente da Declaração desta Sagrada Congregação, de 17 de Fevereiro de 1981 (cf. AAS 73, 1981, p. 240-241).

O Sumo Pontífice João Paulo II, durante a Audiência concedida ao subscrito Cardeal Prefeito, aprovou a presente Declaração, decidida na reunião ordinária desta Sagrada Congregação, e ordenou a sua publicação.

Roma, da Sede da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, 26 de Novembro de 1983.

Joseph Card. Ratizinger, Prefeito

Chamo a atenção dos leitores para a passagem: “não compete às autoridades eclesiásticas locais pronunciarem-se sobre a natureza das associações maçónicas com um juízo que implique derrogação de quanto foi acima estabelecido“, ou seja: os padres e bispos não podem fazer vista grossa sobre tal interdição, não têm permissão para abolir, relaxar ou alterar a proibição papal. Sei que tudo isto resulta muito incómodo para os maçons que de muito boa-fé professam a sua fé. No entanto, não se pode “cobrir o sol com a peneira”; são factos.

Muitos poderão questionar, alegando que “há padres e bispos na maçonaria, frequentando as nossas Lojas” e mesmo celebrando missas sobre altares maçónicos para as famílias dos nossos Irmãos. A esses esclareço, para que não restem dúvidas, que uma coisa são os padres e bispos da Igreja Católica Apostólica Romana (Santa Sé ou Vaticano); outra coisa é a Igreja Católica Apostólica Brasileira, fundada por D. Carlos Duarte Costa (1888- 1961) bispo excomungado pela Igreja Católica Apostólica Romana do Vaticano. A Igreja Católica Brasileira de D. Carlos em tudo se parece com a Igreja do Vaticano; mas não é a Igreja Católica do Papa, mesmo porque prega, entre outras coisas, a abolição do celibato clerical, permitindo o casamento aos padres e bispos. Desta Igreja Brasileira originaram-se dezenas de outras denominações independentes, no Brasil e no exterior. São os que se autodenominam vétero-católicos, novos anglicanos, neo-ortodoxos, etc.: a Igreja Anglicana Tradicional do Brasil, a Igreja Católica Apostólica Cristã, Igreja Católica Apostólica Nacional, Católica Apostólica Ortodoxa, o Patriarcado do Brasil, a Católica Apostólica Ortodoxa Americana, Católica Apostólica Ortodoxa Ocidental, Católica Apostólica Trinitária, Católica Livre do Brasil, a Igreja dos Velhos Católicos do Brasil, Igreja Episcopal Latina do Brasil, a Ordem dos Santos Padres Católicos Apostólicos Ortodoxos, a Santa Igreja Velha Católica, Ordem dos Missionários de Cristo Sacerdote Eterno, Congregação dos Missionário de Cristo Sacerdote Eterno, Congregação dos Missionários de Jesus, Congregação de São José, a Sociedade Missionária de São Marcos Evangelistas e muitas outras. Não quero nem posso polemizar sobre religião, nem autorizar umas e desautorizar outras. Apenas alerto para essa imensa variedade de “igrejas e padres católicos” que parecem ser a Igreja Apostólica do Vaticano; parecem, mas não são.

Esta confusão toda resultou, em inúmeras ilações de que João Paulo II teria sido Maçon – justamente ele que sempre se mostrou contrário às associações maçónicas e ferrenho inimigo das Lojas maçónicas do mundo inteiro, tendo-se expressado acerca dos nossos princípios como inconciliáveis com a doutrina da Igreja – a mesma linha adoptada pelo actual Papa Francisco, o primeiro papa jesuíta escolhido, ao longo de toda a história da Igreja.

Outro movimento que tem confundido a compreensão sobre o pensamento católico entre os maçons é a Opus Dei, organização que se tornou muito conhecida após o livro de Dan Brown, “O Código Da Vinci”, publicado em 2003 e filme do mesmo nome, estrelado por Tom Hanks em 2006. Esta instituição insinua-se amplamente em todos os segmentos da sociedade – e, como não poderia deixar de ser, na própria maçonaria.

A Opus Dei foi fundada mediante “inspiração divina” em 1928, em Espanha (terra e vocação do mesmo Inácio de Loyola), por Josemaria Escrivá de Balaguer. Está presente em setenta países. Também conhecida como Prelazia da Santa Cruz, a Opus Dei é um tipo de diocese ou jurisdição especial que tem como objectivo impulsionar as pessoas de todas as classes sociais para a vida cristã e a defesa dos ideais católicos, desde o homem comum até os mais ilustres, sem lhes modificar o modo normal de vida ou os seus trabalhos. É, no fundo, uma Ordem de homens e mulheres virtuosos e muito devotos que pouco se revela ao mundo, mas que influencia decididamente a sociedade, a política e a Igreja. A maioria dos membros da Opus Dei são extranumerários, homens e mulheres, na maioria casados. Os restantes – numerários e agregados – vivem o celibato (sem modificarem as suas condições laicas ou profissionais) para se dedicarem ao trabalho de formação dos outras pessoas na Opus Dei.

José Maurício Guimarães

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