Maçonaria Operativa: um estudo sobre as possíveis origens da maçonaria

Introdução

O interesse pelo estudo da Maçonaria, tal como se apresenta aqui, surgiu com estudos prévios sobre simbologia. O intrincado universo simbólico de cunho oculto, o fascínio e o não entendimento do público, de modo geral e ainda a falta de estudos científicos na área foram elementos incentivadores para a consecução de um projecto de pesquisa [2].

O artigo não discorrerá sobre a Maçonaria moderna, mas sobre as possíveis origens de tal fraternidade, num mergulho no universo das Catedrais medievais e de seu simbolismo, percorrendo aquilo que, empiricamente, podemos atestar como sendo a essência da moderna Maçonaria.

Cenário científico para a execução da presente pesquisa

Sabemos que a simbologia está atrelada ao fenómeno religioso, ainda que existam religiões que não possuem motivos simbólicos nos seus meios (RODRIGUES, 2013). Com o avanço do estudo entre simbologia e religião, sobretudo no cenário do Catolicismo, e do aprofundamento nos estudos em Psicologia da Religião, começamos a entrar no cenário do misticismo e do esoterismo que está imbuído de simbologia religiosa das mais diversas culturas.

Entretanto, uma dificuldade se mostrava pelo caminho: como estudar um tema tão controverso, como a Maçonaria, através de meios científicos? Outra questão permeava a dificuldade em se estudar sobre aspectos místicos e esotéricos com um viés científico. Ora, tal dificuldade já tinha sido apresentada no início dos estudos sobre simbologia religiosa. Entretanto, tratando-se de Cristianismo, a quantidade e a qualidade dos materiais científicos não são de difícil pesquisa, visto os bons cursos de Teologia e de Ciência da Religião existentes no Brasil e que produzem extensos trabalhos. O estudo do simbolismo esotérico e da própria fraternidade maçónica tomou um rumo difícil, já na própria formação do projecto de pesquisa, devido à falta de investigações existentes.

A investigação, de modo geral, tinha como objectivo entender o preconceito existente em torno da Maçonaria que, muitas vezes, fora julgada como satânica. Como já tínhamos um material, mesmo que prévio, sobre o estudo da simbologia religiosa e sendo a Maçonaria uma fraternidade permeada de símbolos, ocorreu a ideia de que algumas respostas poderiam ser obtidas através do estudo dos símbolos, o que de facto foi feito.

Como metodologia, utilizamos referências bibliográficas, além de visitas técnicas em diversas igrejas espalhadas pelo continente europeu. Tais referências foram buscadas com cuidado analítico, priorizando autores consagrados na área de estudos simbólicos. A problemática do preconceito em relação à Maçonaria será explorada no seu aspecto histórico, no seu enraizamento na cultura, através do estudo da chamada Maçonaria Operativa.

O início deste artigo, em que expomos dificuldades para o encontro de material científico sobre a temática, já ilustra a necessidade de maiores estudos nesta área, que abrange uma das constituições mais significativas do universo cultural da humanidade: os símbolos religiosos e místicos.

A simbólica e a construção das catedrais medievais

São bastante conhecidas e referenciadas as catedrais medievais espalhadas, sobretudo na Europa. Como afirma Campbell (2010), o homem medieval era dotado de uma profunda espiritualidade religiosa, sendo este um elemento muito fecundo e importante para a construção das mais belas e decoradas igrejas por toda a Europa. Muitas destas magníficas obras estão em países como França, Espanha, Inglaterra e Itália. As mais famosas remetem, por exemplo, a Notre Dame de Paris, ilustrada na Figura 1. A citada catedral talvez seja o exemplo máximo do estilo Gótico na Europa, a sua estrutura revela que a sua simbólica evoca uma profunda religiosidade, assim como a catedral de Chartres, ambas localizadas na França. Diversos estudos têm sido realizados nas catedrais góticas para uma maior compreensão da sua simbólica.

Figura 1: A Catedral de Notre Dame de Paris (acervo do autor)

O Gótico foi o estilo arquitectónico que imperou durante este período. Lurker (2003) admite que este se tornou o melhor estilo para traduzir a espiritualidade do homem medieval. O autor reporta tal estilo no seu sentido simbólico:

O símbolo central de qualquer catedral consiste em que Jerusalém celeste desce à terra, como descrito em Ap 21,1-3. Durante o ritual de consagração de todas as catedrais e igrejas, esta passagem era sempre lida. Desde a destruição de Jerusalém por Tito e as suas legiões, cada igreja simbolizava uma nova Jerusalém espiritual, o monte Sião e o centro sagrado em torno do qual se desenrola a vida religiosa dos fiéis. A peculiaridade visual do exterior das catedrais góticas manifesta-se na medida irregular das suas torres, pequenas torres e decorações, sem falar da sua imponência que se sobrepunha a tudo que existia nas cidades medievais, comparável à montanha numa planície. A fachada oeste é sempre um símbolo da morte, e por isto encontram-se muitas vezes cenas que representam o Juízo Final sobre o portal de entrada (e.g., Chartres). A roseta da fachada ocidental é um símbolo do pôr-do-sol (Lc 23,44-45), enquanto o santuário do lado oriental da catedral significa a vida. Os vitrais atrás do altar simbolizam o nascer do sol ou a estrela da manhã, Jesus (Ap 22,16). Nas calhas encontram-se gárgulas grotescas, das quais as horizontais têm função prática de um cano d’água; em contrapartida, as verticais só podem lembrar os fies de uma tentação do diabo (1Pd 5,8; 1Jo 5,19) (LURKER, 2003, p. 295¬296).

A explanação do autor é fundamental para compreender o estilo arquitectónico Gótico, além de mencionar o espírito religioso do homem medieval. Campbell (2009) lembra que o pensamento teocêntrico imperou na cultura europeia medieval, sendo que este pensamento é explicito na construção de uma catedral gótica. Toda a sua simbólica deseja revestir-se da evocação de um plano superior, da “imitação” do Reino dos Céus na terra. Este estilo arquitectónico deseja representar o macrocósmico no microcósmico.

Com efeito, estes dois termos são estudados por autores que se dedicaram ao estudo da cultura medieval e renascentista. Cassirer (2004) é um destes estudiosos. O autor discute a ideia de macrocósmico e microcósmico, mostrando-nos que a ideia central reside no fatco da crença de que nós, seres humanos, somos o microcósmico, ou seja, um pequeno reflexo do macrocósmico que corresponde ao plano superior, o universo de modo geral. Um exemplo reside na própria crença astrológica de que os astros regem nossas vidas, vindo até ao arquitecto gótico que projectava às catedrais com a perspectiva do Reino dos Céus, conhecido como Jerusalém Celeste.

É válido lembrar, como apontei em estudo anterior (RODRIGUES, 2014), que a compreensão exacta da simbólica das catedrais góticas está longe de ser totalmente solucionada. A dificuldade não reside, em si, na compreensão da estrutura de tais monumentos, visto que há um consenso geral de que a proporção de tais catedrais estava incutida dentro de perspectivas da simbólica da chamada “Geometria Sagrada”, que analisaremos logo mais. A dificuldade reside em compreender as imagens e símbolos que ornam a grande maioria das catedrais góticas. Tais símbolos, muitas vezes, não são frutos da simbólica comunal do Catolicismo, pelo contrário, evoca outras místicas como a pagã, por exemplo.

É neste cenário que surgem à figura dos pedreiros medievais. Butler e Ritchie (2006) mencionam que estes pedreiros eram conhecidos como mason, em inglês e maçon em francês, e em português: maçom, que significa pedreiro, aquele que trabalha com a pedra. Jacq (1980) menciona que os grupos de maçons formavam uma forte confraria por toda a Europa, sendo eles especialistas na construção e decoração das catedrais e outros monumentos medievais em estilo Gótico.

Estes pedreiros, assim como o modelo de homem medieval, eram comprometidos com a religião Católica. E a religiosidade está explícita na arquitectura dos monumentos que construíam. Os pedreiros eram profundos conhecedores do que hoje é conhecida como “Geometria Sagrada”. Pennick (1980) discorre sobre este conceito de Geometria Sagrada, explicando que a Geometria, que significa o acto de medir a terra, fora considerada como sagrada, pelo facto de que com a matemática era possível medir elementos da natureza, ou seja, elementos da própria criação divina. A Geometria passou a ser considerada uma “arte divina”, e foi amplamente utilizada na geometrização das catedrais medievais, com o intuito de, como mencionou Cassirer (2004), representar o plano macrocósmico no microcósmico.

A figura 2 pode bem ilustrar o que temos argumentado aqui, a imagem é uma representação da Geometria da Catedral de Milão. A Geometria é aqui conhecida como ad triangulum. Os pedreiros utilizavam de formas geométricas bastante específicas para formarem harmoniosas disposições arquitectónicas.

Pennick (1980) perpassa toda a História da Geometria Sagrada desde os mesopotâmicos aos pedreiros medievais. Ele aponta que um dos nomes mais famosos, que se utilizou da Geometria, tornando-a como elemento sagrado, foi o famoso arquitecto Vitrúvio. Quanto às catedrais medievais, ele pondera:

As catedrais medievais são a mais fina flor da arte da geometria que se desenvolveu na Europa. As manifestações físicas da summa theologiae, a incorporação microcósmica do universo criado, as catedrais na sua forma completa perfeita, unidas nas suas posições, orientações, geometria, proporção e simbolismo, tentam criar a Grande Obra – a unificação do homem com Deus. Tem-se observado que muitas catedrais, como as de Canterbury, Gloucester e Chartres, foram construídas no sítio de antigos megalíticos, incorporando nos seus desenhos o posicionamento e a geometria dos círculos. (PENNICK, 1980, p. 86).

Figura 2: Xilogravura do plano geométrico da Catedral de Milão (acervo do autor)

Todo este complexo esquema arquitectónico deveria, com toda a certeza, ser produzido por sujeitos com grande habilidade matemática. No entanto, é surpreendente saber que grande parte dos pedreiros e arquitectos medievais eram pessoas simples, geralmente iletrados, mas que tinham um profundo conhecimento matemático, transmitido, segundo Stavish (2011), por outros pedreiros através de um acto de segredo-sagrado, como se a arte da Geometria fosse uma espécie de arte divina que deveria ser transmitida somente para sujeitos capacitados para compreendê-la. Surgia assim, o possível início da fraternidade maçónica, conhecida como Maçonaria Operativa.

A Maçonaria operativa entre símbolos e segredos

Jacq (1980) admite no seu livro “A Mensagem dos Construtores de Catedrais” que as mencionadas catedrais góticas permanecem um mistério arquitectónico, sobretudo pelas suas precisões matemáticas exactas, e as proporções que equilibram o edifício. O autor não tem dúvida de que os construtores dessas catedrais, embora muitas vezes iletrados, possuíssem conhecimento da matemática dos antigos egípcios, gregos e mesopotâmico. O mesmo autor julga que estes pedreiros, ou maçons operativos, tinham profundos conhecimentos em Astrologia e Astronomia. Esta afirmação é proposta, sobretudo por Heath (2010), ao mencionar que muitas catedrais medievais da Europa estão alinhadas com constelações planetárias, sendo estes alinhamentos típicos da chamada Geometria Sagrada.

Um exemplo da possibilidade de que esses pedreiros, de facto, possuíam conhecimento em Astrologia/Astronomia, está na construção da Capela Rosslyn, em Edimburgo, Escócia. Butler e Ritchie (2006), que estudaram por anos esta Capela, afirmam que o monumento está todo construído seguindo leis astronómicas, que seguem a movimentação do sol. Segundo os autores, essa comprovação pode ser feita mediante a análise de como o sol ilumina a Capela durante o solstício e o equinócio.

A tradição da Geometria Sagrada e a construção de edifícios segundo a ordenação dos astros não se limitou à Idade Média, mas se expandiu por muitos séculos. Um exemplo desta tradição pode ser encontrado na construção da capital americana Washington como afirma Ovason (2009). Grande parte da capital americana fora construída segundo ordenações astrológicas, as datas da fundação dos maiores monumentos como a Casa Branca e o Capitólio ocorreram em significativos dias para a Astrologia, sobretudo nos dias representativos do signo da constelação zodiacal de Virgo ou Virgem.

Importa-nos, agora, voltar à atenção para a expressão “Maçonaria Operativa”. Como mencionado, o termo “maçon” significa pedreiro e, portanto, passou a ser um termo comumente utilizado na época das referidas construções. Jacq (1980) comenta que as evidências remetem que, por um senso lógico, esses pedreiros eram altamente versados na arte de construção e em conhecimentos esotéricos. Como afirma Fulcanelli (2007), todo o conhecimento das agremiações dos maçons operativos eram passados de forma sigilosa.

Estas ponderações, de facto, podem surtir um sentido lógico. É facto que durante a Idade Média, todo o conhecimento estava nas mãos da Igreja Católica, os indivíduos letrados eram poucos. O desemprego estava em alta e a construção de catedrais, e outros monumentos, se tornava uma boa opção para muitos homens. No entanto, não havia, logicamente, trabalho para todos. Como afirma Musquera (2010), e como mencionado durante este estudo, os pedreiros tinham profundo zelo por sua profissão, na tentativa de construírem a catedral mais harmónica possível. Para protegerem a nobre profissão de talhar em pedra e dos ensinamentos em Geometria que eles possuíam, acharam por bem manter a arte da construção em segredo, segredo este partilhado somente entre os pedreiros das ditas corporações.

Estudiosos como Musquera (2010), Fulcanelli (2007) e Jacq (1980) acreditam que esses clubes de pedreiros formaram uma verdadeira sociedade iniciática, ou seja, para se tornar um indivíduo versado na arte de Geometria seria necessário passar pelo processo de iniciação ritualística que marcava, simbolicamente, a entrada de um novo membro para a guilda. O iniciado que recebia o título de aprendiz, jurava manter segredo sobre tudo o que aprenderia, jamais revelando para os que não fossem pedreiros iniciados.

Karg e Young (2008) exploram a existência de manuscritos históricos que atestam a existência da sociedade dos pedreiros (maçons) operativos. Um destes documentos é conhecido como Manuscrito Cooke e outro, como Estatutos de Schaw. Sobre estes documentos podemos alegar que, de facto, as mencionadas guildas de pedreiros existiram e que, para se tornar um membro, era necessário demonstrar conhecimentos em Geometria, além de passarem por uma iniciação.

Karg e Young (2008) estão convictos, assim como outros estudiosos, de que as agremiações dos pedreiros medievais, que se formaram em boa parte da Europa, além de possuírem o conhecimento em Geometria, também conheciam profundamente aspectos de simbolismo místico e esotérico, sendo que tal conhecimento era amplamente difundido na ornamentação de monumentos, sobretudo, em catedrais.

Sabemos que durante a Idade Média todo o saber que não estivesse ligado aos dogmas do Catolicismo era rapidamente suprimido. O Paganismo fora suprimido pelo Cristianismo; qualquer prática ou estudo de práticas pagãs eram proibidos. Os pedreiros, além de possuírem antigos conhecimentos em Geometria, oriundos do mundo pagão, podem, de facto, terem tido contacto com a mística e com o simbolismo pagão.

A suposição de que tais pedreiros tinham conhecimento esotérico pode ser atestada pelo próprio conhecimento astrológico que os mesmos utilizavam durante a edificação, como exploramos anteriormente, e a utilização da mencionada Geometria Sagrada. Não é possível atestar com rigor científico de que estes pedreiros, de facto, tinham conhecimentos esotéricos (RODRIGUES, 2014). Muitas das evidências nos mostram que a probabilidade é muito grande, visto a simbologia que orna diversas catedrais góticas. Tal simbologia se distancia dos ensinamentos cristãos, embora, muitos símbolos pagãos foram adaptados para o contexto cristão.

Figura 3: “Homem Verde”, Catedral Rosslyn (acervo do autor)

A ideia é fortemente defendida por Murphy (S/D) que estudou uma das mais enigmáticas capelas da Europa, a Capela Rosslyn. Para o autor, é certo que os pedreiros medievais, além de formarem uma forte agremiação de construtores, eram fortemente versados em “artes” como a Astrologia, Cabala e Alquimia, sendo que todo este conhecimento era difundido, de certa forma, na simbologia das mencionadas construções, sendo a Capela Rosslyn, o exemplo mais notável. A figura 3 faz conexão com as ponderações de Murphy, quando analisamos os símbolos da Capela Rosslyn. Os símbolos da Capela estão longe da “típica” teologia do Cristianismo. Um exemplo é o “Homem Verde”, registrado na foto. Segundo especialistas, tal símbolo pode ser uma influência da antiga religiosidade céltica.

Figura 4: Três colunas, no interior da Capela Rosslyn (acervo do autor)

A figura 4 também é um exemplo curioso da simbólica da Capela Rosslyn. Aqui encontramos três distintas colunas que são denominadas de colunas do Aprendiz, Companheiro e Mestre, correspondendo aos três graus entre as classes dos pedreiros. Estes três graus se encontram, actualmente, dentro da ritualística maçónica, o que fornece margem para mais especulações e teorias. A ideia também é desenvolvida por Musquera (2010).

Com o passar dos séculos, ermidas, igrejas e catedrais, estas últimas na época do apogeu máximo da Idade Média, conservaram na sua iconografia aqueles conceitos considerados secretos, ocultos, procedentes de cerimónias, rituais e iniciações ancestrais que tinham ficado na memória do acervo popular e que as novas imposições eclesiásticas não conseguiram apagar com seus dogmas e credos. Os templos passaram a ter o mesmo significado ancestral. O solo ladrilhado era a Terra e as nervuras, contrafortes e outros elementos arquitectónicos que sustentavam a abóboda representam o Céu. É precisamente na Idade Média, com o surgimento do Românico e, posteriormente, do Gótico, que se produz uma eclosão iconográfica, herança dos mestres construtores que nos permitirá descobrir como tais representações esculpidas na pedra guardam conhecimentos que possuem distintas interpretações e leituras. (MUSQUERA, 2010, p. 14-15).

Ao se tratar destes “estranhos” símbolos, surgem muitas especulações e teorias. Por isso, do ponto de vista académico, é difícil defender a tese de que os pedreiros medievais guardavam, além da arte de construção, supostos segredos que versavam sobre conhecimentos místicos e esotéricos, embora os símbolos de dezenas de diversos monumentos da cristandade medieval forneçam embasamento para tal tese.

Para a maioria de académicos, estudiosos da História da Arte e pesquisadores em geral, os conhecimentos que os grémios medievais possuíam correspondiam simplesmente ao domínio de seus ofícios ou profissão e pouco mais. A simbologia e o possível esoterismo de rituais e cerimónias a eles atribuídos não são mais do que conjecturas, hipóteses sem fundamento ou inclusive fantasias que foram surgindo com o tempo, principalmente por causa dos autores Românicos e, sobretudo, da Franco-Maçonaria, que tem buscado neles argumentos para embasar a sua antiguidade e autenticidade (MUSQUERA, 2010, p. 33).

Embora o citado autor, juntamente com Murphy (S/D), Fulcanelli (2007) e Butler e Ritchie (2006) sejam partidários da tese de que os mencionados pedreiros tinham conhecimentos esotéricos, o argumento académico também tem seu fundamento, devido à falta de documentos que atestem estes conhecimentos esotéricos. Os académicos também estão certos ao concluírem que muitos dos símbolos pagãos foram incorporados na tradição cristã, o que poderia justificar o surgimento destas “estranhas” figuras pagãs, em ambientes totalmente cristãos. No entanto, os debates ainda permanecem e um consenso está longe de ser estabelecido.

Os teóricos defensores da tese de que os símbolos são, de facto, característicos de um conhecimento esotérico entre os pedreiros medievais admitem que a falta de documentação sobre os significados dos símbolos reside no próprio facto de que estes sujeitos guardavam segredo do que conheciam e eram inaptos para escreverem algo, já que a sua grande maioria consistia de analfabetos.

Marcas na pedra: evidências da maçonaria operativa

Discutimos, até o presente momento, a existência da respeitada confraria de pedreiros medievais que, de certa forma, podem ser classificados como maçons operativos, levando em conta a etimologia da palavra maçon. Portanto, a existência da Maçonaria Operativa é um facto na História. No entanto, deve-se haver cuidado ao mencionar a Maçonaria Operativa, a antiga confraria de construtores de catedrais, da actual Maçonaria Simbólica. O cuidado reside na confusão em que o estudioso possa fazer destas duas Ordens [3]. Para que tal engano não ocorra, é importante esclarecer as diferenças entre dois “tipos de Maçonarias”.

A Maçonaria Operativa, como temos estudado, consistiu-se nas confrarias de pedreiros (maçons) que trabalhavam na pedra, no planejamento e execução de diversos monumentos em estilo gótico, durante a Idade Média, principalmente nas catedrais. (JACQ 1980). Por sua vez, a Maçonaria Simbólica ou Especulativa, tal como temos hoje, reveste-se do simbolismo dos maçons construtores. O mito maçónico prega sobre as suas origens nas confrarias dos maçons operativos. No entanto, a Maçonaria actual nada mais constrói fisicamente como outrora, mas prega a construção do próprio maçon, simbolizando no seu aperfeiçoamento intelectual, espiritual e moral. Como aponta Roberts (2012), quando mencionamos sobre o mito maçónico não creditamos que seja uma mentira. Muito pelo contrário, a Maçonaria actual pode mencionar as suas origens nas confrarias dos pedreiros medievais, visto que é uma hipótese bastante plausível. Porém, deve-se ater às diferenças entre essas duas Ordens ainda que se admita a possibilidade de herança de uma em relação à outra.

De facto, existem documentos que atestam grande possibilidade da herança entre Maçonaria Operativa e a Maçonaria Especulativa. Nosso foco, entretanto, é ater-se na comprovação da existência das confrarias dos pedreiros medievais, que formavam um clube iniciático e de profundo estudo/aprendizado nas artes da Geometria e da Arquitectura.

Embora muitos autores se voltem para os complexos símbolos esotéricos encontradas nessas catedrais e tentam, de todas as formas, provarem que as agremiações possuíam conhecimentos religiosos milenares, Prescott et al. (2011) chama-nos a atenção para singelas marcas encontradas, geralmente, nas pedras sem ornamentação das estudadas construção.

Essas marcas existem; porém, como indicam Gandra et al. (2001), não são símbolos, são meros sinais indicativos. Em todo o caso, os mesmos especialistas estão convictos de que os pedreiros medievais formavam um forte grupo na sociedade, caracterizado por profundos conhecimentos em matéria de Arquitectura e simbolismo.

[Estas marcas] têm sido consideradas como siglas simbólicas, visto que, naquele tempo, os canteiros e pedreiros se encontravam associados e iniciados secretamente nos segredos difíceis dos seus ofícios. Deste modo, eram os únicos capazes de construir estes ousados edifícios, estes monumentos extraordinários que, ainda hoje, suscitam a nossa maior admiração, conquanto já não seja um mistério conhecer as regras da estereotomia, nem a maneira de dar a estabilidade necessária à solidez destes edifícios grandiosos, deixados pelas gerações extintas, do séc. XI ao séc. XIV, merecedoras do nosso elogioso tributo (GANDRA et al., 2001, p.5).

Tudo aponta que estes sinais indicavam cada maçon (pedreiro) que trabalhava na obra, ou seja, cada um deles possuía a sua marca própria. Os trabalhadores marcavam as pedras que tinham talhado/trabalhado, auxiliando a conferencia do mestre de obra. Tal prática também facilitava o pagamento pelos serviços prestados. A figura 5 é um exemplo destes sinais. A presente imagem apresenta uma singela e pequena marca, na estrutura do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa. Todo o Mosteiro está adornado com estes sinais em pedra. Os sinais variam entre números romanos, signos do zodíaco entre outros. Simbolicamente, o presente sinal aparenta ser um esquadro e um compasso.

Em uma verificação empírica, comprovamos a existência destes sinais estenografados nas mais diversas catedrais espalhadas pela Europa. Em Portugal, por exemplo, encontramos em diversos monumentos religiosos, como em Lisboa, Faro, Coimbra e Porto.

Figura 5: Sinais encontrados na estrutura do Mosteiro dos Jerónimos (acervo do autor)

Estes sinais são fortes indicadores da organização dos pedreiros medievais. Todos os autores estudados neste artigo indicam que tais pedreiros formavam um ramo de actividade, uma classe de trabalhadores, muito forte na época. Também concordam que mantinham segredos sobre questões relativas ao trabalho em pedra, sobre medição arquitectónica e que para ser admitido ao clube de trabalhadores era necessário, além de demonstrar habilidade em construção, passar por uma iniciação que, para muitos estudiosos, tinha um carácter sacro-esotérico.

Stavish (2011) está convencido que a própria estrutura arquitectónica das catedrais, com as suas imensas rosáceas e simétricos vitrais, são uma prova consubstancial de que estes pedreiros tinham conhecimento esotérico, pois, todas essas proporções, como vimos, são hoje mencionadas como Geometria Sagrada. Para exemplificar, o que chamamos de Geometria Sagrada, podemos mencionar a ampla utilização do Pi e do chamado “número de ouro”, amplamente estudado pelo matemático italiano Fibonacci.

O autor acredita que seja com essas sequências numéricas que os construtores acreditavam que podiam glorificar a Deus, através da representação do macrocósmico em números e medidas caracterizando a Geometria Sagrada. As proporções sagradas, por assim dizer, estariam representando proporções da própria natureza e do próprio cosmos. Não seria fácil um estudioso, versado na área de humanas, explicar com exactidão o “funcionamento” destas sequências numéricas que estão embutidas nestas construções. Este complicado entrelaçamento entre Geometria e sacralidade pode ser bem ilustrado quando se estuda, por exemplo, a Sequência Fibonacci. No entanto, encontramos diversos autores que estão convencidos de que os construtores medievais possuíam conhecimento esotérico, formando um verdadeiro clube filosófico.

Arola (1986), eminente professor da Universidade de Barcelona, é um destes convictos estudiosos que acredita na existência de conhecimentos místicos entre as agremiações. Argumenta-se que a falta de documentação é prova de que eles guardavam segredo sobre o ofício, sendo que todas as instruções eram passadas por via oral.

Arola (1986), após estudar diversas catedrais medievais, concluiu que elas são um espelho que reflecte o desejo do pedreiro em espelhar a obra do Criador num monumental e bem simbólico edifício de pedra. O mesmo autor está convencido que os canteiros de obras, além do trabalho braçal, formavam um clube filosófico. Além do trabalho em pedra, o pedreiro era convidado para trabalhar a sua própria interioridade, lapidando a sua pedra, ou seja, a sua própria conduta existencial.

A imagem 6 pode ser um complemento com a tese de Arola (1986). Jung (2008), discutindo os símbolos das catedrais, concluiu que a rosácea é o símbolo máximo da perfeição, da totalidade sendo o símbolo da própria divindade. A simbólica da rosácea, de facto, revela a plenitude, o todo, e pode indicar as etapas de desenvolvimento psíquico do homem, segundo a teoria junguiana.

Sobre este aspecto, mantemo-nos neutros perante o enigma da suposta existência de sabedoria mística entre os maçons medievais. Mesmo sabendo que tal teoria tem ganhado espaço no meio académico, e com um pouco de inclinação em aderir à ideia, ainda permanecemos com uma “postura freudiana”, com o receio de “construir uma estátua de ferro com bases de barro” (FREUD, 2006). Por fim, o mistério sobre a existência de conhecimento esotérico entre os pedreiros medievais, ou maçons operativos, permanece ainda um enigma histórico, que precisa ser ainda investigado, como afirma Musquera (2010), ao reflectir sobre o mundo dos símbolos e a mensagem deixada pelos antigos construtores:

Alheio ao mundo dos símbolos e em consequência ao seu significado, o mundo moderno não nos permite dilucidar o mistério que pode envolver essas formas que possivelmente estão transmitindo chaves que desconhecemos. As fraternidades medievais legaram mensagens pétreas que representam uma linguagem própria que não sabemos interpretar. Geralmente, essas marcas de cantaria são de escassa profundidade, e a sua dimensão oscila em torno de dez centímetros. Essa escassa profundidade tem feito com que, com o passar do tempo, muitas delas sejam quase irreconhecíveis, sendo que outras já desapareceram diante da ânsia de algumas administrações de “limpar” o património local, executando autênticas barbaridades.

De tudo isso, temos apenas uma vaga lembrança, uma ligeira intuição, talvez impressa no nosso chamado inconsciente colectivo, que nos faz suspeitar que a alma da pedra, na sua mudez de séculos, guarda uma lição ou uma mensagem. Resta muito caminho por percorrer e muita pesquisa de campo por realizar, para tentar saber um pouco mais sobre os signos lapidários. Sempre teremos a suspeita de que aqueles grémios medievais artesanais deixaram para trás indícios, pistas e sinais, que contêm conhecimentos que merecem ser descobertos e analisados de todos os pontos de vista possíveis. Na actualidade, sabemos como e quando, mas talvez, um dia não muito distante, também descubramos o porquê de tudo isso (MUSQUERA, 2010, p. 115).

Considerações finais

Figura 6: uma das rosáceas da Catedral de Notre Dame de Paris (acervo do autor)

Os resultados de nosso estudo sobre as possíveis origens da maçonaria foram sendo tecidos durante o desenvolvimento do trabalho. De modo geral, não é possível atestar, com rigor científico que os pedreiros medievais possuíam, de facto, conhecimento esotérico, servindo-se dele para infundir, ocultamente, doutrinas místicas na ornamentação das catedrais góticas. Quando realizamos uma visita a uma destas catedrais, tomados por sua beleza e seus símbolos, somos instigados a admitir que seus construtores tiveram uma forte espiritualidade e que tal edifício representava, para os medievais, o eixo do mundo, ou o axís mundi. Essa espiritualidade pode, sim, ser comprovada pela própria precisão matemática que estas agremiações tinham e pelo cuidado em admitir um novo membro para a consecução de um monumento.

Mesmo quando olhamos para as abóbodas do Mosteiro dos Jerónimos e supomos facilmente que lá se encontram desenhados simetricamente os Sephiroth da Cabala judaica, nossas convicções se perdem com a falta de documentação que corrobore a analogia. Muitos estudiosos estão convencidos que as estruturas em estilo Gótico são uma prova cabal da existência destes conhecimentos místicos. Porém, o cientista, que se vale de comprovações escritas, abstém-se ante a falta de tal documentação.

Por fim, vale lembrar que explorar as guildas dos pedreiros medievais é explorar parte da História da actual Maçonaria Especulativa. Como já mencionado, ainda que as duas Ordens sejam distintas, é possível encontrar elementos plausíveis para a origem da maçonaria, no meio dos trabalhos dos maçons operativos. Há ainda muito material para ser analisado com o intuito de que mais luz possa ser lançada sobre o tema, cuja investigação tem, na interdisciplinaridade das ciências humanas, as melhores chaves para esta jornada.

Marcel Henrique Rodrigues [1]

Referências

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  • ROBERTS, J. A Mitologia das Sociedades Secretas. São Paulo: Madras, 2012.
  • RODRIGUES, Marcel. A Simbologia nos Monumentos Históricos de Portugal: Um Estudo da Passível Presença de Simbolismo Maçónico. Fragmentos de Cultura, Goiás, n. 24, p. 23-35, Jan/mar.2014. Disponível em:
  • http://seer.ucg.br/index.php/fragmentos/article/view/3198/1912 Acesso em: 25/09/2014
  • RODRIGUES, Marcel. A Queda do Simbólico na Vida Contemporânea: Uma Interpretação da Relação dos Sujeitos com os Símbolos da Igreja Matriz de Americana. Revista Último Andar, São Paulo, n. 21, p. 122-144, Março. 2013. Disponível em:
  • http://revistas.pucsp.br/index.php/ultimoandar/article/view/13987/10293 Acesso em: 20/09/2014
  • STAVISH, M. As Origens Ocultas da Maçonaria. São Paulo: Pensamento, 2011.

Notas:

[1] Graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano – Unisal; membro da ABHR. E-mail: [email protected]

[2] O presente artigo é parte dos resultados de pesquisas realizadas com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP.

[3] Em estudo anterior (RODRIGUES, 2014), foi mencionada a possibilidade de que o Mosteiro dos Jerónimos em Portugal, que data do final da Idade Média, tenha sido construído pelos maçons operativos. Logo, advieram críticas constando que se entregava, sem nenhuma prova documental, a tutela deste importante património português aos maçons. De imediato foi esclarecido que o Mosteiro dos Jerónimos nada tem a ver com a actual Maçonaria, e que mal entendidos levaram à concepção de que a antiga Maçonaria Operativa se identifica com a Maçonaria Especulativa.

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