Maçons, Carbonários e o 5 de Outubro

5 outubro 1910
5 de Outubro de 1910

A realeza estava agora pouco segura nos seus palácios e a rainha D. Amélia evitava falar pelo telefone com os seus ministros, pois julgava que até o telefonista fosse da Carbonária[1].

“«Avante Lusitanos! / Largai a servidão! / Unir! Unir! Contra os tiranos! / Salvemos a Nação!»[2].

A revolução que pôs termo à Monarquia em Portugal começou na noite de 3 para 4 de Outubro de 1910, se bem que, como vimos, há muito que a mesma vinha sendo preparada. Nela estavam envolvidos tropas do exército e da marinha e numerosos civis recrutados pela Carbonária Portuguesa, cuja colaboração o directório do Partido Republicano acabara por aceitar com dificuldade e relutância. Mas a verdade é que essa intervenção foi decisiva para o êxito do movimento, dado que a maior parte dos militares comprometidos não compareceu [3].

Com efeito, às primeiras horas da madrugada do dia 4 de Outubro, tudo parecia perdido, e as tropas que tinham chegado a sair dos quartéis consideravam-se isoladas no alto da Rotunda. Desesperado, o almirante Cândido dos Reis, único oficial general comprometido e que chamara a si a responsabilidade superior da revolta militar, suicidou-se. Os oficiais das forças da Rotunda, depois de um conselho em que concluíram não haver qualquer outra solução, deram ordem para a debandada e eles próprios procuraram refúgio. Só ficou o Comissário Naval Machado Santos, com alguns sargentos, algumas dezenas de soldados e um elevado número de civis.

Na realidade, Machado Santos era, simultaneamente, maçon e membro da Alta Venda da Carbonária, e os homens que com ele ficaram na Rotunda eram militantes da organização [4]. Sabia que, ao contrário do que os oficiais julgaram, não estava sozinho: a cidade estava nas mãos de grupos de civis que impediam as tropas de sair dos quartéis. Quando alguns navios da esquadra começaram a manobrar para desembarcar marinheiros republicanos no Terreiro do Paço, as tropas do Governo sentiram-se perdidas. O rei, que tinha saído de Lisboa para Mafra, recebeu ali a notícia da proclamação da República e embarcou para o exílio. Refere Saraiva que “[e]m nenhum lugar a instalação do novo [R]egime deparou com dificuldades; segundo um dito da época, a República foi proclamada pelo telégrafo” [5].

Deixamos agora um depoimento que nos parece esclarecedor acerca dos acontecimentos decorridos entre 2 e 5 de Outubro de 1910 e que, depois de uma “gravidez atribulada”, fizeram, finalmente, nascer um novo Regime político em Portugal – a República:

no dia 2 de Outubro Cândido dos Reis reúne-se com Oficiais Republicanos, com a Alta Venda Carbonária e com o Directório do Partido Republicano Português ficando marcada a Revolução para a noite seguinte. Horas depois houve uma nova reunião (sem o Directório) para acertar os detalhes do plano de Sá Cardoso e Hélder Ribeiro que tinha em conta a acção militar e a acção civil dos carbonários.
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Como Miguel Bombarda (uma das principais personagens da conspiração) tinha sido baleado e tinha falecido, na reunião do dia três (na Rua da Esperança) puseram-se dois problemas: um era a sua morte e o outro consistia em que ele, sendo uma grande figura, é que detinha alguns dos segredos da conspiração. Novas hesitações surgem mas acabaram por continuar com a revolução, pois, se não o fizessem os marinheiros sairiam sozinhos.
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Entre os monárquicos a preocupação crescia e Teixeira de Sousa foi avisado de que algo podia acontecer. Puseram a guarnição de prevenção. Nessa noite o Rei jantava com Hermes de Sousa, Presidente da República Brasileira. Este jantar foi abreviado devido ao aviso de Teixeira de Sousa.
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Marcada a Revolução para a 1 da manhã, Machado dos Santos dirigiu-se a Infantaria 16 para tomar o Quartel, mas este já estava tomado pelos soldados com a morte de dois oficiais. Os seus homens dirigiram-se a Artilharia 1, onde esperavam encontrar o mesmo, mas era diferente. A entrada não estava aberta como se tinha combinado, mas Afonso Pala estava lá dentro e tinha organizado os revolucionários. A porta foi arrombada e Sá Cardoso assumiu o comando formando duas colunas. De acordo com o plano, os alvos eram o Quartel-general e o Palácio das Necessidades. Uma das colunas tem um confronto com a Guarda Municipal, na Rua Ferreira Borges. Teve de voltar para trás e encontrou-se com a coluna de Afonso Pala, no Rato. Juntas têm recontros aí e na Rua Alexandre Herculano. O plano é abandonado e os republicanos fixam-se na Rotunda, onde organizaram a defesa. Foram atacados pela Guarda Municipal, mas repeliram o ataque. Amanhecia. Em muitos pontos não se verificou a sublevação. Dos civis também só foi bem sucedida a missão na zona oriental lisboeta. Mas a Marinha era um “feudo” carbonário e à 1 da manhã no Quartel da Marinha a vitória foi dos republicanos. Tomaram os navios “Adamastor” e “S. Rafael”. O Comando não atacou os revoltosos.
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De madrugada as forças monárquicas atacaram a Rotunda. Soube-se do suicídio de Cândido dos Reis o que desanimou alguns republicanos. Sá Cardoso convoca os conspiradores; a maioria quer terminar a tentativa de golpe. No entanto, Machado Santos e a Carbonária decidem continuar. A revolução está nas mãos dos civis. Aumenta a adesão popular e constroem-se barricadas.
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Ao fim da manhã as forças leais ao Rei, comandadas por Paiva Couceiro, atacam a Rotunda quer pelo Rossio quer pelo lado da Penitenciária, mas sem grande sucesso. Couceiro retira com dificuldade. Entretanto os navios “Adamastor” e “S. Rafael” bombardeiam as Necessidades, chegando a destruir com um tiro o Pavilhão Real. Assustada, a Família Real foge para Mafra. Os mesmos barcos vão encurralar as forças leais no Rossio.
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Na madrugada do dia 5, porém, Paiva Couceiro leva as suas tropas para o Jardim de Torel, donde podia atacar a Rotunda. Contudo , tinha poucas munições e o depósito destas em Beirolas estava nas mãos dos republicanos. As tropas estavam divididas. Além disso, muitos confundiram a bandeira branca levantada pelo Encarregado de Negócios da Alemanha, com a rendição do Rei e destroçaram. A Monarquia ficou sem soldados. Às 11 horas da manhã José Relvas proclama, por fim, da varanda da Câmara Municipal, a República em Portugal. Havia a lamentar 76 mortos, dos quais 51 civis, 186 feridos civis e 122 militares. A Família Real partiria nessa tarde para o exílio[6].

Como mencionámos anteriormente, o triunfo do movimento ficou a dever­-se, com toda a evidência, às forças da Carbonária, que pertenciam a estratos sociais muito diferentes dos que eram representados pelo directório do Partido Republicano. Não obstante, foi o Directório quem formou o Governo Provisório, e, desde o início, a Primeira República teve a miná-la a contradição interna, que opunha um republicanismo conservador e ordeiro a um populismo revolucionário, com implantação na população de Lisboa, mas sem verdadeira chefia política. Esse conflito explica, em grande medida, a agitação e instabilidade política da primeira fase da história do regime republicano em Portugal.

Liliana Raquel Rodrigues Fernandes

Nota

Este texto integra uma excelente dissertação apresentada por Liliana Raquel Rodrigues Fernandes à Universidade de Aveiro para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Estudos Portugueses.

Dada a sua extensão, os diversos capítulos serão publicados autonomamente, incluindo-se sempre o link para a totalidade do trabalho.

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Notas

[1] Vide WHELLER, Douglas L., História Política de Portugal de 1910 a 1926. Mem Martins, Publicações Europa-América, 1978, p. 60.

[2] Versos de um hino revolucionário, em vésperas da República. In FERNANDES, Ferreira, FERREIRA, João, Frases que Fizeram a História de Portugal. Lisboa, A Esfera dos Livros, 2006, p. 197.

[3] Para mais detalhes acerca deste assunto vide SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, Vol. XI. Lisboa, Verbo, 1989, p. 26 – 33.

[4] Para um relato detalhado e na primeira pessoa acerca deste assunto vide SANTOS, Machado, A Revolução Portugueza: 1907 – 1910 (Relatório de Machado Santos). Lisboa, (1a ed.: Typographia Liberty, 1911), ed. facsimilada: Arquimedes Livros, Abril de 2007 (tiragem de 80 exemplares).

[5] SARAIVA, José Hermano, História Concisa de Portugal. Col. Saber, 20a ed.. Mem Martins, Publicações Europa-América, 1999, p. 350.

[6] Vide http://www.di.uminho.pt/~lsb/lena/historia/dias.html.

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One thought on “Maçons, Carbonários e o 5 de Outubro

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    Hermes Rodrigues da Fonseca foi 8º Presidente da República Brasileira mas cita-se Hermes de Souza como o titular do cargo à época…

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