Maçons nas trincheiras

trincheiras
Trincheiras – máscaras de gás

Recentemente assisti a um M.P.S. Meetup [1] onde o tema foi “A guerra alguma vez conduziu a algo bom?” O moderador tinha uma ideia clara: absolutamente não. O ponto de vista era o de um pacifista apaixonado e só conseguia ver o negativo em situações de tempo de guerra. Eu senti que deveria olhar de forma mais lata – como a é que guerra afecta a humanidade – e de forma restrita – como é que isso afecta o indivíduo. Enquanto muitos vêem o horror da guerra, pode haver algo de bom para ser encontrado, certo?

Depois desse M.P.S., participei num festival de bluegrass, onde John McCutcheon tocou “Christmas In the Trenches”, baseado numa carta escrita por um soldado inglês da Primeira Guerra Mundial, chamado Edgar Aplin, que descreve um momento numa guerra sangrenta e amarga onde os dois lados se uniram por um momento lindo da humanidade. A música de John traz aquele momento de clareza em que todos pensam: estamos a matar outros humanos que são como nós. Numa guerra trágica que deixou milhões de pessoas afectadas, há uma humanidade que podemos lembrar. A letra da música pode ser lida AQUI.

Antes da reunião M.P.S. acima, e depois novamente após ouvir esta música novamente, eu procurei incidentes destes ocorrendo entre os maçons; afinal de contas, quem mais pensa sobre a humanidade e o seu aperfeiçoamento, do que os maçons? Não muitos. Há muitas maneiras pelas quais os maçons fazem saber que são irmãos, e talvez existam momentos de “trégua” que existem, mesmo que não sejam tão famosos quanto o U.K. Sainsbury Ad, que idealiza a Trégua de Natal de 1914.

Algumas das histórias mais comoventes da fraternidade Maçónica são da Guerra Civil Americana. O escritor Greg Stewart escreveu um artigo maravilhoso sobre a Guerra Civil Americana e os Maçons, que pode ser encontrado no website da Sojourners. Eu encorajaria qualquer um que tenha interesse em história ou na Maçonaria a lê-lo. Ele cita as suas fontes, o que é útil.

Em resumo, a Guerra Civil Americana testou a capacidade do nosso país de lutar pelo que acreditávamos e, ao mesmo tempo, demonstrar compaixão pelos nossos semelhantes. Enquanto trouxe alguns dos piores combates, também inspirou a maior paixão para aliviar o sofrimento das pessoas. Os maçons esforçam-se para apagar aquilo que nos divide como pessoas. Para os irmãos que combateram nesta guerra, a turbulência interna deve ter sido grande.

Os registos da Primeira Guerra Mundial não têm muito a dizer sobre o envolvimento da Maçonaria. Num interessante artigo publicado em skirret.com, temos a exploração de um autor sobre o mundo e a visão maçónica da guerra. No artigo, é-nos dada muita informação sobre como as Lojas se sentiram em relação à guerra, mas vemos poucas evidências de que a guerra não foi divisiva dentro da Fraternidade. Da perda do reconhecimento à revogação total das cartas, e a hostilidade, mesmo dentro das Lojas na América, vemos as sementes da resposta burocrática à guerra, e não uma resposta humana.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os maçons foram um dos grupos perseguidos sob o regime nazi. Um artigo verdadeiramente maravilhoso sobre isto, pode ser lido AQUI. Não só fala das reuniões secretas dos maçons, após o desmantelamento da Maçonaria tradicional na Alemanha, mas também descreve uma das Lojas que existiam dentro das cercas de arame de um campo de concentração. Outro artigo, intitulado “Maçons em guerra: maçonaria durante a Segunda Guerra Mundial”, de Mark Stanford, também documenta os Centros de Serviços Maçónicos que surgiram durante a guerra, para cuidar de membros Alistados, em casa e no exterior. A Maçonaria mudou-se para as boas obras de cuidar dos membros das forças armadas, mas raramente ouvimos sobre a experiência do indivíduo. Embora os actos de heroísmo dos maçons europeus sejam mencionados, se bem que pouco, alguns documentados em vários lugares mencionados acima, a experiência norte-americana parece pequena em comparação.

Ao olhar para o Vietnam, a única evidência real do envolvimento dos Maçons tem a ver, uma vez mais, com o cuidar de soldados feridos e o envio de pacotes de ajuda para os militares no exterior. Há muito tempo que as Lojas Militares foram desaprovadas ou banidas, e parece ter havido muito poucas durante a Primeira Guerra Mundial e nenhuma durante a era do Vietnam.

Do Vietnam até hoje, parece não haver mais nenhuma evidência de uma resposta maçónica generalizada às situações do tempo de guerra, seja sob a forma de alívio para tropas ou apoio aos militares no exterior. Embora, sem dúvida existam, há pouco mais para registar, do que o seu envolvimento a nível local nos esforços de guerra.

Um primeiro pensamento foi o de que o Caso Morgan mudou a forma como os americanos vêem os maçons. Certamente mudou como os maçons se viam a si mesmos e à sua fraternidade. No entanto, encontramos evidências de exemplos individuais de caridade maçónica em toda a Guerra Civil Americana, que ocorreram após o Morgan Affair. Apesar do sentimento antimaçónico ainda ser alto nesta altura, não pareceu afectar as relações pessoais que cada homem tinha com a Maçonaria e como isso afectava as suas acções durante a guerra. A Maçonaria superou a amarga rivalidade e o ódio, e ainda gravou um ideal no coração desses homens.

A Co-Maçonaria existe de uma forma ou de outra desde o final do século XIX, começando em França e espalhando-se pelo mundo. Enquanto os seus números eram elevados nas suas primeiras décadas, a Co-Maçonaria começou a declinar no início da Segunda Guerra Mundial; na verdade, o declínio pode ter existido para toda a Maçonaria. Durante a guerra, quando a Maçonaria foi perseguida na Europa, muitas Ordens diferentes originárias da Europa, viram-se sob escrutínio. Estas Ordens estabelecidas em França, tinham-se escondido e Le Droit Humain, uma ordem Co-maçónica, era uma dessas Ordens. Depois da guerra, a Co-Maçonaria encontrou raízes mais profundas em países fora de França e havia interesse no seu pensamento alternativo: as mulheres podiam ser Maçons, tal como os homens.

O mundo era e é decididamente diferente desde a Segunda Guerra Mundial. As mulheres, na cultura americana e talvez em todas as culturas ao redor do mundo, são mais frequentemente incluídas do que excluídas. Uma mentalidade equilibrada, em relação a género e igualdade, talvez estivesse criando uma visão diferente do que era necessário para a perfeição da humanidade. Na agitação cultural e social que poderia ser chamada de “alvorecer da Era do Aquário”, o mundo pode estar à procura de novos tipos de líderes que sejam inclusivos de toda a humanidade.

A guerra em si, também mudou. Acabaram-se as baionetas e o chumbo, a luta corpo-a-corpo, onde o soldado vê o rosto do inimigo. A guerra passou a ser de drones impessoais enviando ataques aéreos em pontos sem rosto numa tela de pixéis. Enquanto a Maçonaria se está talvez a tornar mais inclusiva, a guerra está a tornar-se mais impessoal: talvez uma luta, à procura de equilíbrio?

Parece que nos encontramos num ponto interessante da história, onde a falta de rosto da guerra afecta a nossa capacidade de combatê-la com “bom”. Os maçons podem precisar de olhar para além dos métodos convencionais da Arte usados no passado para não apenas apoiar a humanidade, mas para encontrar aquelas coisas que unem e não dividem os seres humanos. Os maçons talvez precisem de ver para além do “pacote de assistência” ou “café da manhã com panquecas” para as tropas e treinar para a “desobediência civil”. Eu não menosprezo as boas obras para os homens e mulheres alistados, que muitos grupos fraternos fornecem. Elas são necessárias e altruístas, e inspiram esperança quando não há nenhuma. No entanto, talvez os maçons possam fazer mais. Como buscadores da Verdade e proponentes da educação, eles são especialmente adequados para combater a ignorância, o fanatismo e o ódio, que são o coração da guerra.

Haverá de certeza outra guerra. Afinal de contas, nós somos humanos. Parece estar ainda na nossa natureza. Decidir ser um pacifista não a vai impedir. Decidir esconder-se, ou ignorar os nossos líderes não a vai impedir. A questão é, como é que nos podemos preparar para isto e se a Maçonaria estará lá para derramar Luz? Aprender a falar A verdade é uma habilidade muito maior que pode ser necessária para combater o pensamento militar moderno. Talvez aprender a ser filósofos sábios seja o mais importante para parar a guerra antes que ela comece.

Kristine Wilson-Slack

Tradução de António Jorge

Notas

[1] O Meetup é um serviço usado para organizar grupos on-line que organizam eventos presenciais para pessoas com interesses semelhantes. A Meetup foi fundada em 2002 pelo CEO Scott Heiferman e quatro co-fundadores. Foi popularizado pela campanha política de 2004 de Howard Dean.

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