Mensagem ao Povo Maçónico do Grão Mestre da Maçonaria Portugueza – 1907

AO POVO MAÇONICO

MENSAGEM

DO

Grão Mestre da Maçonaria Portugueza

Sebastião de Magalhães Lima

ELEITO EM 22 DE MARÇO DE 1907

Nota: Um documento de 1907, que, curiosamente, poderia ter sido escrito hoje.

Meus Irmãos

Ao ser investido no elevado cargo de Grão Mestre da Maçonaria portugueza, se não me acobardo ante o dever a cumprir e a responsabilidade que sobre mim impende, é certo, todavia, que mal poderia corresponder á confiança com que acabaes de me honrar, se não tivesse a certeza antecipada do vosso concurso e da vossa cooperação, franca, leal e dedicada. É ardua a tarefa, bem o sei. Mas ella poderá, até certo ponto, ser attenuada pela comprehensao nitida do ideal que todos servimos com egual empenho e egual fervor.

Penso que a maçonaria é uma instituição de amor, de bondade, de tolerância e de fraternidade e a que melhor e mais intensamente representa o principio da solidariedade humana; penso que tem uma altíssima missão nacional a desempenhar, sob o ponto de vista da instrucção laica e da educação civica, e que a sua acção é, por isso mesmo, uma acção moral e intellectual, uma acção de liberdade e de justiça, de critica, de opinião, de resgate e de emancipação social.

Pairando acima dos partidos que se degladiam em pugnas pessoaes, estereis e dissolventes, n’um choque de egoísmos e de vaidades irritantes, a maçonaria, que tem uma feição própria, exclusiva, sem preferências por este ou por aquelle grupo, por este ou por aquelle indivíduo, sob o mais rigoroso anonymato, á semelhança do mineiro que arranca da tréva um mundo de luz, deve actuar no meio profano, de uma maneira efficaz e decisiva, por um combate incessante, tenaz e persistente, contra a reacção, qualquer que seja o aspecto que revista, contra o fanatismo, contra o prejuízo, contra o preconceito, adaptando se á sua epoca e tornando-se assim uma instituição util e respeitada.

Assistimos a um espectáculo consolador e fortificante. Por toda a parte se accentúa a tendencia para um fim determinado: a unidade espiritual da humanidade. Apparentemente separados, os espiritos criam e desenvolvem a consciência da sua unidade. Apesar de dependerem uns dos outros, encontram-se, todavia, ligados por afinidades indestructiveis, como se fossem parentes, descendentes de uma mesma raça ou cidadãos de um mesmo Estado, alheios a todas as convenções politicas, e constituindo, para assim o dizer, como que partes integrantes de todas essas unidades, criadas pelas suas relações e pelas suas necessidades quotidianas. Sentem-se camaradas e irmãos de todos os que, como elles, luctam pela vida na esphera das suas acções.

Para quem comprehende os signaes do tempo, não são, decerto, os Estados nacionaes que representam as unidades económicas predominantes, nem são também as religiões que levam os homens a fraternisar uns com os outros: é a vida mundial, á qual está cada vez mais subordinado o trabalho de cada indivíduo e de cada Estado; é a ideia da humanidade harmónica, a ideia do internacionalismo, que se revela como o culto do futuro.

Acontece muitas vezes, escrevia Silvio Pellico, ha um bom numero de annos, que os homens se aborrecem, por não se conhecerem reciprocamente ; se trocassem entre si algumas palavras, dar-se-hiam as mãos uns aos outros com toda a confiança. E é precisamente para fomentar a confiança entre os homens que existe a maçonaria, contribuindo, por uma insistente propaganda de altruísmo e de concordia, para fazer desapparecer a atmosphera de desconfiança e de suspeição que sobre elles tem pezado, mercê de uma organisação social, falsa e viciosa, afastando todas as causas que os possam separar ou dividir, e proclamando a fraternidade, como a principal base da sua doutrina. Assim como queremos o homem livre na família, a familia livre na parochia, a parochia livre no município, o município livre na província, a província livre no Estado, o Estado livre na humanidade, assim também queremos a união dos maçons dentro de cada loja, a união das lojas dentro da maçonaria de cada paiz, a união das maçonarias, emfim, dentro da grande patria commum – a Humanidade. Só a humanidade, como associação de todas as gerações presentes e futuras, poderá ser a interprete da lei suprema. É esta a verdadeira concepção da moral social, bem superior a todas as moraes religiosas.

Que representam os heroes da antiguidade, Cesar, Alexandre, Napoleão, que só pela força lograram distinguir-se, comparados com os heroes do nosso tempo, os verdadeiros heroes da civilisaçao, os philosophos, os sábios, os poetas, os jornalistas, os grandes inventores, um Victor Hugo, um Pasteur, um Curie, um Berthelot, um Edison?

Superior, muito superior ao poder ephemero das bayonetas dos Hapsburgos, na Áustria, de Eduardo III, na Inglaterra, de Carlos V e Filippe II, em Hespanha, de Luiz XIV e Napoleão I, em França, está a acção moral que apregoamos, que constitue o segredo da civilisação moderna, e que consiste em tornar a força impossível para uns e inútil para outros. O homem não foi feito para um eterno martyrio e para repellir eternos attentados. Ha uma cousa superior a essas luctas violentas: é o dever reciproco. O methodo racional da civilisação não se conquista, porém, tão facilmente, como se conquista uma praça forte. O que torna a guerra possível são tanto os prejuízos dos homens como o orgulho dos senhores.

As procellas, as trombas, os cyclones – dizia o illustre brazileiro, Ruy Barbosa, n’um dos seus discursos famosos- devastam, mas não duram. O que não passa é o oceano de verdades eternas, indifferentes ao rugir das paixões contemporâneas e por sobre elle a immensidade sidérea das almas, que és tu, ó liberdades !

As demagogias são cataclysmos passageiros. Todas as revoluções da vertigem popular naufragaram na dictadura. Só as revoluções de direito são definitivas: a que descaptivou a Hollanda no século dezeseis, a que renovou a Inglaterra no século dezesete, a que organizou as colonias anglo-americanas no século dezoito, as que fizeram, no século dezenove, a America latina, a Bélgica, a Italia, a Grécia.

O que é a Maçonaria ? Religião ou Escola ?

Crémos que é a escola de todas as virtudes e que o seu principal objectivo é a investigação da verdade pela sciencia, a conquista da liberdade pelo direito, da egualdade pela justiça e da harmonia universal pela fraternidade. Pertencemos evidentemente pelo nosso coração e pela nossa mentalidade a essa bella e gloriosa escola que, desde a sua fundação, vem luctando contra os erros do fanatismo, a favor da democracia universal, para formar de todos os povos e de todos os homens um só povo que se determine em todos os seus actos pelo principio da fraternidade. Por isso mesmo nos damos o doce appellido de irmãos.

Ouvi a linguagem insuspeita de um primaz do catholicismo, monsenhor Ireland, celebrando, na cathedral de Baltimore, o centenário da egreja americana : “Está no presente e não no passado, a nossa tarefa. O mundo encetou uma phase inteiramente nova. O passado não voltará”. A reacção é o devaneio de homens, que não enxergam, nem ouvem, e, sentados á porta dos cemitérios, esquecem o mundo vivo, chorando sobre tumulos, que nunca mais se hão de abrir.

A Maçonaria é, pois, no dizer de um dos nossos mestres queridos, Limousin, o nosso respeitável irmão do Grande Oriente de França, uma escola superior e graduada de philosophia que analysa os phenomenos de todas as ordens constatados pelo homem, e, particularmente, os phenomenos de ordem social. A sua superioridade está em poder julgar sem preoccupações de interesses particulares, e com inteira independencia, os actos e as acções externas. Cumpre-lhe aproximar imparcialmente as situações presentes de outras, analogas ou semelhantes, que foram registadas pela historia universal. Dessas comparações resultam ensinamentos preciosos, e, numa profunda e conscienciosa analyse, encontram-se os elementos constituitivos da synthese ideal e sempre perfectivel de uma sociedade melhor, elemento essencial da felicidade humana.

A humanidade, por maiores que tenham sido os seus progressos, está ainda bem longe de ter attingido o seu ideal de perfectibilidade. Se nos detivermos na analyse histórica, nas evoluções sociaes e políticas, desde os tempos mais remotos, se compararmos os tempos idos com os presentes, necessariamente temos que registar successivas victorias. Não ha duvida que é grande a differença entre os tempos feudaes, os tempos do absolutismo e os nossos tampos de livre exame e de livre critica. Não ha duvida que é grande a differença entre os tempos de conquista, do direito do mais forte contra o mais fraco, e o século presente de egualdade perante a lei.

Mas na pratica, infelizmente, nem sempre são observados estes princípios. Os tres direitos fundamentaes, a liberdade de imprensa, de reunião, de associação, são, a cada passo, entravados e violados, por peias e regulamentações monstruosas e absurdas, em nome de um supposto interesse da sociedade, de um falso pretexto de ordem publica que nos fazem recuar aos tempos mais ominosos do absolutismo.

A maçonaria, na sua levantada missão, em todo o universo, tem seguido e impulsionado, dia a dia, hora a hora, os progressos da liberdade, as conquistas da sciencia e o prestigio da moral, respeitando a vontade, o pensamento e as crenças alheias, sempre que caibam dentro da razão.

Olhando o plano vastíssimo da natureza, somos levados á convicção de que possuímos alma, vida, razão e entendimento. Assim, todos temos o mesmo direito de raciocinar e em ninguém é ou póde este direito ser infallivel. A nossa consciência é livre, para sentir e julgar. Entre homens, nenhum tem mais razão nem mais titulos, para impor as suas crenças. O estudo, a applicação da sciencia e as boas praticas da moral social contribuirão fatalmente para o bem da humanidade.

O nosso objectivo supremo é o estabelecimento da paz entre os povos. Todo o nosso empenho deverá sir, pois, educar e instruir para e6se fim. Seguimos, por esta forma, o exemplo dos Grandes Orientes que mais adeantados vão na sua porfiosa viagem e que a nossa Augusta Ordem tem de continuar, tanto no velho como no novo mundo.

Pacifiquemos os espiritos, por uma acertada orientação e assim pacificaremos os povos, arredando os de conflagrações bellicosas. Nenhuma instituição se presta tanto como a Maçonaria, pelo seu caracter universal, para ser um agente de paz internacional e um campeão decidido da arbitragem e da justiça.

Todas as potências maçónicas contam no seu seio poderosos amigos da paz. A data de 18 de Maio, foi escolhida pelos grandes Orientes estrangeiros e pelo nosso, para commémorar o pacifismo, e foi este também o principal motivo porque escolhi este dia para a minha investidura.

Ocioso se torna repetir-vos o que é essa paz armada, tão funesta ou mais funesta ainda do que a guerra, que está contribuindo para a ruina completa das nações, ainda as mais ricas. Para as familias, como para os povos, a fraternidade é o cimento mais solido das relações humanas. A liberdade diz vos : sêde fortes; a egualdade diz-vos : sêde justes ; a fraternidade proclama : sêde bons! Aquillo a que os christãos chamaram caridade e os positivistas altruísmo, chamamos nós fraternidade É, pois, no sentido da Federação humana, como a mais alta expressão do pacifismo, que todos os maçons devem orientar a sua acção e a actividade da sua propaganda.

A maçonaria, como todas as instituições d’este mundo, é a resultante dc factos que nascem da vida social e teem de obedecer ás condições do meio. A maçonaria não se desenvolve em todos os pontes do globo por forma egual. Assim, as diversas authoridades maçónicas que teem de influir nas lojas, para bem dirigir ou inspirar, hão de necessariamente attender a circumstancias particulares, sem perderem de vista o espirito de tolerância que as deverá guiar em ,todos os seus actes, obedecendo sempre a um grande sentimento de conciliação e de indulgenciax ousarei mesmo dizer, para com todos os nossos irmãos. Por este modo evitaremos controvérsias irritantes e affirmaremos a necessidade e o dever de manter urna paz permanente nos nossos templos.

Convém pois, amiudar, tanto quanto possível, as visitas das lojas entre si, promover excursões maçónicas, banquetes, saraus, celebrações civicas, leituras em cominum, de modo a tornar a maçonaria, por uma comunhão espiritual permanente, uma verdadeira familia, ligada e confundida n’um mesmo pensamento, num mesmo sentimento e numa mesma vontade.

No nosso paiz, como em quasi todas as nações, a maçonaria é sobretudo progressiva, e em todos os momentos da vida social a encontramos nas avançadas dos exercitos da civilisaçao. Se fosse possível fazer aqui, mesmo um esboço que fosse, da historia dos grandes Orientes, da Europa principalmente, ver-se-hia como a  nossa ordem tem sido, no meio de todos os povos, o mais importante elemento de regeneração moral e intellectual.

Se citássemos a França, a Bélgica, a Italia, a Suissa, a França principalmente, na sua historia encontraríamos o inicio, o estudo, os aperfeiçoamentos, e a realisacão pratica das grandes theorias de liberdade que conduzem os povos á harmonia de pensar, de sentir e de trabalhar para o bem da humanidade. Se folhearmos os relatórios dos congressos maçonicos da Bélgica, de Paris e Roma, ahi poderemos estudar e admirar o colossal trabalho dos franc-maçons em tudo o que constitue as soberbas aspirações das sociedades laicas.

A lucta com as congregações religiosas em França, quasi terminada com a separação da egreja, vinca na historia do mundo as paginas mais brilhantes do espirito e das consciências libertadas.

A maçonaria portugueza, que, antes de 1898, vivia quasi que especialmente entregue ás suas praticas liturgicas, entrou no convívio das potências, que, sem esquecerem honradas e gloriosas tradições, enveredaram pelo caminho das grandes reformas do ensino, de educação e da propaganda, para mais facilmente chegarem ás reformas sociaes, baseadas em liberdades amplas, principalmente na liberdade de consciência, e na pratica da nova moral social, antinomica da moral dos padres, que escravisa os cerebros ao despotismo dos dogmas.

As conclusões approvadas pelos congressos de Roma e de Paris, a que tive a honra de assistir, como delegado do Grande Oriente Lusitano Unido, não deixaram a menor duvida a este respeito. O que, principalmente, se apurou na imponentissima reunião no Grande Oriente de França, em 1905, depois do congresso, em que estavam representados, além dos francezes, italianos, belgas e portuguezes, foi que a maçonaria, assim como, n’outros tempos, se tornou o baluarte das liberdades publicas, devia ser hoje o baluarte do livre pensamento. O que se apurou foi que a maçonaria tem uma nobre missão a cumprir de emancipação social.

Convém definir o livre pensamento, como o definiram os dois referidos congressos.

O livre pensamento, em geral, é a lucta da humanidade contra as fatalidades da natureza e contra os dogmas no espirito. N’outros termos : toda a acção humana – e a historia o prova exhuberantemente – não é senão a expressão d’este duello formidável – uma lucta gigantesca, uma lucta homérica, do homem contra a natureza, do espirito contra a matéria, da virtude contra o vicio, da sciencia contra a ignorância, da justiça contra a iniquidade, da liberdade contra o despotismo.

O livre pensamento é racional, é social e é internacional. É racional (a propria palavra o diz), porque é a organisação lógica dos pensamentos. Ha uma ordem natural no dominio das ideias, como ha uma ordem natural no dominio das coisas. É social porque, libertando o homem do dogma, approxima-o do seu similhante pelo espirito de fraternidade e de solidariedade, substituindo o sobrenatural pelo natural e o divino pelo humano. É internacional porque, sendo a conciliação das diversidades, é também a conciliação das patrias, como escolas da humanidade. O livre pensamento marcará o triumpho definitivo da paz entre os homens.

A maçonaria portugueza foi a esses congressos, e d’elles trouxe ensinamentos e o calor que é preciso se não apague, e sem o qual pararemos ou retrogradaremos. Aprendemos, por tanto, com os nossos irmãos d’ outros paizes, que a principal missão da maçonaria, nos tempos presentes, é assentar todo o seu trabalho em persistentes e fortes alicerces de instrucção scientifica, laica, moral e civica, tendo cm vista processos de educação que se não confundem com os velhos processos de escravisar homens e consciências. Aprendemos muito, e alguma coisa já ensaiámos no campos das theorias, e até da pratica.

Do que vos acabo de expôr, conclue-se que o meu caminho está, natural e logicamente, traçado. Procurarei, acima de tudo, respeitar a lei e torna-la respeitada. A característica da lei está em amparar a fraqueza contra a força, a minoria contra a maioria, o direito contra o interesse, o principio contra a occasião.A lei desapparece sempre que delia disponham a occasião, o hiteresse, a maioria ou a força.

Contava a musa de Solon, o fundador da democracia grega, que o desprezo da lei alastrava de males a cidade, ao passo que, com a sua observância, pelo contrario, tudo entre os homens se convertia em harmonia e razão.

A observância da lei hade dar-me a força necessaria que deriva da serenidade, para resolver os conflictos que, porventura, possam levantar-se entre os nossos irmãos, com a maior independencia e imparcialidade, alheio a quaesquer paixões ou preoccupações pessoaes, tendo sempre em vista o espirito fraterno e conciliador que constitue a divisa maçónica.

Porei sempre o interesse maçonico, acima de qualquer outro interesse, e empenhar-me hei : internamente, por manter a união dentro das lojas, procurando estar em permanente contacto com ellas, satisfazendo as suas reclamações e ouvindo, os seus queixumes; e, externamente, estabelecendo com os Grandes Orientes estrangeiros relações de mutuo e carinhoso affecto, visitando-os, com a possível frequência, porque taes relações só se tornarão solidas e duradouras por approximações e troca amiudada de impressões pessoaes.

Contribuirei, na medida das minhas forças, por desenvolver uma larga atmosphera moral e intellectual, onde encontraremos campo aberto para as batalhas do espirito que serão sempre, no dizer do nosso respeitável irmão Feio Terenas, que tanto concorreu para imprimir á maçonaria a feição laica e livre pensadora que actualmente a distingue, as nossas batalhas ,e as mais profícuas para as praticas da solidariedade que governa o mundo bem inspirando os homens.

Para tão altíssima missão temos que formar o nosso meio intellectual, accrescenta aquelle nosso illustre e dedicado irmão Littré iniciado na respeitável loja Clemente Amitié, dizia no anniversario da sua iniciação :

Le principal devoir de l’homme envers lui même, est de s’instruire; le principal devoir de l’homme envers ses semblables est de les instruire“.

Instruídos e instruindo com mais segurança proclamaremos o direito á liberdade de pensar, com mais efficacia poderemos repellir o arbítrio e respeitar a lei.

Devemos muitas vezes repetir: a maçonaria deve recommendar-se pela persuasão e pelo exemplo, trabalhando por aperfeiçoar o indivíduo para este aperfeiçoar a sociedade. Nenhuma crença systematica se impõe em matéria religiosa ou philosophica.

Instruamo-nos, para instruir os outros ; sejamos unidos para ser fortes, e sejamos fortes para servir a humanidade.»

Alcibiades definiu a democracia toda a organisação avêssa ao despotismo. A maçonaria é, pois, uma instituição democrática, que tem por fim melhorar a vida, tornar os homens felizes, fazendo com que se interessem mais uns pelos outros, pela maior somma de bem estar moral e material.

A felicidade, na phrase de um escriptor illustre, está na doçura do bem, distribuído sem ideia de remuneração. Ou por outra, sob uma formula mais precisa, a nossa felicidade consiste no sentimento da felicidade alheia, generosamente creada por um acto nosso.

Esta aspiração está nitidamente esboçada nos relatórios de 1905 e 1906, apresentados á Grande Loja pelos respectivos Conselhos da Ordem. O do ultimo anno foi exclusivamente elaborado pelo actual Grande Secretario, dr. Fausto de Quadros, a quem me. apraz tributar aqui justos louvores pela sua rara dedicação.

Para accentuar a tendencia progressiva da maçonaria desde 1898, bastará reproduzir alguns trechos do relatorio que por essa occasião foi publicado :

À maçonaria cumpre impellir as sociedades para todos os aperfeiçoamentos humanos, acceitando os processos evolutivos, quando os governos não contrariem a mesma evolução, por meio de repressões desnecessárias ou de violências injustificadas. Progressiva, como é, a maçonaria, professa o culto da Liberdade, Egualdade e Fraternidade, e não pode esquecer que é ella o principal ponto de apoio das reformas sociaes.

Os princípios da revolução franceza foram defendidos pelos franc-maçons, Mirabeau, Saint-Just, Sieyès, Camillo Desmoulins, Lafayette,Danton,Boissy d’Anglâs. Diderot pertencia á respeitável loja dos Nove Irmãos, d’onde sahiu a Declaração dos direitos do homem.

Honremos, pela nossa parte, essas gloriosas tradições.

Em França, a maçonaria, é um dos principaes esteios da democracia e o principal adversário do clericalismo reaccionario com que se defronta em todas as circumstancias e ataca em todos os reductos. Por isso mesmo poucos são os grandes estadistas d’esse belle paiz que não pertençam á nossa Augusta Ordem, a não acatem e estimem. Em Portugal a maçonaria deveria seguir na mesma esteira para não atraiçoar a sua missão”.

Torna-se indispensável alargar a nossa esphera de acção, lançando, sobre o paiz, uma vasta rede, de modo que cada malha seja um fóco maçonico que, mais do que pelo numero, se deverá impôr pela qualidade dos membros que o compõem.

É preciso attrahir os intellectuaes ao nosso seio, estabelecendo uma unidade de pensamento de que ha de resultar a indispensável unidade de acção.

Disraeli, um dos mais notáveis homens de Estado da Inglaterra, definiu a política uma concessão permanente. Se o pae é obrigado a fazer concessões ao filho, o marido á mulher, o irmão á irmã, porque é que nós não havemos de fazer concessões aos nossos semelhantes ?

Cada um tem o seu feitio, o seu temperamento, a sua tendencia. Mas ninguém é demais. Todos são necessários e uteis, porque cada um de per si representa uma força a uma cooperação. E é pela federação de todas essas vontades que havemos de chegar á harmonia, que synthetisa o ideal maçonico.

A noção de justiça impõe-se, como a primeira condição d’essa apregoada harmonia que não é senão a concordia fraternal. Precisamos ser justos uns para com os outros, fazendo concessões reciprocas. Não basta pertencer á maçonaria: é mister merece-la, e ser digno d’ella.

E, para terminar, permittam-me que me soccorra á opinião autorizada do nosso irmão Friednch, Grão Mestre da Grande Loja, Os Três globos de Berlim :

“Pensamos que, como todo u ser vivente, a Franc Maçonaria deve pensar e sgir.

Que elabore as theorias do progresso, que prepare de longe as grandes reformas nos costumes, nas leis, nas relações económicas entre os homens, é já uma grande e nobre missão. É preciso também que seja a guarda vigilante de todas as conquistas já realisadas e que constantemente seja vista de pé contra o obscurantismo e a reacção.

Que a estrella symbolica brilhe no céo do pensamento. Que o triângulo egualitario annuncie a justiça. Mas que tambem a espada flammejante, como a agulha aimantada para o pólo, esteja sempre voltada contra o fanatismo e contra a tyrannia.

Para destruir a ignorância e a mentira, para lutar contra a barbaria atavica, não bastam as theses abstractas, sobre as doutrinas e as instituições. É preciso desarmar os homens nefastos que incarnam o mal social em seus appetites insaciáveis. É preciso expulsar do templo da humanidade os odiosos pontífices que enchem com as suas imposturas a alma sincera do povo.

Pensar e agir !”

No pensamento e na acção se resume o meu programma

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