O cavaleiro Ramsay e a origem da Maçonaria

Ramsay e as Origens

Diversas personalidades da História ramsay contribuíram de maneira expressiva para o surgir e expansão da Sublime Ordem Maçónica. Como uma sociedade secreta nas suas origens, a Maçonaria não apresenta registos das suas actividades oficiais relativos aos períodos anteriores ao século XVII. Porém a partir do inicio do século XVIII surgiram os primeiros documentos que relatam, de maneira inequívoca, a trajectória da nossa Ordem. Do mesmo modo ficamos conhecendo alguns Obreiros que, pelas suas ideias e realizações, marcaram de forma significativa a nossa trajectória.

Neste breve trabalho vamos comentar alguns aspectos da vida maçónica de Sir Andrey Michael Ramsay, um cavaleiro que, na opinião de muitos historiadores, foi o grande responsável pelo surgir do Rito Escocês Antigo e Aceite. Além disso, a sua actuação foi importante não só para esta forma de trabalho maçónico. Foi essencial para a efectivação da Maçonaria no sentido geral tanto na Europa Continental como em todo o mundo.

Portanto, conhecer um pouco sobre a biografia de Sir Ramsay é assunto que justifica alguns momentos de reflexão para todo Maçon que busca a verdade sobre a história da mais fraternal sociedade jamais criada.

A maçonaria emergente

Após a eclosão pública da Franco-Maçonaria em Inglaterra em 24 de Junho de 1717, quando quatro lojas se uniram para criar a Grande Loja, ocorreu uma expansão do fenómeno maçónico para além do Canal da Mancha e para todo o mundo, num período relativamente breve. Este não era o objectivo dos primeiros Maçons declarados, e nem seria uma consequência lógica e natural considerando a bagagem doutrinária que permeava os antigos ritos às margens dos canteiros de obras.

Os rituais maçónicos praticados em meados de 1730-1735 no continente europeu seguiam as tradições da Maçonaria inglesa de três graus. A Grande Loja Unida de Inglaterra, estabelecida em 24 de Junho de 1717 – de acordo com relatos do Pastor escocês James Anderson, feitos na década de 1720 – era formada por membros da chamada classe média emergente da Inglaterra pré-Revolução Industrial. Os seus membros eram pequenos artesãos, comerciantes insipientes, servidores da corte e de órgãos públicos, dentre outros, que se reuniam esporadicamente em tavernas para celebrar, fundamentalmente, a união fraternal entre eles. Esta tradição vinha das antigas fraternidades europeias, que desde o século X agregavam pequenos grupos de pessoas, face às imensas dificuldades da vida no feudalismo.

Como não havia sistemas de protecção social, como previdência ou planos de saúde, era importante que pessoas se unissem para ajuda mútua. Isto ficava evidente, por exemplo, na ajuda às viúvas que não tinham renda alguma. Um cofre ou baú de madeira, semelhante a um tronco, guardava as arrecadações de todos e esta economia auxiliava as famílias que perdiam o pai e marido.

Enquanto comunidades de amparo social, tais entidades floresciam e pelo seu valor entre os mais humildes chegaram hígidas até a Modernidade, mas logicamente sem o mesmo apelo filantrópico da idade das trevas – a sociedade saia do Feudalismo e estava às portas das grandes transformações advindas da iminente Revolução Industrial. Alguns destes grupos já trilhavam outros caminhos, como a absorção de simbolismos ancestrais utilizados por outras entidades.

Existiam oficinas mais antigas, em solo escocês, com forte viés fraternal associado, por exemplo, a algumas nuances do simbolismo presente nas antigas Guildas de Pedreiros Construtores. Isto fica claro num dos poucos registos formais que chegou aos nossos dias: a primeira Iniciação efectivamente registada em solo britânico foi realizada em 20 de Maio de 1641 quando Sir Robert Moray foi aceito na Loja Mary’s Chapel nº 2, de Edimburgo. Esta oficina já praticava noções litúrgicas dos canteiros de obras, certamente face às muitas e complexas obras de arquitectura religiosa desenvolvidas naquelas terras.

Apesar de haver lojas em solo escocês com algumas características esotéricas ou iniciáticas, mais ao sul e no resto do mundo os maçons reuniam-se em pubs ou tavernas, e eram conhecidos como “clubes de almoço”, no final do século XVII. Mas isto seria alterado. Com a efervescência das ideias iluministas e o pretenso predomínio das ditas ciências naturais sobre as crenças e dogmas do medievalismo, apenas o apelo fraternal não seria suficiente para manter a agregação das pessoas em torno das lojas primordiais. Tal condição foi detectada logo nos primeiros anos de funcionamento da Ordem, e assim outros fundamentos e justificativas começavam a cristalizar-se em torno dos rituais seminais. A aproximação com as Antigas Obrigações, com os princípios de Ordens Iniciáticas e com membros da ilustre e recém fundada Royal Society (Londres, 1661), comunidade voltada às novas ciências e criada por grandes expoentes da intelectualidade podia ser um catalisador para a expansão da Maçonaria.

Estes novos parâmetros poderiam garantir e garantiram o interesse por diferentes camadas da população em pertencer e o número de lojas multiplicou-se em poucos anos. Por volta de 1723 já eram mais de 50 lojas em Londres, e rapidamente apareceram oficinas na Europa continental, principalmente na França.

Quem foi Ramsay?

Andrew Michael Ramsay

O escocês Andrew Michael Ramsay nasceu provavelmente no ano de 1681, na cidade de Ayr. Desde cedo manifestou interesse pelas chamadas ciências da natureza, reflectindo a inquietação e furor que invadia os círculos pensantes da época do Iluminismo. Foi levado à Universidade de Edimburgo, e devido aos seus conhecimentos tornou-se tutor dos filhos do Conde de Wemys, um dos nobres mais abastados da Escócia. Este cargo revestia-se de grande destaque e garantia projecção social e intelectual a quem o exercia. Por motivos políticos, porém, Ramsay deixou a Grã-Bretanha e foi para a França, já com protegido do arcebispo de Fénelon. Não sabemos se por convicção pessoal ou por motivação política, ele converteu-se ao catolicismo romano. Foi preceptor do Duque de Chateau-Terry e do Príncipe de Turrene. Como se destacou nestas funções, foi nomeado Cavaleiro da Ordem de São Lázaro, tornando-se um chevalier ou cavaleiro francês. Então, foi chamado a Roma para cuidar da educação do filho do rei deposto da Inglaterra, Jaime III. Este monarca sem reino pretendia restabelecer a sua linhagem na coroa inglesa novamente em parceria com a Igreja Católica Romana, e para isso o seu filho deveria ter uma formação e educação adequadas pois seria o futuro rei de Inglaterra ( a restauração ou causa Jacobita). Após realizar este trabalho, Ramsay retornou à França, justamente quando a recém chegada Ordem Maçónica estava a começar a se estabelecer efectivamente em cidades médias e grandes do continente.

Ramsay e a Maçonaria

Ramsay era membro da Royal Society. Até à morte de Sir Isaac Newton, era o seu grande amigo e colega de muitos trabalhos e pesquisas. Após a sua trajectória em Roma, fixou residência em solo francês por volta dos anos 1730. O cavaleiro escocês ficou fascinado por novos grupos recém formados, integrados por indivíduos da Grã Bretanha. Havia uma nova Grande Loja fundada na França, e lojas filiadas à Grande Loja da Inglaterra. Apenas em 1773 seria estabelecida a primeira Obediência formal francesa, o Grande Oriente. Deste período destaca-se a Loja parisiense de Bussy, na rua do mesmo nome ,quase em frente à Saint Germain de Prés, próxima a rua Boucheries – onde funcionava uma outra loja fundada por Charles Radclyffe, conde de Derwentwater. Apesar de repletos de ideias sobre liberdade e fraternidade, o que causava um certo desinteresse nas camadas mais letradas da sociedade francesa era a propalada aproximação histórica e ideológica com as ancestrais guildas de pedreiros construtores.

Provavelmente esta parceria ocorreu por influência de Sir John Desaguliers, o terceiro grão-mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra (eleito em 1719), que também era amigo íntimo de Isaac Newton. Ele esteve em Edimburgo conhecendo a Loja Mary’s Chapel nº 2, que tinha um forte trabalho com os símbolos das guildas. Ao participar de uma sessão nestes moldes, o então grão-mestre selou a aproximação entre maçons e pedreiros de maneira efectiva. Esta visita, ocorrida no começo da década de 1720, fez com que Desaguliers convocasse um escocês para escrever a primeira Constituição Maçónica que se tem notícia. De qualquer modo, o simbolismo das lojas passava a elaborar a sua identidade e as suas ferramentas alegóricas nas tradições místicas dos antigos canteiros de obras. Isto, para a nobreza e para a insipiente burguesia que começava a florescer, não representava algo de valor e por isso o crescimento da ordem era lento e limitado.

A Franco-Maçonaria, além disto, formatava os seus trabalhos transitando pelas áreas das Ciências Naturais, da Filosofia, da Matemática e Geometria, do Hermetismo, do Neoplatonismo e das ideias rosacrucianas. Toda esta bagagem intelectual, apesar de ofertar tantas possibilidades de aperfeiçoamento ideológico aos seus membros, não bastava para atrair membros ilustres da comunidade francesa. Ramsay percebeu esta questão e resolveu agir. Deste insight eclodiu toda uma nova perspectiva existencial, filosófica e pragmática que seria a catapulta para inserir a Maçonaria a níveis antes nunca imaginados. Ramsay simplesmente afastou a origem da Maçonaria dos obreiros das catedrais e a situou junto a reis, príncipes, nobres, duques, barões e cavaleiros da Idade Média e da antiguidade. Incorporou a coragem e valentia dos Cruzados à alma maçónica. Associar um Maçon a um cavaleiro cruzado foi um golpe de mestre, pois as Cruzadas ainda eram, na visão de mundo eurocentrista, o exemplo maior de devoção a uma nobre causa. Ele obviamente não tinha nenhum documento oficial ou fonte de pesquisas adequada, mas esta nova origem, muito mais “sangue-azul” e repleta de novas personalidades heróicas que frequentavam o inconsciente colectivo dos novos obreiros em potencial, foram a pedra angular que sustentaria a nossa Ordem nestes momentos cruciais da sua gestação.

Andrew Ramsay tinha certa moralidade para falar, por isso as suas ideias foram aceites. Além de tutor de integrantes da realeza, era membro da Royal Society, e um legítimo Cavaleiro da Ordem de São Lázaro. Nesta época ele já era figura eminente da Ordem Maçónica na França, ocupando o cargo de Grande Chanceler da Grande Loja Maçónica de Paris. O acto solene que lançou formalmente esta ideia foi um poderoso discurso proclamado por ele na Loja de São Tomás, de Paris, em 21 de Março de 1737 – não por acaso, na noite do equinócio da Primavera no hemisfério norte. O escritor Robinson (2.005, p. 172) menciona trechos deste discurso, como um no qual Ramsay afirma que “os nossos ancestrais, os cruzados, reuniram-se, vindos de todas as partes da cristandade, na Terra Santa, desejando assim reunir numa única fraternidade os indivíduos de todas as nações”. Segue-se citação sobre os segredos: “as palavras de guerra que os cruzados diziam uns para os outros para resguardá-los das surpresas dos sarracenos, que frequentemente surgiam ente eles para matá-los” (p.173). Também incluiu os antigos mistérios de Ceres, Ísis, Minerva e Diana aos trabalhos da Ordem. Afirmava que os antigos maçons não eram pedreiros e sim trabalhadores que faziam votos para restaurar o Templo de Salomão na Terra Santa, e que tinham feito um pacto de honra com os Cavaleiros de São João de Jerusalém.

Estas colocações iam de encontro às ondas e fantasias cavaleirescas que inundavam as mentes dos mais eruditos e dos mais humildes na Europa dos séculos XVII ao XIX. Ele também afirmava que as Lojas foram criadas, na realidade, por cavaleiros cruzados que voltaram para as suas terras natais, como a Alemanha, Itália, França, Espanha e Escócia. Neste último país, Ramsay declarava que um certo Senhor Steward, cavaleiro cruzado, teria sido o Grão Mestre de uma antiga loja, na cidade de Kilwinning no ano de 1286.

O discurso emblemático de Ramsay foi repetido inúmeras vezes em várias Lojas e houve uma tremenda repercussão entre os iniciados e também na sociedade em geral. Muitos novos graus foram-se estabelecendo ao Rito Escocês, e em vários países outras formas de trabalho iam aparecendo. Chegou-se a computar a existência de mais de 1400 ritos diferentes, sendo que quase todos adoptavam linguagem pertinente ao Velho Testamento e a inúmeras ordens de cavaleiros.

Um dos modos de trabalho que eclodiram em terreno francês, a partir das falas de Ramsay , foi denominado de Écossaise, ou Rito Escocês. Formado por 33 graus, foi exportado para os Estados Unidos e ficou conhecido como Rito Escocês Antigo e Aceito, tendo grande similaridade simbólica com a antiga Ordem Arábica dos Nobres do Santuário Místico, ou “Shriners”. Desta origem surgiu uma tradição com forte conotação nas tradições egípcias, árabe, turca, fenícia e judaica, com ênfase no Velho Testamento. Como Rito efectivamente escocês somente há registo da Ordem Real da Escócia. Interessante comentar que, um ano após o magnífico discurso de Ramsay, a Igreja Católica Romana resolveu tomar medidas formais em relação à expansão acelerada da Ordem – o Papa Clemente XII lançou em 1738 abula “In Eminente Apostolatus Specula”, mas isto é assunto para outros trabalhos.

Conclusão

Dentre as personalidades que actuaram com destaque no contexto de expressiva fermentação ideológica final do século XVII e início do XVIII, chama à atenção a figura ímpar de Andrew Michael Ramsay. A sua actuação junto à nobreza e às camadas mais influentes da sociedade europeia foi fundamental para a estruturação do que actualmente chamamos de moderna Maçonaria. Sem Ramsay, um escocês de vida e biografia relativamente obscuras, não existiria o Rito Escocês Antigo e Aceito na forma que o conhecemos e provavelmente a nossa Ordem permaneceria como um pequeno grupo limitado às Ilhas Britânicas e adjacências. Trazendo luz à biografia deste ilustre obreiro estamos iluminando um poderoso capítulo da nossa história e, além disso, estamos honrando a personalidade maçónica de um dos mais destacados irmãos-fundadores da nossa sagrada Ordem.

Carlos Alberto Carvalho Pires

Fontes

  • BAIGENT, M., LEIGH, R. “O Templo e a Loja”, 1ª Edição, São Paulo: Madras, 2005.
  • CAMINO, “Dicionário Maçónico”, 1ª Edição, São Paulo: Madras, 2006.
  • DOUCET, W. “O Livro de Ouro do Ocultismo”, 1- Edição, Rio de Janeiro: Ediouro Public, 1990.
  • DYER C. , “O Simbolismo na Maçonaria”, 1ª Edição, São Paulo: Madras, 2006
  • ROBINSON, J. J. “Os Segredos Perdidos da Maçonaria”, 1ª Edição, São Paulo: Madras, 2005.
  • LOMAS R., “Girando a chave de Hiram – Tornando a Escuridão Visível”, 1ª Edição, Editora Madras, 2006.
  • Internet : http://www.maconariabrasil.wordpress.com

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