O legado dos Essénios

A utopia é um arquétipo que mora no inconsciente colectivo da humanidade essénios desde os primeiros momentos da sua experiência civilizacional. Todas têm em comum uma base religiosa, mas no fundo, objectivam uma realização política e social que às vezes buscam uma realização efectiva, outras vezes não. Algumas, como a República de Platão, a Utopia de Thomas Mórus, os discursos de Voltaire em Cândido, são apenas sonhos de filósofos, que jamais saem do papel. Outros, como o sonho americano dos pioneiros que colonizaram a América do Norte, o delírio de Hitler com o seu nacional-socialismo, ou a quimera comunista, tão elogiada por poetas como Pablo Neruda e Maiakovski, tornaram-se realidade como realizações políticas, embora, como no caso da Alemanha e da Rússia, por exemplo, os seus resultados tivessem sido bem diferentes daqueles que os seus idealizadores sonharam.

As utopias são arquétipos que afloram no imaginário popular, especialmente em épocas de grande tensão social. Não é sem razão que as primeiras décadas do século XVII, logo após a eclosão da Reforma protestante tenha sido farta na publicação de trabalhos abordando este tema. Já citamos vários autores dessa época que trabalharam com a ideia da utopia, mas poucos foram tão pródigos e incisivos quanto os Rosa-Cruzes e os seus contemporâneos, os chamados “maçons aceitos” que compraram a ideia da “fraternidade mundial que reuniria os homens de saber em todo o mundo, para trabalhar pela libertação do homem dos seus erros e vícios mortais”. Pois foi exactamente a Maçonaria, como instituição organizada em todo o mundo ocidental, que iria levar a cabo a realização dessa ideia [1].

O legado dos essénios

O próprio cristianismo pode ser contado entre as utopias. O seu fundador, Jesus de Nazaré, o filho do carpinteiro José, sonhou com um mundo justo e perfeito, onde todas as mazelas que infelicitam o ser humano seriam eliminadas. O que os seus seguidores fizeram depois com a sua maravilhosa doutrina é outra coisa, porém a sua ideia de um “reino de Deus” sobre a terra era uma esperança bem real e possível, tanto que ele morreu por ela.

Hoje resta pouca dúvida de que Jesus tenha sido membro da seita dos essénios, ou que pelo menos tenha sido influenciado, ou mesmo doutrinado por esses estranhos zelotes religiosos que tanta influência tiveram no pensamento místico que marcou a civilização ocidental nos primeiros séculos do cristianismo.

Os essénios constituíam uma comunidade místico-religiosa formada por iniciados nos mistérios da religião hebraica. São os precursores da grande tradição judaica chamada Cabala e os cultores da filosofia gnóstica também lhes devem muitas influências.

Os essénios julgavam-se detentores do verdadeiro conhecimento religioso, aquela sabedoria que Deus comunicara aos primeiros homens e que desaparecera da terra após o dilúvio. Muitos escritores de orientação esotérica fazem-nos herdeiros dos atlantes, atribuindo-lhes diversos conhecimentos iniciáticos. Nós contentamo-nos em reconhecer o legado que eles deram à Arte Real, os quais foram incorporados à tradição maçónica através dos aportes que lhe deram os cultores da Cabala filosófica, entre os quais, diga-se de passagem, havia muitos judeus.

Duas das tradições legadas pelos essénios, e aproveitadas no simbolismo maçónico, são os simbolismos do Homem Universal (Adão Kadmon) e o mistério ligado ao verdadeiro significado do Nome de Deus (o Tetragrammaton). Na Maçonaria estes simbolismos são utilizados para desenvolver alguns ensinamentos dos graus superiores, tanto nas chamadas Lojas de perfeição, quanto os capítulos filosóficos.

Entre os judeus, os essénios podem ser considerados uma espécie de confraria religiosa, cujos membros discordavam da orientação imprimida à religião judaica pelos seus líderes. Formando uma verdadeira seita radical, eles afastaram-se do convívio social e desenvolveram uma espécie muito particular de comunidade, que na verdade, tinha um objectivo bem definido: preparar uma nova nação de eleitos de Deus, que seria a herdeira da Nova Aliança, quando o Messias viesse ao mundo.

Neste sentido, eles desenvolveram um complexo sistema iniciático, que exigia dos seus membros juramentos solenes de obrigações fraternas e um estrito silêncio sobre as suas práticas, crenças e tradições, ao mesmo tempo que inculcavam na cabeça dos seus adeptos uma filosofia de vida ascética e moralmente virtuosa, rigidamente orientada pelos preceitos da Torá.

A ideia que se fazia dos essénios, a partir de informações extraídas de escritores antigos, como Philo de Alexandria, por exemplo, que já no século I da era cristã confessava a influência que deles teria recebido, era a de que eles constituíam uma comunidade de magos, grandes conhecedores de segredos da natureza, detentores de uma sabedoria muitas vezes milenária, oriunda, talvez, de uma civilização desaparecida.

Por força de tais informações, os essénios sempre foram envolvidos por uma aura de misticismo e mistério. Porém, com a descoberta dos pergaminhos do Mar Morto, uma nova luz foi lançada sobre esse interessante grupo sectário, que sobreviveu por mais de dois séculos em condições sociais e políticas muito adversas, praticando uma espécie de irmandade que muito os aproxima do ideal preconizado pelos idealizadores da Maçonaria moderna.

É evidente que qualquer comparação, qualquer analogia que se faça entre a comunidade essénia e a Maçonaria deve levar em conta as culturas em que elas se desenvolveram e as suas respectivas épocas. Esta comparação deve ser feita à nível de objectivos e procedimentos, relevando-se as aproximações sem observar as diferenças, que são notórias. Talvez a melhor fórmula para se fazer essa aproximação seja a observação de que os essénios conservaram na sua doutrina e na sua prática de vida a essência da tradição iniciática dos sacerdotes egípcios, dos hierofantes gregos, e das comunidades místicas da Pérsia e da Mesopotâmia, aliados a uma ideia de elitismo cultural e zelo pela tradição. Aproximando e adaptando a tradição hebraica a essas antigas formas de desenvolvimento espiritual, eles criaram uma nova cultura, salvaguardando e desenvolvendo a face mística, esotérica, contida naquelas antigas tradições, legando aos gnósticos cristãos, seus sucessores o que de melhor havia na doutrina religiosa daqueles antigos povos.

Síntese histórica

A comunidade dos essénios teria sido fundada por um personagem misterioso, referido na sua literatura ora como Mestre Perfeito, ora como Mestre Verdadeiro. Não se sabe quem foi realmente esse personagem singular, mas acredita-se que tenha sido um sacerdote da tribo de Levi, que revoltado com a corrupção do clero israelita da época, (inicio do século II a. C), retirou-se para a clandestinidade, arrastando com ele um vasto contingente de seguidores, insatisfeitos com os rumos que a religião vinha tomando em Israel.

No início do século II a C., o reino de Israel fazia parte do chamado mundo helénico. Desde o século IV a C. a Palestina tinha sido incorporada ao império persa, que por sua vez, fora conquistado por Alexandre Magno entre 326 e 323 a C.

Após a morte de Alexandre, o seu império foi dividido entre os seus generais. A parte correspondente à Síria e Palestina ficou com Antíoco, que estabeleceu a sede do seu governo na Síria. Por volta do inicio do século II a C. reinava na Síria um dos seus descendentes, chamado Antíoco Epífanes. O historiador judeu Flávio Josefo (37-100 e. C) dá-nos uma ideia do ambiente que reinava em Israel naquela época [2]. Naquele tempo, diz o referido historiador, a casta sacerdotal responsável pela manutenção da pureza da religião de Israel, fundamentada na lei mosaica, estava profundamente corrompida. Só se preocupava em manter os seus privilégios, submetendo-se à pressões e influências estrangeiras, esquecendo-se que o maior dever do sacerdote era a manutenção da tradição e da pureza da relação entre o homem e Deus.

Os israelitas sempre foram muito ciosos a respeito da sua religião. Muitos preferiam morrer a adorar ídolos estrangeiros ou violar os preceitos da Torá. Esta situação, que perdurou durante todo o período da dominação helénica, e se prolongou durante a ocupação romana, não raramente ensejava motivos para a eclosão de sangrentas revoltas.

Durante a época de Jesus, esta situação não se modificara, como se pode perceber pelo seu magistério. Jesus fazia ferrenha oposição à classe sacerdotal da sua época, conforme se lê nos Evangelhos. Esta classe, composta pelos saduceus e fariseus, outras duas seitas existentes em Israel, interpretava a lei em seu próprio beneficio e lançava sobre os ombros do povo cargas “que nem com um dedo queriam levantar”, no dizer de Jesus.

Com isto não concordavam os “puristas”, os ortodoxos, os cultores da ideia de uma religião isenta de qualquer influência pagã. Estes “puristas” julgavam ser o culto à deuses estrangeiros, a maior das ofensas que se podia fazer a Jeová. Entre eles estavam os essénios e os zelotes.

Um destes homens “puros” foi, sem dúvida, o chamado Mestre Verdadeiro, ou Mestre da Rectidão, que fundou a comunidade essénia. No inicio do século II a C., o sacerdócio era exercido pela família de Matatias, um homem da tribo de Levi, famoso pelas suas posições de defesa intransigente da lei mosaica. O rei sírio Antíoco Epífanes, desejando quebrar a resistência israelita, quis implantar em Israel o culto a Zeus Olímpico. Com esta intenção, invadiu o santuário do Templo de Salomão em Jerusalém, colocando no altar do Santo dos Santos uma estátua daquele deus. Os israelitas não suportaram a violação do mais sagrado dos seus locais, e comandados por Judas, o filho mais velho do sacerdote Matatias, iniciaram a rebelião que ficou conhecida como a Revolta dos Macabeus.

Foi durante a Revolta dos Macabeus que um grupo de israelitas ortodoxos fugiu de Israel e instalou-se na chamada “Terra de Damasco”. Liderados pelo chamado Mestre da Rectidão (talvez o próprio Matatias, ou ainda um dos filhos), a sua intenção era praticar a verdadeira religião de Israel, na sua pureza primitiva. .

Durante todo o período de dominação helénica, o núcleo de reacção judaica concentrou-se em dois grupos: Os essénios e os zelotes. Quanto aos zelotes, o interesse para este estudo é secundário, tendo em vista que eles permaneceram principalmente no terreno militar. Foram eles, inclusive, que forneceram os combatentes que, nos anos 67-70 d.C., sustentaram uma guerra sem quartel contra as tropas romanas.

Já os essénios, conforme se percebe na literatura recuperada através dos pergaminhos do Mar Morto, pregavam uma resistência ora política, ora espiritual. Esta resistência estava sempre conexa com a ideia de um herói, um Messias, que libertaria Israel do domínio estrangeiro e renovaria a aliança daquele povo com Deus [3].

Chamando-se a si mesmos de “convertidos, penitentes, pobres, justos, santos, eleitos, etc.”, os essénios consideravam ser o seu grupo, a verdadeira Israel, aquela nação cujo modelo Deus teria transmitido a Abraão e realizado através de Moisés. Acreditavam que por ocasião da fuga do Egipto, Deus teria transmitido a Moisés a verdadeira sabedoria, que estaria oculta no significado do seu Verdadeiro Nome, segredos esse que Moisés não revelou no Pentateuco, mas transmitiu oralmente aos sacerdotes mais antigos da tribo de Levi. Era este segredo que os essénios se julgavam depositários. Acreditando que a maioria dos ensinamentos bíblicos tinha sido escrito em código, eles desenvolveram uma interessante forma de interpretação do Livro Sagrado, que certamente deve ter servido de inspiração para os rabinos que desenvolveram a grande tradição da Cabala.

O objectivo dos essénios

A seita dos essénios era uma verdadeira Fraternidade, com características de sociedade secreta. Para se tornar membro dela era preciso que o neófito fosse portador de três atributos básicos: ser israelita, inteligente e disciplinado. Exigia-se do candidato um juramento para com a Irmandade e para consigo mesmo, no qual ele se comprometia a submeter-se à disciplina da Ordem, e a perseguir os objectivos pelos quais se tornara membro dela. Em princípio, o iniciado deveria viver na comunidade durante um ano antes de tomar-se membro efectivo. Após esse período, ele tornava-se um “numeroso ou sectário pleno”, ocasião em que deveria juntar os seus bens aos da comunidade.

O objectivo da comunidade era não só preservar a pureza dos fundamentos da religião israelita, mas principalmente preparar um Messias, um líder que fosse capaz de libertar o povo de Israel da influência estrangeira e reconstituir depois, o reino de Deus sobre a terra. Toda a sua organização e o conjunto da sua doutrina eram dirigidos para este objectivo.

Não só o Messias deveria ser preparado, porém. Quando o seu reino fosse instalado, ele iria necessitar de “quadros” para governar. Assim, toda a rígida disciplina da Fraternidade era orientada também para a produção de “juízes, guerreiros e administradores”, enfim, todo o “staff’ necessário para a administração da nova sociedade que seria fundada com a sua vinda.

Na infância, e até os 20 anos, o iniciado era instruído no Livro da Meditação e nos Preceitos da Aliança; a partir dos 20 anos, passava a viver na Comunidade dos Irmãos e podia casar-se. A partir dos 25 anos poderia ocupar cargo na Congregação; com 30, ser juiz e liderar grupos. Todo este processo era realizado mediante uma análise de mérito, onde se avaliava a “inteligência e perfeição de conduta” do iniciado, pois como previam as Regras da Fraternidade, todos os homens estavam sendo treinados para formar a elite que governaria o reino que seria instalado pelo Messias.

Em função deste objectivo, os essénios desenvolveram uma organização eclesiástica, uma organização militar e uma organização judiciária. Os juízes seriam em numero de dez, eleitos periodicamente entre os irmãos com idade entre 25 e 60 anos; após os 60 deixariam a função; um sacerdote com idade mínima de 30 anos e máxima de 60, “detentor de todos os segredos dos homens e conhecedor de todas as línguas faladas na terra”, seria o juiz supremo da congregação judiciária.

Quanto à ordem militar, entre 25 e 30 anos, o irmão poderia ocupar funções de intendente; entre 30 e 45 podia-se ser cavaleiro, entre 45 e 50 oficial de campo, e entre 50 e 60, comandante de campo. Havia também um Conselho Superior da Comunidade, do qual participavam “os homens de renome”. Estes homens eram escolhidos pelas suas virtudes, o seu desempenho nas funções administrativas ou militares, ou dotes sacerdotais. Este Conselho era uma espécie de Parlamento, que por sua vez era controlado por um Colégio composto de doze irmãos e três sacerdotes, “ perfeitos em tudo o que é revelado em toda a lei, para praticar a justiça, a verdade, o direito, a caridade afectuosa e a modéstia de conduta, uns em relação aos outros, guardar a fé sobre a terra, com uma disposição firme e um espirito constrito, para expiar a iniquidade entre aqueles que praticam o direito e sofrem a angustia da provação e para se conduzir com todos na medida da verdade e da norma no tempo[4].

As doutrinas dos essénios

Os essénios eram ascetas que desprezavam os prazeres dos sentidos e a acumulação de bens. O tesouro comum só devia ser utilizado para prover as necessidades mais estritas. Um essénio, ao entrar para a comunidade, devia votar “ódio eterno aos homens da fossa pelo seu espírito de entesouramento. Ele deixar-lhes-á os seus bens e a renda do trabalho das suas mãos, tal como um escravo em relação ao seu amo, e tal como um pobre diante do que lhe tem domínio. Mas ele será um homem pleno de zelo para com o preceito e cujo tempo é destinado ao dia da vingança[5]. Desta forma, todo membro, ao entrar na Ordem, tinha que lhe entregar todos os seus bens. Este regime de comunhão foi observado também pelos primeiros cristãos, como se observa nos Actos dos Apóstolos, e o desprezo pelos bens materiais constituía um dos pontos mais altos da doutrina ensinada por Jesus. Era também a regra observada pelas Ordens religiosas da Idade Média, particularmente os Cavaleiros Templários [6].

Acima de tudo, porém, os membros da seita deviam observar e estudar a lei mosaica. Alei devia ser cultuada, pois a comunidade era, mais que tudo, “a casa da lei”. Isto explica também o facto de Jesus, não obstante ser considerado pelos judeus como um reformador da lei mosaica, sempre concitou os seus discípulos a segui-la. E no conceito de observação à lei, estava o respeito aos rituais e celebrações estabelecidas pela religião, bem como os cuidados com a higiene corporal.

Para os essénios, a gnose divina que Jeová revelara à Moisés não fora exposta nos cinco livros do Pentateuco. Era uma sabedoria secreta que consistia no conhecimento do Nome Verdadeiro de Deus, na prática do direito justo, e no aprendizado dos comportamentos necessários para se atingir a perfeição.

Acreditavam que no homem coexistiam dois espíritos. Um presidia o bem o outro presidia o mal. O presidente do bem era o Príncipe da Luz e o do mal o Príncipe das Trevas, chamado Belial ou Satã. Neste sentido, o mundo seria um campo de batalha entre esses dois princípios. Para eles, o mal não podia ser vencido simplesmente pela acção humana. Era necessária a intervenção divina, o que ocorreria quando o Messias começasse o seu ministério. Escolher entre o bem e o mal não era uma opção humana. Deus elegia os seus escolhidos, mas mesmo os escolhidos podiam ser desviados para o mal. Para os não escolhidos não havia possibilidade de opção para o bem. Os escolhidos eram aqueles que Deus reuniu na “Congregação”, ou “Casa da Verdade”. Esses eram os ’’Filhos da Luz”.

Por outro lado, todos aqueles que aderiram à cultura estrangeira, desprezando a Aliança, eram “filhos das trevas”.

Entre o bem e o mal

A ideia de um combate entre trevas e luz, na verdade, não é originária dos essénios. Foi tomada de empréstimo aos antigos egípcios, que já viam no psicodrama de Osíris e Seth uma luta entre esses dois princípios. Mais tarde os persas desenvolveram esta mesma ideia, identificando o Deus Marduc como o deus da luz e Arimã como deus das trevas.

Sempre se acreditou que tudo que existe no universo é produto da reacção interactiva entre dois princípios contrários, que podem ser o espírito e a matéria, o bem e o mal, a verdade e a mentira, a luz e as trevas, etc. Na história da humanidade, uns assumem o papel de Marduc, outros de Arimã. Segundo esta concepção, tudo, na sociedade humana, é produzido pela reacção à acção que um dos lados provoca no outro [7]. O próprio materialismo dialéctico desenvolvido por Kart Marx trabalha com esta tese, fundamentando na interacção de dois princípios contrários, que podem ser entendidos como a forma de ganhar a vida e a forma de pensar, o motor da história [8].

No caso dos essénios, eles assumiram o papel dos “filhos da luz ” e retiraram-se para as terras de Damasco para não serem corrompidos pelos “filhos das trevas” , e ali, separados do mal, preparar uma reacção contra a acção deles. Os filhos da luz, quando ocorresse o triunfo, seriam vingados de todos os males que os filhos das trevas lhes haviam infringido. E mesmos aqueles que estivessem mortos ressuscitariam para participar do conflito final entre os defensores dos dois princípios, ocasião em que o mal, por fim, seria vencido [9].

A influência dos essénios

Diversos centros comunitários dos essénios se desenvolveram a partir do século II a C. Algumas tradições referem-se à aldeia de Nazaré, onde Jesus foi criado, como sendo um centro desta comunidade. Sabe-se que entre eles se desenvolveu também a prática mística, bastante antiga, aliás, de usar roupas brancas e não cortar os cabelos. Acreditava-se, com base em antigas tradições, que nos cabelos estava a essência do elo que liga Deus aos homens. Estes homens consagrados a Deus eram chamados de “nazarenos”. Sansão é descrito na Bíblia como sendo um desses homens, e Jesus teria sido criado numa aldeia de “nazarenos”.

Os essénios eram também famosos pelos seus conhecimentos de medicina. No Egipto, a sua comunidade era conhecida como “Os Terapeutas”. Acreditava-se que possuíam conhecimentos que se assemelhavam a poderes mágicos. Tais conhecimentos provinham de fontes muito antigas, provenientes talvez, de uma civilização extinta. Eram também mestres na escrita criptográfica e no uso do simbolismo para transmitir os seus conhecimentos. O uso de pseudónimos aparece frequentemente na sua literatura. Títulos como “Mestre Verdadeiro”, “Mestre da Justiça”, “Sacerdote da Iniquidade”, “Leão da Ira”, “Tempo da Promessa”, etc., eram expressões que mascaravam pessoas e factos, para evitar a repressão das autoridades seculares.

Escreviam palavras invertendo a ordem das letras, misturavam alfabetos de diferentes línguas, inventavam eles mesmos alfabetos. Por isso eles são considerados como verdadeiros fundadores da tradição judaica conhecida como Cabala.

Não somente os primeiros cristãos devem grande da sua doutrina aos essénios. Também muitas das seitas gnósticas se inspiraram nas suas ideias, as quais, em maior ou menor parcela, tiveram influência no desenvolvimento da Maçonaria moderna, principalmente nos chamados graus filosóficos.

E fácil perceber, no desenvolvimento do ensinamento dos graus superiores, a relação que a doutrina professada por aqueles místicos judeus tem com a Maçonaria, no que respeita o simbolismo utilizado nos rituais. Os Obreiros da Arte Real também acreditam na construção de uma sociedade justa e igualitária, fundamentada no mérito e no trabalho árduo, aliado à disciplina e o respeito às tradições. Esta sociedade um dia já existiu e pode ser recuperada. Os essénios acreditavam nisso, e por isso se julgavam os guardiões dessa sabedoria perdida, que só poderia ser repassada aos seus iniciados.

A analogia é evidente. A própria organização do currículo maçónico guarda certa identificação com o sistema adoptado por aqueles ascetas. Através de um sistema de ensinamentos morais o catecismo da Maçonaria forma, simbolicamente, guerreiros, juízes, sacerdotes e outros próceres, destinados à edificar, defender e conservar o que de melhor existe na cultura da humanidade. É a mesma ideia de uma utopia, guardadas as diferenças de época, cultura e lugar.

Os essénios acreditavam que eram detentores de segredos iniciáticos de grande relevância. Não é que a Maçonaria, enquanto sociedade formalmente instituída, seja guardiã de segredos dessa ordem. Aliás, nem acreditamos que tais segredos existam no repertório da cultura humana existente, seja do presente, seja do passado. O que há são leis naturais que a razão humana ainda não logrou entender e por isso cataloga-as no conceito de sobrenatural. Entender o processo pelo qual estas leis são formadas e como actuam, constitui a verdadeira sabedoria.

A fórmula pela qual este conhecimento de nível superior, que permite ao homem entender esse processo, só pode ser deduzida através de um método que seja capaz de integrar uma iniciação, uma ritualística e uma prática de vida. Esta foi a formidável intuição dos essénios e a sua grande realização. Não é suficiente pensar uma filosofia. E preciso vivê-la para que ela não se torne apenas uma distracção mental. As mesmas verdades que eles intuíram já tinham passado antes pela sensibilidade dos sacerdotes de Heliópolis, que a desenvolveram no conceito, ao mesmo tempo religioso e sociológico da Maat, e pelos iniciados nos Mistérios antigos, persas e greco-romanos, que os utilizavam como forma de educação superior das suas elites.

E originária dos essénios, como já nos referimos, a ideia de que é preciso a formação de um Homem Universal, reflexo terrestre do Homem do Céu, perfeito em conhecimento e obras, pleno de virtude e em harmonia com Deus, pois que ele é o herdeiro da Nova Aliança. Não é por acaso, portanto, que nos graus superiores da Maçonaria, correspondentes às Lojas de Perfeição e Lojas Capitulares, encontraremos tantas alusões a mitos e alegorias de origem judaica, e se insistirá tanto na prática da verdadeira justiça e no exercício das virtudes que fazem um homem justo e perfeito em todos os sentidos.

Outra tradição cultivada na Maçonaria, que tem nos essénios a sua fonte, é aquela que se relaciona com a Procura da Palavra Perdida. Esta Palavra Perdida não é outra coisa senão o Verdadeiro Nome de Deus e o seu significado, que os essénios reverenciavam como sendo o “ Segredo dos Segredos”. O reencontro com esta sabedoria perdida teria o condão de conferir ao seu possuidor a totalidade do conhecimento do universo e faria dele um ser superior. Esta crença animou a especulação dos cabalistas durante séculos, e os maçons a adoptaram como alegoria para simbolizar a aquisição da gnose, que é a meta última e definitiva dos praticantes da verdadeira Arte Real. Por isso é que a influência desses antigos irmãos, “Filhos da Luz”, não pode ser desprezada em qualquer estudo que se faça sobre a cultura maçónica.

João Anatalino Rodrigues

Notas

[1] Sobre o sonho americano, vide a interessante obra de David Ovason, A Cidade Secreta da Maçonaria, publicada no Brasil pela Ed. Planeta, que discorre sobre o simbolismo maçónico presente na capital americana, Washington, e o empenho dos maçons que lideraram a luta pela independência em fazer dos Estados Unidos a sonhada utopia maçónica

[2] Na imagem o historiador Flávio Josefo. Fonte: Obras Completas de Flávio Josefo. Kleger Publications, NY.

[3] Na imagem, moeda com a efígie do sacerdote Matadas, patriarca dos Macabeus , tido como o Mestre da Rectidão dos essénios.

[4] Regras XXII- E.M. Laperoussaz- Os Pergaminhos do Mar Morto

[5] Idem, Regra XXIV

[6] Flávio Josefo, escrevendo acerca dos essénios, diz que eles desprezavam as riquezas, e que a comunidade de bens que observavam era realmente admirável. “Os essénios,. diz aquele autor, “ mantém entre eles uma lei, segundo a qual, todos os novos membros admitidos à seita fazem, por si mesmos, o confisco dos seus haveres em favor da Ordem; resultando dai, que em parte alguma se verá ali, seja a miséria abjecta, seja a desordenada abastança. As posses do individuo se juntam ao existente cabedal comum e eles todos , como verdadeiros irmãos, se beneficiam, por igual, do património colectivo!’

[7] Na antiga filosofia chinesa do taoísmo, estes princípios são identificados pelos termos yin/yang (positivo/negativo).

[8] Karl Marx acreditava que era a forma pela qual os homens ganhavam a vida que determinava o seu modo de pensar. Assim, as transformações na ordem material determinavam as transformações de ordem ideológica. Como as transformações materiais dependiam da forma como as sociedades se organizavam para produzir, a cultura da humanidade dependia das técnicas de produção. As teses marxistas exercem um papel importante no ensinamento de um dos graus superiores do Kadosh, particularmente o grau 26.

[9] Esta crença foi magistralmente desenvolvida pelo autor do Apocalipse. Neste estranho e enigmático livro, escrito à maneira essénia, o autor desenvolve a alegoria da luta entre os filhos da luz contra os filhos das trevas, identificando os primeiros com os cristãos fiéis e os segundos com os seus perseguidores. Veja-se que a Maçonaria do Rito Escocês muito se vale do simbolismo do Apocalipse para desenvolver alguns dos seus mais importantes graus filosóficos. O ensinamento maçónico muito se utiliza do simbolismo contido na luta entre a luz e trevas, o que justifica as referências que aqui se fazem ao tema.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *