O martírio de John Coustos em Lisboa

John Coustos (1703 - 1746)
John Coustos (1703 – 1746)

Os sofrimentos infligidos, em 1743, pela Inquisição em Lisboa, a John Coustos, Maçom, e Venerável Mestre de uma Loja naquela cidade, bem como a coragem com a qual ele suportou as mais severas torturas, em vez de trair as suas confianças e revelar os segredos que lhe foram confiados, constituem um episódio relevante na história da Maçonaria. Coustos, depois de voltar a Inglaterra, publicou, em 1746, um livro detalhando os seus sofrimentos, de que se apresenta aqui alguns extractos.

John Coustos nasceu em Berna, na Suíça, mas emigrou em 1716 com o pai para Inglaterra, onde se naturalizou. Em 1743, foi para Lisboa, em Portugal, e começou a prática da sua profissão – lapidar ou negociar com pedras preciosas. Em consequência da bula ou edital do Papa Clemente XXII denunciando a Instituição Maçónica, as Lojas de Lisboa não reuniam em casas públicas, como era costume em Inglaterra e noutros países protestantes, mas casas particulares, nas residências dos membros. Coustos, que era Maçom de uma dessas Lojas, foi eleito o Venerável Mestre.

Uma mulher, que tinha conhecimento da existência da Loja ao qual Coustos presidia, revelou a circunstância ao seu confessor, declarando que, na sua opinião, os membros eram “monstros da natureza, que perpetravam os crimes mais chocantes”. Em consequência desta informação, foi resolvido, pela Inquisição, que Coustos deveria ser preso e submetido às ternas misericórdias do Santo Ofício. Ele foi detido, algumas noites depois, num café – a pretensão pública para a prisão foi de que ele estava a par do roubo de um diamante, do qual eles acusaram falsamente outro joalheiro, amigo e director de Coustos, que já sido detido.

Coustos foi então levado para a prisão da Inquisição, e depois de ter sido revistado e privado de todo o seu dinheiro, documentos e outras coisas que ele tinha, foi levado para uma masmorra solitária, na qual ele estava alojado, sendo expressamente proibido falar em voz alta ou bater contra as paredes; se precisasse de alguma coisa, podia bater com um cadeado pendurado na porta por fora, e que podia alcançar empurrando o braço através da grade de ferro. “Foi lá“, diz ele, “que, impressionado com os horrores de um lugar de que eu ouvira e lera tais descrições sinistras, mergulhei de imediato na mais negra melancolia; especialmente quando reflecti sobre as terríveis consequências que o meu confinamento podia muito possivelmente trazer“.

No dia seguinte, foi conduzido, de cabeça descoberta, perante o Presidente e quatro Inquisidores, que, depois de o terem feito responder em juramento a várias questões respeitantes ao seu nome, paternidade, local de nascimento, religião e tempo em que residia em Lisboa, o exortaram a fazer uma confissão completa de todos os crimes que cometera em toda a sua vida; ao recusar-se a fazer tal confissão, declarando que desde a sua infância fora ensinado a confessar não ao homem, mas a Deus, foi novamente mandado para a sua masmorra.

Três dias depois, foi novamente levado perante os inquisidores e o interrogatório foi retovado. Esta foi a primeira ocasião em que o tema da Maçonaria foi introduzido, e Coustos pela primeira vez soube que tinha sido preso e preso apenas por causa da sua conexão com uma instituição proibida.

O resultado deste interrogatório foi que Coustos foi levado para uma masmorra mais profunda, e mantido lá em confinamento por sete semanas, período durante o qual foi levado por três vezes ante os Inquisidores. No primeiro destes exames, eles introduziram novamente o tema da Maçonaria, e declararam que se a Instituição fosse tão virtuosa quanto o seu prisioneiro alegava ser, não havia ocasião para esconder tão diligentemente os seus segredos. Coustos não respondeu a esta objecção, para satisfação da Inquisição, e foi mandado de volta para a sua masmorra, onde poucos dias depois ficou doente.

Após a sua recuperação, foi novamente levado perante os inquisidores, que lhe fizeram várias novas perguntas sobre os princípios da Maçonaria, entre outros, se ele, desde a sua residência em Lisboa, tinha admitido qualquer Português na sociedade. Ele respondeu que não. Quando foi novamente trazido à sua frente, “eles insistiram“, diz ele, “que eu os deixasse entrar nos segredos da Maçonaria, ameaçando-me, caso eu não obedecesse“. Mas Coustos recusou-se firme e destemidamente a violar as suas obrigações.

Depois de várias outras entrevistas, em que o esforço foi feito para lhe extorquir uma renúncia à Maçonaria, foi submetido a tortura, da qual ele faz o seguinte relato:

Fui imediatamente transportado para a sala de tortura, construída na forma de uma torre quadrada, onde não havia luz, excepto a que duas velas davam; e para evitar que os gritos terríveis e gemidos chocantes das vítimas infelizes alcançassem os ouvidos dos outros prisioneiros, as portas são revestidas com uma espécie de colcha.

O leitor naturalmente suporá que devo ser tomado de horror – quando, ao entrar neste lugar infernal, me vejo, de repente, cercado por seis desgraçados que, depois de prepararem as torturas, me desnudam, deitam-me de costas e começaram a agarrar cada parte do meu corpo. Primeiro, colocaram em volta do meu pescoço um colar de ferro, que estava preso a um andaime; então fixaram um anel em cada pé; após isto, esticaram os meus membros com todas as suas forças. De seguida, enrolaram duas cordas em volta de cada braço e duas em volta de cada coxa, que passaram por baixo do andaime através de buracos feitos para esse fim, e foram todas apertadas ao mesmo tempo por quatro homens, após um sinal feito para esse fim.

O leitor acreditará que as minhas dores eram intoleráveis, quando declaro solenemente que essas cordas, da grossura do dedo mindinho, perfuraram a minha carne até o osso, fazendo o sangue jorrar em oito lugares diferentes que eram onde estava preso. Como insisti em me recusar a descobrir mais do que o que tinha dito nos interrogatórios anteriores, as cordas foram esticadas mais quatro vezes. Ao meu lado havia um médico e um cirurgião, que muitas vezes sentiam as minhas têmporas, para julgar o perigo em que eu poderia estar, o que significa que minhas torturas eram suspensas, a intervalos, para que eu pudesse ter uma oportunidade de me recuperar um pouco. Enquanto eu estava a sofrer assim, eles eram tão barbaramente injustos ao ponto de declarar que, se morresse morrer sob a tortura, eu seria culpado, por minha obstinação, de auto-assassinato.

Finalmente, na última vez em que as cordas foram apertadas, fiquei tão enfraquecido, ocasionado pela interrupção da circulação do sangue e pelas dores que sofri, que desmaiei profundamente; de tal modo que fui levado de volta para o meu calabouço, sem o perceber.

Aqueles bárbaros, achavam que as torturas acima descritas não poderiam extorquir qualquer descoberta adicional de mim; mas quanto mais me faziam sofrer, mais fervorosamente eu dirigia as minhas súplicas, por paciência, ao céu. Eles foram tão desumanos ao ponto de, seis semanas depois, me expor a outro tipo de tortura, mais grave, se possível, do que a primeira. Eles fizeram-me esticar os meus braços de tal maneira que as palmas das minhas mãos foram viradas para fora; depois, com a ajuda de uma corda que as prendia no pulso, e que eles giravam com um motor, puxaram-nas lentamente para mais perto uma da outra, de tal maneira que as costas de cada mão tocaram e ficaram exactamente paralelas à outra; ambos os meus ombros foram deslocados, e uma quantidade considerável de sangue saiu da minha boca.

Essa tortura foi repetida três vezes; após o que fui novamente levado para o meu calabouço e colocado nas mãos de médicos e cirurgiões que, ao recolocar os meus ossos, me provocaram uma dor extraordinária. Dois meses depois, estando um pouco recuperado, fui novamente levado para a sala de tortura, e lá passei por outro tipo de punição duas vezes. O leitor pode julgar o seu horror a partir da seguinte descrição:

Os torturadores viraram duas vezes ao redor do meu corpo uma grossa corrente de ferro que, atravessando o meu estômago, terminava nos meus pulsos. Em seguida, colocaram as minhas costas contra uma tábua grossa, em cada extremidade de uma polia, através da qual corria uma corda que prenderam às extremidades das correntes nos meus pulsos Os torturadores então esticaram essas cordas, por meio de um rolo, e pressionaram ou magoaram o meu estômago, na medida em que as cordas foram puxadas com força. Eles torturaram-me nesta ocasião a tal ponto , que os meus pulsos e ombros foram deslocados das articulações. Os cirurgiões, no entanto, recolocaram-nos logo a seguir; mas os bárbaros que ainda não haviam saciado a sua crueldade, fizeram-me passar por essa tortura uma segunda vez, o que fiz com mais dores, embora com igual consistência e resolução. Fui então mandado de volta para o meu calabouço, atendido pelos cirurgiões, que trataram os meus hematomas; e aqui continuei até ao auto-de-fé, ou entrega de prisão.

Foi então condenado a trabalhos forçados por quatro anos.

Pouco depois de ter começou a sua ocupação degradante como escravo da galé, os ferimentos que recebeu durante as suas torturas inquisitoriais prejudicaram tanto a sua saúde, que ele não pôde submeter-se aos trabalhos a que tinha sido condenado; foi enviado para a enfermaria, onde permaneceu até Outubro de 1744, de onde foi libertado a pedido do Ministro britânico, mandatado pelo Rei de Inglaterra.

Foi, no entanto, condenado a deixar o país, o que, pode-se supor, ele alegremente fez, e dirigiu-se para Londres, onde publicou o relato dos seus sofrimentos num livro intitulado The Sufferings of John Coustos for Freemasonry, and for refusing to turn Roman Catholic, in the Inquisition at Lisbon, etc., etc. London, 1746; 8 vo, 400 páginas. Esse trabalho foi reimpresso em Birmingham em 1790. Tal narrativa é digna de ser lida. John Coustos, não acrescentou nada à aprendizagem ou à ciência da nossa Ordem, pelas suas pesquisas literárias; contudo, pela sua resistência  e fidelidade sob os mais severos sofrimentos, infligidos para lhe extrair um conhecimento que ele estava destinado a ocultar, ele mostrou que a Maçonaria não se vangloria em declarar que os seus segredos “estão encerrados em peitos fiéis”.

Tradução de António Jorge

Fonte

  • Mackey’s Encyclopedia of Freemasonry

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2 Comentários em “O martírio de John Coustos em Lisboa

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    fiquei horrorizada com o relato de John Coustos e ao mesmo tempo maravilhada com sua imensa coragem em manter oque achava que não deveria ser dito,

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    As atrocidades da Inquisição, graças a DEUS por termos Homens que não deixam cair em esquecimento este período negro da chamada Santa Madre Igreja. Obrigado

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