O tesouro Arcano (Parte I)

O pensamento gnóstico

Quando os teólogos da Igreja Romana transformaram o Cristianismo numa ideologia de massa e vincularam-na à política do Império Romano como religião oficial, a maravilhosa doutrina do Mestre de Nazaré deixou de ser uma verdadeira ponte entre o sagrado e profano para transformar-se em mais um instrumento ideológico. E assim também aconteceu com o Islamismo, o Judaísmo, o Bramanismo e todas as demais religiões que foram apropriadas pelos governantes e utilizadas como instrumento político de educação e controle das massas.

Neste sentido, Jesus também deixou de ser o Cristo, aquele que religaria as almas humanas com o Céu, para se tornar apenas mais um difusor de ideologias. O Jesus do Cristianismo oficial transformou-se em mais um filósofo, contestável e doutrinariamente insatisfatório para os espíritos que buscavam uma realidade divina, original e descontaminada das impurezas trazidas pelas ideologias políticas e raciais, que estão no cerne de todas as religiões.

Assim pensavam os gnósticos e por isso floresceram as teses defendidas por essa escola de pensamento, como tentativas de recuperar aquele Cristianismo messiânico e mágico que as primeiras comunidades cristãs professaram e que fez a força do novo credo. Surgiram então as diversas teses que procuravam explicar o universo através das mais estranhas e bizarras concepções. Foi assim que nasceu o conjunto de doutrinas místicas que se convencionou chamar-se de Gnose.

A ideia era a de que os filósofos podem ser contestados, os deuses não. A Igreja Romana transformara a mensagem divina, trazida por Jesus, numa filosofia de vida acomodatícia e materialista, fundamentada numa doutrina vazia de conteúdo espiritual, cujo único propósito era garantir o poder temporal para os governos que a adoptassem e o poder espiritual para os membros do seu clero. Os cristãos, nos primeiros séculos do Cristianismo e principalmente depois que se tornou a religião oficial do Império Romano, eram duplamente escravos, pensavam os gnósticos, pois na vida profana eram subjugados pelo estado romano e na vida espiritual serviam a um clero corrupto, arrogante e ganancioso.

Foi contra a massificação da mensagem de Jesus, a sua politização e transformação em instrumento do poder secular que as correntes gnósticas de pensamento se insurgiram. Os gnósticos cristãos dos primeiro século queriam preservar a pureza do conhecimento iniciático contido na mensagem cristã. Não acreditavam em nenhuma verdade revelada por um Deus particular e preconceituoso, como lhes parecia ser o Deus do Velho Testamento. A verdade, segundo a sensibilidade que os dominava, estava na própria criação que o Verdadeiro Deus espalhara sobre o universo e não na mensagem de uma igreja, ou de um grupo em particular.

Desta forma, se o Deus do Velho Testamento era assim tão contestável, aquele que essa Igreja anunciava como sendo filho dele não o seria menos, diziam algumas seitas gnósticas. Por isso era preciso desvincular a doutrina de Jesus do Judaísmo tradicional e apresentá-lo sobre uma óptica nova.

Desta forma, o Cristo judeu fundiu-se com as divindades solares das antigas religiões, especialmente egípcia e persa, e dai nasceu um novo Deus, palatável para gregos e romanos que relutavam em abandonar as suas antigas deidades para adorar o filho de um carpinteiro que eles mesmos tinham crucificado. Foi assim que o Cristianismo venceu em Roma e se tornou o credo oficial.

O Cristo Gnóstico

Embora a Igreja de Roma jamais tenha reconhecido este facto, é preciso dizer que o Gnosticismo contribuiu bastante para essa vitória. Não foram os ensinamentos dos apóstolos originais de Jesus que deram sedimentação ao credo que se instalou em Roma, mas sim a doutrina de Paulo de Tarso, enxertada pelas teses gnósticas, o verdadeiro alicerce da nova crença adoptada pelos romanos. O Cristo de Paulo não é mesmo dos apóstolos que conviveram com Jesus. Estes acreditavam que Jesus era o Messias judeu e tinha vindo para cumprir as profecias antigas, de restabelecimento do reino de Israel. Paulo transformou Jesus no Cristhos universal, salvador da humanidade e não apenas de Israel.

Este conflito doutrinário transparece claramente nas crónicas dos Actos dos Apóstolos e nas Cartas Paulinas. O Cristo dos apóstolos não é um “deus”, no sentido que lhe deu Paulo e os gnósticos, mas sim um profeta maior, no mesmo nível de Moisés ou Elias, ou o Maomé dos muçulmanos. São filhos de homens que foram escolhidos por Deus para realizar uma missão na terra. E ainda que acreditassem que Jesus era, de facto, o emblemático Messias, uma espécie de semideus ansiosamente aguardado pelo povo de Israel para redimir a sua nação, jamais se cogitou, entre eles, de atribuir ao seu líder o status de uma verdadeira divindade, no mesmo nível de Jeová, o Deus único e universal, como os cristãos fizeram com Jesus.

Aliás, para os judeus, a ideia de que Jeová tivesse um filho, de posição hierárquica igual à dele no panteão divino, era uma verdadeira blasfémia, uma heresia que só podia mesmo ser punida com a morte. Foi essa a principal razão que levou Jesus à cruz, aliada á questão política, que pesou muito na balança, quando se aventou a possibilidade de que Jesus pudesse ser, realmente, o propalado Messias das profecias.

Assim, não passava pela cabeça dos discípulos de Jesus fazer dele um Deus, com estatura paritária ao próprio Jeová, pois este era o Deus universal e único. Uma ideia dessas jamais seria aceitável no universo judeu, e a simples menção dessa possibilidade já constituía blasfémia das grossas, crime capital, punível com a pena de morte.

Mas esta hierarquia existia no Mitraísmo, pois os discípulos de Mitra tinham feito dele uma divindade com posição semelhante à da divindade suprema, Ahura Mazda. E foi, portanto, na religião mitraica que Paulo de Tarso e os gnósticos que o seguiram, foram buscar a concepção de um Cristo Universal, salvador da humanidade, e não apenas um redentor dos judeus, como estes queriam do seu Messias.

A condição divina de Cristo, encarnado em Jesus, começa a aparecer na obra de Paulo de Tarso e encontra o seu maior defensor no gnóstico João, autor do Quarto Evangelho. E a partir daí esta ideia extrapolou para fronteiras que até Paulo e João jamais imaginariam.

O Cristianismo místico

Na verdade, o Cristo judeu só foi aceite pelas elites do Império Romano porque ele se identificava com Mitra, a divindade de maior prestígio entre os romanos na época em que Constantino elegeu o Cristianismo como religião oficial do Império. Esta foi uma jogada de mestre do Imperador, que adiou por mais de cem anos a queda do Império Romano no Ocidente e forneceu as bases sobre as quais o Império Romano do Oriente sobreviveria por mais um milénio. A religião mitráica, como vimos, era profundamente mística e agasalhava muitas teses semelhantes àquelas que os gnósticos professavam [1].

Da mesma forma que os sacerdotes egípcios e os mestres das religiões orientais, os gnósticos pensavam que o conhecimento do mundo divino só podia ser atingido através de uma adequada iniciação, onde a prática ritualística pudesse ser combinada com fórmulas apropriadas de meditação e invocação da divindade.

Acreditando que a popularização de um conhecimento que só podia ser obtido pela prática iniciática acabava por abastardá-lo, os gnósticos formavam pequenos grupos sectários, e no mais das vezes transmitiam a sua doutrina por via oral e quase sempre através de símbolos e alegorias. Nisso imitavam as antigas sociedades iniciáticas do Oriente e essa tradição foi transmitida para os hermetistas, que depois deles fundaram várias seitas iniciáticas para a sua conservação e transmissão [2].

Os gnósticos não devem ser confundidos com mágicos ou divulgadores de heresias religiosas, embora nas suas práticas apelassem constantemente para o pensamento mágico. Os seus temas são naturalmente religiosos e não poderiam deixar de ser, dada à própria cultura na qual estavam inseridos. Constituíam, na verdade, grupos de livre pensadores que recusavam qualquer dogma e deduziam os seus conhecimentos das grandes leis da natureza. Cultuavam o saber pelo saber, sem temores escatológicos. Pretendiam criar uma ciência do divino, uma teologia mística, cujo objectivo era a descoberta dos caminhos para a salvação do homem através do conhecimento, em oposição ao caminho da Igreja, que era o da fé, absoluta e incontestável, nas interpretações dos seus doutores.

A base da filosofia gnóstica era uma visão unificada do universo, onde tudo estava contido em tudo, o que estava em cima era igual ao que estava em baixo, o que estava dentro igual ao que estava fora. Esta era, segundo acreditavam, a primitiva composição do universo e a ela a sociedade dos homens, como um todo, e o espírito humano, como indivíduo, deviam aspirar.

A função do iniciado − o verdadeiro religioso − passava a ser a descoberta dessas realidades para unificá-las no seu espírito, atingindo assim a definitiva iluminação que constituía, na verdade, a única salvação que o homem poderia almejar. Esta noção teve nos chamados filósofos neoplatónicos os seus mais ferrenhos defensores, mas também encantou os pitagóricos, que nela incorporaram a subtileza das suas concepções matemáticas e geométricas a respeito da estrutura do universo e da actuação das forças divinas na sua formação. É claro que vários doutrinadores eclesiásticos aproveitaram essas ideias para justificarem as suas concepções acerca da natureza de Cristo e da proposta escatológica do Cristianismo para a humanidade. Daí encontrarmos várias seitas dentro da própria Igreja Católica desenvolvendo doutrinas que agasalhavam as mais estranhas concepções religiosas. Eram tantas e tão bizarras que a Igreja de Roma as censurou, colocando a maioria delas na conta das heresias [3].

As fraternidades gnósticas -Templários e Cátaros

Os gnósticos dos primeiros séculos formavam comunidades calcadas na interacção mestre-aprendiz, acreditando que tal prática gerava a energia necessária para alimentar a chama sagrada do conhecimento do divino (gnosis). O conhecimento só podia ser transmitido por iniciação e não por um processo de memorização e dedução. A sabedoria obtinha-se por iluminação e não pela aprendizagem académica.

Em função disto, os gnósticos desprezavam o clero secular, que pensava preservar e desenvolver o conhecimento copiando e imitando as obras antigas. Considerando como ”ovelhas perdidas” os membros do clero regular, que para eles eram meros padres, enquanto eles se consideravam “monges”, os gnósticos formaram comunidades iniciáticas que se resguardavam do apelo popular e realizavam interacção somente entre os membros iniciados. Nisso integravam a tradição dos Antigos Mistérios, cujos praticantes eram profundamente hostis à popularização dos assuntos sagrados, com o momento em que viviam, em que a mensagem trazida por Jesus ganhava as ruas e transformava-se em ideologia de massas.

Esta mesma fórmula viria a ser utilizada mais tarde pelos Cavaleiros Templários, o que, de certa forma, contribuiu para o afastamento deles da Igreja Romana. É possível que a transformação dessa Ordem em sociedade iniciática tenha sido um dos principais motivos da sua condenação. Afinal, a maioria das acusações que lhes foram feitas envolviam teses gnósticas que a Igreja tinh repelido e condenado antes como heresias. Abstraindo os motivos políticos e económicos, que pesaram bastante na balança quando da extinção da Ordem do Templo e da prisão dos seus membros, pode-se dizer que os Templários foram condenados e tiveram a sua organização extinta justamente por agasalhar entre as suas práticas algumas ideias consideradas heréticas. Situam-se entre essas práticas o culto à deusa Ísis ( a lua crescente), o culto ao ídolo Baphomet, à serpente Ouroboros, os seus rituais de iniciação e de elevação, que eram claras reminiscências de antigos rituais de fertilidade. Embora o processo movido pela Igreja contra a Ordem dos Templários tenha sido publicado e nele se revele a face francamente herética (na visão católica) dessa Irmandade, o facto é que o verdadeiro carácter dos seus rituais e a natureza da sua filosofia nunca foi, de facto, revelada, permanecendo, até hoje, um verdadeiro mistério. Mas o que parece indiscutível é que os Cavaleiros do Templo podem ser classificados como verdadeiros gnósticos, tal como seriam os seus sucedâneos mais próximos, os cátaros [4].

A Gnose e a Maçonaria

De qualquer forma, em tudo que se refere à Maçonaria, essas informações são de extrema importância quando se trata de conhecer a sua origem e entender a sua filosofia. Ela contém raízes muito profundas na Gnose cristã. E embora a Gnose, como sistema de pensamento, tenha sobrevivido à actividade predadora que contra ela a Igreja tem praticado através dos séculos, foi através da prática maçónica que ela ganhou corpo entre a elite intelectual que se formou após o período cultural conhecido como Renascença. Através da Maçonaria a sociedade ocidental conservou também a tradição iniciática da fratria e a noção altamente espiritualizada da utopia e da egrégora. Assim, o pensamento mágico dos gnósticos e a noção corporativista dos antigos clãs uniram-se para dar sedimento à estrutura filosófica da Arte Real.

É, pois, nesses arquétipos – a noção de um mundo mágico e harmónico que já existiu um dia (a utopia), e na crença de que o pensamento humano pode alcançá-lo através do estudo e da prática virtuosa (o pensamento mágico) − que a Maçonaria, enquanto disciplina espiritualista se alicerça. E é para esse fim que ela congrega os seus membros em egrégora (A Loja), buscando na realização desse simbolismo o mesmo resultado que as antigas corporações iniciáticas obtinham nas suas práticas rituais.

Um casamento por amor

A nossa convicção é de que a interacção da Maçonaria com a tradição hermética e os ideais da cavalaria é uma herança que já vem do tempo das cruzadas. Na Terra Santa foram ensaiadas as primeiras tentativas de se criar um rito simbólico que pudesse integrar as tradições dessas três grandes vertentes da cultura medieval. Afinal, cavaleiros, mestres construtores e filósofos adeptos do pensamento gnóstico e da alquimia conviviam na Terra Santa e em diversos territórios da Europa e do Oriente Médio. E de alguma forma, o fundamento das suas filosofias, o cerne das suas esperanças e o objectivo das suas práticas eram os mesmos.

Com o que sonhavam, por exemplo, os Cavaleiros Templários, senão com a instituição de um reino universal cristão, onde os homens fossem governados pelas virtudes exigidas de um cavaleiro? Não teria sido, certamente, com esse objectivo, que a Ordem do Templo tenha se desenvolvido e tornado uma potência económica, política e militar tão poderosa que, em certo momento tenha preocupado os potentados da época e o seu próprio patrono, o Papa?

E qual era o sonho hermético? Não era simplesmente, como se supõe, o de descobrir, pela manipulação química dos minerais, o segredo da fabricação de metais preciosos. O objectivo dos alquimistas, na verdade, era o mesmo dos filósofos gnósticos, ou seja, o de obter um conhecimento, uma gnosis, através do estudo da natureza e dos seus processos de transmutação dos minerais.

Desta forma, acreditavam os hermetistas (tanto alquimistas como filósofos gnósticos), que o próprio iniciado poderia realizar uma transmutação espiritual capaz de dotá-lo de uma consciência superior. E isto realizar-se-ia através da Gnose (iluminação pelo conhecimento) e não pela fé, como sustentava a crença da Igreja oficial.

Por outro lado, sabe-se que determinados ofícios, como o de construtor, eram sacralizados. Através da profissão o praticante pensava poder aperfeiçoar o seu espírito, quer dizer, à medida que a sua obra evoluísse, á medida que ela se tornasse perfeita, ele também se aperfeiçoava interiormente, por que a obra material nada mais era que o reflexo do seu espírito.

Por isto é que os segredos da sua arte eram transmitidos, não de forma académica ou simplesmente empírica, como nas disciplinas e práticas profissionais laicas, mas sim, de forma iniciática. Os maçons medievais (pedreiros-livres), desde épocas imemoriais sempre guardaram ciosamente os segredos da profissão, só os transmitindo por iniciação. Desta forma, os irmãos operativos, que guardavam os segredos da profissão e somente os transmitiam aos seus aprendizes, e os alquimistas, solitários pesquisadores dos segredos da natureza, que viviam reclusos nos seus laboratórios, e os amantes da filosofia oculta eram praticamente sócios da mesma esperança cultural. Daí o casamento entre essas três vertentes da cultural medieval − Maçonaria, Gnose e Hermetismo− foi uma união natural e necessária. Foi um casamento por amor e por interesse mútuo.

(continua)

João Anatalino Rodrigues

Notas

[1] era o deus preferido das legiões romanas.

[2] As chamadas seitas gnósticas, na sua grande maioria tinham o carácter de verdadeiras Fraternidades.

[3] Ver Sarane Alexandrian- História da Filosofia Oculta, citado.

[4] Sobre os Cavaleiros Templários e a sua relação com a Maçonaria veja-se a nossa obra “Mestres do Universo” já citada. Sobre os cátaros e a influência da Gnose na doutrina agasalhada pela tradição maçónica, veja-se o nosso trabalho “Conhecendo a Arte Real, publicado pela Ed. Madras, São Paulo, 2007.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *