O tesouro Arcano (Parte II)

Do operativo para o especulativo

Partidários de um mesmo segredo e de um método semelhante para a transmissão dos conhecimentos obtidos nas suas práticas, não é estranho que em certo momento histórico pedreiros e arquitectos profissionais e intelectuais amantes do pensamento mágico se acabassem fundindo e tornando uma única cultura.

Evidentemente tudo isto era visto com muita desconfiança pela Igreja medieval. Em 1314, a Ordem dos Templários tinha sido extinta pelo Papa Clemente IV após um rumoroso processo onde os seus membros foram acusados, julgados e condenados pela prática de heresia, homossexualismo, magia negra e outros crimes. Quanto aos alquimistas e os cultores da Gnose, estes nunca foram vistos com bons olhos pela Igreja. Um bom número de praticantes dessa Arte, bem como cultores dessa filosofia foi parar nas masmorras e não poucos pagaram com as suas vidas por ousarem praticar crenças diferentes daquelas que a Igreja medieval patrocinava.

Mas as corporações de obreiros da construção eram toleradas e até protegidas pela Igreja e pelas autoridades seculares. Os mestres construtores gozavam de alta reputação na sociedade medieval e não sem razão; afinal, eram eles que erguiam as grandes catedrais, os castelos fortificados, os sumptuosos edifícios públicos e os palácios reais. Era do maior interesse, portanto, tolerar os profissionais da construção e os artesãos que as ornamentavam, mesmo com as suas ideias esotéricas e as suas práticas corporativas.

Junto aos canteiros de obras formavam-se as Lojas dos maçons operativos, onde, a par dos assuntos profanos referentes aos interesses da classe, também se faziam as iniciações, as elevações de grau, a comunicação, sempre iniciática, dos segredos da profissão aos iniciantes aprendizes e a elevação dos novos mestres.

Com a interacção entre pedreiros-livres, cavaleiros e cultores da tradição hermética, começaram a surgir junto às Lojas operativas, grupos de estudo que se ocupavam, não somente dos segredos da profissão de construtor, mas também de discutir outros pontos da cultura da época. Desde as ideias gnósticas sobre religião, até as teses sobre políticas de desenvolvimento económico e social e campanhas militares, esses grupos começaram a atrair a atenção dos “espíritos de classe”, no dizer de Pawels e Bergier, dando nascimento a novos centros de cultura e saber.

Estes grupos formaram os núcleos iniciais da chamada Maçonaria especulativa. A sua função era a especulação pura e simples, mas dessa prática extraiam-se sempre acções que repercutiam no mundo exterior [5].

Sabe-se que as bases da chamada Renascença e da Reforma religiosa foram lançadas bem antes do século XVI, quando esses movimentos efectivamente explodiram. Já nos séculos XIII, XIV e XV, em regiões como o Languedoc francês, na Frandles, nos Países Baixos, em alguns reinos alemães e principalmente no norte da Itália, uma antecipação da época moderna já vinha ocorrendo, com a consolidação das monarquias nacionais e o fim da Guerra dos Cem Anos.

Os efeitos da Guerra dos Cem anos foram diversos, como reconhecem a maioria dos historiadores. Um destes efeitos foi a noção de unidade nacional desenvolvida principalmente pelos ingleses e franceses, que os ajudou a consolidar a ideia de Estado nacional em oposição ao regime feudal, atomizado e dividido politicamente. Após o término da Guerra de Cem Anos, o feudalismo foi praticamente extinto na Inglaterra em consequência da Guerra das Duas Rosas, da qual emergiu a dinastia dos Tudores. Na Alemanha e na Itália o regime feudal extinguiu-se no século XV, mas em consequência da estrutura política desses países, divididos entre estados governados por príncipes e repúblicas fortemente armadas, e também muitos estados pontifícios, sob a influência directa do Papa, não se conseguiu, como na França, Inglaterra, Espanha e Portugal, organizar de pronto as monarquias nacionais. Em consequência, a Alemanha e a Itália só viriam conhecer uma definitiva unificação política no século XIX [6].

O comércio e a indústria floresceram em função das cruzadas. O contacto com a civilização árabe e bizantina trouxe para a Europa novas ideias e uma cultura até então desconhecida começou a ser implantada nos territórios onde a influência da Igreja não era monolítica. Poderosas corporações de oficio foram fundadas pelos profissionais de cada profissão nas cidades mais populosas. Estas corporações, como as Hansas dos mercadores de Frandles, Alemanha e França, acabaram tornando-se núcleos de grandes nações. A Suíça e a Holanda são exemplos de países formados por associações de comerciantes.

As corporações de ofício não se pareciam, como comumente se pensa, com os modernos sindicatos. Na verdade, os seus objectivos eram mais amplos. Constituíam verdadeiras Fraternidades que cuidavam não só da vida económica dos seus membros, mas também da sua vida social e religiosa. Desempenhavam papéis equivalentes aos das associações religiosas e faziam também o papel de sociedades beneficentes, companhias de seguros, clubes sociais, partidos políticos, etc.

Dominavam um largo espectro da vida económica medieval e o seu poder e influência era levada em muita conta pelas autoridades religiosas e seculares. Cada corporação tinha os seus próprios estatutos e regras, bem como o seu santo padroeiro. As famosas Old Charges (Os Velhos Deveres), que comumente se invoca como sendo um estatuto da Maçonaria operativa, nada mais são que regras prescritas para os membros das corporações de oficio dos construtores ingleses e escoceses. São regras que exigem desses profissionais determinado tipo de comportamento social, bem como estabelecem certos “deveres”, relativos à atitude deles como membros da corporação. Desta forma, em estados ainda não organizados, com legislação esparsa e atomizada, muitas vezes de carácter apenas consuetudinário, as regras corporativas acabavam sendo muito mais impositivas de comportamento do que aquelas emanadas das autoridades.

Deste caldo de cultura sairia, em breve, o pensamento reformador que daria início ao movimento que conhecemos pelo nome de Renascimento.

A renascença

No inicio do século XVI começa então a abertura cultural denominada Renascença. Assiste-se á uma revalorização do homem a partir dos antigos modelos greco-romano de beleza e competência pessoal. O culto ao humano, eclipsado durante a Idade Média pela valorização do ideal ascético, começa a ganhar os principais centros intelectuais da Europa. A ciência renova-se pelo apelo à razão mais do que á fé. Teorias racionais de explicação do universo contrastam com as velhas ideias admitidas pela Igreja. Explode a Reforma Protestante desencadeada pela rebeldia do frade alemão Martinho Lutero.

No meio disto tudo acontece uma revalorização do pensamento hermético e das teses gnósticas. Filósofos como Giordano Bruno, Thomas Mórus, Marcilio Ficcino, Pico de La Mirándola e outros ressuscitam as ideias de utopias políticas e religiões solares, em contraste com a ideia dominante do catolicismo universal, centrada na filosofia de Aristóteles e no heliocentrismo de Ptolomeu. Outros filósofos e artistas, como Leonardo da Vinci, Erasmo de Roterdão e Nicolau Maquiavel lançam as bases de uma nova ética e uma nova moral, enquanto cientistas como Galileu Galilei e Copérnico descortinam novos horizontes para a ciência.

Toda esta efervescência cultural logo se faria sentir no território mais subtil dos sentimentos humanos, que é a religião. A corrupção do clero católico e principalmente as motivações políticas e económicas desencadearam a revolução protestante conhecida como Reforma, mas foi, sem dúvida, a onda de liberdade de pensamento que se espalhou pela Europa durante os anos da Renascença que destruiu o monopólio da Igreja católica sobre o espírito da sociedade ocidental. Deste caldo de cultura viria a surgir o frade Martinho Lutero para incendiar de vez o pensamento ocidental com as bases da sua Reforma Religiosa.

Martinho Lutero e os Rosa-Cruzes

Martinho Lutero (1483 – 1546) foi quem desencadeou do movimento conhecido como Protestantismo. Não há qualquer informação que ligue a figura do inspirador da Reforma religiosa à Maçonaria, nem qualquer referência que possa sugerir uma interacção dele com os maçons operativos. Mas, na altura em que ele dava início ao maior e mais importante cisma que o Cristianismo viria a sofrer na sua história, estes já constituíam um importante fenómeno cultural, difundido por toda a Europa, principalmente na Alemanha, onde ele começou a sua pregação.

Em razão da liberdade de consciência e da condição de pedreiros livres que ostentavam, podendo mover-se livremente pelo território europeu sem os incómodos burocráticos a que estavam sujeitos os demais cidadãos, esses profissionais e os intelectuais que eles tinham admitido nas suas corporações, devem ter-se constituído num importante canal para as ideias do frade alemão. Assim, face às ligações já apontadas, que Martinho Lutero mantinha com os círculos místicos da Alemanha, não seria imprudente apontá-lo como simpatizante das ideias daquele grupo precursor que viria dar origem ao movimento Rosa-Cruz, fundado pelo alquimista Joahnnes Valentin Andreas, no início do século XVII, cuja influência na Maçonaria foi fundamental para o direccionamento que ela tomou enquanto fenómeno cultural.

No início do século XVII aparecem os Manifestos Rosa-Cruzes. Noutras obras da nossa autoria já tratamos desse curioso facto cultural com mais pormenores. Por enquanto é suficiente dizer que graças às pesquisas de Serge Huttin e Francês Yates sabe-se hoje que a Rosa-Cruz, como instituição, naquela época, jamais existiu. Tratou-se, na verdade, de um grupo de pensadores místicos, predominantemente alemães, que diziam estar de posse de grandes segredos capazes de mudar a face da história da humanidade [8].

Tais assertivas excitaram, como é óbvio, a imaginação popular e não poucos intelectuais se sentiram atraídos pela “Fraternidade da Rosa-Cruz”. Estes pensadores, na verdade, nada mais faziam do que divulgar teses e tradições herméticas desenvolvidas por alquimistas e filósofos gnósticos. Os seus segredos eram aqueles que os alquimistas diziam ter descoberto nos seus “magistérios”. Grupos desses “rosacrucianos” faziam parte activa das Lojas especulativas alemãs, francesas e inglesas e tinham introduzido nos rituais dessas Lojas símbolos, alegorias, evocações e ensinamentos extraídos da tradição hermética e gnóstica. O termo “rosa-cruz” tornou-se sinónimo de livre-pensador. Todo intelectual que não se conformava com a “saia justa” que as autoridades religiosas queriam impor ao pensamento, dizia-se, ou julgava-se um “rosacruciano”. Voltaire, Isaac Newton, Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, entre outros, eram tidos como “rosacrucianos.”

Durante todo o século XVII as Lojas especulativas da Europa conviveriam com esta verdadeira Babel intelectual em que se tornara a prática maçónica. Maçons alquimistas, maçons gnósticos, maçons cavaleiros, cada qual, conforme escreveu H. P. Marcy,

interpretando à sua vontade as Velhas Constituições (as Old Charges), criando uma profusão de maneiras de fazer uma iniciação, de conduzir uma reunião, de interpretar os símbolos e os ensinamentos maçónicos[9].

Esta diversidade,” prossegue o autor, poderia “destruir a unidade moral que permanecia como único vínculo entre os maçons aceites. A confusão aumenta todos os dias e a velha instituição ameaça falir sem esperança de recuperação” [10].

Em tese, podemos dizer que os Manifestos Rosa-Cruzes foram os correspondentes herméticos da doutrina professada na Maçonaria especulativa e anteciparam em mais de um século os estatutos da Ordem, porquanto agasalharam nas suas propostas a ideia de Irmandade que a ordem maçónica mundial iria perseguir nos seus objectivos [11].

Os maçons aceites

Um sistema de pensamento que fosse tolerante o suficiente para agasalhar todas as vertentes do pensamento religioso e secular não podia filiar-se em nenhum credo, nem podia propagar as suas ideias pela forma académica regular. Em algum momento, provavelmente no início do século XVII, a tradição hermética entrou nos ritos praticados pelos maçons das Lojas operativas, transformando-as em Lojas especulativas. Como isto se deu não é matéria pacífica, mas de forma geral admite-se que este facto aconteceu pela admissão, entre os profissionais da construção, de membros não pertencentes às suas categorias.

Estes eram os chamados “maçons aceites”. Entre eles encontravam-se militares, filósofos, intelectuais, professores, membros do clero, comerciantes etc., pessoas que de alguma forma procuravam um meio seguro de expressar os seus pensamentos sem precisar renunciar às suas crenças.

Não há consenso entre os historiadores de quem teria sido o primeiro Maçon especulativo, ou seja, a primeira pessoa não pertencente aos quadros profissionais dos pedreiros livres a ser admitida como membro nas suas Lojas. O mais antigo registro de uma iniciação desse tipo é o de John Boswell, lorde de Aushinleck, que em 8 de Junho de 1600 foi recebido como Maçon aceite na Saint Mary’s Chapell Lodge (Loja da Capela de Santa Maria), em Edimburgo, na Escócia. Esta Loja teria sido fundada em 1228 no canteiro de obras preparado para a construção da Capela de Santa Maria, naquela cidade, que então era a mais importante da Escócia. Era costume, naquela época, a organização de Lojas entre os pedreiros, pois assim se chamavam às assembleias dos obreiros que se reuniam para discutir sobre os assuntos referentes às obras e à profissão.

Após a iniciação de Lorde Bosswel, o processo de aceitação de maçons não profissionais tornar-se-ia comum. Logo espalhar-se-ia pelos canteiros de obras da Escócia, Inglaterra, Alemanha, França e outros países, de tal maneira que ao final do século XVI, o número de maçons aceites − então chamados de especulativos − ultrapassou os operativos. Assim, na primeira metade do século XVII, encontram-se registros de várias pessoas importantes na sociedade dos seus respectivos países sendo admitidas nas Lojas dos pedreiros livres. Nomes como os de William Wilson, aceite em 1622, Robert Murray, tenente-general do exército escocês, recebido, em 1641, na Loja da Capela de Santa Maria, que se tornou posteriormente Mestre Geral de todas as Lojas do Exército; o coronel Henry Mainwairing, recebido, em 1646, numa Loja de Warrington, no Lancashire, e o famoso antiquário e alquimista Elias Ashmole, recebido na mesma Loja e no mesmo dia (16 de Outubro) que o coronel Henry.

Na área da arquitectura, nessa altura, os maçons operativos já tinham perdido a maior parte do seu prestígio, uma vez que a forma arquitectónica tradicional deles, a gótica, tinha caído em desuso, eclipsada pelo modelo neoclássico. Porém, em 2 de Setembro de 1666, um grande incêndio irrompeu na cidade de Londres, destruindo mais da metade da cidade − cerca de quarenta mil casas e oitenta e seis igrejas. Nesta ocasião, os maçons operativos foram chamados para participar do esforço de reconstrução da cidade, sob a direcção do renomado mestre arquitecto Cristopher Wren, que foi logo iniciado Maçon. Foi no canteiro de construção da igreja de S. Paulo, presidido por ele, que em 1691, foi fundada a Loja São Paulo (em alusão à igreja), conhecida como Loja da taberna “O Ganso e a Grelha”, uma das quatro que, em 1717, iria, juntamente com as outras três Lojas londrinas, se uniram para a fundação da Grande Loja de Londres. Nasceria desta fusão a Maçonaria moderna, na sua forma institucional [12].

Geralmente costuma-se atribuir a Elias Ashmole a introdução do hermetismo na Maçonaria. Este intelectual inglês, que entrou para a Ordem em 1641, conforme as suas próprias anotações, era um notável hermetista especializado em alquimia e estudioso das tradições da cavalaria. É impossível não pensar que um indivíduo com esse perfil não tivesse prestado qualquer contribuição de vulto nesse sentido. Todavia, em 1641, como vimos, as Lojas maçónicas já praticavam ritos enxertados com a tradição hermética e “aceitavam” pessoas não ligadas ao oficio de construtor. E esta prática já vinha de longa data, a se acreditar nas pesquisas de Jean Palou e Robert Ambelain [13].

Por outro lado, a primazia de John Bosswel como sendo o primeiro Maçon aceite de que se tem notícia tem sido contestada por alguns autores que afirmam que numa Loja de Bolonha, Itália, já existia, no Século XIII, dez irmãos admitidos nessa condição. Esta informação estaria contida na chamada Carta de Bolonha, datada de 1248, o que faz desse documento o mais antigo texto maçónico até hoje recenseado.

Efectivamente, a publicação da Carta de Bolonha, presumindo que se trata de um documento verdadeiro, coloca em xeque as teses de que a Maçonaria especulativa teria origem principalmente nas Ilhas Britânicas, a partir da admissão de Lorde Bosswel e outras figuras importantes da sociedade inglesa e escocesa. Este documento, oriundo de uma Loja italiana, mostra que a tradição de ordenar como companheiro Maçon profissionais de outras categorias já era usada no século XIII, e não se iniciou no século XVI como usualmente se pensava [14].

Assim, o que se pode presumir é que Ashmole e o seu grupo de hermetistas entraram para a Maçonaria como consequência dessa prática, mas não se constituíram, de forma alguma, na sua causa. É possível que Ashmole tenha de algum modo, executado um trabalho de organização, desenvolvimento e propagação dos ritos maçónicos na nova formulação que as Lojas especulativas inglesas estavam praticando, desde que nelas se introduziram os cultores da tradição hermética, mas disso, como de resto, não temos provas que confirmem essa assertiva.

A Constituição de Anderson

Foi para por um fim nesta confusão que as quatro Grandes Lojas de Londres se fundiram no ano de 1717, dando início à chamada Maçonaria moderna. Moderna porque a partir desse acontecimento a Ordem maçónica, que era um conjunto de homens que se reuniam para praticar a arte do livre pensar, ganhou um regulamento, como se o pensamento pudesse ser regulado. M. Lapage, bastante sagaz a respeito, comentou lastimosamente que “a partir do dia nefasto em que (…) a maçonaria se deu chefes e regulamentos gerais, (…) os maçons rejeitaram a mais bela ideia maçónica, isto é,“ o Maçon livre na loja livre [15].

Evidentemente, a tentativa dos maçons londrinos, de por ordem na casa, (Ordo ab Chao) não foi aceita pacificamente no mundo maçónico. Fosse na Alemanha, ou em França, onde as tradições templárias e herméticas tinham deitado raízes profundas nas práticas maçónicas, uma chamada de ordem, feita especialmente por ingleses, só podia mesmo causar repulsa e consternação. Nem os trabalhos de Désaguliers, Ransay, Radcliffe e outros chamados “pais da maçonaria moderna” foram suficientes para acalmar os ânimos. Maçonarias Escocesa, Francesa, Alemã, Martinista, de Boillon, etc. eram títulos dados a diferentes ramos que se espalhavam pelas Ilhas Britânicas e pelo continente europeu e americano em meados do século XVIII, dando origem a uma profusão de rituais, sistemas e filiações que se dividiram em Ritos propriamente ditos, como o Rito Escocês Antigo e Aceite, o Rito Escocês Rectificado, o Rito Adonhiramita, O Rito da Estrita Observância, o Rito de Heredon, o Rito de Mênfis, O Rito de York, Rito Templário, de Misraim, etc.

Hoje, pacificada a disputa que se estabeleceu entre as diversas confissões maçónicas, disputas que no mais das vezes reflectiram os embates políticos que deram origem ao mundo moderno, podemos dizer que essa luta continua, entretanto, no terreno conceitual. Há maçons que propugnam por uma Maçonaria mais actuante nos assuntos políticos e sociais, ora agindo filantropicamente, ora participando de cruzadas políticas em favor desta ou daquela ideia. Há os maçons que vêem a Ordem como uma escola de pensamento onde se deve cultivar exclusivamente moral e ética, e há também os que levam a sério a ideia de uma Maçonaria simbólica e iniciática, nos melhores moldes dos especulativos anteriores a 1717.

Para nós o que fica não é a filiação a esta ou aquela linha de pensamento ou acção, mas sim a ideia de que a Maçonaria, como filosofia de vida e exercício espiritual, é um conjunto de arquétipos emuladores de virtude e catalisadores dos mais nobres sentimentos que uma pessoa pode desenvolver. E é neste sentido que se deve estudá-la e praticá-la. As consequências que daí são extraídas ficam por conta dos objectivos de cada Irmão. O Tesouro Arcano que ela contém pode ser aproveitado por todos os Irmãos, independente da concepção que ele faça da Arte Real. O carácter sem mácula (erguer templos à virtude) e a luta contra toda forma de opressão ao espírito humano (cavar masmorras ao vício) são a pedra filosofal a ser encontrada pelo Maçon. A via escolhida é opção de cada um [16].

João Anatalino Rodrigues

Notas

[1] era o deus preferido das legiões romanas.

[2] As chamadas seitas gnósticas, na sua grande maioria tinham o carácter de verdadeiras Fraternidades.

[3] Ver Sarane Alexandrian – História da Filosofia Oculta, citado.

[4] Sobre os Cavaleiros Templários e a sua relação com a Maçonaria veja-se a nossa obra “Mestres do Universo” já citada. Sobre os cátaros e a influência da Gnose na doutrina agasalhada pela tradição maçónica, veja-se o nosso trabalho “Conhecendo a Arte Real, publicado pela Ed. Madras, São Paulo, 2007.

[5] O Despertar dos Mágicos, op citado, pg. 123. Entre estes “círculos do saber” situa-se a famosa Royal Society inglesa, famoso clube de intelectuais e cientistas fundado em Londres em 1660. Entre os fundadores encontram-se vários nomes ligados à ciência e ao esoterismo, entre ele Robert Boyle e Sir Isaac Newton. Christopher Wren, o famoso arquitecto também faz parte dessa lista.

[6] Mac Nail Burns, História da Civilização Ocidental, Rio de Janeiro, Ed. Globo, 1971..

[7] Conhecendo a Arte Real, citada.

[8] Serge Hutin – História da Alquimia-Cultrix, São Paulo, 1987 – Frances Yates, O Iluminismo Rosa-Cruz, Cultrix, São Paulo, 1967

[9] Jean Palou,op citado, pg. 35.

[10] Idem, op citado pg. 48.

[11] São vários os trabalhos alquímicos que tratam da filosofia Rosa-Cruz. Os dois manifestos mais famosos, entretanto, são o “Fama e Fraternitatis” e o “Confessio Fraternitatis”, ambos publicados pela primeira vez em 1614 e 1615 respectivamente. Os Manifestos Rosa-Cruzes falam da criação de uma “Fraternidade mundial de sábios”, congregada para a prática do bem e o desenvolvimento das ciências, objectivo que também faz parte dos postulados da Maçonaria.

[12] Jean Palou – A Maçonaria Simbólica e Iniciática, op citado

[13] Idem, pg. 78. – Robert Ambelain – A Franco – Maçonaria, Ibrasa, São Paulo, 1999.

[14] Eugênio Bonvicini – Maçonaria do Rito Escocês – Ed. Athanor – Roma, 1988.

[15] Ibidem, pg. 50

[16] Alusão à prática da alquimia, segundo a qual a pedra filosofal pode ser obtida pela via seca ou pela via húmida.

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