Os Templários na fundação de Portugal

Nota Prévia

Este texto decorre de um artigo publicado pelo autor na Revista de Administração Militar e «retém» o conteúdo do Trabalho de Investigação de Grupo [2] redigido (e apresentado) pelos Majores-Alunos do Curso de Estado-Maior Exército 2007 (IESM), no âmbito da Visita ao Continente – Distrito de Castelo Branco (Julho de 2007).

Enquadramento Medievo

Para muitos identificada como a «era das trevas», da estagnação civilizacional e do retrocesso da arte militar, a Idade Média permanece como uma época que importa analisar e compreender. Prensar a Idade Média entre a Antiguidade Clássica e o Renascimento, equivale a reduzi-la a uma mera fase histórica de transição. O que, manifestamente, não foi o caso. A Idade Média existiu de motu própria e, particularmente o Feudalismo (século X-XV), encerrou um momento em que a sociedade internacional era regulada pela Respública Christiana. Uma sociedade normalizada onde as três ordens interagiam e evoluíam de forma interdependente. O Clero (Oratoré) estava no topo da pirâmide, classe letrada que efectuava a ligação de Deus aos homens, velava pela ordem social e controlava o poder político. A Nobreza (Bellatore) cingia a sua actividade primária à prática política e ao manejo guerreiro, detendo, com o clero, o usufruto de bens patrimoniais. O Povo (Jaboratore) trabalhava a terra, o fendo das autoridades eclesiásticas e nobiliárquicas. Ou seja, o Clero garantia a segurança espiritual, a nobreza a segurança espacial e o povo o bem-estar.

Em finais do século XI, os Estados viviam o espartilho interno de poderes, político, militar e patrimonial, a sociedade, anarquizada, sentia dificuldades em sustentar o desenvolvimento quotidiano e o sobressalto bélico era uma constante. Na Europa Cristã, em termos militares, sobressaiam os cavaleiros, que fizeram da guerra uma «coutada» quase exclusiva e do espaço onde interagiam campus bellis por excelência. As guerras privadas e inter-estados eram uma prática quotidiana, os morticínios entre os cristãos uma recorrência e a depredação das culturas e da insolvência económica, uma consequência do lavrar desregulado dos combates pela honra e pela bravura individuais.

Esta é, em síntese, a envolvente que presencia o aparecimento das ordens monástico-militares, onde se inserem os Templários. Uma Ordem que, durante 200 anos, constituiu a mais importante e temida organização medieval. Extinta há cerca de 700 anos (1312), a ordem do Templo permanece um mito, com «contornos obscuros» que importa compreender. Nela entronca um duplo carácter religioso e militar, pois o Cavaleiro do Templo ostentava nas vestes brancas a Cruz vermelha, identificativa da Ordem, mas empunhava também a espada, símbolo do poder e da força, nascendo desta simbiose a designação de monges-guerreiros.

Atendendo que a interpretação escrita se tem debruçado mais sobre as questões religiosas e esotéricas ligadas à Ordem e menos sobre a sua componente militar e forma de actuação estratégica, o texto irá privilegiar, exclusivamente, a vertente militar da Ordem do Templo.

A Formação dos Templários

A partir de meados do século XI, o Clero sentiu necessidade de restringir as lutas entre príncipes e nobres cristãos, limitando-as espacial e temporalmente. Neste contexto, impôs as Tréguas de Deus e a Paz de Deus [3], submetendo a guerra às exigências da recuperação da vida socioeconómica e da reforma da cristandade. Assim, sem anular de todo a guerra, o que seria impensável numa sociedade guerreira como era a medieval, canalizou as sinergias de uma cavalaria sedenta de combates e de ímpeto belicoso para objectivos mais conformes com o espírito cristão: a guerra aos «infiéis».

Foi este novo ideal que conduziu o Papa Urbano II, no Concílio de Clermont (1096), à proclamação de uma Cruzada, exortando os cristãos a conquistarem Jerusalém, em poder do Islão desde 636. O resultado foi a constituição de uma imensa horda de gente indisciplinada e desorganizada, oriunda de vários pontos da Europa, que se encaminhou para Oriente sob o comando do francês Godofredo de Bulhão. Três anos depois (15 de Julho de 1099), o que restava do exército conquistou a Cidade Santa, após combates sangrentos contra os turcos. Depois, resultante do alargamento das conquistas na região, constituíram-se outros potentados cristãos, organizados em principados feudais (principado de Antioquia, condados de Trípoli e Odessa).

Mas uma coisa era conquistar território aos muçulmanos, outra era mantê-los, sendo necessário gente que o sustentasse. Como a maior parte dos cruzados regressou à Europa e os muçulmanos pressionavam constantemente as possessões cristãs, a posse de «outre mer» revelou-se frágil.

Foi neste contexto que surgiram as ordens monástico-militares, criadas em Jerusalém sob a égide da entidade papal. Estas Ordens de Cavalaria, autênticas «milícias de Deus», orientadas numa primeira fase para a defesa dos territórios conquistados, protecção e assistência aos peregrinos, rapidamente se tomaram defensoras de toda a cristandade, prescrevendo para os leigos que a elas tinham acesso o voto de combate juntamente com os de castidade, obediência e pobreza pessoal [4].

Consequentemente, o francês Hugues de Payns e o flamengo Godofredo de Saint-Omer fundaram, juntamente com mais sete cavaleiros, a Ordem Religioso-Militar dos Pobres Cavaleiros de Cristo, em Jerusalém (1118). A designação de Templários (decorrente de Ordem do Templo de Salomão) advir-lhe-ia da circunstância de o Rei Balduíno II lhes ter cedido umas dependências situadas junto à Cúpula do Rochedo, local onde Salomão construíra o seu mítico Templo.

A criação da Ordem obedecia ao objectivo, ou pretexto, de protecção aos peregrinos que percorriam o caminho do porto de Jaffa a Jerusalém, amiúde atacados pelos «infiéis». Mas a sua missão evoluiu; em 1128, no Concílio de Troyes, a existência da Ordem foi formalmente reconhecida pelo Papa Honório II, que a consagrou ao serviço da Cristandade e a colocou na sua directa dependência [5]. Nessa mesma altura, a Ordem recebeu um estatuto normativo temporal, a Regra, redigida e inspirada por S. Bernardo [6] na de S. Bento e de Cister.

A Regra (Latina e, posteriormente, Francesa), era extraordinariamente complexa e foi sendo aumentada e aprofundada ao longo dos anos, enquadrava a vida monástica e bélica dos membros da Ordem: contemplava os deveres religiosos e as obrigações militares; os pensamentos e comportamentos; a ética e a moral; a organização interna e a hierarquia; o vestuário e equipamento a utilizar em cada situação; o armamento. Enfim, assumia um imenso rol de prerrogativas que norteavam a conduta espiritual e guerreira de um Templário.

A disciplina era estrita e absolutamente militar: o Templário usava o cabelo curto, de modo a não lhe dificultar a visão; não podia vangloriar-se das suas proezas; a pena máxima aplicada (expulsão Ordem) podia resultar, entre outras faltas graves, de actos de traição ou fugir face aos muçulmanos em combate, a não ser que estes fossem numa proporção superior a três para um; não se podia render, jamais podendo esperar ser resgatado, o que originava que, quando capturados, normalmente fossem executados [7]. Em suma, a Ordem caracterizava-se pela sobriedade de costumes, pois cada membro norteava-se pela pobreza, castidade e obediência, constituindo a rígida disciplina militar e a humildade as suas traves mestras.

Também a hierarquia estava bem definida. À cabeça aparecia o Mestre do Templo [8], hoje designado Grão-Mestre, com um poder limitado e controlado pelo Capítulo. Era o único a possuir o Ceptro e a Espada, ou seja, o poder moral e o poder político. O Senescal, segundo na hierarquia, substituía o Mestre quando este se encontrava ausente e representava-o. A seguir vinha o Marechal, que estava investido da autoridade militar. Seguiam-se os Mestres Provinciais, que beneficiavam de poder igual ao do Mestre da Ordem na região/província que representavam, apoiados nos Comendadores, que chefiavam as comendas das regiões [9]. O Tesoureiro e o Roupeiro eram também dois cargos importantes, cabendo ao primeiro gerir os imensos bens financeiros da Ordem e funcionando o segundo como uma espécie de intendente- geral. Existia ainda o Sub-Marechal, responsável pelos artesãos, e um Alferes, que comandava as tropas auxiliares voluntárias.

Dentro dos guerreiros também havia hierarquia. Os mais importantes eram os Cavaleiros, “esses grandes senhores de manto branco” [10], que foram a imagem da Ordem no exterior, seguindo-se os Escudeiros e os Serventes, com as suas túnicas pretas. Finalmente, havia Irmãos de ofícios, artesãos e criados contratados livremente para o serviço das Comendas: enfermeiros, boticários, hortelãos, padeiros.

O equipamento e armamento do Cavaleiro Templário consistia no Lorigão (cota de malha), elmo (casco ajustado com protecção nasal), cota de armas, ombreiras, calças e sapatos de ferro, no escudo ou braguel largo e triangular, no manto branco, camisa de linho, dois mantos (um para o Verão e outro para o Inverno), numa túnica e num Cristo de couro sobre o corpo, na espada, lança, maça de armas e três facas (uma faca de armas, espécie de adaga, outra para o pão e uma pequena lâmina flexível). Cada cavaleiro tinha direito a três alforges, um para ele e dois para os escudeiros.

Em 1131, S. Bernardo escreveu a Carta de Louvor da Ordem, a Liber adMilites Templide LaudNovae Militae, uma espécie de praxis espiritual destinada a glorificar e a emprestar à Cavalaria do Templo uma orientação estratégica para a sua actuação militar. Assim, dirigindo-se aos Templários, o monge cisterciense começou por criticar o guerreiro tradicional, censurando-lhe a arrogância, o devaneio, o esplendor e a sede de glória. “Matar ou morrer por tais objectivos”, segundo S. Bernardo, “não punha a alma em segurança”. A essa guerra de rendas, fútil, contrapunha a dos monges guerreiros. Anunciava então que “o cavaleiro templário combate sem medo sem censura, fazendo a guerra pelas forças do espirito contra os vícios e o demónio (…) protegendo a sua alma com a armadura da fé, tal como cobre o corpo com uma cota de malha”. Assim, “a fé e a espada actuavam de comum acordo, combatendo para o triunfo do dogma e para a unidade católica. Matar ou morrer por Cristo”, preconizava o monge, “nada tinha de criminoso merecendo, isso sim, uma imensa glória” [11].

Ficava justificado, dessa forma, o carácter monástico e militar da Ordem, bem como o facto de um monge ter a prerrogativa de pegar em armas para matar. Efectivamente, para S. Bernardo era necessária uma religião armada, acreditando na utilidade de uma milícia permanente, composta por cavaleiros cristãos de todas as nacionalidades, suficientemente poderosa para impor a universalidade cristã.

Foi devido a todo este idealismo, a esta convicção, rigor organizativo e conduta na acção que a Ordem Militar do Templo se transformou na mais poderosa organização da Idade Média. A supranacionalidade da Ordem, que não reconhecia fronteiras, embora respeitando a identidade de cada Nação e a sua dependência directa ao Papa, favorecia-os largamente e isentava-os do pagamento de qualquer tipo de impostos, permitindo-lhes criar um império financeiro sem precedentes. A Igreja dentro da Igreja ou o «Estado Templário» [12], como chegou a ser designada a Ordem, foi guardião de bens de reis e do clero, credores de muitos outros e chegou a possuir, espalhados por toda a Europa e Próximo Oriente, dez mil comendas, inúmeros castelos, domicílios, propriedades e áreas de cultivo. Empreenderam actividades bancarias sem precedentes, chegando, inclusive, a inventar a letra de câmbio. Efectuaram ainda uma intensa actividade comercial terrestre e marítima, de Ocidente a Oriente, pois os Templários foram exímios navegadores, possuidores de excelentes conhecimentos náuticos.

Tendo em conta a orientação estratégica que norteava os Templários, o Próximo Oriente e a Península Ibérica foram os locais ideais para imprimir a sua actividade guerreira, reservando-se o resto da Europa a uma conduta mais monacal.

Mas no Oriente, apesar da presença dos Templários, dos Hospitalários, dos Cavaleiros Teutónicos e das sucessivas Cruzadas enviadas [13], o sucesso inicial foi esmorecendo ao longo dos anos, atingindo a curva descendente em 1187, quando as tropas do Crescente Verde, comandadas por Saladino, se apossaram de Jerusalém [14].

Os Templários na Fundação de Portugal

Sempre que se procuraram explicar os primeiros tempos da Nacionalidade Portuguesa comummente enumeramos um rol de protagonistas e descrevemos uma série de acontecimentos, objectivando o Portugal talhado à espada, numa incessante luta em duas frentes: a sul do território contra os muçulmanos e a norte contra os leoneses; a guerra ofensiva a sul conducente ao alargamento das fronteiras e defensiva a norte, visando preservar o seu traçado.

Dentro desta forma simplista, Portugal apresenta-se-nos como que um produto aleatório, quase obra do acaso, unicamente decorrente das lutas fratricidas entre inimigos de fé e irmãos desavindos. Sendo verdade o referido, em nosso entender, existem motivações adicionais justificativas da capacidade de pequeno território costeiro libertar-se das amarras que o ligavam ao reino de Leão e, em pouco tempo, conquistar todo o território do actual Portugal.

Originária, como vimos, da Terra Santa, a introdução da Ordem do Templo na Península, e particularmente em Portugal, foi feita quase de imediato!

Assim, em 1125 ou 1126, instalou-se em Portugal e D. Teresa doou-lhe Fonte Arcada (Penafiel) e, em 1128, Soure [15]. Aqui instalaram a sede [16], no castelo confluente aos rios Arunca, Anços e Arão, que funcionava como guarda avançada de Coimbra.

Nesse mesmo ano, após a vitória em S. Mamede, o Príncipe Dom Afonso Henriques toma as «rédeas» da Terra Portucalense, confirmando as doações recebidas pelos Templários.

A Ordem firmava-se e afirmava-se no nosso país, havendo duas circunstâncias que a favoreciam, concretamente, as investidas contra os mouros e a proximidade geográfica em relação aos grandes centros que então enviavam os seus guerreiros para libertar o Santo Sepulcro, assegurando, dessa forma, uma costa livre para os cruzados e os peregrinos oriundos do Norte da Europa [17].

Em 1131,o Príncipe sai de Guimarães, transferindo a Corte para Coimbra, libertando- se, assim, das incómodas pressões da nobreza de entre Douro e Minho, que não o acompanha no processo de Reconquista. Próximo dos Templários que, posicionados em Soure, funcionam, simultaneamente, como ponta de lança e tampão face aos mouros nas áreas de fronteira, e apoiado pelos vilões dos concelhos, o príncipe portucalense inicia as acções agressivas para sul do Mondego. A partir desta altura, Dom Afonso Henriques apoia-se sobremaneira na cavalaria templária para empreender a sua gesta. Constituindo uma força militar permanente ao serviço do soberano, possuidora de uma capacidade combativa ímpar, a Cavalaria do Templo integrava a vanguarda da hoste real, constituindo a sua força profissionalizada. Realmente, os Templários eram altamente disciplinados, combatiam de forma coesa e devidamente enquadrados, o que era raro na época, nunca se rendiam e eram possuidores de uma força moral inigualável.

Ao longo de todo o processo de Reconquista, estavam cometidos aos Templários dois objectivos fundamentais: a actividade militar contra os mouros e o povoamento do território.

No campo de batalha, comandados pelo Mestre, os Templários organizavam-se em esquadrões, com a Balsa (estandarte) à frente, que servia de íman galvanizador para todos, mantendo o dispositivo de combate firme [18]. Para ficarmos com uma ideia da força combativa que representavam e do ideal que os movia no campo de batalha, acompanhemos a descrição feita por Alexandre Herculano sobre a conduta dos Templários no campo de batalha: “(…) A severa disciplina da Ordem, as solenidades com que entravam nas batalhas produziam (…) o entusiasmo (…) naqueles que os viam ao lado [as outras componentes da hoste]. Os esquadrões do Templo ao formarem- se para a batalha guardavam profundo silencio, que só era cortado pelo ciciar do balsão (…) que os guiava (…) e dos longos e alvos mantos dos cavaleiros que se agitavam. A voz do Mestre, uma trombeta dava o sinal do combate, e os freires, erguendo os olhos ao céu, entoavam o hymmo de David: Não a nós senhor, não a nós! mas dá gloria ao Teu nome! [19] Então, abaixando as lanças e esporeando os ginetes, arrojavam-se ao inimigo, como a tempestade, envoltos em turbilhões de pó. Primeiros no ferir eram os últimos em retirar-se quando assim lh ’o ordenavam. Desprezando os combates singulares, preferiam acommeter em columnas cerradas, e para elles não havia recuar: ou as dispersavam ou morriam. A morte era, de feito, mais bella para o Templário do que a vida comprada a cobardia” [20].

Foi imbuída deste espírito e vigor que a Ordem participou, activamente, em todas as campanhas e conquistas de relevo efectuadas: batalha de Ourique, conquistas de Santarém, Lisboa, Alcácer do Sal, Silves. Da mesma maneira, quando o inimigo atacava eram os Templários que recebiam o primeiro embate. Era de acordo com este pressuposto que a Ordem se acastelava nos locais de fronteira mais vulneráveis e estrategicamente mais importantes. Deste modo, constituíam não só uma força permanentemente vigilante e retardadora, como também autênticas cunhas, que constantemente inquietavam os muçulmanos.

Portanto, “em tempo de paz, a função militar do Templo era de vigilância e de informação; em período de guerra, era de primeira resistência na defensiva e de primeiro ataque, na ofensiva” [21].

Quanto à finalidade de povoarem, a Ordem exerceu um contínuo e profícuo esforço colonizador e de arroteamento de terras, que levou à fixação de moradores nas áreas onde se estabelecia, bem como a uma intensa e produtiva actividade agrícola nos campos circundantes. A segurança e estabilidade que a presença dos monges-guerreiros transmitia às populações são reveladoras dos aglomerados populacionais que se desenvolveram à sua volta.

Os Templários fizeram este povoamento em três direcções contínuas: a Sul, a Oriente e a Nordeste, com uma tendência marcadamente raiana, para evitar ameaças de flanco por parte dos mouros à integridade do reino [22]. Atente-se que Dom Afonso Henriques confiou aos Templários, na pessoa do mestre Gualdim Pais [23], a defesa da fronteira do Tejo, visando defender “a via romana que de Santarém pelo Vale de Tomar dava acesso ao coração do reino, Coimbra” [24].

Para o efeito, os Templários receberam uma vasta região em Ceras, local onde foi construído, em 1160, o castelo de Tomar, fortaleza dominante e inexpugnável, que se tomou sede da Ordem e em redor da qual cresceu a localidade do Nabão, contribuindo ainda para o desenvolvimento da zona envolvente (Vila Nova da Barquinha, Torres Novas, Ferreira do Zêzere e Vila de Rei). Localidade templária de supra importância, Tomar mereceu uma estrutura defensiva própria, que incluía os castelos de Cardiga, Bode, Zêzere, Almourol e Sertã, além das fortificações em Pias e Domes. Dentro do mesmo objectivo estratégico, outros castelos foram edificados ou restaurados e muitas localidades desenvolvidas a norte e a sul do Douro, particularmente, entre o Mondego e o Tejo [25]. Constituíam, no seu conjunto, um bem planeado e poderoso sistema de fortificações militares, para defesa de um espaço que acompanhava o esforço conducente ao respectivo povoamento e valorização económica.

Efectivamente, como a partir da década de 60 a Reconquista avançasse para sul do Tejo, as fortalezas dos Templários na região de Tomar, Almourol e na Beira Baixa garantiam a estabilidade da fronteira meridional, consolidando os territórios aquém Tejo, dada a possibilidade de, a qualquer momento, surgirem investidas de muçulmanos lançadas do Sul [26].

Quando, em 1169, D. Afonso Henriques sofre o desaire de Badajoz, incapacitando-se fisicamente, a Ordem do Templo tinha atingido um incomensurável poder em terras, fortalezas e dinheiro. Mas isso não impediu que o rei, na fase descendente da sua vida, quando recuperava forças nas caldas de Lafões, oferecesse aos Templários a terça parte de tudo quanto eles pudessem conquistar e povoar no Alentejo [27]. Esta incrível doação prova o seu reconhecimento relativamente à actuação dos Templários e mostra a esperança de garantir, através deles, a defesa dessa vasta região transtagana.

A identificação dos objectivos, a conjugação de interesses e a coordenação na actuação foi tão perfeita entre o nosso primeiro rei e a Ordem Templo que tudo se conjuga para acreditarmos na existência de um plano estratégico pré-concebido que forjou o reino de Portugal [28]. Já vimos que os Templários tinham em S. Bernardo o seu Patrono, que os enquadrou e orientou estrategicamente. Este, por sua vez, era primo de D. Afonso Henriques, com quem contactou e cooperou na Cruzada Peninsular [29]. Assim, podemos conjecturar que Portugal ficou a dever as suas origens à estratégia de S. Bernardo e ao modus belli de Dom Afonso Henriques. Ao monge movia-o, acima de tudo, a expansão da cristandade, para quem o Território Portucalense seria a lança que iria ferir de morte o Islão na Península. Quanto a Dom Afonso Henriques, indómito guerreiro e político arguto, seria o obreiro de tão gigantescos domínios.

Quanto aos Templários, foram um instrumento fundamental utilizado por estes dois homens para concretizarem o seu objectivo. Desde logo, atente-se no seu duplo carácter: monges e guerreiros, em perfeita sintonia com o monge Bernardo, seu mentor e protector, e o guerreiro Afonso Henriques, que os utilizou como sua principal força militar.

Assim, não é de todo descabido afirmar que no triângulo D. Afonso Henriques, S. Bernardo e Templários ou, se preferirmos, Coimbra, Alcobaça e Tomar, assentaram as mais profundas motivações que justificaram as razões da Fundação de Portugal [30]. Efectivamente, Coimbra foi, com D. Afonso Henriques, o centro político do País; em Alcobaça instalou-se a sede da Ordem Religiosa de Cister (1153), com a missão de consolidar o território, através do povoamento, trabalho da terra e evangelização das populações [31]; em Tomar estava a «cabeça do Templo».

Fecho

Quando, em 1291, a última possessão Cristã no Oriente, S. João de Acre, caiu, a Ordem do Templo, que perdera em combate, ao longo dos tempos, cerca de 20 mil membros, entrou no ocaso, sendo obrigada a transferir a sede para a ilha de Chipre e por fim para Paris. Tanto bastou para que a Instituição que chegara a ter a autoridade da espada, o poder do dinheiro e o respeito da Cruz de Cristo [32] começasse a ser caluniada pelos seus detractores.

Consequentemente, a pretexto de praticarem heresias e blasfémias, mas co i os olhos postos nas suas imensas riquezas, o rei de França, Filipe IV, o “Belo”, ordenou a prisão dos Templários de França, numa sexta-feira 13 de 1307 [33]. Escudado no papa Clemente V, que lhe devia o pontificado, almejou a extinção da Ordem, em 1312. Dois anos depois, o próprio Grão-Mestre, Jacques de Mollay, e outros altos dignatários foram sentenciados à morte na fogueira. De acordo com bula papal, os bens dos Templários deviam ser canalizados para a Ordem do Hospital.

Em Portugal, como de resto noutros territórios peninsulares, os Templários foram absolvidos das culpas que recaíram sobre a Ordem. Dom Dinis, dando continuidade ao projecto bernardino e templário dos seus antecessores, fez renascer das cinzas o Templo, numa manobra audaz e inteligente, criando a Ordem de Cristo, em 1319. De facto, esta nova Ordem, além de recolher muitos Templários, foi a fiel depositária dos seus imensos bens materiais e capital de conhecimento. Volvido pouco mais de um século, seria com a Cruz da Ordem de Cristo hasteada que as caravelas portuguesas dariam a conhecer novos mundos ao mundo.

Assim, finalizamos, sustentando que foi escudado na orientação estratégica, capacidade combativa e capital de conhecimentos dos Templários que Portugal foi fundado por Dom Afonso Henriques, consolidado por D. Dinis e dilatado pelo Infante Dom Henrique e os Reis Dom João II e Dom Manuel I [34], não sendo exagerado referir que o nosso País é, na génese, Templário.

Abílio Augusto Pires Lousada (Major de Infantaria)

Notas

[2] Majores João Barroso, Amónio Oliveira, António Cardoso, Bartolomeu Bastos, Jorge Pinto, Lourenço Azevedo e Luís Escorrega, Os Templários e a Reconquista Cristã em Portugal. A Defesa da Linha do Tejo e a Especificidade de Castelo Branco, Lisboa, IESM, Julho de 2007 (TIG policopiado).

[3] Pela Paz de Deus, a Igreja impediu a violência em determinados locais, nomeadamente nos santuários, hospícios e estradas; a Trégua de Deus negava os combates entre cristãos desde a tarde de Quinta-Feira a Domingo.

[4] Jacques le Goff, O Homem Medieval, Lisboa, Editorial Presença, 1990, p.65.

[5] Os papas colocaram muitas esperanças nestes monges-guerreiros para a expansão do dogma cristão, colocando-os debaixo da sua protecção, livrando-os, deste modo, da jurisdição dos bispos e dos poderes seculares. Destacaram-se os Hospitalários, os Teutónicos e os Templários.

[6] S. Bernardo de Claraval (1090-1153), monge da Ordem Religiosa de Cister, foi a figura mais importante do seu tempo, tomando a Abadia de Claraval, por si fundada em 1115, no ponto centrípeto, a nível religioso e político, da Europa, na primeira metade do século Xll. Foi o protector, ideólogo e orientador estratégico dos Templários e o pregador da 2a Cruzada. Canonizado em 1174, foi proclamado Doutor da Igreja Católica por Pio VI11, em 1830. É o maior taumaturgo da História da Igreja.

[7] Juan Eslava Galán, “Los Caballeros del Temple”, in Historia y Vida, nº 410, Ano XXXIV, Barcelona, p. 43.

[8] Durante a sua existência, a Ordem teve 23 Mestres, 13 dos quais morreram em combate.

[9] Nos tempos áureos, a Ordem, no século Xll, chegou a ter, no Oriente, cinco províncias (Jerusalém, Trípoli, Antioquia, Chipre e Roménia) e, no Ocidente, doze (Sicília-Apúlia, Lombardia, Portugal, Castela, Aragão-Catalunha, Alemanha Superior, Alemanha Inferior, Boémia-Áustria-Hungria, Ilhas Britânicas, França, Normandia, Aquitânia e Provença). Mário Simões Dias, Os Templários em Terras de Portugal, Coimbra, Edição do Autor, 1999, p. 14.

[10] Michel Lamy, Os Templários, Lisboa, Editorial Notícias, 1996, Capa. pretas. Finalmente, havia Irmãos de ofícios, artesãos e criados contratados livremente para o serviço das Comendas: enfermeiros, boticários, hortelãos, padeiros.

[11] Ídem, pp. 56-58

[12] Juan Eslava Galán, “Los Caballeros del Temple” ob. cit., p. 38.

[13] De 1096, data do envio da Ia Cruzada, a 1270, ano em que se registou a última, foram desencadeadas oito cruzadas com destino à Terra Santa: ver Steven Ruciman, História das Cruzadas, 3 vol., Livros Horizonte, Lisboa, 1993.

[14] Siephen Howarth, Os Cavaleiros Templários, Lisboa, Edição Livros do Brasil, 1982, ps. 157-159.

[15] Soure foi a sede da Ordem de 1128 a 1147, data da tomada de Santarém por D. Afonso Henriques, para onde se transferiram.

[16]Foi às portas do castelo de Soure que os Templários conheceram a mais copiosa derrota militar em Portugal, em 1144, contra as tropas de Abu zakaria, vizir de Santarém.

[17] François Terseur e Eduardo Amarante, Templários, Aspectos Secretos da Ordem, Lisboa, Edições Nova Acrópole, 1996, p.33.

[18] A Balsa, de cor preta e branca (xadrez) era um objecto sagrado para o Templário, que no campo de batalha, seguindo junto ao Mestre, era protegida por uma elite de experientes cavaleiros.

[19] Non Nobis. Domini. Non Nobis. SedNomini Tuo da Glorium, lema da Ordem, baseado no Salmo 113° de David.

[20] Alexandre Herculano, História de Portugal, Lisboa, Livraria Bertrand, Tomo II, Livro IV, 1976, ps. 263-264, Acerca da reconquista de Alcácer do Sal em Outubro de 1217.

[21] Lívio da Costa Guedes, D. Afonso Henriques e a Defesa da Cristandade no século XII, Lisboa, DSHM, 1982, p.37.

[22] Veríssimo Serrão, História de Portugal, Vol. l, Lisboa, Editorial Verbo, 1990, ps. 169-170.

[23] Companheiro de armas de D. Afonso Henriques, Gualdim Pais (118-1195), foi por este armado cavaleiro na batalha de Ourique. Mestre Provincial do Templo em Portugal de 1157 a 1195, foi-lhe concedida a prerrogativa única de conceder Cartas de Foral a algumas localidades, como Tomar, sendo um Mestre lendário.

[24] Costa Raxa, “Nascimento e Evolução Urbana de Tomar até ao Infante D. Henrique”, in Boletim Cultural e Informativo da Câmara Municipal de Tomar, n°2, Outubro de 1981, p.39.

[25] Ver Mapa dos castelos, comendas e lugares de Portugal que foram pertença da Ordem do Templo, de José Manuel Capelo, Portugal Templário, Lisboa, Arion Publicações, 2003. Acerca dos principais castelos templários que guarneciam a linha do Tejo (Tomar, Almourol, Castelo Branco, Monsanto, Pombal, Zêzere, Idanha-a-Nova) ver: Mauel Barroso e al, T1G CEM-Ex, ob. cit., pp. 15-22.

[26] Luís Franco Nogueira, “Apontamentos Sobre a Ordem do Templo em Portugal”, in Boletim Cultural, Câmara Municipal de Tomar, Março de 1991, ps.97-98. O que aconteceu em 1190, com a investida de al-Mansur, no inicio do reinado de Dom Sancho 1; nessa altura, a fronteira retraiu desde o baixo Alentejo até à linha do Tejo, sendo Gualdim Pais e os Templários que, a partir de Tomar, barram a ofensiva e a rechaçaram.

[27] Parece que a Ordem pouco se aproveitou dessa doação, antes cimentando as possessões entre o Mondego e o Tejo. De tal forma que, por exemplo, numa altura em que a reconquista atravessava o Alentejo, Dom Afonso II doou Vila Nova de Cardosa (Castelo Branco) aos Templários, em 1214. Mas, a gesta da reconquista para além-Tejo coube, fundamentalmente, à Ordem de Santiago da Espada, fundada em Leão, em 1170, e introduzida em Portugal, dois anos depois, por Dom Afonso Henriques.

[28] Apesar de não haver provas que o confirmem, há autores que sustentam que Dom Afonso Henriques foi membro da Ordem do Templo.

[29] S. Bernardo foi o pregador da 2ª Cruzada, em 1146. Foi por seu intermédio que o nosso Io monarca recorreu aos cruzados para o auxiliarem na conquista de Lisboa, em Outubro de 1147.

[30] Abílio Pires Lousada, A Guerra na Fundação de Portugal, o Período de D. Afonso Henriques, Lisboa, Universidade Lusíada (Policopiado), pp.33-34.

[31] Sugestiva a imagem que, no Mosteiro de Alcobaça, mostra S. Bernardo e o Papa Eugénio III (antigo monge de Cister e discípulo do Monge de Claraval) a coroarem Dom Afonso Henriques.

[32] Mário Simões Dias, ob. cit, p. 16.

[33] Que, ainda hoje, consideramos como dia de azar.

[34] O Infante D. Henrique foi governador da Ordem de Cristo, com sede em Tomar.

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