Teorias sobre a origem da maçonaria

Quando, porquê e onde se originou a Maçonaria?

Figura 2: Xilogravura do plano geométrico da Catedral de Milão

Somente existe uma resposta a estas três perguntas: não sabemos. Isto, apesar de todo o papel e tinta que foram usados no seu estudo. De facto, estas questões fundamentais foram bastante obscurecidas por vários historiadores maçónicos muito bem intencionados, mas mal informados. Faz pouco mais de um século que os historiadores maçónicos britânicos começaram a examinar com visão crítica a história tradicional do Ofício [1], que tinha sido escrita pelos seus predecessores durante os 150 anos anteriores.

Ao considerar dita “história” pouco satisfatória, começaram a buscar provas documentais directas da Maçonaria Especulativa anterior à formação da primeira Grande Loja da Inglaterra em 1717. As suas investigações e os seus escritos não detiveram, entretanto, a permanente aparição de obras pertencentes ao que se podia denominar de escola de historiadores maçónicos mística ou romântica (no sentido autêntico da palavra), o que gerou ainda maior confusão.

Existem, portanto, dois enfoques principais da história da Maçonaria: o autêntico ou científico, que constrói e desenvolve a sua teoria a partir factos verificáveis e de documentação de origem comprovada e o enfoque não-autêntico no qual se busca colocar a Maçonaria dentro do contexto da tradição dos Mistérios, correlacionando os ensinamentos, a alegoria e o simbolismo da Ordem com os seus homólogos pertencentes às diferentes tradições esotéricas. Para complicar ainda mais as coisas, existem opiniões divididas dentro das duas escolas principais que acabamos de citar.

O Maçon comum tira do próprio ritual as suas primeiras noções da história do Ofício. À medida que vai progredindo no seu conhecimento das cerimónias, aprende que durante a construção do Templo do Rei Salomão em Jerusalém, os construtores qualificados (pedreiros ou Maçons), dividiam-se em duas classes: Aprendizes e Companheiros. Todos trabalhavam sob as ordens de três Grão-Mestres (o Rei Salomão, Hiram, Rei de Tiro e Hiram Abiff), os quais compartilhavam certos segredos apenas por eles conhecidos. Aprende também que estes segredos foram perdidos com o assassinato de Hiram Abiff – assassinato que ocorreu devido à sua negativa de revelar tais segredos – e que se adoptaram certos segredos em substituição dos primeiros, “até que o tempo ou as circunstâncias restaurem os segredos originais”.

Do ritual deduz-se imediatamente que a Maçonaria já existia e estava estabelecida à época do Rei Salomão e que permaneceu desde então como uma sistema intacto. O candidato compreende logo que o ritual não contém uma verdade histórica ou literal, senão uma alegoria dramática mediante a qual se transmitem os princípios e axiomas fundamentais do Ofício. A primeira história do ofício apareceu, com sanção oficial, como parte das primeiras Constituições [2], compiladas e publicadas em nome da primeira Grande Loja pelo Reverendo Doutor James Anderson, em 1723. A obra de Anderson consiste principalmente na história legendária do Ofício dos Construtores, desde Adão, no Jardim do Éden, até a formação da primeira Grande Loja em 1717.

Anderson não faz distinção alguma entre Maçonaria Operativa e Maçonaria Especulativa, com o que ficou implícito que uma era continuação da outra. Anderson foi criticado com frequência pela sua história, mas estas críticas não são justas com ele. Ele não pretendia escrever uma história no sentido em que a entendemos actualmente, mas se propunha produzir uma apologia que estabelecesse uma filiação honrada para uma instituição relativamente nova.

Ele nem sequer afirmou ter escrito uma obra original, senão, como explicou na segunda edição das Constituições (1738), simplesmente resumiu as antigas Constituições góticas [3] Foi delas que ele retomou as tradições segundo as quais as Lojas de Maçons existiram desde os tempos antigos. Igualmente retomou dali a ideia de que várias personalidades bíblicas históricas e outras puramente legendárias tinham sido patronos, promotores ou Grão-Mestres do Ofício, como um certo Príncipe Edwin, que tinha convocado uma grande assembleia de Maçons no ano de 926 da era cristã [4].

Durante dita assembleia lhes teria outorgado uma Constituição e ter-lhes-ia ordenado que se reunissem trimestralmente para governar as suas Lojas. É dada a impressão de que a Grande Loja ou Assembleia continuou a existir de forma ininterrupta desde essa data até 1717. Por não ter Anderson produzido uma versão revisada e consideravelmente aumentada da sua história para a segunda edição das Constituições, a versão de 1723 foi aceita pelo que na realidade era: uma apologia construída a partir da lenda, do folclore, da tradição.

Na edição de 1738, Anderson parece ter dado, desafortunadamente, rédeas soltas à sua imaginação, pois construiu uma “história” detalhada da Maçonaria inglesa desde a suposta Assembleia de York até à ressurreição da Grande Loja em 1717 e a continuou inclusive até 1738. Para Anderson, os termos Geometria, Arquitectura e Maçonaria eram sinónimos. Todo monarca inglês ou personalidade histórica que, de qualquer maneira, tivesse patrocinado arquitectos ou Maçons, foi colocado na sua lista, seja como Grão-Mestre, ou, pelo menos, como Grande Vigilante da Maçonaria.

Com o fito de “comprovar” a antiga e ininterrupta linhagem da Instituição, Anderson assegurou que a união das quatro Lojas de Londres para formar uma Grande Loja em 1717 não tinha representado a criação de uma nova organização, mas sim que tinha havido a “restauração” [5] de uma antiga organização que tinha caído em decomposição devido à negligência do seu Grão-Mestre Christopher Wren.

Trata-se de uma assertiva surpreendente, a favor da qual não existe prova, especialmente porque na versão de 1723 não se menciona nenhuma restauração e o nome de Wren apenas figura em nota de pé de página como arquitecto do Teatro Sheldoniano de Oxford. Curiosamente, Wren ainda vivia quando apareceu a versão de 1723, mas já tinha falecido quando Anderson empreendeu as suas revisões, de modo que o interessado não teve oportunidade de objectar.

Tendo em vista que a história escrita por Anderson foi publicada com a sanção da Grande Loja, atribuiu-se a ela o carácter de história sagrada, tanto mais por que o seu conteúdo não foi impugnado pelos que tomaram parte nos eventos de 1717. O seu trabalho resultou de tão grande aceitação que continuou sendo publicado repetidamente, sem alterações, simplesmente com actualizações em todas as edições subsequentes, até à última edição, em 1784. Foi inclusive plagiado pelos diversos editores de manualzinhos publicados no século XVIII, os “Companheiros de Bolso dos Franco-Maçons” (“Freemasons’ Pocket Companions”) [6] e constituiu a base das “Ilustrações da Maçonaria” (“Illustrations of Freemasonry”), de William Preston, até na décima sétima edição (póstuma), em 1861, editada pelo Reverendo George Oliver.

Houve planos para incorporá-lo nas edições das Constituições da Grande Loja Unida da Inglaterra, datadas de 1825, 1827 e 1827. Foi então anunciado que as partes do livro publicadas constituíam uma segunda parte e que se publicaria numa primeira parte da história da Maçonaria. Felizmente, a primeira parte em questão jamais foi publicada.

Com a exportação para a América do Norte das Constituições da primeira Grande Loja e as Ilustrações de Preston, bem como as suas traduções para o francês e o alemão, a má informação de Anderson recebeu ampla divulgação. Exerceu assim profundo efeito sobre a concepção que se teve sobre a história do Ofício, bem como sobre a atitude diante do tema, atitude que subsistiu até bem entrado o século XIX.

Na verdade, a ausência de uma diferenciação, por parte de Anderson, entre Maçonaria Operativa e Maçonaria Especulativa iria marcar os enfoques da história do Ofício por espaço de muitas gerações e pode-se dizer que deu lugar ao desejo de estabelecer vínculo directo entre ambas tão logo a escola autêntica iniciou a sua aproximação crítica à história aceita da Ordem. Ainda que a aproximação dos escritores da escola autêntica apareça como uma investigação científica, os métodos empregados por eles não seriam aceitos actualmente como científicos.  Apesar de que eles examinaram cuidadosamente e comprovaram origem de cada fragmento de evidência que apareceu e que as suas áreas de investigação se limitaram aos registos e documentos arquitectónicos, de construção e corporativos. De facto, o seu trabalho ostenta a aparência de busca de evidências susceptível de encaixar dentro de uma teoria preconcebida.

Dispostos a provar a filiação directa entre a Maçonaria Operativa e a Maçonaria Especulativa através de uma fase de transição, ajuntaram fragmentos de informações procedentes de várias partes das Ilhas Britânicas, fragmentos que pareciam formar escalões na sua cadeia de descendência. Ao proceder desta maneira, com frequência tiraram a evidência do seu contexto e efectuaram suposições para as quais existia apenas uma ténue possibilidade de confirmação.

Em particular, assumiram a existência de uma uniformidade de condições e de actividades na Inglaterra, Irlanda e Escócia e ignoraram assim as circunstâncias particulares sociais, culturais, políticas, legais e religiosas que marcam diferenças cruciais entre estes países. Não levaram em conta, por exemplo, que até à Lei de União de 1707, Inglaterra e Escócia, ainda que unidas através da Coroa desde 1603, eram países separados que somente compartilhavam fronteira comum e que os eventos ocorridos num país não tinham necessariamente paralelismo nos países vizinhos.

Entretanto, a sua teoria era tão persuasiva, tão bem escrita e foi tão divulgada, que a sua interpretação acerca da transição da Maçonaria Operativa para a Maçonaria Especulativa esteve perigosamente próxima de ser aceita como facto inquestionável. Necessário é enfatizar novamente que se trata apenas de uma teoria. Na Escócia, encontraram evidência inegável da existência de Lojas Operativas der talhadores de pedra. Tais Lojas definiam-se segundo o ponto de vista geográfico (territorial) e constituíam unidades de controle da actividade Operativa com respaldo em leis estatutárias. Também obtiveram evidência indiscutível que as Lojas Operativas escocesas começaram a admitir durante o século XVII membros não-Operativos na qualidade de “Maçons Aceitos” ou “Gentis-homens Maçons” (Accepted or Gentlemen Masons) e que a princípios do século XVIII em algumas Lojas, os Maçons Aceitos tinham passado a predominar.

Estas Lojas, por sua vez, converteram-se em Lojas Especulativas, enquanto as outras mantiveram o seu carácter puramente Operativo. As Lojas Especulativas eventualmente uniram-se para formar a Grande Loja da Escócia em 1736. Investigadores da escola autêntica também descobriram referências claras sobre o uso nestas Lojas, de uma Palavra maçónica [7] e de modos secretos de reconhecimento que permitiam aos Maçons Operativos de boa fé obter trabalho ou sustento quando viajavam ao território de outra Loja. ao unir estes factos, os historiadores  românticos pareciam contar com provas de uma transição gradual da Maçonaria Operativa para a Maçonaria Especulativa.

A falha do seu raciocínio consistia em supor que por não serem Operativos, os Maçons Aceitos nas Lojas Operativas escocesas tinham de ser necessariamente Especulativos, ou que, pelo menos deveria existir uma implicação sobre a actividade Especulativa da loja, derivada do próprio facto da aceitação. Até hoje, não apareceu prova alguma que apoie tais suposições. De facto, a evidência encontrada pareceria assinalar os não Operativos como sendo membros honorários das Lojas, adoptados do mesmo modo que hoje se adoptam eminentes personalidades como membros honorários de clubes, sociedades e instituições com as quais não têm vínculos profissionais ou vocacionais.

Quando a escola autêntica examinou os registos ingleses, os seus investigadores não puderam encontrar evidência alguma da existência de Lojas Operativas. Em tempos medievais, a Loja dos Operativos consistia simplesmente de uma choça ou depósito anexo ao lugar de trabalho, no qual guardavam as ferramentas e descansavam. Por volta do ano de 1600, o sistema de guildas encontrava-se praticamente moribundo, com a excepção das Companhias de Carroceiros e Transportadores de Londres (“London Livery Companies”).

Tampouco existia evidência de uma “palavra maçónica” inglesa ou de meios secretos de reconhecimento entre os Operativos ingleses. Qualquer evidência encontrada acerca da Maçonaria não Operativa – ou de aceitação – tinha um contexto não Operativo e entre os nomes encontrados e que podiam ser verificados e cruzados com outras evidências, muito poucos tinham sequer a mais ténue relação com a construção ou a arquitectura.

A Maçonaria de aceitação (existem ainda dúvidas sobre se a Maçonaria do século XVII pode ser denominada de Especulativa) simplesmente parece ter surgido na Inglaterra como uma organização nova, sem nenhuma conexão anterior com o ofício Operativo. Apesar desta carência de provas, a escola autêntica misturou conjuntamente os eventos ocorridos na Escócia e Inglaterra e construiu a teoria da transição Operativa – Especulativa sobre as origens da Maçonaria [8], sem ter em conta as diferenças e discrepâncias entre os dois conjuntos de evidências. Antes de tudo, passaram por alto ou ignoraram o facto de que a Maçonaria não Operativa se estava a desenvolver na Inglaterra quando as Lojas escocesas começaram a aceitar membros não Operativos. Se as Lojas Operativas escocesas constituíram um meio de transição, como poderia existir na Inglaterra a Maçonaria puramente não Operativa?

A busca de um vínculo directo não se confinou às Ilhas Britânicas, nem ao período da denominada “Assembleia de York” Foram feitas tentativas de encontrar para ela um parentesco clássico como descendente dos “Collegia Fabrorum” romanos (as escolas de construtores da época), pois, além disto, a palavra “escola” parecia levar implícita a existência de um culto filosófico ou “misterioso” ligado aos construtores romanos. A lenda dos “Magistri Comacini” (Mestres Comacinos) parecia oferecer fundamento religioso ao Ofício.

Afirmou-se que os hábeis e renomados Maçons da região do lago de Como no norte da Itália, possuíam segredos tão recônditos susceptíveis de serem comunicados a outros Operativos, que foram constituídos mediante uma bula papal (bula inexistente, na realidade). Dizia-se que tinham recebido instruções de viajar pela Europa para partilhar as suas habilidades e “mistérios”. É notória a ausência de provas sobre a sua existência real.

James Anderson

Foram revisadas diligentemente as tradições e os registos dos “Steinmetzen” alemães e da “Compagnonnage” francesa em busca de rastros de algum elemento Especulativo, mas nada foi encontrado. A evidência remete-nos sempre e novamente à aparição da Maçonaria não Operativa na Inglaterra, durante o século XVII. A teoria de uma filiação directa da Maçonaria Operativa segue tendo os seus partidários, especialmente o falecido e muito reverenciado Harry Carr, mas alguns investigadores actuais que trabalham na tradição da escola autêntica estão a inclinar-se para considerar um vínculo directo com os Operativos [9].

Em vez de buscar as provas de filiação directa, estão a explorar a possibilidade de que os fundadores da Maçonaria Especulativa se tenham ocultado sob a aparência de uma organização ou guilda para desenvolver actividades e ideias que eram impossíveis de praticar ou professar na época. O período no qual se crê que tenha evoluído a Maçonaria – entre fins do século XVI e durante todo o século XVII – caracterizou-se pela estreita relação entre a política e a religião. Durante esses anos, as diferenças de opinião nessas matérias podiam dividir as famílias e eventualmente conduzir a guerras civis.

Particularmente no que concerne à religião, existiam sanções legais contra aqueles que decidiam não seguir os ditames do Estado. Surgem por si mesmas, em consequência, duas ideias possíveis relacionadas com a origem da Maçonaria durante esse período. Primeiro, que os fundadores eram um grupo oposto à intolerância política e religiosa do Estado, que desejavam reunir homens de diferentes concepções políticas e religiosas, que compartilhassem objectivo comum de melhoria social. Como se encontravam em situação em que as ditas concepções eram consideradas subversivas, restringiam-se apenas à discussão desses assuntos com os que não eram membros. Estes parecem ter existido desde que se originou a Maçonaria.

Segundo, que os fundadores eram um grupo de religião cristã não conformista, que se opunha ao domínio da religião por parte do Estado. Tal grupo não se propunha depor a religião predominante, mas desejava promover a tolerância e a criação de uma sociedade na qual os homens fossem livres para seguir os ditames da sua consciência em matéria religiosa.

Assim, as reuniões converteram-se em Lojas, os oficiais principais passaram a denominar-se de Mestre e Vigilantes e as ferramentas de trabalho do talhador de pedras foram utilizadas, tanto pelas suas funções materiais práticas, como pelo seu valor simbólico. Recentemente, foi apresentada uma teoria de filiação indirecta. Ela associa as origens com os aspectos caritativos, mais do que com as discussões filosóficas [10]. Considera a Maçonaria como produto do crescente movimento de auto-ajuda surgido no século XVII. Por não existir um sistema estatal de protecção e seguridade social, aqueles que ficavam doentes ou que passavam por dificuldades económicas dependiam da caridade local e das rígidas estipulações da Lei dos Pobres.

Diversos agrupamentos gremiais começaram a organizar os seus próprios sistemas. Quando se reuniam a debater amistosamente em tabernas e pousadas, mantinham uma caixa à qual os membros aportavam cotas durante cada reunião e da qual os mesmos membros podiam tomar dinheiro em tempos de necessidade. Em virtude dessa prática, tais agrupamentos receberam o nome de “Clubes de Caixa” (“Box clubs”). A participação nestes clubes estava reservada em princípio aos membros de um grémio em particular. Existe evidência de que nos clubes foram utilizados ritos rudimentares de iniciação.

Parece também que, como as Lojas Operativas escocesas, os Clubes de Caixa começaram a admitir membros que não estavam vinculados directamente com o seu grémio particular. Evocou-se a possibilidade de que a Maçonaria tenha surgido originalmente tão somente como um Clube de Caixa para Maçons Operativos, os quais posteriormente começaram a admitir membros de outros grémios.

A possibilidade de que a Maçonaria tivesse sido basicamente uma sociedade de orientação gremial na época da criação da primeira Grande Loja em 1717 foi levantada por Henry Sadler [11]. Sugeriu ele que uma luta pelo controle das Lojas teve lugar em princípios da década de 1720, entre os membros originais de orientação gremial e os que foram levados às Lojas por influência do Dr. John Teophilus Desaguliers e outros e que a Maçonaria autenticamente Especulativa não surgiu senão quando este último grupo ganhou o controle e começou a transformar a Maçonaria de sociedade de benefícios, para “um sistema de moral, velado por alegorias e ilustrado por símbolos”.

Também se buscou noutras organizações a origem da Maçonaria. Uma teoria agora descartada, mas que conservou credibilidade por longo tempo, via na Maçonaria a descendente directa dos Cavaleiros Templários medievais. Afirmou-se que depois da eliminação de Jacques De Molay – o seu último Grão-Mestre, em 1314 – um grupo de cavaleiros escapou para a Escócia Uma vez ali, reuniram-se no misterioso monte Heredom, perto de Kilwinning e, temerosos de ulteriores perseguições, transformaram-se em Maçons convertendo os supostos segredos dos Templários nos segredos da Maçonaria.

Infelizmente para os partidários desta teoria, o misterioso monte de Heredom não existe (ainda que viesse a constituir-se num elemento central de numerosos graus adicionais inventados na França do século XVIII). Tampouco é verídico que os Templários tivessem sido perseguidos na Escócia. Formaram, pelo contrário, parte da vida política e religiosa da Escócia até à Reforma, sendo que o Prior de Torpichen (principal Priorado Templário da Escócia), por direito próprio, um dos “Lores” espirituais do governo escocês. Mesmo assim, a lenda escocesa segue exercendo a sua atracção romântica.

O Reverendo Dr. George Oliver declarou que possuía um manuscrito do século XVIII que se referia ao que ele denominou “Rito de Bouillon”, um ritual dos três graus azuis no qual informava aos recipiendários que eles eram descendentes dos Templários. O manuscrito de Oliver conhece-se apenas em cópias que datam do século XIX e um exame do seu conteúdo mostra um ritual altamente desenvolvido para os três graus azuis que incorpora muitas das modificações e adições ritualísticas realizadas depois da união das Grandes Lojas inglesas em 1813.

Alguns buscaram as origens da Maçonaria no Rosacrucianismo, seja como uma manifestação britânica da fraternidade Rosa-cruz, seja como um desvio da corrente principal do Rosacrucianismo [12]. Não é este o lugar para discutir a existência ou não de uma Fraternidade Rosa-cruz. Qualquer que seja a verdade a este respeito, o certo é que a ideia Rosa-cruz se manteve entretecendo-se no pensamento europeu, desde a sua aparição no início do século XVII. Os únicos factores comuns à Maçonaria e ao Rosacrucianismo são a idéia central de criação de uma sociedade ideal e o simbolismo, para distribuir esse ideal aos seus iniciados.

Até aí chega a similitude. Não existe um acervo comum de simbolismo e ambas se desenvolveram ao longo de caminhos diferentes. Não há evidência que demonstre uma origem comum ou o desenvolvimento de uma a partir da outra. Muito se tratou de utilizar para esses fins o facto de que Elias Ashmole, o primeiro iniciado não Operativo de que se tem notícia certa, também se interessava no Rosacrucianismo. Mas nada se diz dos demais Maçons Aceitos conhecidos, que não tinham relação com a Rosa-Cruz (real ou imaginária), nem sobre os Rosa-Cruzes declarados que não tiveram vínculos com a Maçonaria de Aceitação.

A escola não autêntica possui quatro enfoques principais, os quais poderiam ser classificados como o “esotérico”, o “místico”, o “simbolista” e o “romântico”. As quatro abordagens têm dois factores em comum: a crença de que a Maçonaria existe “desde tempo imemorial” e uma aparente incapacidade de distinguir entre facto histórico e lenda. As escolas esotéricas e místicas estão de facto interessadas na transmissão das ideias e tradições esotéricas, o que constitui em si uma linha de investigação válida.

Ocorre que, ao se aproximarem do seu objectivo, convertem similitudes entre grupos muito separados no tempo, como prova de uma tradição contínua transmitida de um grupo a outro, numa espécie de sucessão apostólica esotérica. Os seguidores destas escolas tendem também a professar ideias heterodoxas acerca da natureza e propósito da Maçonaria, atribuindo-lhe implicações místicas, religiosas e inclusive ocultas, que nunca teve.

Os partidários da abordagem esotérica tomam os princípios, os rituais, as formas, os símbolos e a linguagem da Maçonaria e buscam similitudes com outros grupos (ignorando o facto de que os princípios e muitos dos símbolos são universais e não particulares da Maçonaria). Supõem que estas similitudes não são fortuitas mas deliberadas e constituem, portanto, prova de uma tradição contínua. Colocam, também, grande ênfase nos graus adicionais, revestindo-os de uma antiguidade espúria e vendo neles conteúdo esotérico e simbolismo muito maiores do que jamais se tentou imprimir-lhes.

Ao ver o conjunto das diversas ramificações da Maçonaria um rito iniciático coerente, coisa que não é, a escola esotérica a compara com outros ritos iniciáticos, encontra semelhanças – reais ou impostas – e supõe um parentesco. John Yarker é, provavelmente, o maior expoente dessa escola. O seu “opus magnum”, “As Escolas Arcanas” (Belfast, 1909) é um monumento à erudição mal aplicada. Não apenas revela a amplitude das suas leituras, mas também a sua dificuldade para digerir ou, em alguns casos entender, aquilo que tinha lido.

À primeira vista pareceria que operava na escola autêntica, já que faz constante uso da “evidência documentária”. Um exame mais atento mostra que ele não efectuava análise crítica das suas fontes, com o que aceitava como factos as lendas, a tradição e o folclore e chegava a negar factos reais adequadamente documentados. Yarker estava firmemente convencido que a Maçonaria existiu entre os talhadores de pedra Operativos da Idade Média e que eles já trabalhavam com uma complexa série de graus que abarcava os três graus azuis (o Ofício) e muitos dos graus adicionais. Acreditava também que tal sistema tinha declinado e que o seu ”ressurgimento” no século XVIII constituía um renascimento, mas de forma distorcida.

Para poder aceitar as teses de Yarker, teríamos de aceitar que ao talhadores de pedra medievais eram homens intelectualmente preclaros, hábeis com o trato de ideias que não ingressaram no acervo da filosofia ocidental senão depois do Renascimento. Yarker viu a Maçonaria como a culminação ou o “summum bonum” de todos os sistemas esotéricos. Ao fracassar na “depuração” do sistema existente, Yarker introduziu, dos Estados Unidos da América, o “Rito Antigo e Primitivo da Maçonaria”. Este Rito combinava e reduzia os noventa e sete graus do Rito de Misraim e os noventa e cinco graus do Rito de Mênfis, convertendo-os num “pout porri” de egiptologia, gnosticismo, rosacrucianismo, cabala, alquimia, misticismo oriental e cristianismo.

Resume perfeitamente a mente ecléctica e acrítica do seu principal promotor na Inglaterra. Este Rito a duras penas sobreviveu à morte de Yarker. Talvez os representantes mais característicos da escola mística sejam o Rev. George Oliver e A. E. Waite. Oliver foi um fervoroso fundamentalista pré-darwiniano que acreditava firmemente que a Maçonaria era essencialmente cristã e tinha existido, sob uma forma ou outra, desde o começo dos tempos. Em vários sentidos pode ter sido o pai da escola autêntica. Lia com avidez qualquer livro maçónico ao seu alcance e coleccionava até as fracções de provas mais ínfimas que pudesse encontrar, mas, como Yarker, a sua forma de leitura era acrítica e inclinava-se para a invenção quando escasseavam as provas.

Waite, como Oliver, acreditava que a Maçonaria era essencialmente cristã, tanto na sua origem, como no seu carácter. Cria que a Maçonaria tinha as suas raízes no sistema das guildas, mas que tinha sido transformada em sistema místico. Os seus rituais, em particular os dos graus adicionais, conteriam o conhecimento secreto dentro da tradição dos Mistérios. A sua desorganizada “Nova Enciclopédia da Maçonaria”, na qual pôs pesada ênfase sobre os graus adicionais, tanto existentes como extintos, foi demolida pela crítica da escola autêntica no momento da sua publicação em 1921.

A escola simbolista busca as origens da Maçonaria mediante a comparação e a correlação do simbolismo e da linguagem ritual e trata de encontrar a filiação directa entre a Maçonaria e várias religiões, cultos, mistérios e sociedades. Da mesma maneira que a escola esotérica, esta linha de investigação tem certa validade, mas como antropologia do simbolismo e não como investigação das origens da Maçonaria. A incidência de certos símbolos, gestos e terminologia conduziram esta escola a comparar a Maçonaria com religiões dos ameríndios, cerimónias maias, rituais mitraicos e aborígenes, pinturas de templos egípcios, marcas de castas hindus, etc.

O problema é que os símbolos maçónicos não são exclusivos da Maçonaria, pois são universais. Dentro da escola simbolista encontra-se quem foi buscar a origem do ritual maçônico mediante a exegese de obras de escritores bem conhecidos, com o fito de encontrar exemplos de “linguagem maçónica”. O mais excêntrico deles foi provavelmente Alfred Dodd, que se convenceu a si mesmo que Shakespeare (chame-se Shakespeare, Bacom ou Marlowe) compôs o Ritual do Ofício [13].

De uma maneira, os seguidores da escola romântica aproximam-se da tradição de Anderson, já que implicitamente acreditam na conexão directa entre a Maçonaria Operativa e a Maçonaria Especulativa, mesmo que tal vínculo remonte a Adão, Salomão ou aos construtores medievais. Diferem da escola autêntica por rechaçarem, ou desconhecerem, as numerosas formas pelas quais a Maçonaria mudou e desenvolveu-se durante o período do qual existem registos históricos. Estão dispostos a crer que o ritual tem sido praticado desde tempo imemorial , seja nas suas formas fundamentais, seja conservando integralmente os seus detalhes.

A carência de conhecimento sobre a origem da Maçonaria e a variedade de abordagens que existem para enfocar esta interrogação explicam, talvez, a intensidade com a qual se investiga e a persistente atracção que exerce. A ausência de dogmas oficiais implica que qualquer membro da Ordem pode dar ao ritual tanto ou tão pouco significado, conforme deseje. Nem sequer na Inglaterra existe um padrão, ou se trate de um ritual controlado de maneira centralizada ou de uma interpretação do ritual que deva ser aceita por todas as Lojas. Quando é que, alguma vez, cheguemos a estar prestes a descobrir as verdadeiras origens da Maçonaria é uma pergunta que permanece em aberto.

Os registos e documentos relacionados com a construção medieval foram revisados na sua totalidade, mas os arquivos religiosos, familiares e locais permanecem praticamente inexplorados. Por outro lado, a ser correcta a afirmação de Anderson de que numerosos manuscritos foram queimados deliberadamente em 1720, “por alguns Irmãos preocupados que tais documentos fossem cair em mãos estranhas”, é bem possível que a prova crucial que procuramos já esteja perdida.

John Hamill
Bibliotecário e Curador da Grande Loja Unida da Inglaterra

Tradução: J. C. Miró MM

Notas

[1] – Seguindo a tradição maçónica inglesa, o autor denomina “O Ofício” (“The Craft”) ao conjunto dos três graus fundamentais da Maçonaria e dos seus membros, Os três graus fundamentais, Aprendiz, Companheiro e Mestre são conhecidos como “Maçonaria Azul”.

[2] – James Anderson, “As constituições dos Franco-Maçons, Com a História, Obrigações, Regulamentos, Etc. Desta Mui Antiga e Venerável Fraternidade”. Londres, 1723.

[3] – As Constituições Góticas (“Gothic Constitutions”) são a recopilação de preceitos corporativos, também conhecida como “Os Antigos Deveres” (“Old Charges”)

[4] – Para uma discussão sobre o tema da lenda de York, ver Begemann AQC 6 (1893); Gould AQC 5 (1892); Oliver AQC 61 (1948); Speth AQC 6 (1893) e Alex Horne “A Lenda de York nos Antigos Deveres” (“The York Legend in the Old Charges”) (Shepperton; A. Lewis, 1978). AQC: Anais da Quatuor Coronati, Loja de estudos históricos pertencente à Grande Loja Unida de Inglaterra.

[5] – Anderson é a única fonte que se pode citar para sustentar a idéia de que os eventos de 1717 constituíram uma restauração.

[6] – Os “Pocket Companions” começaram a aparecer em 1735 e eram uma mistura pouco feliz de plágios das regras e do relato histórico de Anderson, junto com vários deveres e orações.

[7] – Ver Douglas Knoop, “A Palavra Maçónica (“The Mason Word”), AQC 51 (1938).

[8] – O relato mais recente da teoria da transição Operativa-Especulativa é “600 Anos de Ritual do Ofício”, (“600 Years of Craft Ritual”) de Harry Carr, texto que se encontra no livro “O Mundo da Maçonaria”, de Harry Carr, (“Harry Carr’s World of Freemasonry”) publicado em Londres por A. Lewis, 1984.

[9] – Ver C.F.W. Dyer, “Algumas Reflexões Sobre a Origem da Maçonaria Especulativa (“Some Thoughts on the Origin of Speculative Masonry”), AQC 95 (1982).

[10] – Andrew Durr, “A Origem do Ofício” (The Origin of the Craft), AQC 96 (1983).

[11] Henry Sadler, “Factos e Ficções Maçónicos” (“Masonic Facts and Fictions”), Londres 1887; reimpresso por Wellingborough (Aquarian Press, 1984).

[12] -Ver J. S. M. Ward, “A Maçonaria e os Antigos Deuses” (“Freemasonry and the Ancient Gods”) segunda edição (Londres, 1926). A. E. Waite, “A Tradição Secreta na Maçonaria” (“The Secret Tradition in Freemasonry”), (Londres, 1911).

[13] – Alfred Dodd, “Shakespeare: Criador da Maçonaria (“Shakespeare: Creator of Freemasonry”) (Londres, circa 1935) e “Foi Shakespeare o Criador dos Rituais da Maçonaria?” (“Was Shakespeare the Creator of the Rituals of Freemasonry?”), (Liverpool, sem data).

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