As raízes da Maçonaria Operativa

Em História, as épocas podem ser balizadas maçonaria no Tempo. As datas dos eventos, no entanto, nem sempre são possíveis de ser precisadas.

As raízes da Maçonaria Operativa são passíveis de ser identificadas; porém, fixar as respectivas datas dos seus aparecimentos é tarefa gigantesca, senão impossível.

Documentos escritos da Maçonaria Operativa são praticamente inexistentes, excepto algumas parcas anotações, perdidas na contabilidade da construção de alguma catedral medieval.

O homem medieval era analfabeto. Os letrados eram os eclesiásticos. E, a Igreja Católica Romana andou sempre às turras com os Arquitectos Construtores medievais. Já que precisar datas é impossível, resta-nos saber como os eventos se foram formando para o aparecimento da Maçonaria Operativa.

Assim, em que época, ou melhor, em que século, ou ainda, em que séculos teria a Maçonaria Operativa ganho corpo e surgido? Quais seriam os princípios que, em dado momento da História, convergiram para sua formação?

Autores há que estabelecem o nascimento da Maçonaria desde o aparecimento de Adão e Eva. Outros afirmam que seria desde Noé. Há aqueles que dizem que as raízes da Maçonaria se perdem “nas mangas do tempo” (sic). Muitos afirmam que a Maçonaria nasceu por ocasião da construção das pirâmides egípcias.

Outros afirmam que nasceu com a vinda dos Templários do Oriente.

E há estudiosos que, valendo-se de palpáveis elementos históricos, afirmam que a Maçonaria Operativa teria surgido nalguma época da Idade Média.

Diante da dificuldade apontada, parece que o importante, no estudo, não é saber exactamente quando, mas como, num somatório de acontecimentos, a Ordem Maçónica se foi formando, e formada, evoluiu, sem abdicar da tradição e adaptou-se às novas fases, e tem… rompido os Tempos, como a mais perfeita Instituição de Aprimoramento do Ser Humano.

Os Collegia Fabrorum romanos – a mais antiga raiz

Numa Pompílio, Rei de Roma, em 715 a.C., teria criado os Collegia Fabrorum. Eram verdadeiras escolas de ensino das técnicas de construção e de apetrechos de guerra. Maço e espada eram as ferramentas de trabalho dos alunos nessas escolas.

Edificações em madeira e em pedras; canalização de água; drenagem de estradas; construções de pontes, casamatas, armadilhas, fabrico de lanças, espadas e todo aparato de guerra faziam parte do ensino nos Collegia Fabrorum, ao lado, do ensino esotérico dos Antigos Mistérios gregos e egípcios.

Marco Aurélio foi um entusiasta admirador dos Collegia Fabrorum.

“Cada um desses colégios de Arquitectos estava incorporado a uma Legião Romana, para lhe construir fortificações em tempo de guerra e templos e casas em tempo de Paz. Foi dessa maneira que os Mistérios Romanos foram levados para o Norte da Europa.” É o que nos diz Leadbeater In Pequena, p. 141

Mas, em fins do séc. V d.C. o Império Romano do Ocidente está cambaleando. Roma, que duraria mil anos, tinha, agora, hordas de bárbaros às suas portas. O Império Romano do Ocidente sucumbe

No entanto, o Império Romano do Oriente, criado por Teodósio, em 395 d.C., (também Império Bizantino, capital Constantinopla, hoje Istambul – Turquia) escapa ileso das invasões dos bárbaros, que se circunscreveram ao território europeu.

O Império Romano do Oriente viveu até 1453 d.C., quando os muros de Constantinopla caíram ante os canhões turcos.

Afirmam os estudiosos que, dado à tranquilidade reinante no Império Romano do Oriente, os Collegia Fabrorum aí sobreviveram, desenvolveram-se e aprimoraram as suas técnicas.

No Ocidente (leia-se Europa), após a queda do Império Romano, reinou a confusão. “Sabe-se que [depois] a invasão [bárbara]… A vida urbana diminuiu; os conhecimentos técnicos dos operários da Antiguidade esfumaram-se ao longe.” É a opinião de Jean Gimple, citado por Aslan, Apud A Maçonaria, p. 38.

Os Collegia desapareceram na sua grande maioria no Ocidente; os poucos que sobreviveram encontraram refúgio atrás das paredes dos Conventos, onde técnicas de edificação em pedras; manejo com o ferro; o entalhe em pedras; fabrico de vidros; en­cadernações e cópia de livros, entre outros, seriam as técnicas preservadas.

A bíblia e a colher de pedreiro

Rómulo Augusto, o último Imperador Romano do Ocidente, em 476 d.C., está com os guerreiros de Odoarco, Rei dos Hérulos (bárbaros), às portas de Roma.

Esse evento marca o fim da Idade Antiga e o início da Idade Média.

O remanescente da Cultura Romana, o catolicismo e a cultura germânica (leia-se bárbara) formarão a base da Cultura da Idade Média.

Na Economia, termina o regime esclavagista romano, nasce o Feudalismo.

No plano Social, há a fuga das pessoas dos centros urbanos (ruralização da Europa), com a formação de uma Sociedade Agrária, característica do Feudalismo. No plano político, o Poder Central diminui e nasce o Poder Regional dos Senhores Feudais, circunscrito aos limites de seu feudo (castelo).

Sem o Poder Central forte para lhe frear o apetite, a Igreja Católica Romana alcança a sua supremacia.

Converte os bárbaros ao catolicismo e impõe a todos a cultura religiosa teocêntrica (Deus, o centro de tudo e ela, o seu único representante na Terra).

A Igreja Católica Romana põe e dispõe. E oferecerá, nos seus estatutos e regimentos, o refúgio e os privilégios aos poucos Construtores e aos Artistas, remanescentes das Antigas Collegia Fabrorum romanas do Ocidente.

Franquias de passagens (pedágios); isenções de tributos, como corveias, capitação, talha, taxa de justiça, e outros sem-números tributos eram os Construtores isentos de pagamentos, para que trabalhassem na edificação de edifícios eclesiásticos nos variados burgos, sob as ordens de Monges construtores.

A Igreja dos Santos Apóstolos de Ruão, França, que data de 530 d.C., foi edificada por Monges Construtores, auxiliados por “leigos” (leia-se, os primeiros pedreiros construtores), cujas técnicas de edificação foram herdadas dos arquitectos, pertencentes aos Collegia Fabrorum romanos.

No Ocidente, as primeiras construções em pedra têm início.

No Oriente, em Constantinopla, Constantino recebe o título de Imperatur Romanorum e reclama o direito sobre o Império de Roma.

Constantino quis fazer de Constantinopla uma Roma. E, há aqueles que pensam que ele conseguiu. Reinando a paz nos territórios do Oriente, Constantino revoluciona Constantinopla. Edificam palácios de mármore, com pórticos, arcos, estátuas gregas entalhadas em mármore, fontes, bibliotecas, teatros, jardins, praças, mercados, e, até rede encanada de água nas residências.

Constantinopla tornou-se o maior Pólo Comercial da Terra: jóias, sedas, ouro, especiarias e pedras preciosas; animais, mágicos e videntes, eram encontrados nos seus mercados.

No Ocidente, nos séculos VI até X, as primeiras Igrejas, Conventos e Mosteiros, são edificados, chefiados por Monges Construtores, que detinham o “know-how” da arte de construção em pedras, herdada dos arquitectos romanos.

No Oriente, a exuberância das construções. No Ocidente, as edificações engatinhavam, ressuscitando as velhas técnicas do estilo românico.

No Oriente, as construções já fazem uso de arcos, o que proporcionarão verticalidade às edificações. No Ocidente, as construções, em toscas pedras, mantinham paredes grossas; baixos pé-direito; pequenas janelas em esquadrias; pouca luminosidade no interior; que são as principais características do estilo românico; práticas que perduram por séculos.

A arte de construir e as confrarias

Estudiosos afirmam que as Confrarias Leigas da Arte de Construir, antecedentes das Lojas, teriam surgido por volta do ano 1000 (séc. XI), época em que os ofícios deixam os Conventos e os Mosteiros e caem nas mãos dos Construtores Leigos, os precursores dos Maçons Operativos.

“Foi neste período (ano 1000) que a Arquitectura, como outras artes, abandonou os mosteiros para passar às mãos dos Arquitectos leigos, organizados em confrarias.” É o que nos diz Lacroix, citado por Aslan, In Hist. Geral, p. 25 .

O declínio das invasões dos bárbaros proporciona um clima de segurança. Em vista disso, há agora a reurbanização da Europa, no início do séc. XI. Primeiro, os aglomerados de pessoas na foz dos rios, no entroncamento das estradas. Aparecem os burgos. Em seguida, vêm as cidades.

Essa teria sido a marcha do advento da urbanização, durante a Idade Média.

Mas o Sistema Feudal, ainda vigente, dá sinais de limitações em produzir mais grãos, tecidos e novas habitações, que o mercado consumidor passou a exigir.

A Igreja Católica Romana do Ocidente, ante a viragem do 1º Milénio, está empenhada na construção da Casa de Deus em todos os burgos e em todos os aglomerados de pessoas.

E as torres, encimadas por uma cruz, haviam de ser altas para ser vistas por todos os habitantes. E em cada cidadela, zelavam os seus moradores por edificar a Casa de Deus.

E quanto mais altas fossem as torres das Igrejas, maior era a prova do fervor e da devoção dos habitantes. E as técnicas do estilo românico impunham restrições à verticalização nas construções.

“Esta foi… uma idade de devoção, e cada pedra era talhada com extremo carinho para a glória de Deus e destarte carregada da adoração dos hábeis artífices, (…)” Apud História, p. 176.

A Arte de Construir, antes executada por monges, agora havia caído nas mãos de construtores leigos e os bispos e párocos contratam esses arquitectos para executarem as suas construções. As Catedrais, verdadeiros Livros de Pedra, como foram chamadas, tornaram-se Casa do Povo, onde, pessoas analfabetas praticavam o fervor religioso, mas também, instruíam-se com as esculturas, com as pinturas de santos e de cenas bí­blicas.

As cruzadas e os Templários

O Solo Europeu sofreu as invasões dos bárbaros no séc. V. No séc. VIII, os árabes cruzaram Gibraltar, invadiram a Espanha e tomaram a França. No séc. IX foi a vez dos Normandos.

O séc. X marca o fim das invasões. A Paz Medieval toma conta da Europa. Em consequência, acontece um surto demográfico. Uma multidão de bocas famintas coloca em cheque a estática economia do Sistema Feudal, que não consegue produzir alimentos para os famintos.

Em 1095, a Igreja Católica Romana, na figura do Papa Urbano II, diante da fome, que rondava, incita todos os deserdados da sorte e os Senhores Feudais, e ainda… os ladrões, as prostitutas e toda a sorte de pária da época a combater os infiéis no Orien­te, que estavam profanando o “túmulo” de Cristo, num famigerado movimento, que foi denominado por As Cruzadas.

Aliviar a situação reinante, que ameaçava ficar sem controle, pretendia Urbano II.

Os historiadores afirmam que as Cruzadas se apresentaram como uma forma oportuna de expansão do catolicismo, circunscrito ao solo europeu, e com ele, a Supre­macia Temporal do Papa de Roma.

Acontece que ano de 1054, havia ocorrido o Cisma do Oriente: o Império da Cristandade dividiu-se em Igreja Católica Romana (a Igreja de Pedro) e Igreja Católica Ortodoxa (a Igreja de João).

E o Papa de Roma queria aproveitar a ocasião e reunir a Cristandade.

Oito Cruzadas foram organizadas. Um movimento insano e cruel que arrastou multidões de desocupados e de famintos, para uma louca empreitada, que semeou terror por onde passou.

Turcos e árabes, ao verem as flâmulas dos cruzados com a Cruz estampada, sabiam que teriam de lutar até a morte, pois os Cruzados Ocidentais não faziam prisio­neiros.

Queimavam os infiéis, as mulheres grávidas, as crianças e os bebés, em imensas fogueiras, práticas inimagináveis entre os árabes. Muitos praticavam o canibalismo.

Pequenos reinos são fundados nas terras conquistadas. Surgem o Reino de Jerusalém e o Principado de Antioquia.

E novas ordens religiosas, compostas por monges-soldados, foram fundadas para proteger esses reinos.

A Ordem dos Cavaleiros do Templo (Salomão) ou Os Templários transformou-se na mais poderosa e mais organizada dessas ordens.

Fundada por Hugo de Payens, em 1118, estabeleceu-se em Jerusalém, para proteger os lugares sagrados e os peregrinos. Cultivava entre os seus adeptos ensinamentos esotéricos.

Especula-se que os Templários mantiveram estreitas relações com os Arquitectos Construtores do Oriente, que, por sua vez, guardavam os segredos da Arte de Cons­truir em pedras, e os Antigos Mistérios, herdados dos Collegia Fabrorum.

Após o fim das Cruzadas e a expulsão dos ocidentais do Oriente, as técnicas e o esoterismo teriam sido trazidos e implantados pelos Templários por toda a Europa.

Numa Sessão de Iniciação de um neófito nos Mistérios dos Templários, o Irmão Capelão, quando terminava o seu discurso de recepção, entoava o Salmo 133, em latim: “Oh! Quam bonum et jucundum habitare frates in umim” Apud Hist. Geral Maç., p. 135

Naudom informa:

“Foi, sobretudo, (…) que os cristãos do Reino de Jerusalém construíram comunidades de construtores, posteriormente propagadas na Europa Ocidental, onde quer que os Templários hajam efectuado os seus trabalhos.

Assim, quando o Comendador do Templo de Londres empreendeu, em 1155, a construção da Capela de Fleet-Street, recorreu a uma Associação Arquitectónica cris­tã, vinda da Terra Santa. Grifo meu. A Franco-Maçonaria, p. 31

O estilo Gótico – A Catedral verticaliza-se.

“A construção operária medieval atingiu o seu clímax nos séc. XII e XII, com o nascimento e desenvolvimento da Arquitectura Gótica…” Apud Pequena Hist. Da Ma­çonaria, p. 173

Os estudiosos dizem que as primeiras abóbadas ogivais, em solo europeu datam do ano 1122. Em 1150, o Estilo Gótico, ou Ogival, aparece no Sul de França.

O estilo gótico, de início foi menosprezado pela Igreja Católica Romana. Os eclesiásticos associavam-no aos pagãos.

Mas, o facto é que ele solucionava as limitações que o Estilo Românico impunha aos Arquitectos Construtores da época.

Hoje, afirma-se que não teriam sido possíveis as edificações das Catedrais Europeias, sem o advento do Estilo Gótico.

Tudo o que a Igreja Católica Romana desejava, o estilo gótico lhe proporcionava. As paredes das construções ficaram mais finas. As janelas alongaram-se na vertical. Enormes rosáceas frontais, amplamente decoradas com vidros coloridos proporciona­vam ao interior das Catedrais, uma luz matizada, que a todos encantava. As construções estenderam-se na horizontal e na vertical. Graças às vigas entrecruzadas nas abóbadas, o peso das cumeeiras (crucial problema do Estilo Românico) pôde ser dividido em feixes de belas colunas internas, aliviando o peso nas paredes de sustentação.

E… o estilo gótico era desconhecido dos antigos monges construtores.

O domínio das técnicas de construção góticas era agora do conhecimento dos maçons construtores, que, doravante, contratavam com a Igreja Católica Romana, de igual para igual, em uma relação contratual, não mais de subordinação, como no passado.

E impunham condições. Estabeleciam exigências para a execução dos serviços. Jean Gimple apresenta um curioso acontecimento entre o Maçon Construtor Raymond e o Arcebispo de Lugo, França, em 1129, retirado dos registos da Cúria. Diz

Mestre Raymond, no seu contrato, teve o cuidado de prever que, se o valor da moeda viesse a diminuir no decorrer do seu contrato como Mestre de Obra da Catedral, ele seria pago principalmente em mercadorias, a saber:

Por ano 6 marcos de prata; 86 m. de tecido; 17 carregamentos de lenha; sapatões; polainas [aventais e luvas?] quantos necessitasse, e, Por mês, 2 soldos para a sua alimentação, 1 medida de sal e 1 medida de velas de sebo” In Battisseurs de Cathedrales, p. 138 Apud Pequena Hist. Da Maçonaria, p.67

O acontecimento apresentado mostra a hegemonia dos maçons construtores em relação à Igreja Católica Romana, no início do séc. XII.

E a Igreja Católica Romana deparou-se com um dilema. Por um lado, nos seus concílios estabelece proibições às Corporações de Ofícios, por causa do segredo profissional, com ameaças de excomunhões e; por outro lado, a Igreja Católica necessitava do engenho dos Maçons Construtores para edificar as suas Catedrais, cada vez mais altas, cada vez mais iluminadas, cada vez mais decoradas e mais fantásticas.

Nalgum momento dessa época (início do Sec. XII), as Corporações de Construtores procuram organizar-se, para fazer frente às proibições da Igreja e salvaguardar o trabalho.

Os primeiros documentos profanos

Em 1268, em Paris, é publicado o livro “Livre Des Métiers” de Estêvão Boileaux, cujas páginas traziam um rol dos principais ofícios da época. Lá encontrava-se o ofício dos construtores, entre outros. Por outras palavras, havia em Paris, em meados do séc. XIII, a Confraria dos Construtores.

O agrupamento dos Arquitectos Construtores tinha por objectivo interno a sacralização do ofício. Com o trabalho, o homem ligava-se a Deus, não a um deus particular, mas O Senhor do Universo, Criador do Universo.

“Numa época em que dominava a sacralização do mundo, de suas formas e de seus objectos, além das suas técnicas, o trabalho possuía ritos próprios ao seu desempenho, o que fazia de cada artífice um artista e iniciado” É o que diz Palou, In A Franco-maçonaria, p. 1

Em 1140 foi construída a Primeira Igreja dos Templários em Paris, por Arquitectos vindos da Terra Santa.

A Corporação dos Pedreiros da Cidade de Londres data do ano de 1220. E a Abadia de Westminster teve início em 1221.

Guilda na Alemanha, Confraria em França, Companhia (ou Fraternidade) na Inglaterra.

Já poderíamos falar na existência da Maçonaria Operativa?

Há quem afirme que sim.

Os documentos maçónicos mais antigos

“Temos hoje em mãos, sob a guarda de Lojas, de organismos maçónicos, (…) na América e nas Ilhas Britânicas,… umas cento e vinte e cinco das Velhas Instruções (Old Charges). São todas elas (…) cópias de um modelo básico, tendo sido, na maioria, copiadas umas das outras…” Home, Apud O Templo, p. 61

O poema Regius ou poema de Haliwell ou manuscrito Regius

Na época, o bibliotecário da Real Biblioteca do Museu Britânico de Dnodes classificou o documento no assunto “deveres morais” . James Orchard Haliwell, maçon, pesquisava os assuntos para o seu Livro “The Early History of Freemansory In England” (A Incipiente História da Franco-maçonaria na Inglaterra), editado em 1820;encontrou o Poema Regius e, estudando-o, viu que o mesmo não tratava nada de “deveres morais”, mas sim, propunha relatar a História da Arquitectura (ou seja, da Maçonaria).

O poema falava dos procedimentos a ser usados nas Assembleias Maçónicas. Relatava os ensinamentos de Euclides, Pai da Geometria e autor de “Os Elementos”-, dos conteúdos e das 7 ciências, etc.

O Poema afirma que o Rei Inglês Adelthone (a palavra tem variantes), em 926 d.C., teria convocado uma assembleia de construtores maçons nas terras inglesas e, naquela ocasião, teria reconhecido os maçons construtores ingleses e teria também mandado preparar uma “espécie” de constituição, com 15 artigos referentes à Ordem.

Há historiadores cépticos quanto ao evento histórico de 926, na Inglaterra. Dizem ser uma lenda.

No entanto, e isso é relevante, a paleontologia analisou os tipos gráficos utilizados nos versos do Poema Regius, a qualidade do pergaminho, a tinta utilizada, e o datou como sendo de 1390 – 1400 d. C. .

O manuscrito Cooke

O I∴ Matthew J. Cooke publicou o documento em Londres, em 1861. Mas, o I∴ William Stakeley, 140 anos antes, havia registado no seu diário particular que o Grão-Mestre da recém-fundada Grande Loja de Londres (1717), havia apresentado o Manuscrito aos Ilr, num almoço maçónico anual, no ano de 1721.

O MS Cooke é composto por duas partes: a primeira é um preâmbulo e fala dos autores célebres, como Heródoto, Pai da História e de vários eventos bíblicos. A segunda parte do manuscrito trata de fixar as origens da Fraternidade (leia-se Maçonaria Ope­rativa) e, ora estabelece que as origens maçónicas estão no Egipto, ora na Judeia. Fala também dos procedimentos para se receber os novos adeptos (leia-se Cerimónia de Iniciação) e, curiosamente, diz que “tanto o mais humilde, como o mais elevado (rico), pode ser aceito na Ordem (Maçónica), por todo o Reino da Inglaterra” (notar as origens do Principio da proibição da discriminação social, racial, etc.).

O Manuscrito Cooke também conta que o Rei Inglês Athelstan (szc), o mesmo citado no Poema Regius, nutria especial afecto pelos Pedreiros Construtores Ingleses.

“E conquanto o exame de caligrafia sugira aos expertos paleográficos do Museu Britânico de Londres que o MS Regius foi redigido por volta de 1390, o MS Cooke [teria sido]por volta de 1400 -1410…” sublinhado meu, Apud O Templo, p. 65

Por outras palavras: pelo relato dos dois manuscritos, havia uma Fraternidade de Pedreiros Construtores Ingleses, antes do ano de 1390, antes do final do séc. XIV.

Hoje, isso está demonstrado. Não restam mais dúvidas a respeito.

Conclusão

Sabe-se que a Maçonaria Especulativa comemora o seu nascimento oficial com um acontecimento histórico, que foi a Fundação da Grande Loja de Londres, em 24 de Junho do ano de 1717, em Londres.

Mas, em relação à Maçonaria Operativa, não se pode dizer que, a partir daquele evento, daquela data, regista-se o seu nascimento.

A sua gestação é um longo processo, um somatório de acontecimentos que se agrupou e se fundiu, ao longo do tempo, até que, em determinada época, nasceu o sentimento de união entre os afins, surgiu a ideia de Família e apareceu a noção de Irmandade, entre os componentes da Confraria.

Mas… afinal, se o estudioso está impossibilitado de falar em datas; então, em que época, ou em que séculos, a Maçonaria Operativa passou a existir?

Vimos que os Arquitectos Construtores Leigos, após a queda do Império Romano do Ocidente, trabalhavam com os Monges Construtores, na condição de ajudantes.

Eram os eclesiásticos que detinham os conhecimentos técnicos de edificação em pedras, no estilo românico, herdados dos Arquitectos dos Collegia Fabrorum.

No entanto, com o advento do estilo gótico, a relação Igreja versus Construtores altera-se. Os Monges Construtores não conheciam as técnicas do estilo gótico.

Há, agora, Arquitectos Construtores que executam as edificações da Igreja Católica Romana em solo europeu, em uma relação contratual.

Facto de suma importância, pois a Comunidade de Construtores (Fraternidade, Guilda, Companhia), a partir daí, foi obrigada a andar com as próprias pernas. E para isso, foi necessário agrupar-se; administrar-se, e nesse momento, a ideia de iguais, de semelhantes, estava consolidada.

Os Arquitectos Construtores formavam uma categoria profissional, que detinha as técnicas do como fazer.

Entre eles, havia aqueles que sabiam como executar a tarefa de retirar a P/.B.. da pedreira e esquadrinhá-la – os Rough Masons. Havia aqueles que sabiam construir paredes erectas e esculpir a pedra – os Freestones Masons. Havia os ferreiros, os car­pinteiros, os estucadores, os vidraceiros, etc., havia, então, uma Irmandade.

E na Irmandade, há uns que passam a manter o segredo profissional; que cultivam a assistência mútua para as ocasiões em que o serviço escasseava (bolsa de beneficência) e, por fim, que acreditam na existência de um Arquitecto Criador do Universo, de tudo que existiu, existe e existirá, que é o Grande Arquitecto do Universo.

Ao reconhecer a existência dessa tríade: o juramento de manter segredo profissional; assistência material mútua e a crença em um princípio Criador, o G∴ A∴ D∴ U∴, pode-se afirmar a existência da Maçonaria Operativa, passou a existir como um organismo, ainda que só no plano profissional.

Resta-nos, agora, localizar esses factos no Tempo.

Vimos que, com a derrocada dos Cruzados e a expulsão dos Templários do Oriente, esses monges guerreiros trouxeram para o Ocidente as técnicas aprimoradas de edificação no estilo gótico, o que irá proporcionar aos Arquitectos Construtores uma alforria do jugo da Igreja.

As primeiras abóbadas ogivais foram implantadas no Sul de França no início do séc. XII (1122). Manual de reconhecimento de Ofícios – A Arte de Construir -, inclusive, data do séc. XIII (1268). Documentos Maçónicos são datados do final do séc. XIV (1390). Eles atestam a existência da Fraternidade bem antes do final do séc. XIV.

Assim, pode-se afirmar que a Maçonaria Operativa tem as suas raízes assentes entre os séculos XII e XIII; talvez, no mais tardar, início do séc. XIV e estaria intimamente ligada ao advento do Estilo Gótico de Construção.

Perseguidos e ameaçados com excomunhões por bulas papais, o engenho dos Maçons Operativos não se intimidou. Foi vencedor…. E as mais belas e imponentes Catedrais Góticas foram edificadas em solo europeu, construídas sob a astúcia dos nossos II∴ – Os Maçons Operativos -, como prova da fé inquebrável no Grande Arquitecto do Universo, a qual o Maçon nunca negligenciou.

José Dalton Gerotti

Bibliografia

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