Poetas & Maçons – Fernando Pessoa

Fernando Pessoa, o poeta maçon que ao que se sabe nunca foi iniciado nos mistérios da maçanoria e, no entanto, conhecia-os a fundo.

Famosa é a sua carta a Salazar quando o ditador proibiu as organizações secretas e, nomeadamente, a Maçonaria.

Vários são os poemas em que Pessoa navega nas subtilezas esotóricas dos conhecimentos maçónicos como no caso deste que transcrevo.

EROS E PSIQUE

… E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.

Fernando Pessoa (1888 – 1935)

Do Ritual do Grau de Mestre do Átrio
na Ordem Templária de Portugal

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Publicado por José Fanha no Blog Queridas Bibliotecas em 27 de Janeiro de 2014

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