A intolerância

Um lobo interpela um cordeirinho que bebe água num riacho, e diz: – “Como ousas sujar a água que eu vou beber? Como castigo, vou-te devorar”.

“Como posso eu sujar a sua água, sr. lobo, se ela corre do seu lado para o meu?!” – responde o cordeiro.

Sem jeito, o lobo replica – “Muito bem, mas eu soube que falaste mal de mim no ano passado”.

– “Como posso eu ter falado mal do senhor se eu nem era nascido no ano passado?!” – argumenta o cordeirinho.

– “É… mas se não foste tu, foi o teu pai, ou o teu irmão, ou o teu tio, não importa…” – rematou o lobo, pulando sobre o cordeiro e devorando-o.

Esta singela fábula mostra-nos que a intolerância não requer nenhuma argumentação moral plausível ou lógica para se impor. Trata-se de uma postura que se caracteriza pela arrogância e pelo preconceito, expressos na maioria das vezes, pela força bruta, pelo desdém e por uma atitude de pretensa superioridade, alimentados por um ódio irracional e difuso contra determinado objecto ou sujeito.

Podemos distinguir a intolerância como uma postura pessoal e individualizada, bem como um comportamento de valor compartilhado por um grupo social ou uma comunidade nacional ou étnica.

Um indivíduo intolerante, invariavelmente possui um histórico de vida marcado por frustrações e insatisfações que geram o auto-desprezo, a auto-depreciação e o desinteresse próprios. Estas pessoas, em geral, são desajustadas da realidade por não terem encontrado ainda o seu lugar na vida. Este desajustamento ocorre em virtude de uma falta inata, de talento ou de flexibilidade emocional ou pelo facto do indivíduo possuir algum defeito irreparável no corpo ou na mente que o impede de realizar os seus mais ambicionados desejos.

Na busca de compensações para satisfazer o próprio ego e camuflar as frustrações e mágoas, o indivíduo apresenta-se, muitas vezes, com ares de altruísmo e vaidade ilimitada, escondendo uma falsa humildade. E, não raro, crê-se “destinado”, como um “ser especial”, “escolhido”, entendendo a sua vida como uma “missão”. Convém observar que existe, em todos nós, uma tendência para localizar as forças modeladoras da nossa existência fora de nós mesmos. Neste sentido, é comum tendermos relacionar a algo ou a alguém os nossos fracassos ou sucessos. Nos indivíduos frustrados, a culpa pela própria incompetência, via de regra é direccionada para outra pessoa ou grupo de pessoas ou instituições.

O preconceito e a discriminação surgem daí, como respostas irracionais a estas duas grandes paixões da alma: o medo e o ódio. O desconhecimento e a incerteza quanto às coisas e aos acontecimentos geram o medo, que nada mais é do que a crescente angústia pela falta de referências para apreender a identidade das coisas e o rumo dos acontecimentos em situações de mudanças ou de conflitos e em momentos contraditórios ou ambíguos. Desta forma, o indivíduo procura livrar-se dele lançando para fora de si os seus temores e pavores. E esta acção exprime-se num ódio, nascido da vontade de aniquilar esta causa “externa” perturbadora, que na verdade continua dentro do próprio indivíduo.

É a partir deste estado passional, assentado sobre uma realidade instável, vivenciada pelo indivíduo, que o medo e o ódio produzem os estereótipos sociais que dão a este indivíduo a ilusão de poder compreender e controlar o mundo que o cerca, ofuscando os verdadeiros problemas e as suas causas. A função dos estereótipos é a simplificação imaginária da realidade, criando dicotomias imediatamente compreensíveis, do tipo: bom-mau, limpo-sujo, bonito-feio, honesto-mentiroso, trabalhador-preguiçoso, etc. Isso serve para acalmar ou dissimular o medo e estabelecer objectos visíveis para o ódio, possibilitando a distinção entre o “eu” (o próprio indivíduo), como “bom”, “limpo”, “bonito”, “honesto”, “trabalhador”, etc., e o “outro” (pessoas, instituições ou objectos, símbolos, etc.), como “mau”, “sujo”, “feio”, “mentiroso”, “preguiçoso”, etc. O estereótipo dispensa, assim, o uso da razão e da reflexão crítica. O ódio e o preconceito, num primeiro momento, geram no indivíduo a intransigência e o orgulho que se traduzem pela intolerância.

O intolerante apresenta sempre uma atitude de desrespeito para com o ponto de vista dos outros e total falta de compreensão para com as suas eventuais fraquezas. A prepotência, a arrogância e o orgulho do intolerante servem para mascarar a sua incompetência, os seus fracassos, o seu egoísmo e as suas frustrações. Muitas vezes, porém, o intolerante acredita, até com convicção, que possui a virtude da tolerância.

Na verdade, o que possui é uma falsa tolerância. Pois que, o facto de “aceitar”(aparentemente, pois no íntimo isso não ocorre) o ponto de vista do outro, o erro ou a fraqueza de alguém, como um acto compassivo ou uma atitude de cepticismo condescendente, não o faz tolerante. A verdadeira tolerância é humilde, mas convicta. É um acto consciente, racionalizado, que não se supõe infalível ou superior face ao modo de pensar dos outros.

As primeiras manifestações de intolerância muitas vezes surgem nas brincadeiras de crianças e adolescentes, na escola ou nos grupos da rua ou vizinhança. O execrável “bullying” no qual os membros de um grupo humilham e intimidam os elementos mais frágeis ou que apresentam algum defeito físico ou diferença racial, social ou sexual. Muitas dessas humilhações e agressões físicas ou psicológicas, acometidas na juventude, não raro marcam comportamentos sociais, morais e psíquicos para o resto da vida de um indivíduo.

A intolerância, por sua vez, é o primeiro passo para consequências mais graves, como o fanatismo, o nacionalismo exacerbado e o racismo. O fanatismo, qualquer que seja a sua matiz: religiosa, política ou ideológica, não se sensibiliza ao apelo da razão ou ao senso moral. Trata-se, pois, de uma adesão passional a uma pessoa ou a uma ideia, de tal modo que coíbe ao fanatizado o exercício da sua capacidade crítica. Disso resulta a sua predisposição à auto-imolação, o que nos revela a sua afinidade com a histeria e o masoquismo. O fanático é um ser perpetuamente incompleto e inseguro e, se abraça uma causa, não é exactamente por vê-la como algo justo ou sagrado, mas devido à sua desesperada necessidade de apegar-se a alguma coisa.

Quanto ao nacionalismo exacerbado e fervoroso, assim como o entusiasmo religioso ou revolucionário exagerado e doentio, na verdade, serve muitas vezes de refúgio a uma consciência culpada.

O ódio apaixonado pode dar significação e propósito a uma vida vazia. Desta maneira, o racista cultiva uma ideologia que se baseia em premissas pseudocientíficas, que pregam a superioridade de determinadas raças, etnias ou grupos sociais. E, como tais, estão destinadas a dominar e “salvar” a humanidade ou a sociedade, subjugando as raças, etnias ou grupos sociais tidos como “inferiores” ou “incapazes”.

O ódio e o preconceito estereotipados atingem, assim, a expressão máxima da intolerância e operam através de atitudes que vão do “extermínio simbólico”, concretizado por meio de discursos e difusão de ideias que objectivam atingir desfavoravelmente pessoas, ideias, instituições ou objectos, símbolos, etc., até o “extermínio físico”, particularmente de pessoas e instituições consideradas as causas da infelicidade do intolerante, seja ele um fanático religioso, político ou ideológico, seja ele um racista ou um nacionalista exacerbado.

A intolerância pode também servir de atitude de defesa de um grupo social, étnico ou nacional. Muitas são as causas sociais, económicas, políticas e ideológicas que geram actos de intolerância de um grupo social, étnico ou nacional, muitas vezes em clara contradição com a formação cultural do próprio grupo.

Entretanto, as frustrações colectivas, motivadas pelas dificuldades nacionais (principalmente de cunho económico ou social), pelo desemprego em massa, por um sentimento de derrota nacional ou mesmo pela depreciação colectiva da própria nacionalidade, podem gerar reacções irracionais ou soluções imaginárias e mágicas. Nesses casos, os grupos ou colectividades mais atingidos buscam compensações às suas limitações reais ou irreais. Comumente fecham-se num orgulho próprio e procuram apoio na própria história, nas suas tradições populares ou culturais, ou mesmo num sentimento religioso comum.

Este perigoso e insensato caminho pode levar toda uma colectividade ou grupo social a se escorar em ideias e valores completamente absurdos, que ferem o bom senso, a dignidade e a inteligência da humanidade. Auto-intitulam-se o grupo ou o povo “escolhido”, o grupo ou o povo “eleito”, o povo “especial”, “destinado” ou “missionário”. Em função disso adoptam a crença de que são injustiçados ou ameaçados, justificando, assim, as suas atitudes de prepotência, arrogância e intolerância com relação aos outros povos ou grupos sociais. Daí tratarem com desdém e desprezo os outros.

Dentro da patologia da intolerância, encontramos desde aquele indivíduo que humilha a esposa e os filhos, àquele que, num posto de chefia ou revestido de alguma autoridade, mostra-se prepotente com os seus subordinados. Ou aquele que não tolera o favelado ou o morador da periferia, ou ainda, aquele que desdenha e humilha o imigrante pobre, ou o membro de uma minoria étnica, até os casos mais graves como dos neonazistas, dos terroristas fanáticos e mesmo do próprio Estado, através dos seus agentes, que espancam e matam os seus opositores ou as suas vítimas, ou os seguidores de seitas que se revestem de únicos donos da verdade.

Combatamos, pois, a INTOLERÂNCIA com a TOLERÂNCIA.

A tolerância é uma virtude que deve ser cultivada, porém, não deve ser confundida com a conivência interesseira ou com a benevolência pusilânime ou com um acto de contrição capaz de redimir todos os pecados. A tolerância do homem justo, livre e de bons costumes deve alicerçar-se na LIBERDADE, que se faz necessária para convivermos com a ideia do direito de cada um ter a consciência livre e plena, inclusive para considerar a sua própria verdade. A IGUALDADE também deve ser outro alicerce, pois não somos nem mais nem menos, nem superiores ou inferiores, mas temos a obrigação de reconhecer o pluralismo das ideias, culturas e valores, respeitando, assim, o direito inalienável dos outros pensarem como quiserem.

E por fim, a FRATERNIDADE, através da qual exercemos o sublime reconhecimento de que somos todos irmãos, membros da mesma humanidade e do mesmo planeta, partilhando do mesmo destino comum e usufruindo da vida como uma dádiva suprema da Natureza e da Energia Consciente do Universo.

Fadel David António Filho, M:.I:.

Referências

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