A Maçonaria no século XXI

Aproxima-se um novo século.

Em muitos círculos respira-se já um ar de “fin de siécle“, a sensação que haverá um outro mundo à espera para lá do portal do século XXI.

É a hora de fazer o balanço deste terrível século XX.

A par do vertiginoso progresso científico e técnico, assistimos a actos e períodos da mais espantosa loucura. Nunca o homem se elevara tão alto nos voos da tecnologia mas também nunca descera tanto às profundezas da malignidade.

Desde que iniciou a sua caminhada na terra, a Humanidade tem aumentado o seu poder sobre a matéria, graças ao seu engenho e persistência.

Rodeado de um mundo hostil e misterioso, desde sempre procurou dominá-lo, buscando melhorar as suas condições de vida.

Logo que se formaram comunidades de sábios, no antigo Egipto e na Mesopotâmia, estes compreenderam que o conhecimento das leis e fenómenos naturais conferia poder aos seus possuidores.

Os antigos sábios concluíram também que esse poder devia ser exercido apenas por quem estivesse em condições de compreender as consequências do seu uso, apenas por quem tivesse sido cuidadosamente educado quanto aos limites e responsabilidade associados ao poder saber.

Durante muitos séculos, até sensivelmente ao século XVIII, o Saber foi reservado a iniciados, pertencentes a organizações que o transmitiam apenas a quem possuísse as qualidades para o exercer. Era assim um conhecimento esotérico.

No interior dessas organizações, o iniciado aprendia ao ritmo que evoluía a sua maturidade espiritual, assegurando, tanto quanto possível, a correspondência entre saber-poder e responsabilidade.

Foram muitas as organizações deste tipo, desde as escolas filosóficas da antiguidade, às corporações medievais, os druidas celtas, ordens dentro das igrejas, alquimistas, mesmo até as primeiras academias científicas.

Todas protegiam o conhecimento, não só mas principalmente para impedir o seu uso, e principalmente abuso, por ignorantes maravilhados com o que poderiam fazer mas desconhecendo o que não deveriam fazer.

Como sempre acontece, esta reserva do conhecimento tinha um lado negativo. Na realidade, as organizações referidas passaram, com o tempo, a ser dominadas por conservadores, mais interessados em manter o conhecimento intacto que em desenvolver. Passaram a repetir formulas já sem sentido, a macaquear gestos sem significado, sufocando todo o pensamento livre em nome da ortodoxia do saber antigo.

Todo o conhecimento exterior foi condenado e perseguido, por vezes até com as mais nobres intenções, de modo a preservar a herança dos mestres do passado.

No século XVI, com a Renascença, ressurge no homem europeu a curiosidade, o desejo da descoberta, a coragem de desafiar os limites, as ideias feitas, os preceitos antigos.

Muitos pagaram com a desgraça, ou a vida, essa ousadia. As forças que sempre são conservadoras procuraram retardar esse renascimento do homem de ideias livres e pensamento autónomo, mas o movimento era demasiado poderoso e generalizado para ser reprimível. Nas artes, nas ciências, na religião, na política e no mar, nascia o homem moderno.

A Maçonaria e as suas antecessoras, auxiliaram este movimento, ensinando e formando homens de pensamento livre e espírito crítico, subordinados apenas a Deus e à Humanidade.

Por toda a Europa e depois na América, os maçons estimularam o pensamento científico, a liberdade de pensamento, a liberdade de religião, a liberdade de comércio, a igualdade política, a fraternidade e a justiça social.

Nesta nova sociedade a caminho da liberdade plena, (quão longo viria a revelar-se esse caminho!), o conhecimento, o saber científico, o ensino e o exercício da técnica só poderiam ser livres e não iniciáticos, ou seja, exotéricos.

Chegámos assim ao mundo de hoje. Os maçons devem orgulhar-se do enorme contributo que deram para a sua génese. Mas a sua missão mal começou e os próximos anos serão de redobrados desafios.

Porque o conhecimento está generalizadamente difundido, pode ser rapidamente aprendido, e proporciona agora não um qualquer desprezível poder de estragar uma colheita ou fazer cair um edifício. Agora o homem dispõe do poder total.

Poder total. Sobre a vida e a morte de biliões de seres, sobre a estabilidade da vida na Terra, sobre o desenvolvimento dos animais, sobre os seus próprios elementos genéticos, sobre a herança que restará para as gerações futuras. Poder total.

E este homem, deus de si próprio, possuidor do poder total, nunca foi, provavelmente, tão infeliz e solitário. Atormentado pelo Medo da doença, da pobreza, da velhice, da obesidade, do desemprego, da impotência, da mulher, do filho, do vizinho, e pelo supremo medo da morte, este homem é, oh ironia, cada vez mais ignorante.

Temos o nosso destino, e o de toda a Criação na Terra, nas mãos de poderosos irresponsáveis. Como não é possível, sem violar a Liberdade, retirar-lhes o poder, resta ensinar-lhes a responsabilidade.

Caberá aos Maçons procurar que o governo das instituições de Saber, das organizações políticas e de forma geral das instituições ligadas ao poder, seja ocupado por homens responsáveis, de boa formação moral e social, com consciência dos deveres que têm para consigo próprios, para com a Humanidade e para com o seu Criador.

Aqui temos, entre outras, uma missão para os maçons do século XXI:

Reflectir sobre a responsabilidade do Saber, sobre os limites do seu exercício, sobre a Ética dos seus detentores. Reflectir sobre os mecanismos de prevenção e defesa contra o abuso do Saber, no respeito pela Liberdade e pelas liberdades. E principalmente reflectir sobre o que é o Saber e como o usar para melhorar a vida de todos os Homens, aumentando na Terra a Paz, a Beleza, a Alegria…

Autor desconhecido

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