A organização da Maçonaria Inglesa

United Grand Lodge of England
United Grand Lodge of England

Síntese do trabalho apresentado pelo respeitável Irmão James Martin Hall na Loja Santo Amaro n° 7250 da Grande Loja Unida de Inglaterra (UGLE)

O presente trabalho teve como fontes de consulta: Actas da Grande Loja e das Grandes Lojas Distritais, actas da Quatour Coronati [1], livros escritos por eminentes maçons, palestras prestonais [2], resumos históricos e folhetos. As obras consultadas estão listadas no fim deste trabalho.

Observado pelo prisma da sua constituição, na Inglaterra, Escócia, Irlanda e algumas outras partes do mundo que seguiram a forma original, a Maçonaria [3] organiza-se em três níveis: as Lojas, as Grandes Lojas Provinciais e a Grande Loja.

As Lojas são a parte mais importante da pirâmide maçónica, porque sem elas não existiriam as Grandes Lojas Provinciais, Distritais ou Grande Loja. E mais: a Primeira Grande Loja foi fundada por quatro Lojas que, possivelmente, já existiam muito antes de 1717. Mas como e porque aconteceu esta fundação.

A Loja, então, é o básico, a mais antiga organização na Maçonaria, e deve ser lembrado, quando viermos a considerar os poderes e a autoridade dos Corpos Superiores, que pelos menos até 1717 e provavelmente por muito tempo depois, nas áreas mais remotas as Lojas eram inteiramente autogovernadas.

Não se sabe ao certo como eram geridas as Lojas pré-1717, porque poucos registros escritos existem e só muito tempo depois da fundação da Primeira Grande Loja e da Grande Loja dos Antigos é que as Actas e outros registros ficaram disponíveis. Para quem não está familiarizado com o panorama maçónico inglês dos meados do século XVIII, é bom lembrar que em 1751 houve um cisma na Maçonaria inglesa, no ano em que uma Grande Loja rival, a dos Antigos, foi fundada. Os antigos chamavam a Primeira Grande Loja pela alcunha de Modernos e, por mais de sessenta anos, houve duas Grandes Lojas no governo da Ordem. Afortunadamente, a situação foi rectificada em 1813, quando os dois Corpos acertaram as suas diferenças e foi formada a Grande Loja Unida de Inglaterra. Aparentemente, as Lojas dos Antigos eram, pelo menos superficialmente, mais democráticas, porque todos os seus Oficiais eram eleitos, uma prática que chegou até nós nos Capítulos do Real Arco. Por outro lado, nas Lojas sob a Primeira Grande Loja, a indicação dos Oficiais, na maioria das vezes, ficava nas mãos do Mestre, um procedimento que prevaleceu na União de 1813.

Antes que uma Loja possa ser formada, os fundadores devem fazer uma petição ao Grão-Mestre, com a patronagem de uma Loja já pertencente à jurisdição da Grande Loja e, no caso das Províncias e Distritos, do Grão-Mestre Provincial ou Distrital.

Isto tornou-se regra porque, há uns duzentos anos atrás, a Primeira Grande Loja deu Carta Constitutiva a uma Loja sem patronagem alguma, na cidade de Halifax.

Aconteceu que os fundadores e a maior parte dos irmãos eram vigaristas e tipos duvidosos, que usaram a Loja para falsificar moedas e para outros modos ilícitos de fazer dinheiro. Eventualmente eles foram apanhados e banidos para a Austrália [4], mas, desde então, a Grande Loja tem sido muito cautelosa em constituir novas Lojas.

Todas as Lojas devem ter um nome e um número. A obrigação de que a Loja tenha um número é recente, surpreendentemente, sendo incluída no Livro das Constituições somente em 1884, embora desde o final do século XVIII a maioria das Lojas já tivesse adoptado nomes. Entretanto, algumas eram conhecidas pelos nomes de cervejarias [ale-house] e cafeterias [coffee-house] em que se reuniam, entre as quais mencionarei algumas quando falarmos sobre a fundação da Grande Loja.

Os nomes escolhidos pelos fundadores deve ser aprovado pelo Grão-Mestre e, ainda que não exista uma regra estabelecida a respeito, Londres não parece ser muito inclinada a ter Lojas e Capítulos do Real Arco com nomes de pessoas. O número da Loja dado por Londres é o próximo disponível na lista.

Direitos e privilégios do Mestre da Loja

Metaforicamente, as responsabilidades de um Mestre da Loja podem ser comparadas às do comandante de um navio mercante. Na verdade, ele é absolutamente responsável por tudo.

O Mestre da Loja é o responsável pela instrução dos Oficiais que lhes são subordinados. Ele deve estar convicto da integridade dos candidatos potenciais. Deve ser absolutamente pontual na abertura dos trabalhos da Loja. Na Inglaterra, espera-se que ele compareça a todas as reuniões trimestrais da Grande Loja.

Ele deve ter conhecimento profundo do ritual e deve estar bem familiarizado com o Livro das Constituições, os Estatutos da sua Loja e da Grande Loja Distrital da qual é membro.

É responsabilidade do Mestre da Loja o envio correcto e imediato das anuidades, das taxas de instalações e taxas devidas à Grande Loja e a Grande Loja Distrital.

Ele deve garantir que cada Maçom iniciado ou filiado receba uma cópia actualizada do Estatuto da Loja e, quando aplicado, do Livro das Constituições. Isto não é apenas um costume, mas uma regra estabelecida da Grande Loja. O Mestre da Loja deve assegurar que toda votação, para qualquer propósito, seja conduzida na forma correcta. A guarda da Carta Constitutiva é sua particular responsabilidade e ele deve exibi-la em todas as reuniões. A Loja não se pode reunir se a Carta Constitutiva não estiver presente e, se for perdida ou indevidamente retida, a Loja deve suspender os seus trabalhos até que uma nova carta seja obtida. Pode surpreendê-los saber que a carta não pertence a Loja, mas ao Grão-Mestre, que a deposita em confiança nas mãos do Mestre da Loja, podendo retomá-la a qualquer tempo [5].

Naturalmente, a não ser em condições muito favoráveis, o Mestre da Loja far-se-á aconselhar por um Secretário experiente, um Tesoureiro dedicado, um Director de Cerimónias exemplar e terá a cooperação e apoio voluntário dos Past Masters, sempre prontos a ajudá-lo no que estiver ao seu alcance. Mas a ninguém o Venerável Mestre pode delegar as suas responsabilidades. Como autoridade máxima da sua Loja, deve assegurar o seu progresso e bem-estar contínuo e aqui repito as palavras da sua instalação: “A Honra, Reputação e Utilidade desta Loja materialmente dependerão da habilidade e da assiduidade com que dirigireis vossas obrigações, enquanto a felicidade dos seus membros será geralmente promovida na proporção do vosso zelo e da habilidade com que promulgares os genuínos princípios da Instalação”.

Outros direitos e privilégios do Mestre da Loja (MDL)

  1. O MDL não pode continuar no cargo por mais de dois anos sucessivos, a não ser por consentimento especial, nem ser Mestre de mais de uma Loja, a não ser, também, por consentimento especial.
  2. O MDL não pode convocar uma reunião de emergência da sua Loja ou mudar a data de reunião (excepto em certas circunstâncias) sem o consentimento do Grão-Mestre Distrital ou o seu Adjunto. Não pode cancelar qualquer reunião nem suspender uma sessão. Se quiser interromper uma reunião para alguma questão delicada possa ser resolvida, tem o recurso de colocar a Loja em descanso.
  3. O MDL tem o direito inquestionável de governar a sua Loja. Ainda que aceite o conselho do irmão Secretário ou dos Past Masters, quando julgar que o conselho não deva ser aceito, tem o direito – ou melhor, o dever – de exercer o seu próprio julgamento, lembrando-se de que ninguém cabe contestar a sua autoridade.
  4. O MDL tem direito absoluto de presidir todas as reuniões da Loja durante o seu ano de ofício. Porém, se o Grão- Mestre, o Grão-Mestre Distrital ou o seu representante oficial estiverem presentes, eles têm o direito de assumir a Cadeira e conduzir a sessão. Não é provável que aconteça, mas será de costume e cortês da sua parte ceder-lhes o malhete quando entrarem na Loja. Este direito de assumir a cadeira não se estende a nenhum outro Grande Oficial, por mais exaltado que seja.
  5. Cabe ao MDL decidir as actividades a serem conduzidas em uma sessão particular, sendo que nenhum chamado pode ser emitido pelo irmão Secretário até que tenha a sua aprovação [6].
  6. Em todas as sessões da Loja, a autoridade do MDL é suprema e inquestionável. No caso de qualquer ilegalidade, os irmãos têm o recurso de apelar às autoridades superiores.
  7. Quando a Loja vota, no caso de empate, o MDL pode ter uma segunda votação ou exercer o Voto de Minerva, que não deve ser usado para forçar pontos particulares.
  8. O MDL tem o direito de recusar admissão a um irmão visitante, se achar que a presença dele irá perturbar a harmonia da Loja ou se ele tiver má reputação.
  9. Uma coisa que o MDL não pode fazer é convidar um irmão a retirar-se por comportamento indevido ou deselegante. Se um irmão for culpado de perturbar a harmonia da Loja, pode adverti-lo formalmente. Mas, se ele persistir na sua conduta irregular, só poderá ser instado a sair se os presentes se manifestarem pelos voto. Neste caso, havendo empate, não terá direito ao voto de Minerva.
  10. É direito do MDL indicar todos os Oficiais, a execução do Tesoureiro e Guarda Externo [7]. A nominata dos Oficiais só o MDL pode traçar. Entretanto, só poderá retirar um Oficial indicado e investido no cargo se uma reclamação for feita em sessão regular da Loja e a maioria dos irmãos presentes aprovar a remoção.
  11. O MDL tem o direito, tradicionalmente estabelecido, de instalar o seu sucessor e é de facto seu dever fazê-lo, de modo a consumar o mandato.
  12. O MDL jamais passará o seu colar, caso vague a Cadeira temporariamente em favor de um Past Master. Entretanto, o substituto provisório deve estar adequadamente paramentado, de acordo com o seu posto.
  13. Quando visitar outra Loja, durante o seu mandato, um MDL não deve usar o seu colar de MDL, porém deve usá-lo ao comparecer às reuniões da Grande Loja Distrital.

Aquela relação dos diferentes direitos e privilégios do Mestre da Loja de alguma forma esgota o assunto, mas dá, no mínimo, uma ideia geral da posição do Mestre da Loja com relação aos seus deveres e mostra que ser Instalado na Cadeira do rei Salomão não é nenhuma sinecura.

As indicações para os cargos é prerrogativa inquestionável do Mestre da Loja e que nenhum irmão tem o direito de reclamar para si o direito à ascensão na carreira da Loja. Indicações e promoções devem ser feitas somente baseadas no mérito e na assiduidade, o que também se aplica às Grandes Lojas Distritais e à própria Grande Loja Unida de Inglaterra.

No trecho da alocução aos irmãos, conforme está na Cerimónia de Instalação: “ Do mesmo modo que, por necessidade, a uns cabe governar e ensinar, a outros cabe naturalmente aprender e obedecer”. Se o Maçom tiver a disposição de aprender e obedecer, seguramente logo alcançará o estágio em que terá o “direito de governar e ensinar”.

A única jóia não simbólica que se permite usar numa Loja Simbólica é a medalha do Arco Real [9]. Numa Loja Simbólica não é permitido usar qualquer Grau lateral como Mark Master (Mestre de Marca), Royal Ark Marine (Nautas da Arca Real [10], Knight Templar (Cavaleiro Templário) etc.

As Grandes Lojas Provinciais e Distritais

As Lojas na área de Londres são controladas directamente da Great Queen Street [11], porque Londres não é uma Província. O restante das Lojas de Inglaterra e do País de Gales são agrupadas em Províncias.

As Lojas jurisdicionadas à Grande Loja Unida de Inglaterra fora do Reino Unido são grupadas em Distritos, excepto as dezoito que estão sob Grandes Inspectores e outras onze que se reportam directamente a Londres.

As Lojas inglesas reúnem-se menos frequentemente do que aqui no Brasil.

Em cada Província há um Grão-Mestre Provincial e o seu Adjunto – Grão-Mestre Provincial Deputado (Deputy Provincial Grand Master) e 13 Grão Mestres Assistentes.

Na Inglaterra existem 47 Províncias. A Maior delas é de West Lancashire, que controla 535 Lojas.

Uma Província um pouco diferente é a de Bristol, com 34 Lojas. Bristol é uma cidade e não um Condado. No entanto, as Lojas de Bristol são grupadas como uma Província porque praticam um ritual e um cerimonial muito diferente de tudo mais que se pratica na Inglaterra, conhecido como Bristol Working (Trabalhos de Bristol).

Na Anchor Lodge n° 6052, na Província de Bristol, O Mestre da Loja usa um chapéu de abas levantadas (como os antigos chapéus da marinha inglesa, cocked hats). Bristol é uma cidade essencialmente marítima, de onde os navios a vela só podiam largar das docas na maré alta. O costume parece ter surgido com um Mestre da Loja, capitão de longo curso, que chegou para a reunião completamente uniformizado, de chapéu e tudo. Ele só se lembrou de tirar o chapéu na hora da prece. Ao final da reunião, recolocou o chapéu e retornou ao seu navio para zarpar, aproveitando a maré alta.

Fora de Inglaterra, há 36 Distritos, dos qual o maior é o Transval com 125 Lojas, a maior parte delas em Joanesburgo, África do Sul. O menor é a Nigéria – Divisão Norte, com apenas 5 Lojas, o que quer dizer que nós [aqui no Brasil] não somos os lanterninhas.

O Grão-Mestre Provincial ou Distrital é indicado pelo Grão-Mestre, como todos os Grandes Oficiais, à excepção do Grande Tesoureiro. Ele tem a sua posição hierárquica bem definida.

Hierarquicamente os Grão-Mestres Provinciais e Distritais estão abaixo do Grand Master (Grão-Mestre), o Pro Grand Master (Grão-Mestre por Procuração), o Deputy Grande Master (Grão-Mestre Deputado) e o Assistant Grand Master (Grão-Mestre Assistente).

Tão logo é instalado, o Grão-Mestre Distrital assume total controle. Ele irá apontar os Grandes Oficiais Distritais e confirmará a sua aprovação dos Estatutos do Distrito. Daí em diante, ele estará em posição de grande poder e responsabilidade. Dele emana as indicações para os Grandes Oficiais Distritais e a recomendação de membros do Distrito para a elevação aos Altos Postos gerais. Ele exerce enorme poder de disciplina maçónica, ainda que sujeito aos direitos de recurso da sua decisão à Grande Loja. O seu poder, entretanto, baseia-se na base da auctoritas, o que significa que, por depositarem nele a sua confiança, os seus irmãos farão o que achar ser a sua vontade, seguirão a sua liderança e a sua orientação como se esta tivesse força constitucional [12].

Em alguns Distritos e Províncias, os Oficiais são nomeados por um ano, apenas, enquanto em outros, como no Brasil por exemplo, são semi-permanentes. Nestes, no Grão-Mestre Deputado e nos Grão-Mestres Assistentes, precisamente, é que o Grão-Mestre Distrital apoia-se na direcção do dia-a-dia do Distrito.

Os maçons que compõem a Grande Loja Provincial ou Distrital não são, no estrito senso, representantes ou delegados das suas Lojas. O Maçom comum lá é como um visitante, sem direito a voz e voto nos trabalhos. Por isso uma Grande Loja Provincial ou Distrital dificilmente pode ser considerada uma organização democrática, uma vez que consiste de talvez apenas uma quarta parte (isto é, Mestre da Loja, Past Master e Vigilantes) daqueles a quem taxa e sobre os quais legisla. Enquanto isso os outros três quartos podem apenas vagamente dizer-se representados por eles, uma vez que, na grande maioria não foi escolha sua.

Função de uma Grande Loja Distrital

A Grande Loja Distrital decide sobre taxas e estatutos. Não pode estabelecer novas Lojas nem desactivar uma existente. Ela não tem poder absoluto ou indiscriminado – O Livro das Constituições controla cuidadosamente as suas actividades.

Há muito pouca diferença entre uma Grande Loja Provincial e um Distrital.

A Grande Loja Distrital existe desde o ano de 1865, quando as comunicações eram vagarosas e pouco confiáveis. Uma Grande Loja Distrital reúne anualmente, sendo o cerimonial baseado no da Investidura Anual e das Comunicações Trimestrais da Grande Loja. O cortejo de entrada, o ritual de abertura e fechamento e apresentação dos relatórios acontecem em ambos os níveis. Só a Grande Loja Provincial pode aprovar emendas nos seus estatutos (by-laws), incluindo emolumentos.

Maçom Brasileiro – Grão-Mestre Provincial

O brasileiro José Hipólito da Costa Pereira Furtado de Mendonça foi nomeado Grão-Mestre Provincial na Inglaterra em 1813. José Hipóiyto da Costa nasceu em 1774, na Colónia de sacramento, uma cidade do Rio da Prata, hoje Uruguai, mas na época território brasileiro. Ele era advogado, filosofo, naturalista e um Maçom entusiasta, tendo sido iniciado em uma Loja na Filadélfia, Estados Unidos da América do Norte.

Através das suas ligações com Londres foi construindo um Tratado de Amizade com as Lojas de Portugal, muito bem aceite pela Grande Loja Unida de Inglaterra.

Ele foi Grão-Mestre Provincial do Condado de Rutland.

Além de Grão-Mestre Provincial ele era membro do Conselho de Assuntos Gerais e Presidente do Conselho de Finanças. Além disso Hipólito ocupou altos postos no Supremo Grande Capítulo e nos Cavaleiros Templários. Ele foi sem sombra de dúvidas, um homem admirável, recebendo da Grande Loja uma mensagem em pergaminho com iluminuras. Morreu em Londres, em 1823.

Destituição de Grão-Mestres

Durante toda a longa história da Maçonaria inglesa, somente três Grão-Mestres Provinciais foram destituídos do cargo pelo Grão-Mestre.

O primeiro foi o irmão George Smith, Grão-Mestre Provincial de Kent, que foi suspenso em 1785.

O segundo foi o irmão Francis Astley, Grão-Mestre Provincial de Lancashire, que foi suspenso em 1823 pelo Duque de Kent por negligência e displicência na direcção da Província.

O terceiro, e mais interessante, foi o irmão William Tucker, Grão-Mestre Provincial de Dorset, em 1854, pelo Conde de Zetland. Desde o momento da sua instalação como Grão-Mestre Provincial, o irmão Tucker estava cristianizando a ritualística na sua Província e dando preeminência ao Supremo Conselho e aos Altos Graus, que não eram então reconhecidos pela Grande Loja Unida de Inglaterra. A sua destituição foi causada por ele ter comparecido a uma reunião da sua Grande Loja Provincial com a indumentária do Soberano Grande Inspector Geral do Grau 33.

Ele foi iniciado aos 27 anos, Mestre da Loja aos 29 e Grão-Mestre aos 31 anos. Ele não viveu muito tempo da sua destituição.

Criação da primeira Grande Loja

Há ampla evidência de que Lojas não operativas trabalhavam na Inglaterra durante o século XVII, mas eram autogovernadas, sem qualquer autoridade maior que as supervisionassem.

Em 1717, quatro Lojas, que não tinham nomes mas eram identificadas pelos nomes das tavernas ou cervejarias em que se reuniam, encontram-se informalmente na taverna Crown (Coroa), em Convent Garden. Nas palavras de James Anderson, “acharam por bem unir-se sob um Grão-Mestre, como o Centro de União e Harmonia”.

As quatro Lojas envolvidas nesta decisão foram:

  1. A Loja que se reunia na taverna Goose & Gridon (Ganso e Grelha), na praça da catedral de São Paulo;
  2. A que se reunia na taverna Crown (Coroa), em Perkers Lane;
  3. A da taverna Apple Tree (Macieira), da Charles Street;
  4. A da taverna Rummer & Grapes (Copázio e Uvas), em Cannel Row, Westminster.

Em consequência, no dia 24 de Junho de 1717, elas reuniram-se na taverna Goose & Gridiron e fundaram uma Grande Loja, elegendo o mais antigo Mestre presente, o irmão Anthony Sayer, como o primeiro Grão-Mestre, sendo aquela reunião considerada o primeiro Festival da Grande Loja [13].

Daquelas quatro Lojas, três ainda existem:

  1. A Loja da taverna Goose & Gridiron. E hoje é conhecida como Lodge of Antiquity n° 2;
  2. A Loja da taverna Apple Tree. É conhecida hoje como a Lodge of Fortitude & Old Cumberland n° 12;
  3. A Loja da taverna Rummer & Grapes é agora conhecida como Royal Somerset House & Inverness Lodge n° 4. Estas são as Lojas de tempos Imemoriais e, como tal, trabalham sem Cartas Constitutivas. Outro privilégio de que desfrutam é que os seus membros usam um colar decorado com uma faixa azul jarreteira no centro.

Por que foi fundada a primeira Grande Loja

James Anderson conta-nos que as quatro Lojas “resolveram manter uma reunião trimestral (Quartely Communication) e uma Assembleia Anual e Festa”, mas não há indícios de que o objectivo da Grande Loja tenda sido o de agir como corpo superior, que controlasse as Lojas, tanto actuais como futuras. Pensa-se, de modo geral, que a razão imediata para a sua criação foi meramente para organizar o festival e o jantar dos Maçons que, naqueles tempos, provavelmente consistiria bem nuns quinze pratos diferentes e durava horas.

Esta teoria origina-se do facto de que não há actas das reuniões trimestrais nos seis primeiros anos de existência da Grande Loja, não havendo assim registro oficial do que ocorreu então.

Anderson, um clérigo escocês, compilou o primeiro e o segundo Livro das Constituições, ambos contendo uma história da Maçonaria. Somente em 1723 é que aparecem as primeiras actas da Grande Loja. Neste mesmo ano o primeiro Livro das Constituições foi publicado.

Acredita-se que, durante esses seis anos, a Grande Loja tornou-se Autoconsciente e começou a assumir o papel de um organismo central para as Lojas de Londres – e a desenvolver a organização que tornar-se-ia a Grande Loja do mundo.

O pacto de união

Para se consumar a União entre as duas Grandes Lojas Rivais até então existentes, a dos Modernos e a dos Antigos,

foi criada uma Comissão Especial para alcançar tal objectivo. Para facilitar no período de transição, os Antigos elegeram como seu Grão-Mestre Sua Alteza Real, o irmão Duque de Kent, que viria a ser o pai da rainha Vitória.

Por seu lado, os Modernos elegeram Sua Alteza Real, o Duque de Sussex. Eles eram irmãos de sangue, sendo, sendo respectivamente, o quarto e o sexto filhos do rei George III [14].

Na união, o Duque de Sussex foi eleito o primeiro Grão-Mestre da Grande Loja Unida de Inglaterra.

Direcção da Grande Loja Unida de Inglaterra

A Grande Loja Unida de Inglaterra é presidida pelo Grão-Mestre, um cargo electivo anual. Uma vez eleito um Grão- Mestre é empossado de imediato, sem precisar esperar por uma cerimónia de instalação, como no caso de um Grão- Mestre Distrital ou Provincial.

De acordo com uma lei não escrita, o Grão-Mestre é reeleito, ano após ano, até que renuncie ou passe à Grande Loja Eterna. Não acontece apresentação de chapas com candidaturas anuais. Portanto, não há campanhas eleitorais.

Os poderes e prerrogativas do Grão-Mestre não estão definidos em lugar algum [15].

Ele tem poderes para transformar uma determinada área em uma Província, Distrito ou Inspectoria. Cartas Constitutivas para novas Lojas são emitidas por ele e permanecem propriedade sua.

Cartas Provisórias são emitidas em seu nome e somente ele pode aprovar o desenho e o uso de jóias, emblemas e estandartes de Lojas.

Além dos Grandes Oficiais, cabe a ele indicar, como representantes, irmãos de outras Potências, com as quais a Grande Loja Unida de Inglaterra tenha relações de amizade.

Ele conta com o auxílio do Conselho do Grão-Mestre, cuja utilidade é a inda maior quando se leva em consideração que os seus membros e as suas reuniões não são regidas por regras ou estatutos. O Conselho é composto pelos dignatários maiores da Grande Loja, alguns Grão-Mestres Provinciais, experientes nos assuntos da Maçonaria inglesa no exterior e ainda por irmãos com conhecimento profundo de filantropia maçónica.

Uma demonstração da estima que a Ordem tem pelo Grão-Mestre é que não há qualquer regulamento, detalhado ou específico, que estabeleça regras sobre abuso de poder ou má conduta que poderia fazer necessário a sua renúncia. Este aspecto é muito adequadamente previsto na Regra 15, que prescreve: Caso o Grão-Mestre abuse do seu poder ou torne-se indigno de ser obedecido pelas Lojas, ele estará sujeito a uma nova regulamentação ditada pela ocasião, porque, até então, a Antiga Fraternidade não teve razões para prever um evento que se presume nunca venha acontecer. Estas palavras incomuns deixam entrever uma ameaça implícita, ainda que em uma luva de pelica, talvez não mais necessária.

Quando um Grão-Mestre é um príncipe de sangue real, um Pro Grand Master (Grão-Mestre por Procuração) é sempre nomeado.

O Deputy Grand Master (Deputado do Grão-Mestre) e o Assistant Grand Master (Grão-Mestre Assistente) são nomeados pelo Grão-Mestre e considerados como os seus conselheiros principais.

James Martin Hall

Notas

[1] – Por extenso, Quatuor Coronati Lodge n° 2076, a primeira e mais importante das Lojas de Pesquisas Maçónicas do Mundo.

[2] – William Preston, um Maçom entusiasta, deixou 300 libras ao morrer, uma boa soma em 1818, para que o sistema de educação maçónica que ajudara a desenvolver pudesse prosseguir. As Prestonian Lectures, como ficaram conhecidas desde então, são ministradas anualmente. Começaram em 1820. De lá para cá, constituem-se num dos mais importantes eventos maçónicos. Ser o palestrante de uma Prestonian Lecture é uma das maiores honrarias concedidas a um estudioso maçónico.

[3] – Francomaçonaria e Francomaçons [Freemasonry e Freemasons] são termos mais vagos e aplicados também ao período operativo.

[4] – Criminosos comuns e devedores inadimplentes eram normalmente deportados para as colónias inglesas. Os primeiros colonos europeus na Austrália eram soldados e deportados.

[5] – O relatado é sobre os usos e costumes da Grande Loja Unida de Inglaterra, é claro.

[6] – O chamado ou chamamento, usualmente um cartão manuscrito, é uma prática maçónica tradicional.

[7] – Diferentemente do Rito Escocês Antigo e Aceito, muitos mais conhecido no Brasil, onde todos os Oficiais são eleitos, o Rito Emulação (que é apelidado de York, na América Latina) somente elege o Mestre da Loja, o Tesoureiro e o Guarda Externo (responsável pelo património da Loja).

[8] – Na Inglaterra, o Real Arco (Royal Arch) é considerado um Grau lateral. Foi a solução encontrada para harmonizar a posição das duas Grandes Lojas, a dos Antigos e a dos Modernos, quando da reunião em 1813. O Grau de Mark Master corresponde mais ou menos ao Mestre de Marca no Brasil.

[9] – O sistema inglês difere do sistema americano. No sistema inglês, o Royal Arch (Arco Real) é um Grau lateral e subordinado a uma Obediência Simbólica. Esta peculiaridade foi resultado da União, em 1813 das duas Grandes Lojas então existentes, a dos Modernos (de 17171) e a dos Antigos (de 1751). Diz Art. 2° do Pacto de União entre as duas Grandes Lojas que: “está declarado e proclamado que a pura Maçonaria Antiga consiste de três graus, e nenhum mais, quer dizer, AM CM e MM, que era o que pregava a Grande Loja dos Modernos. Como a Grande Loja dos Antigos e a maioria dos irmãos de ambas as Obediências não abriram mão do Arco Real, a solução foi transformá-lo num Grau lateral dentro da Grande Loja Unida de Inglaterra, salvando-se assim as aparências. Mas há uma forte corrente na Inglaterra querendo transformar o Arco Real em Maçonaria Capitular.

Nos Estados Unidos, onde tal problema não aconteceu, o Real Arco é Maçonaria Capitular desde 1797, pelo menos, quando foi organizado na sua forma final por Thomas Smith Webb. Lá está dentro do Rito de York.

No Brasil, aparentemente, os irmãos ligados à jurisdição inglesa utilizam Arco Real. Já os irmãos ligados ao Rito de York americano preferem Real Arco.

[10] – Há um artigo publicado na revista A Trolha, e bem como no livro intitulado “O Suposto Rito de York” de responsabilidade do irmão Joaquim da Silva Pires em que esclarece, de forma límpida e erudita, a confusão quanto ao termo Rito de York.

[11] – Grat Queen Street , a rua onde fica o Freemasons’Hall, a sede da Grande Loja Unida de Inglaterra.

[12] – O contexto inglês é muito diferente do Brasil. A Inglaterra não tem Constituição escrita. A legislação de Inglaterra baseia-se nos Usos e Costumes, nos precedentes e no bom senso. Voltaire estabeleceu bem a diferença entre ingleses e francesas (ou latinos): “Os franceses respeitam as autoridades e não ligam para as leis; os ingleses respeitam as leis e não dão a mínima para as autoridades”. De modo geral quem assume o poder na Inglaterra tem que saber muito bem as suas responsabilidades e deveres. Os cargos carregam honrarias e prerrogativas, é verdade, mas até para lembrar o peso da tradição no seu desempenho. Não são para massagear o ego ou para auferir vantagens pessoais.

[13] – O Grau de Mestre só foi criado em 1725 e adoptado pela Grande Loja de Londres a partir do ano de 1738.

[14] – A Grande Loja dos Modernos (a Primeira Grande Loja), foi fundada em 24 de Junho de 1717, e a Grande Loja dos Antigos, fundada em 1751, em Londres, por maçons irlandeses. Estas duas Grandes Lojas hostilizaram-se por sessenta anos, até a União de 1813.

[15] – É uma questão cultural. A lei é obedecida mesmo que não seja escrita – O Reino Unido não tem Constituição Escrita.

Bibliografia

  • Pérolas Maçónicas – Gilson da Silveira Pinto;
  • Revista a Trolha – Editora A Trolha;
  • O Suposto Rito de York – Joaquim da Silva Pires.
  • O Mestre Maçom – Assis Carvalho [Chico Trolha]
  • Revista Engenho & Arte n° 02, 04, 05 e 06 – Editora Infinity;

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