Amizade: Magnum Opus?

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“Todos aqueles que crêem, e os judeus e os sabeus (árabes) e os cristãos – qualquer um que acredite em Deus e no último Dia, e que pratique o bem – não terão nada a recear ou lamentar”

Fruto de uma viagem intemporal, esses Livros Sagrados que repousam a Oriente – a Torah, a Bíblia e o Corão – convidam-nos a folhear pausadamente os seus mananciais, pois estão sempre prontos a dar- nos pistas e reflexões acerca do Homem e da sua missão sobre a Terra.

Sendo fácil constatar que nesses Livros Sagrados é mais aquilo que os une do que aquilo que os separa, surgem-nos – a todo o momento -similitudes éticas, paralelismos deontológicos e, acima de tudo, pontes bem construídas de ligação entre os principais valores humanos. Deste modo, ensinando- se em Mateus que: “Abençoados sejam os misericordiosos, porque lhes será mostrada misericórdia[1], também é possível encontrar no Alcorão que: “É boa a recompensa para aqueles que praticam o bem neste mundo[2]. Resulta fácil reconhecer que se trata da mesma mensagem, embora com palavras diferentes.

Mesmo nesta época conturbada, em que pontifica uma recrudescida contestação em torno da figura do Grande Arquitecto do Universo, sempre subsistem nos Livros Sagrados que colocámos a Oriente os valores éticos e morais que sobrevivem ao tempo e à condição religiosa (seja ela teísta, deísta, gnóstica ou ateia), pois nos conduzem a pistas seguras e objectivas para “reinstaurar aquilo a que os antigos chamavam de Idade do Ouro” [3].

Aliás, para lá da tradição messiânica que lhes é comum, os três Livros tocam-se em múltiplos personagens e momentos, encerrando mensagens semelhantes de carácter Universal. Como alguém escreveu recentemente num livro de referência: “No paralelismo, provavelmente o mais belo entre os dois homens, tanto Jesus como Maomé insistiram que as suas mensagens, espiritualmente enriquecedoras, eram para toda a humanidade” [4].

Se a Caridade judaico-cristã se designa por Zakat entre os muçulmanos, ambas significam produzir uma sociedade mais justa, aliviando o sofrimento dos outros [5]. Muda-se o termo, mas persiste a mensagem.

Efectivamente, podemos – com segurança – reconhecer que os três Livros Sagrados são três Códices de Conduta, três Acervos de Virtudes e três Pilares de Sabedoria em torno das grandes questões que se deparam à existência humana nas duas dimensões possíveis do homem: perante si próprio e perante os seus semelhantes.

De entre as dimensões referidas, é a relação entre os homens que serve de base de partida para a presente reflexão. Assim, no seio desta, gostaríamos de pegar no tema da Amizade.

Diz a Torah que: “O seu amigo, é aquele que é como se fosse a própria alma” [6]. Nos textos da Tradição do Profeta Maomé pode ler-se que: “O bom exemplo que os crentes demonstram, com relação ao seu carinho, sua misericórdia e amabilidade recíprocas, é como se fosse proveniente de um só corpo; quando um membro se encontra indisposto, todo o resto do corpo mostra a sua debilidade e febre” [7]. Já nesse Evangelho onde – entre nós – habitualmente repousam o Esquadro e o Compasso é possível ler-se: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” [8].

Estas sábias palavras, com a beleza e elevação que é própria a cada um dos textos sagrados, exprimem toda a mesma ideia de Comunhão que tem de presidir no seio da Amizade. Esse instituto da Amizade que, sendo um valor aceite no Mundo Profano, procura ser um autêntico Ponto de Honra entre Maçons.

Logo na primeira das Constituições de Anderson é possível ler-se

Homens bons e leais ou homens honrados e honestos, quaisquer que sejam as denominações ou crenças que os possam distinguir (…) a Maçonaria converte- se no Centro de União e no meio de conciliar uma amizade verdadeira entre pessoas que poderiam permanecer sempre distanciadas[9].

Temos assim que – fruto dessa amizade verdadeira – aquilo que é simétrico no seio dos Maçons, em resultado desse Centro de União que naturalmente os congrega, torna- se assimétrico no Mundo Profano pois, a obrigatoriedade e privilégio da Amizade se torna aí facultativa.

Ou seja, a Amizade coloca os Maçons todos iguais no seio de uma comunhão de espíritos, o que lhes dá uma natural supremacia moral sobre o restante Mundo Profano, onde o exercício dessa Amizade é meramente opcional.

Mas será que é sempre assim no seio dos Maçons? Será que a nossa Amizade é assim tão certa e natural?

Vejo alguns sobrolhos franzidos entre Vós, como que procurando indagar se é realmente isso que se passa entre nós.

Ao contrário do que se possa pensar, não se trata de uma dúvida vã ou provocatória. É uma interrogação própria da nossa Comunidade, pois entre Maçons reina uma assertividade permanente, que foi enxertada no nosso espírito pelo trabalho dos séculos e que se encontra indelevelmente inscrita na vertente especulativa desta Magna Obra que nos une.

Efectivamente, a questão não está na perfeição do modelo de Amizade que cultivámos entre nós, mas no Grau de compreensão de que, também aí, se desenvolve um trabalho de permanente aperfeiçoamento. A Amizade não é – de modo algum – um valor adquirido.

Em primeiro lugar, os Maçons, enquanto amigos que se pretendem – como dizia Aristóteles [10] – de uma “forma perfeita”, são-no primeiro em desejo de ser amigos e só depois em verdadeira amizade. Ou seja, aquilo que primeiro os move é a Vontade de fazer nascer a Amizade, mesmo antes desta mesma Amizade acontecer.

Em segundo lugar, este esforço de aperfeiçoamento é um trabalho que visa rectificar e não equalizar pois, “na verdadeira amizade (…) dou-me mais ao meu amigo do que aquilo que lhe peço para mim”, como defendia Montaigne [11]. Esta Rectificação age também visto que, entre amigos “a mais bela harmonia nasce das divergências” [12], nas palavras de Heraclito e, finalmente, porque as amizades não se alimentam da igualdade, mas de mútuas necessidades que são díspares, como se comprova nas palavras de Aristóteles:

E até os ricos, os que têm posição e poder, têm uma necessidade extrema de amigos. Que vantagem haveria numa tal prosperidade se lhe tivesse sido retirada a possibilidade de fazer bem, sobretudo quando fazer bem aos amigos é o melhor e o mais louvável que há?[13].

Usamos – a nosso ver, com propriedade – o termo Rectificação. Usamo-lo para significar aquele trabalho de Rectificação que, pela Via Seca, no seu labor e múltiplas destilações radicados na Alquimia, fala directamente à natureza e qualidade de todo o Maçom, pois é a partir dele que, em visita à Terra Interior se obtém a descoberta da Pedra Oculta [14] (abreviadamente, V.I.T.R.I.O.L.).

Em terceiro lugar, tal como no alquímico cadinho aqui alegoricamente mencionado, o calor tem de ser mantido constante na Amizade, mas com moderação; como se fosse o Chumbo Saturnino da Magnus Opum que, em excesso, conduz ao erro e, em defeito, produz o envelhecimento e morte da relação [15].

Posto em termos menos herméticos, nas palavras de Johnson: “Para que a amizade possa ser encontrada e se torne duradoura deve existir, não somente, igual virtude em ambas as partes, mas também garantias que estas virtudes se equivalem no seu género e qualidade; entre amigos devem ser prosseguidos não só os mesmos fins, como também devem ser mutuamente sancionados os meios a utilizados para aí chegar [16].

Tal como um Ícaro hodierno nas suas asas de cera, uma Amizade que esvoace em torno da lâmpada ofuscada pela sua própria intensidade, corre o risco de se consumir. Corre-se o risco de ser um efémero momento, como aquele que vem ironicamente espelhado nas palavras de Mark Twain: “A Santa Paixão da Amizade é tão doce e segura, tão leal e de natureza tão duradoura que poderá durar uma vida inteira, excepto se lhe pedirmos dinheiro emprestado” [17].

Não é isso que almejamos. Pois se um Verdadeiro Amigo é mais agradável e necessário do que os elementos da Água e do Fogo, como nos relembra Montaigne [18], deve ser instrumento que nos permita com os demais – Terra e Ar – regressar ao Pó simbólico de onde somos originados, imbuídos da certeza de termos sido – verdadeiramente e na nossa curta existência – Homens de Bem.

Assim, agindo nesta jubilosa Esperança, quando dermos as mãos na próxima Cadeia de União meditemos nesta Matéria-Prima que é a Amizade, enquanto buscamos a Magna Obra da Paz e Fraternidade entre os Homens.

Agindo deste modo e levando para o Mundo Profano este ideário poderemos – com toda a certeza – tornar por certas as sábias palavras de qualquer um desses Livros Sagrados que repousam à nossa frente.

Uso as do Corão como exemplo desta ideia: “Todos aqueles que crêem, e os judeus e os sabeus [árabes] e os cristãos – qualquer um que acredite em Deus e no último Dia, e que pratique o bem – não terão nada a recear ou lamentar[19].

J. B. V.

Notas

[1] Mateus, 5:7.

[2] Corão, 39:10.

[3] Roob, A. (1997), Alquimia e Misticismo, p. 534. Na tradição judaica, cristã e islâmica, corresponde ao Juízo Final.

[4] Green, J. (2003), Jesus e Maomé – Palavras Comuns, p. 125.

[5] Idem, , p. 3.

[6] Deut., 13:7.

[7] Sunna do Rassulullah, não validada como Hadith.

[8] João, 15:13.

[9] Anderson, J. (1734), The Constitutions of the Free-Ma- sons, p. 48.

[10] Aristóteles (c. 335 a.C.), Ética a Nicómaco, p. 185.

[11] Trad. Livre. Montaigne, M. (1580), Ensaios – Da Vaidade, p. 497. “In true friendship, wherein I am perfect, I more give to my friend, than I endeavour to attract himself to me”.

[12] Pré-Socráticos, fr. 22 B 8.

[13] Aristóteles (c. 335 a.C.), Ética a Nicómaco, p. 180.

[14] Roob, A. (1997), Alquimia e Misticismo, p. 171 e 179.

[15] Idem, p. 534- e 536.

[16] The Rambler (1750-52), p. 64.

[17] Pudd’nhead Wilson (1894), p. 8.

[18] Montaigne, M. (1580), Ensaios – Da Vaidade, p. 497

[19] Corão 5:69

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One thought on “Amizade: Magnum Opus?

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    Gostei muito da leitura fala dos princípios de cada ser humano e nos ensina a ser cada vez melhor!

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