Aspectos psicológico / contextuais do Ritual Maçónico

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Contexto é o conjunto de causas e condições que levam a que algo relevante ocorra e funcione de determinada maneira. Um ecossistema constitui um exemplo de contexto — um contexto biológico.

Simbolicamente um círculo constitui um contexto em que o centro é um ponto do qual todos os pontos na circunferência são equidistantes.

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Esotericamente costuma-se usar o termo egrégora para descrever um contexto em que estão presentes factores transcendentais ou em que ocorrem fenómenos de natureza transcendental. Exemplos: egrégora teosófica, egrégora espiritual, egrégora rosacruciana, egrégora maçónica

A vida frequentemente expõe-nos a situações penosas. Nem sempre estamos preparados para lidar adequadamente com estas situações, que podem estar ocorrendo agora ou podem ter ocorrido no passado deixando marcas que permanecem registradas na nossa mente. Nem sempre percebemos conscientemente estas marcas — ainda que elas continuem a afectar-nos. Somos afectados pelas situações a que somos ou fomos expostos, e pelo contexto em que essas situações ocorrem ou ocorreram.

Na época da guerra do Vietnam ocorreu uma grande incidência de drogadicção entre os combatentes. Relata-se que o tratamento desses drogadictos, enquanto ainda permaneciam no ambiente da guerra, apresentava uma eficácia muito baixa [contexto desfavorável à cura]. Por outro lado, o tratamento efectuado em veteranos repatriados costumava apresentar resultados bem melhores [contexto favorável à cura].

Este facto constituiu evidência de que o contexto ─ o contorno biopsicossocial em que uma pessoa está inserida em determinado momento ─ tem influência relevante sobre o funcionamento psíquico dessa pessoa. Por outras palavras, o nosso estado psíquico é intensamente influenciado pelo contexto em que estamos envolvidos em cada momento da nossa existência.

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Soldados americanos na base de Long Binh, a nordeste de Saigão, fazem fila para fornecer amostras de urina num centro de detecção de heroína em Junho de 1971, antes de partirem para os Estados Unidos

Efectivamente, variações no contexto ou mudanças de contexto tendem a induzir oscilações no nosso estado emocional, nos nossos pensamentos e no nosso comportamento. As alterações de contexto influenciam a forma como respondemos ─ cognitiva, emotiva e comportamentalmente ─ aos eventos internos e aos eventos externos com que nos deparamos.

Quando nos damos conta de que estamos oscilando, frequentemente começamos a nos auto-avaliar e pode acontecer que nos sintamos incoerentes ─ o que dá azo a baixa auto-estima e a sentimentos de culpa. Consciente ou inconscientemente ─ em geral, inconscientemente ─ começamos a remoer o passado ─ o que reforça a nossa tendência para a auto-depreciação e a auto-acusação. Isto gera stress e causa sofrimento.

Sabe-se que:

  1. quando submetidos a stressores externos (eventos impactantes originados fora de nós mesmos, como, por exemplo, o bullying que ocorre em qualquer idade) ─ somos influenciados muito mais pela forma como interpretamos os factos do que pelos factos em si;
  2. no que concerne a stressores internos (fenómenos originados na nossa própria mente) somos intensamente afectados por elucubrações sobre o passado e apreensões quanto ao futuro — que decorrem de crenças destrutivas arraigadas, de traumas sofridos fortemente impactantes, de carências afectivas, etc. Tem sido constatado que também somos fortemente influenciados pelo contexto prevalente em cada situação e a cada momento.

Às vezes, o contexto funciona como uma espécie de catalisador, isto é, factores, que por si só seriam inócuos, tornam-se fortemente impactantes quando ocorrem em determinado contexto ou em presença de determinado contexto, ou quando a eles se junta um ingrediente contextual.   Por exemplo: uma senhora, que caminha por uma alameda movimentada à luz do dia, pode não ficar muito assustada quando um homem carrancudo de aparência agressiva surge à sua frente ─ mas, se esse encontro acontece numa noite escura e a alameda está deserta, a senhora pode entrar em pânico.

Antigamente contava-se uma história terrificante:na penumbra do porão de uma ruína sombria, numa noite tempestuosa e escura, no meio ao estrondar dos trovões [pausa] um ser desgrenhado com uma faca na mão [pausa] passa manteiga no pão”. Parece que está na hora de levar mais a sério os factores contextuais dos fenómenos psíquicos.

É assim que pensamentos automáticos disfuncionais são caoticamente produzidos pelas nossas mentes ─ marcadas por traumas, por crenças arraigadas, e por outros factores disfuncionais desestabilizantes e destrutivos. Sucede que esses pensamentos automáticos são processos produzidos pela nossa mente à nossa revelia. Por outras palavras, as nossas mentes geram processos ─ os quais são fenómenos diferentes dos fenómenos comumente catalogados sob a rubrica objecto.

Os processos mentais possuem propriedades e geram efeitos diferentes das propriedades e efeitos que caracterizam os objectos. Geralmente, os pensamentos automáticos surgem quando são activados por contextos mórbidos em que predominam:

  1. elucubrações quanto ao que teria ocorrido no passado,
  2. apreensões sobre o que pode vir a ocorrer no futuro,
  3. tensão emocional exagerada em face de algo que está acontecendo no momento presente.

Contexto Maçónico

O conjunto de símbolos, rituais e alegorias da Maçonaria compõe um contexto positivo em que estão expressas as condições intelectuais, emocionais e comportamentais que vão contribuir para que o Maçom desenvolva o hábito de:

  • aceitar com equanimidade as situações que não pode mudar,
  • Identificar quais são os seus autênticos valores,
  • comprometer-se a actuar no sentido da realização desses valores.

Metaforicamente, o Maçom aperfeiçoa-se na arte de transformar simbolicamente uma pedra grosseira [sua imperfeita individualidade original] numa pedra lapidada [sua natureza aperfeiçoada] ─ de modo a que, junto com outras pedras adrede preparadas [os demais membros da Ordem], ele possa vir a constituir uma nova realidade [uma Humanidade regenerada ─ em que prevalecerão a Humildade, o Amor e a Compaixão].

Mais adiante o Maçom simbolicamente morre e vai renascer liberto dos grilhões da sua vida material pregressa. Os seus restos grosseiramente mundanos deixam virtualmente de existir e, como tal, desprendem-se e dão lugar a um personagem que é o modelo do Homem Rectificado ─ do Homem livre de impurezas, comprometido com a efectivação dos seus autênticos Valores, pronto a aceitar os desígnios d’ Aquele que tudo abrange e em que tudo está presente.

Psicologicamente, este fenómeno tem uma configuração que deixa transparecer um significativo paralelismo

  1. com o conceito de Individuação de Carl Jung,
  2. com as mais recentes técnicas da Acceptance and Commitment Therapy (ACT) e
  3. com outras abordagens psicoterapêuticas contemporâneas baseadas na Mindfulness ─ nas quais a díade Amor e Compaixão constitui a “corner-stone” do Templo em construção.

Percebe-se que existe na Maçonaria um efectivo potencial para o estabelecimento de uma profícua complementaridade contextual, em benefício de toda Humanidade.

Luiz de Lucca Silva – Psicólogo / Engenheiro

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2 thoughts on “Aspectos psicológico / contextuais do Ritual Maçónico

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    Excelente artigo !
    Saudações

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    Tenho me identificado com os princípios masson.
    São valores que só contribuem para uma sociedade melho e isso é bom.

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