Dilema de Frederico

Este é o sumo de uma história que durante anos viveu frederico em mim, mas cuja interpretação com passei a conviver melhor num sonho em que conversava ao longo de uma estrada formada por mosaicos pretos e brancos!

Dilema de Frederico

Viveu numa gruta durante 10 anos sendo todos os dias iluminado pelo sol, que apelidou desde cedo como grande astro. Dele bebeu todo o seu calor e gozou do seu esplendor até ter tido coragem para levar o que profetizadamente aprendera no seu exilio, naquela gruta, daquela montanha.

Paradoxalmente presenciou quase todos os milagres da natureza, o erguer do sol, a debanda dos animais, os nascimentos na Primavera, o desabrochar de todas as plantas e flores, a queda da folha, chuva, neve, e o deitar do grande astro… e ainda assim insistiu em sair para levar a sua boa nova humanista, antropocêntrica e perfeitamente disruptiva no mundo em que existia.

Sentia-se atraiçoado pela fé, porque tinha sofrido em duo pela mesma. durante a fatalidade e pela ausência da mão do criador! Mais que ausência de fé, tinha mágoa! Sentia o vazio da solidão como quem perdeu a esperança numa boa noticia. mas ainda assim contemplava diariamente os milagres da natureza. curiosamente sem os saber explicar!

Zaratustra
Zaratustra

Chamavam-lhe Zaratustra, num momento de inegável comparação com o profeta humanista da pérsia antiga, que pode ter lançado sementes para algo maior, mas quem se via ao espelho era tão somente Frederico, que insistia em quebrar as correntes do pensamento que representava Deus no mundo.

Amplamente amputado pela ideia de um Deus interpretado na sua vontade por homens, amadureceu dentro da caverna do seu protagonista, com ele se fundiu e através dele falou, professou e criou. já havia criticado esse mesmo método usado, com apreciável eloquência, na Grécia antiga, mas caía na esparrela do discurso indirecto promovido pela sua própria consciência do momento em que vivia.

A sua sombra, esse homem encerrado no alto da montanha, na caverna mais escura, saiu devagarinho em folha branca pela sua pena, com uma missão de evangelizar o mundo embebendo o homem transmundano num acto de coragem e crescimento, cortando raízes, espalhando a boa nova desse tal Super Homem que se encontrava no meio de nós, no meio das multidões que o ouviam e o achincalhavam aldeia atrás de aldeia, por esse mundo fora! Ousou em não seguir o conselho do velho que lhe falou no sopé da dita montanha, aquele idoso que também ele iniciava a subida ascética para perto do grande astro!

Tal como uma Romã que no seu processo de amadurecimento muda de cor, cresce e explode lançando as suas sementes para onde o vento as leve, dando origem a novas árvores, assim se sentia Zaratustra na sua montanha do conhecimento, cheio, pronto a rebentar e a espalhar a sua sabedoria de forma natural, assim como que apanhada e espalhada pelo vento.

Fê-lo com desdém pelo mundo, aproveitando o facto de estar farto da sua enorme sabedoria e começa a sua escrita mesmo, com a ideia de metamorfose de sábio com a descida às profundezas, onde reina o pequeno ser que apesar de bípede, tem pouca consciência de si próprio e chamou-lhe Homem.

Essa mistura de filósofo e profeta assentava que nem uma luva na transmissão da ideia da transformação do homem do século XIX, primeiro uma comparação a um camelo, aquele que não pensa apenas se limita a seguir comandos, o leão, aquele que quer e fará, para ideias mais tarde defender que o leão é tão somente o camelo evoluído que se deu conta das suas forças e que por isso é combativo, pensando por si mas agindo sem autonomia. Por fim, qual natureza no momento da criação de tudo o que nos é conhecido e desconhecido, Zaratustra cria o conceito de menino, o que brinca, cria e através da sua imaginação de criança crê que tudo pode. Zaratustra endeusou-se, mas e Frederico?

Tudo conceitos de grandeza filosófica e espiritual ilimitada, mas usados para construir uma tese de evolução antes do ser superior que Zaratustra, pela convicção de Frederico acolhe ao longo da obra “Assim falava Zaratustra”. É exactamente neste ponto que queira pegar e partilhar convosco o dilema que secretamente através de um sonho mais profundo Frederico me confessou ter…

A criança pode ser livre de brincar e criar devido ao facto de estar imaculada no seu pensamento, nada a contamina, o camelo e o leão ainda não existem que não sejam como imagens desprovidas de conteúdo. Mas. a criança precisa de quem cuide dela, não subsiste sozinha. Quando criada por homens comuns deverá tornar-se naquilo que vê! Então como é que brincando e criando, sobrevive? Como cresce? Como forma a sua personalidade e toma os ensinamentos que lhe permitem soltar os grilhões das religiões? Como se torna no Super Homem por ascensão espiritual? Como faz tudo isto sem uma mão amiga que a guia? É aqui que Frederico perde o controlo da sua tese pela boca de Zaratustra.

Tentou cortar as amarras do homem deixando-o à deriva, preso em si mesmo, com a obrigatoriedade de se pensar, mas afundou todo o conceito, quando a tinta que escreveu deu a Frederico o poder de através das palavras querer ser profeta. Cabe a Zaratustra tomar o caminho e a certa altura ser parado pelo conhecimento que tão enfadado o tinha colocado.

Durante dois anos Frederico tenta criar o caminho dos justos pelos pés da personagem que se chega ao Homem Comum por tão cansado que estava de viver neste mundo sem rumo espiritual se considera Niilista, que para Frederico seria o exacto oposto do que encontramos nos dicionários por esse mundo fora, ou seja aquele que acaba por acreditar em tudo.

Para este autor o conceito sofre uma transmutação ao se dar conta que não é possível encontrar grandeza em NADA conceptualmente. Então como dono das suas palavras que foi, transformou o conceito para aplicar ao homem que de tão fraco e vazio que é acaba por usar moletas para acreditar em tudo. E assim voltamos à questão da moleta do crescimento do menino. O desconhecido e o inexplicável outra vez!

Mas poder-se-ia criticar o facto de Zaratustra ter saído da Montanha para ser um ídolo ou um modelo a seguir… Nada mais errado, Frederico fez sair da Montanha um homem de tal forma superiormente moral que deseja apenas que os homens o sigam por se estarem a encontrar em si mesmos. Frederico criou na realidade Deus em si mesmo.

E foi aqui que Frederico encontrou o seu Dilema! Foi ao ter deixado o homem considerado por si inferior ter liberdade de escolher, que utilizou a conhecida expressão Lusa “dar pérolas a porcos” ao perceber que homem atrás de homem estes não se queriam desvincular do conceito de Deus, fosse esse qual fosse, ou seja, tinham na sua essência o menino mas por medo, por não quererem ser guerreiros ou aventureiros do espirito, acabariam por retroceder na evolução que o autor considerava desejável.

Ao enfatizar a procura por nós mesmos, Zaratustra está em tese a partilhar com todos os elementos desta Augusta Ordem que o trabalho individual de melhoramento, nesta obra com um capitulo dedicado aos Guerreiros, é algo desejável. Temos erguida perante nós o conceito de trabalhadores de uma pedra bruta. Terá sido Frederico um Maçom?

Mas o dilema de Frederico continua! No momento em que não encontra explicação para tudo o que não conhece, e disso dá conta a Zaratustra quando o coloca 10 anos numa montanha, e por estar farto da sua sabedoria entende que deve descer. mas não se questionou o que devia ensinar além da auto-confiança e no endeusamento de cada homem que o escutava.

Em boa verdade o dilema de Frederico é um dilema social e externo ao próprio ser, preocupado com as massas e com o carneirismo de uma sociedade, que apesar de humanista em definição, vive à altura lançamento da obra presa do aos grandes arquétipos das religiões e se encontra ainda em ligeiríssima mutação. Como é bom de ver nesta teoria, Frederico grita a apologia do homem superior, mas corta-lhe a liberdade ao querer que o próprio asceta Zaratustra sirva de modelo para um mundo que se crê novo a cada virar de década.

Mas, onde fica o dilema de Frederico no ponto de vista interno? Como reage ao âmago do ser humano? Esta sim uma questão para homens verdadeiramente livres e de bons costumes!

Frederico não contou com o trabalho espiritual que é necessário ao homem comum para se libertar de dogmas, preconceitos e dúvida sistemática. Esse labor interno é o caminho do asceta social, o caminho dos justos e o verdadeiro deserto do conhecimento, mas que só com a ajuda do inexplicável pode o homem comum seguir.

A crença em si próprio transforma o processo de ascensão um verdadeiro tratado espiritual individual do ser. E prova disso é o templo que erguemos internamente, que nos serve para consolidar as paredes do templo exterior. É por nos tentarmos melhor todos os dias que caminhamos para um dos muitos conceitos de Deus. Parar em si mesmo não é redutor, é a totalidade é o uno!

Em cada caminho estreito e perigoso encontra-se um víbora que nos pica, e assim nos dá força e ensinamento para continuar… Zaratustra está a cada momento mais parecido com um homem em busca do seu caminho, mas continua sem saber e sem responder à questão de quem ou o quê coloca no seu caminho as dificuldades para que possa evoluir e crescer enquanto Homem Superior. A víbora é a natureza e a natureza não é mais do que a expressão mais gritante do desconhecido, do inexplicável.

Entre os seguidores do conceito do Quinto Império, há uma expressão que se aproxima da obra de Nietzsche: “A nação é a escola presente para a super nação futura”. Frase de Fernando Pessoa qua acaba por imortalizar o conceito de profético de esperança humana.

E que homem – nação somos, em nós, que não passe por acreditar num amanhã? A crença no dia seguinte é em si mesmo prova imaterial da crença em algo superior.

Deus está morto” grita em fúria Zaratustra, mas “Vive em Ti”, sussurra a medo Frederico.

CMP

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