Disputa eleitoral Maçónica

Nenhum homem é bastante bom para governar outro sem o consenso deste

(Lincoln)

A Maçonaria, ao ser criada na sua forma actual, a dos Aceitos, tinha como um dos seus objectivos a formação de líderes, de pessoas esclarecidas, que potencialmente pudessem gerar soluções para os grandes problemas nacionais, ajudar a conduzir a humanidade no caminho da busca da verdade e da liberdade, sem a tutela real e eclesiástica. Isto, de maneira geral, tem acontecido através dos tempos, pois muitos Maçons destacaram-se em vários campos da actividade humana, principalmente no político-social, quando colocaram em prática os princípios libertários da instituição, em grandes movimentos emancipadores e de renovação social, tanto com base nos preceitos constitucionais de cada Potência Maçónica, quanto no direito fundado nos costumes.

Um Mestre Maçon, elevado ao cargo de dirigente máximo da sua Loja, deve pautar as suas acções de acordo com a Justiça, deve manter-se inflexível no cumprimento do seu Dever e deve ter sempre em alta conta o sentido da Equidade, de Igualdade, de todos os seus Irmãos, perante a lei e o direito.

O exercício do Veneralato é uma tarefa que impõe deveres constantes. No desempenho da sua função e no cumprimento da sua difícil missão, o Venerável-Mestre, diuturnamente, trabalhará em prol e em benefício da sua Oficina. Não há como se dedicar ao Veneralato apenas nas horas de Sessão. O Venerável-Mestre não é apenas um condutor de reuniões. Sem sombra de dúvidas, podemos afirmar que o Veneralato é uma investidura que impõe ao obreiro graves responsabilidades, cuja desincumbência deve ser efectuada com galhardia, zelo e satisfação, ainda que as tarefas sejam difíceis e a jornada árdua. É, pois, um sacerdócio e uma magistratura à altura do seu trono.

Em exercício do Veneralato, provavelmente irá, uma ou outra vez, passar por experiência de ver os seus actos e projectos contestados. A variável, no caso, ocorre no âmbito de desaprovação ou reacção de quem não aceita o que lhe é apresentado ou imposto. Quando um Irmão assume o cargo de Venerável-Mestre, deve estar preparado para os reveses que virão atrelados ao mesmo. É um facto de que não há como agradar a todos o tempo todo e, os descontentes, vez por outra, extrapolam limites que devem ser trabalhados com bom senso e controle.

Se o Irmão tem o perfil acima e interesse pelo progresso e crescimento da Loja, apresente-se e solicite o apoio dos seus pares, para que a Oficina realize a missão que lhe é atribuída no contexto regulamentar da Instituição Maçónica. Deverá haver uma preparação para o exercício das funções dos dirigentes. Muitos, na primeira vez em que se vêem às voltas com a posição de comando, sem ter a estrutura necessária, enredam-se em situações das quais não têm controle e é como se caíssem de um barco que lhes dá a ideia de dominarem a difícil técnica de administrar, afogando-se em águas profundas. Já, outros, admitem nada saber. Na verdade, nem noções têm de como conquistaram o cargo e, para não passarem despercebidos, começam a criar um teatro de situações irrelevantes mascaradas de interesse da Loja.

Mesmo com todas estas falhas, ficamos atónitos quando vemos atitudes usadas para não serem contestados. A pessoa comedida muitas vezes confunde-se com a pessoa contida. A primeira, analisa cada um dos seus actos de modo ponderado; já a segunda, engana pela aparência, pois vai avolumando no seu interior ocorrências mal resolvidas e quando menos se espera, explode em fúria. Há Lojas em que a disputa eleitoral é acirrada, com mais de duas chapas inscritas, com programas de trabalho muito parecidos, mas com grandes diferenças nos nomes de quem os vai realizar; igualmente, com relação ao primeiro malhete da jurisdição, há uma disputa forte, chegando ao limite da fraternidade, da irmandade, do bom senso.

Então, pergunto, qual o interesse que os move? Quais serão os factores motivadores de tanta disputa, de tanto interesse em chegar ao topo ou de ali permanecer, por vezes reelegendo-se?

Eticamente, o poder só existe para servir; e o servir, para vir a ser.

Estar a serviço dos irmãos não pode exigir a disputa. Estar a serviço dos irmãos requer humildade, requer sabedoria, desprendimento, renúncia. Estar a serviço dos irmãos exige discernimento, disponibilidade, sacrifícios da sua vida familiar, dos seus negócios. Exige disciplina, para que o mundo da Ordem não o absorva totalmente, prejudicando o trabalho profano, o relacionamento com a esposa, com os filhos. Talvez apenas os abonados financeiramente ou aposentados tivessem condições de assumir uma responsabilidade desta ordem, mas não bastaria que fossem financeiramente resolvidos, dispensado do serviço com soldo ou ordenado por inteiro, seria necessário também que não tivessem outros interesses que não aquele que se dispõe a assumir. O que é tão importante, que justifique a acção de um homem comum, com emprego, com família e tantos outros interesses, na busca de um mandato electivo, seja para Grão-Mestre, ou Venerável-Mestre da Loja? Seria o reconhecimento dos seus pares, dos irmãos que os elegem, por vaidades pessoais e pela ambição do mando e da supremacia?

Nas Lojas, todos, de acordo com o seu livre-arbítrio, deverão passar por todos os cargos, inclusive o Veneralato. Ser Venerável-Mestre é nada mais que estar à disposição dos irmãos para realizar um trabalho, tão importante quanto qualquer outro cargo e tão importante como não ter cargo algum. Apenas o trabalho é diferente, ou seja, cada irmão recebe uma incumbência que deverá ser cumprida e a sua falta, o seu desinteresse na assiduidade, o cumprimento imperfeito da missão que lhe foi solicitada naquela gestão, prejudica a todos os irmãos.

E o livre-arbítrio expressa-se, justamente, pelo interesse que os irmãos demonstram pela Loja, pelo bom andamento das coisas, das iniciações, da ritualística, do encaminhar dos irmãos para os graus superiores, quando assim for o caso. Não há disputas, pelo contrário, há uma convocação, por parte do Conselho de Mestres Instalados, para o exercício de uma missão – o Sacrifício, Sagrado Ofício de Ser.

Seja-nos permitido relembrar a importância do bom relacionamento entre candidatos, evitando críticos ataques recíprocos e qualquer tipo de manifestação hostil.

Acima de toda diferença política, mesmo no mais aceso da campanha, é indispensável manter o respeito e a estima fraterna para com todos na busca conjunta do bem comum. Este empenho contribuirá para o aprendizado cada vez maior da convivência pacífica e solidária.

Da parte do eleitor, requer-se preparação e consciência para escolher os representantes. Trata-se de um dever ao qual nenhum Mestre Maçon pode se omitir quanto à obrigação de contribuir para o bem da Instituição. O voto responsável não pode estar a serviço da amizade ou da gratidão. Voto não tem preço.

O ideal seria termos o Grão-Mestre que não é apenas um Irmão, e sim, uma ideia que vive como condutor e árbitro do processo. Como autêntico líder, a sua presença fica gravada para sempre. Ele fere e é ferido constantemente, mas luta procurando dar sempre melhores condições, imparcialmente, a todos os concorrentes ao Primeiro Malhete da Obediência, distribuindo a mesma força, característica principal da sua liderança, pois o que lhe interessa é a defesa da justiça na qual acredita.

Compete-lhe exercer a missão da Potência, cooperar na proposta e na promoção dos valores que salvaguardam a dignidade da pessoa dos candidatos, a justiça, a igualdade de direitos e a concórdia entre os concorrentes.

Que o Grande Arquitecto do Universo, Deus Todo-Poderoso, Senhor de nós todos, conceda-nos a Sua benevolência, e derrame sobre nós os tesouros da Sua infinita misericórdia!

Valdemar Sansão

Bibliografia

  • Constituição e Regulamento Geral (GLESP);
  • “Guia de Administração Maçónica”, Pág. 29 – (Walter Pacheco Júnior);
  • “É O PODER”, do I:. Luiz A. Rebouças dos Santos;
  • “Revista Acácia 69” (P.Alegre-RS);
  • Dicionário Etimológico Maçónico – José Castellani.

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